A captura do Estado

Um postal de mangadalpaca©...

O inflamado discurso governamental sobre a “captura” do Estado por certos interesses corporativos tem feito carreira. Foi apresentado como um troféu contra os «privilégios» das magistraturas e dos farmacêuticos. Foi anunciado como parte do processo de reconversão das Forças Armadas. Foi invocado contra (a pretensa falta de eficiência d) os professores. Foi pretexto contra os subsistemas médico-sociais e de aposentação e regimes contratuais do funcionalismo público. Foi esgrimido contra os movimentos sindicais em geral.

Enfim, trata-se da remendada cartilha leninista – de que o seu doméstico Vital ideólogo-mor dá mostras de não ter esquecido – de virar uma parte da população (“os facínoras do funcionalismo público, que se banqueteiam à mesa do orçamento”) contra a outra (a “dinâmica e injustiçada sociedade civil”), como forma de levar por diante propósitos que não são do interesse de nenhuma (mas serão de alguém ou de alguns). Está por saber se o Estado não estará a ser realmente “capturado” por algum grupo cujos interesses são mais nebulosos e ambíguos.

Agora, chegou a vez dos médicos. A demagogia começou desastrada, com o ministro a «enganar-se» num número (que era suposto saber melhor do que ninguém) de médicos oftalmologistas num Hospital de Lisboa, que afinal era o número total do quadro de três hospitais. Foi só o início, os médicos que se preparem para a ofensiva que aí vem contra eles. Porque, ninguém pode acreditar que tenha sido um equívoco (ou, então, o ministro não devia ser ministro). Foi uma provocação deliberada – como muitas outras já desencadeadas por este executivo – para «apalpar terreno» e tentar «ganhar o apoio da população» com mais uma medida «impopular, mas necessária», de, eventualmente, redimensionar os quadros hospitalares.

Hoje, mais do que nunca, os sectores profissionais que seria necessário e fundamental motivar, estão não só descontentes (por se sentirem desrespeitados), mas também pouco receptivos a colaborar e aderir a um (crucial) esforço nacional para melhorar a produtividade, inverter o défice orçamental, introduzir novos métodos e tecnologias de trabalho e resgatar o destino das futuras gerações.

Definitivamente, o governo parece não ter percebido ainda que de nada lhe adianta «fugir para a frente» ignorando e afrontando os sectores onde pretende (e é realmente necessário) fazer reformas. Se não conquistar a sua adesão e a sua motivação, estas nunca se conseguirão concretizar.

Para mal de todos nós, acho que já não vai a tempo de emendar a mão. O que significa(rá) (mais) quatro anos perdidos. É isso que custa mais.

mangadalpaca©

Publicado por josé 19:58:00  

6 Comments:

  1. Adélio Pinho said...
    Nãu usar a palavra "corporativo" - tem direitos de autor da CC...
    lapis rabugento said...
    «pode o governo sff colocar em linha os estudos sobre o aeroporto da ota para que na sociedade portuguesa se valorize mais a "busca de soluções" em detrimento da "especulação"?»

    Isto é o que se lê neste blog, ao alto, quando se quer colocar um comentário.

    senhores desta Grande Loja, os estudos sobre a Ota e Rio Frio estão disponíveis na Net, em www.naer.pt

    Para quê então esse cartaz ao alto do vosso blog?
    Julio Bento Carvalho said...
    Mas este post de mangadalpaca@ tem algum lógica de raciocínio que resista a uma leve análise? É a cegueira e obstinação total! Sabe, mangadalpaca@, com essas classes profissionais está tudo bem, são todos o máximo, são o melhor que há. Como está na moda dizer, a culpa é dos políticos. Juízes, farmacêuticos, médicos, etc. são todos os coitadinhos. PENSE!!! Têm de ser enfrentados com rispidez, paninhos quentes já se viu que não dá nada! Quem anda no mercado de trabalho privado não tem de andar a suportar as gorduras e imoralidades que essas corporações captaram para si próprias, nem tem de suportar que as mesmas mantenham o Estado cativo dos seus interesses. Consegue perceber que quem anda no mercado de trabalho privado e luta diariamente pela construção da sua remuneração, baseada na sua qualidade e não na sua antiguidade, categorias pré-definidas, etc. está farto de suportar um conjunto de classes profissionais que cristalizou regalias injustas e imerecidas?
    JMS said...
    Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
    Francisco Bruto da Costa said...
    Parabéns a mangadalpaca pela posição corajosa e desassombrada sobre o Estado demagogo-populista de extracção socialista, o mesmo que descobriu que os direitos das pessoas eram "carapaças" e "armaduras" legais.
    Quando um democrata de fresca data me vem dizer que os meus direitos são privilégios, fulminando-me do alto das suas ideias feitas, lembro-me logo dos fascistas que decretavam aquilo que as pessoas deviam pensar.
    Essa gente do PS, se tivesse alguma vergonha no frontispício, também se devia lembrar.
    Fernando Martins said...
    Caro Júlio:
    É dialéctica marxista pura e dura - luta de classes - em que o proletáriado é o não-funcionário público e este último é o explorador... Mas o que são os Juizes - a classe é todo igual, tem todos os mesmos vícios e ganham todos de mais...? E, aproveite, subsitua "Juizes" por Professores, Médicos, Enfermeiros, Agentes da PSP ou outros e veja a alarvidade em que caímos - uma classe toda nivelada pela mediocridade que impede o país de avançar...
    Nem os tovarich Estalinee ou Vital, nos períodos áureos, diriam melhor...

    Obrigado mangadalpaca...

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