sem ilusões

Voltando a Cavaco, ao contrário do que por aí se diz, este não esteve assim tão mal ontem na TVI. Como efeito poucos, muito poucos, em Portugal, teriam saído tão pouco beliscados de uma entrevista daquelas 'violenta', viva, directa, sem paninhos quentes, superiormente conduzida pela Constança, como há muito não se via em Portugal. É óbvio que cometeu uma ou outra gaffe, mas, isso só deveria surpreender aqueles que acreditassem numa eventual natureza divina de Cavaco. Cavaco é humano, e humanamente acusou, como qualquer outro, a pressão.

O drama de Cavaco é outro, e é um de gestão do discurso, de forma mais que de substância, que vem desde há algumas semanas atrás. Partindo de tão alto nas sondagens os gúrus do politicamente correcto convenceram-no que o melhor caminho era amordaçar-se num discurso que pretende ser tudo para toda a gente. Um erro, um erro crasso. Eu, que tecnicamente nem sou cavaquista, não voto - numas eleições presidenciais - num candidato, Cavaco, por concordar com tudo o que ele diz ou faz. Voto porque confio e acredito nele, no seu bom senso, na sua sensatez, porque acredito que terá a serenidade e o discernimento necessários para a cada momento, do, e no, seu lugar, ajudar a devolver a credibilidade às instituições.

Não voto nele por causa dos 'apoiantes'
, nem sequer de boa parte da 'equipa', na qual não me revejo como é sabido, voto, porque, no fim, o que está em causa não são as 'apostas' dele,, mais ou menos felizes, mais ou menois voluntárias, em terceiros mas sim as decisões (estratégicas) unipessoais, onde de facto raramente se enganou. A única coisa que me interessa saber neste momento é que face a um conjunto determinado de condicionantes eu sei, como os portugueses sabem, que a decisão de Cavaco, como PR, face às mesmas, será sempre pautada, e em primeiro lugar, pelo interesse nacional e não por um qualquer interesse ideológico ou de facção. Tudo o resto é secundário.

E sendo secundário não é bonito ver Cavaco, por estes dias, refugiar-se, acantonar-se e reduzir-se, no seu passado (respeitável) como Primeiro-Ministro e quase a passar uma esponja sobre os anos que se seguiram. Foi triste e é um erro crasso. Porque se alguém Cavaco julga que é mais palatável, ou consensual, recordando apenas esses anos está redondamente enganado. Cavaco foi um bom PM, o melhor que tivemos, mas, convém recordar, deixou um país dívidido em dois. Foi nos anos que se seguiram que Cavaco, pela postura e pelo sentido de Estado demonstrados, se tornou património de todo o País, respeitado por todo o espectro político, e que, por via disso, é hoje o candidato natural a Presidente da República. Mais, prestou nos anos que se seguiram a ter sido PM serviços aos país tão grandes ou maiores do que aqueles que prestou enquanto PM.

Cavaco Silva não aliena um único voto, nem à esquerda, por dizer, outra vez, que de facto Guterres estava mal, nem à direita, por assumir, de novo, com todas as letras, que Barroso fez mal em fugir, como o reconheceu numa obra recentemente publicada, ou que Santana Lopes foi um pesadelo feito realidade. Os portugueses sabem que é assim e respeitam-no também por isso.

Mais, poderá haver quem julgue que falando com demasiado detalhe Cavaco Silvo alienará aqueles que o veêm não só como um excelente PR mas como uma espécie de redentor da política portuguesa, última esperança, que por artes de mágica tudo irá consertar. Sejamos honestos - Cavaco já disse que respeitava a natureza semi-presidencial do regime, e é só isso que interessa. É aliás demasiado lúcido para embarcar em derivas presidencialistas quanto mais não seja por uma única razão - as coisas não vão mudar por A ou B ser eleito PR, o 'sistema' pode ficar mais ou menos credível, mais ou menos respirável, mas não muda. O sistema começa a mudar não quando A ou B for eleito para isto ou aquilo mas sim quando uma enorme maioria, por ora silenciosa, deixar de estar à espera de salvadores da pátria, e de delegar em terceiros, responsabilidades que são só suas - começando por devolver os partido aos cidadãos e retirando-os da órbitas das oligarquias partidárias. Algo que, manifestamente, não se faz, por definição, a partir de Belém.

No passado Cavaco sempre disse o que pensava, quando tinha que ser
dito, e é isso que se espera e que se exige sempre. De mais a mais o ênfase no consulado em que Cavaco foi Primeiro Ministro tem o efeito que considero perverso e indesejado de reduzir as presidencias a um embate esquerda/direita, precisamente o cenário mais favorável aos seus adversários, e onde se discute tudo menos o essencial.

Os portugueses mais do que um presidente de esquerda ou de direita precisam, como PR, de alguém que lhes diga o que deve e tem de ser dito, doa a quem doer, sejam quais for os pruridos dos guardiões do politicamente correcto. É isso, tão só, que eu espero de Cavaco, que não seja de facto 'político', como ontem, sobretudo, 'pareceu'. Afinal, ontem a alegada evasividade e as alegadas 'contradições' lresumiram-se a quê ? Questões de fundo ? Estruturais ? Não! 'Apenas' em não assumir, descomplexadamente o que disse e fez nos últimos 10 anos.

Publicado por Manuel 16:23:00  

9 Comments:

  1. AM said...
    Meu caro senhor

    Não chega "escrever bem" para convencer, ou seja para enganar quem lê.
    Enganará os que já estão enganados a quem a sua escrita consolará e dará algum apoio.
    A verdade é que quer se queira quer não, e por mais voltas que se dê ao assunto, cavaco ganhará (provavelmente) as próximas eleições porque o país tem avançado a passos largos no sentido da ignorância, do obscurantismo e da crendisse (vide o lamentável espectáculo da "procissão" em Lisboa).
    Basta ver quem rodeia e quem apoia cavaco para não ter ilusões, as alimárias irão colocar a cruzinha onde o pastor lhes mandar.

    Cavaco não tem o mínimo de perfil para ser presidente da república de um pais europeu.
    Falta-lhe inteligência, falta-lhe conhecimento, falta-lhe informação, falta-lhe, acima de tudo, um sólido conjunto de valores cívicos, nunca os teve, nunca os irá ter.

    Não passaria de um simples manga de alpaca numa sociedade adulta.

    Uma vergonha

    AMNM
    josé said...
    Não sei dizer muito sobre o assunto.

    Mas parece-me ser relevante o seguinte:

    Cavaco Silva lê, de certeza a Economist e o Finantial Times.

    Mário Soares ou Manuel Alegre, de certeza que nem olham para a capa.
    Lerão o Le Monde? Manuel Alegre talvez,- se na AR o tiverem...

    Mário Soares, depois do 25 A, lia o quê, para andar informado sobre "o mundo"?!
    -Jean Daniel e o Nouvel Observateur. Até se dizia que antes do número da semana, não tinha opiniões.

    Numa foto de Cavaco, na revista Visão do ano passado, na sua biblioteca, são visíveis alguns livros: todos de assuntos económicos e quase todos em...inglês!

    Mário Soares sabe inglês?!

    Não sabe!
    O que é mais importante: saber fazer-se compreender em inglês no mundo inteiro e perceber o que se diz em inglês, ou andar por aí a dizer que se tem muitos livros e muita cultura?!

    Enfim...disse pouco e quase nada sobre os candidatos.
    Não digo mais nada, porque não gosto do Cavaco; nem do Alegre; muito menos do Soares e o Jerónimo parece-me uma boa anedota. O Louçã um ersatz e o Garcia Pereira não existe enquanto tal, para mal dos seus partido da classe operária.

    Em quem votarei?!

    Não sei.
    chuta po tecto said...
    Fontes próximas da candidatura de MS asseguram que a sua leitura preferida é a "Maria"!
    António Torres said...
    MUITO BEM !!!
    Peço licença para subscrever este post.
    Arrebenta said...
    Metadiálogos de Boliqueime (XI)

    -- Ó, avó, por que é que o avô não é um político profissional?...

    -- Meu amor, a avó explica: o avô não é um político profissional, porque um político profissional é uma pessoa sem princípios, que só vai para a Política para se encher à custa dos dinheiros do Estado, para dar golpes que só favorecem os amigos, para traficar influências, para vender o que não é dele, para se meter no tráfico da Droga, das Armas e dos Escravos, para comprar a Justiça, para fazer obras de fachada, para criar empresas fantasma, para fazer fraudes com I.V.A., facturas e despesas, para não pagar impostos, para comprar diplomas e ser tratado por "senhor doutor", para comprar grandes casas e carros, ou utilizar os automóveis, e os helicópteros e os aviões do Estado como se fossem dele, e, pior do que isso tudo, para tentar ficar no Poder para sempre!...

    -- E o avô?...

    -- Querido, o avô não enriqueceu na política, estes móveis que tu vês aqui foram todos comprados com um salário miserável na Universitólica Caquética, e com umas bainhas que a avó ia levantando todos os dias, por fora, de umas calças e saias... Isso é uma coisa que tu podes dizer a todos os teus amigos, lá no colégio: o avô nunca roubou nada a ninguém!...

    -- Ó, vó, e o avô tem amigos que são políticos profissionais?...

    -- Claro, querido, o teu vovô tem muitos amigos que são políticos profissionais, que tu até conheces, porque têm vindo muito cá a casa nos últimos meses.

    -- E eles são mesmo amigos do avô?

    -- Claro que sim, e o avô também é muito amigo deles, e é por causa de serem todos muito amigos que eles vêm cá todos os dias apoiar o avô para ser Presidente da República, e eles poderem voltar à política profissional, com a protecção do avô, como acontecia quando tu ainda não eras nascido.

    (Cai o pano - Copyright das bainhas "Mary, modesty and modisty, S.A., Boliqueime-upon-Avon, U.K.")
    ovo de colombo said...
    Esta grande loja é afinal do queijo boliqueimiano.
    Não se coiba, senhor Manuel, de votar Cavaco.
    Se fosse vivo o Prof. Salazar também votaria.
    E já agora, não está só. Tem seguramente a companhia do Dr Jardim.
    Maio said...
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    Maio said...
    Também eu acredito nos portugueses

    É ou não verdade que, no seu longo consulado de dez anos, Cavaco beneficiou de condições absolutamente excepcionais, algumas das quais irrepetíveis — avultados fundos comunitários, receitas chorudas da venda de empresas públicas, petróleo a baixo preço, dólar barato, economia internacional em expansão?

    É ou não verdade que, Cavaco governou a maior parte do tempo com maiorias absolutas, o que constitui uma inegável vantagem para uma governação eficaz?

    É ou não verdade que o betão e o asfalto foram os principais legados do "milagre cavaquista", ficando o CCB para a história como um monumento ao despesismo e à derrapagem orçamental?

    É ou não verdade que Cavaco nada fez para combater a corrupção, designadamente no que se refere ao roubo — porque de roubo se tratou! — dos fundos comunitários?

    É ou não verdade que, enquanto os fundos comunitários se "evaporaram", as pescas, a agricultura e a indústria (particularmente a têxtil) levaram o "golpe de misericórdia", enfraquecendo seriamente a economia nacional e lançando milhares de trabalhadores no desemprego?

    É ou não verdade que o "mago das finanças públicas e do rigor orçamental" nunca conseguiu conter as despesas do Estado e reduzir o défice e, apesar disso, a reforma da Administração e a modernização dos Serviços Públicos ficou por fazer?

    É ou não verdade que Cavaco, apesar de ter gozado de condições de governabilidade excepcionais, foi incapaz de colocar o país na rota do desenvolvimento (tendo antes aberto o caminho para o seu irremediável afundamento na cauda da Europa) enquanto outros (Irlanda, Espanha), quiçá com condições menos favoráveis, conseguiram desenvolver-se?

    Claro que tudo isto é inquestionavelmente verdade!

    É por isso que, tal como Cavaco, também eu “Acredito que os portugueses saberão distinguir um dos candidatos. Perante a situação difícil que Portugal atravessa, eles vão ter o bom senso e sabedoria para escolher aquele que consideram o candidato mais adequado para ajudar a resolver os problemas do país.”
    Só que, por tudo o que fez (e também pelo que não fez), não pode ser Cavaco o escolhido!…
    amsa said...
    Cavaco silva diz que o mundo mudou muito nos últimos 10 anos. Tem razão. Se antes ele nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, agora raramente abre a boca e nunca se arrisca a opinar. Comporta-se a 100% como um político, que ainda por cima se gaba (demagogicamente) de não o ser.

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