Axiologias

Com a vénia da praxe ao blog Esplanar de João Pedro George, reproduz-se aqui um dos últimos postais:

"O Eixo do Mal é um programa abichornado. O último, porém, foi recreativo. Para além do franzino José Júdice, um palonço chapado que reproduz a infinita variedade da estupidez humana. Para além da avantesma Ferreira Alves. Para além do pitoresco Daniel Oliveira. Para além do inconsequente Nuno Artur Silva. Para além das criaturas do costume, a convidada do último sábado foi a socióloga, a espaventosa Maria Filomena Mónica, que ostentava já a pose que lhe advém da reputação de memorialista revolucionária. Deixo-vos aqui um “resumo” do bate-boca.

Nuno Artur Silva: Boa noite senhores telespectadores... Vamos falar hoje de presidenciais e...
Clara Ferreira Alves: ...alguém leu o último livro de Graham Greene?
José Júdice: Ó Clara, por amor de Deus!
Maria Filomena Mónica: Isso é interessantíssimo!
Daniel Oliveira: Eu quero dizer alguma coisa sobre isso...
José Júdice: Cala-te, já falaste muito...
Maria Filomena Mónica: O D. Pedro V era inteligente de mais para os portugueses...
Clara Ferreira Alves: Mas nós somos parte da elite...
José Júdice: Sim... nós somos parte da elite... Mas quanto menos ideias tivermos, melhor...
Maria Filomena Mónica: Estou de acordo com o Zé... Por exemplo, devia haver uma lei que proibisse os presidentes de terem ideias. O Presidente da República devia ter amantes, dar grandes jantaradas...
Clara Ferreira Alves: E mudar a decoração do palácio, não sei se já repararam mas o Palácio de Belém é horrivelmente lúgubre...
José Júdice: Desculpem lá, eu acho isto de uma gravidade... quer dizer... os candidatos, todos, andam com as camisas mal passadas a ferro e tu vens falar da decoração do palácio...
Maria Filomena Mónica: Estou de acordo com o Zé... O Francisco Louçã, por exemplo, nunca passou um pente pelo cabelo...
Daniel Oliveira: Perguntem-me alguma coisa...
José Júdice: Cala-te, já falaste muito...
Nuno Artur Silva: Vamos concluir este tema...
Maria Filomena Mónica: Desculpe mas eu tenho de dizer isto: o D. Pedro V sofria muito com o atraso do país... Além disso, eu conheço muito bem a discussão em 1863, quando Fontes Pereira de Melo...
Clara Ferreira Alves: Isso lembra-me Graham Greene...
José Júdice: Já agora, queria dizer que eu demoro cinco horas a chegar a casa de comboio... os nossos caminhos de ferro ainda são do tempo do Fontes Pereira de Melo...
Maria Filomena Mónica: Isso é interessantíssimo! Até porque no tempo do Sr. Fontes não havia aviões e o D. Pedro V, que felizmente para ele morreu muito novo e virgem...
Clara Ferreira Alves: Não sei se já leu, mas sobre essa questão há um livro de Graham Greene, A Inocência e o Pecado...
Nuno Artur Silva: Bom, para encerrar esta questão...
Maria Filomena Mónica: Sim, mas eu queria dizer que eu posso ter muitos homens, mas o D. Pedro V está em primeiro lugar... Ah, vocês desculpem-me, mas lembrei-me agora mesmo que não me posso esquecer de comprar champô...
Clara Ferreira Alves: E eu, como dizia Graham Greene, “sempre desejei ser estimada ou admirada”.
Daniel Oliveira (começa a tossir): ...desculpem, entrou-me água para o nariz...
José Júdice (com as orelhas em chama): Ó Daniel, estás a fazer muito barulho...
Maria Filomena Mónica: Eu gostava de introduzir aqui outro tema que considero absolutamente decisivo, os produtos “made in Portugal”. As toalhas feitas em Portugal, por exemplo... as empresas portuguesas...
José Júdice: Ó Mena, desculpe lá mas eu só queria corrigir uma coisa que a Clara disse...
Maria Filomena Mónica: Ó Zé deixa-me só acabar dizer isto que é uma coisa absolutamente inacreditável... os turcos portugueses são tão fininhos que tu sais do banho e não te consegues limpar...
José Júdice: Até tremo só de imaginar...
Clara Ferreira Alves: Num livro interessante sobre Graham Greene, que devia ser traduzido imediatamente, acho mesmo um escândalo nacional que as editoras portuguesas... enfim, como dizia Graham Greene, “é inconcebível”...
Nuno Artur Silva: Alegações finais sobre este tema... eu tenho de me levantar cedo amanhã...
Daniel Oliveira: O meu ponto é que...
José Júdice: Lá vamos nós...
Nuno Artur Silva: Bom, para encerrar de vez esta questão, queria perguntar à nossa convidada a sua opinião sobre o Professor Cavaco Silva.
Maria Filomena Mónica: Sobre Cavaco Silva? Ele só esteve dois anos em Iôôrque, mas sobre Cavaco eu não tenho absolutamente nada a dizer. A conversa é muito complicada e não me apetece. Eu só queria dizer que nos seus diários de viagens, o D. Pedro V...
Daniel Oliveira (começa a tossir): ...desculpem... engoli a pastilha...
José Júdice: Ó Daniel, por favor... eu acho isto de uma gravidade...
Nuno Artur Silva: Vamos mudar de tema, eleições no Iraque. Maria Filomena Mónica, qual é a sua opinião?
Maria Filomena Mónica: Eu não sou geoestratega mas a situação no Iraque é muito complicada... Basicamente é tudo o que eu tenho a dizer sobre isto...
José Júdice: Isso é interessantíssimo...
Clara Ferreira Alves: Como dizia Graham Greene, “perdi completamente a voz”.
Maria Filomena Mónica: Quando eu era tremendamente mais nova, o Vasco...
Clara Ferreira Alves: Isso lembra-me outro livro de Graham Greene, O Amante Complacente? Já leu?
Maria Filomena Mónica: Não. De qualquer maneira, a minha mãe, quando eu era espantosamente mais nova, escreveu no livro do bebé que a primeira palavra que eu disse foi “não”. Não é extraordinário? A minha mãe percebeu logo que eu ia ser uma rebelde... O que aliás, como se pode ver hoje...
Daniel Oliveira: Curioso, eu também... a primeira palavra que eu disse foi “não”...
Nuno Artur Silva: Comigo aconteceu o mesmo...
José Júdice: Comigo também... eu acho isso de uma gravidade extrema...
Clara Ferreira Alves: Ó Zé, se te serve de consolação, a primeira palavra que eu disse também foi “não”. Aliás, isso lembra-me uma frase de Graham Greene...
Maria Filomena Mónica: Não vamos confundir as coisas. Eu li dezenas, centenas de memórias e de biografias... Por exemplo, acabou de sair agora em Inglaterra um livro de Alan Bennett, Untold Stories, que li na tradução de... Desculpem, estou a fazer confusão com o Prison Notebooks, do Gramsci, que folheei numa cafetaria de Biarritz, na tradução de Quintin Hoare e Geoffrey Nowell Smith...
Clara Ferreira Alves: O La Republica, que é um excelente jornal italiano, além de citar Graham Greene, faz também uma referência a esse livro...
Maria Filomena Mónica: Não me diga, eu acho isso absolutamente extraordinário... Em Portugal ninguém leu... também, exceptuando eu, ninguém lê em Portugal... os portugueses são muitos estúpidos... são uns provincianos... Aliás, o D. Pedro V, quando foi a Inglaterra, disse esta coisa extraordinária: “Decididamente, Portugal é um país provinciano”.
Nuno Artur Silva: E com esta ideia terminamos mais uma edição do "Eixo do Mal". Obrigado pela vossa atenção.
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Publicado por josé 16:29:00  

4 Comments:

  1. Pedro M said...
    Palavras para quê?!
    O que o "pograma" tem de cómico é o espectáculo de sobranceria, estupidez e ignorância dos seus intervenientes que se tornam eles próprios no rídiculo quando tentam ridicularizar.
    O ego dos personagens é espantoso. E perigoso também porque infectam as almas mais incautas.
    Opinto said...
    A Ferreira Alves fala sempre e muito do que não sabe. A Mena tem a mania que é práfrentex mas como até se pode ver pela sua conversa é do mais retrógado que há.
    Opinto.
    zazie said...
    também era para linkar. Até me engasguei de tanto rir
    André said...
    Delicioso.

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