Há quem escolha o lado errado

Para quem ainda teria uma réstia de ilusão sobre a possibilidade de os radicais palestinianos aceitarem o caminho para um esboço de paz no Médio Oriente, aqui vai um apanhado da esclarecedora entrevista do líder do Hamas, Mahmuh El Zahar, publicada na Visão:

Sobre Sharon e Netanyahu: «Os dois são criminosos. Queremos e esperamos vê-los fora da Palestina. Vivos ou mortos. Iremos persegui-los estejam onde estiverem. E perseguiremos os filhos e os netos e julgaremos aqueles que tenham cometido crimes contra o nosso povo, tal como os nazis».

Sobre a retirada dos israelitas de Gaza: «Vamos continuar a luta para libertar a Cisjordânia e Jerusalém, são territórios ocupados».

Sobre Abu Mazen, o presidente da Autoridade Palestiniana: «Não pode acabar com a corrupção e nós podemos fazê-lo em poucos meses. (…) Abu Mazen não acredita na Intifada armada e nós têmo-la praticado. Existem grandes diferenças, incluindo as leis islâmicas que devem controlar as nossas vidas».

Perguntado sobre se o Hamas admite reconhecer a existência de Israel: «Um rotundo não. Nunca aceitaremos que Israel seja dona de um metro quadrado. Esta é uma terra islâmica».


Os últimos anos, sobretudo o que se passou depois do acordo de paz de Camp David, nunca praticados, mostram, de forma cada vez mais clara, que o processo de paz do Médio Oriente não terá uma solução política. E não terá porque um dos lados não o quer — os palestinianos, obviamente.

Num processo tão longo e complexo como este, nem vale a pena estar a recordar episódios passados. Uma perspectiva à distância é suficiente para que se identifique uma superioridade israelita no plano dos princípios, da atitude e da história. Claro que, no meio de uma torrente de acontecimentos que se prolongam há 57 anos, houve vários momentos em que a atitude de Israel foi condenável.

Mas sejamos claros: todos os avanços conseguidos na última década e meia decorreram de cedências israelitas, tenham elas sido de Rabin, Barak ou Sharon. Netanyahu terá sido o único PM israelita, depois de Yitzack Shamir, a optar pela política de «tudo ou nada».

Ariel Sharon, até há pouco visto como um falcão incorrigível, jogou na surpresa ao decidir a retirada de Gaza, colonatos que ajudou a promover, 38 anos antes. Novo ponto de ordem à mesa: não se pode dizer que se tratou, em 1967, de uma «ocupação», pela simples razão de que os israelitas só se apoderaram de Gaza depois de terem sido atacados por sírio e egípcios, nos acontecimentos que espoletaram a Guerra dos Seis Dias. No balanço dos confrontos, a enorme superioridade militar dos israelitas fê-los sair com mais território ainda do que já tinham.

A morte de Arafat deu uma nova oportunidade ao processo de paz no Médio Oriente. Bush e Sharon já tinham deixado de negociar com Arafat, mas a nova liderança palestiniana, protagonizada por Abu Mazen, teve direito a entrada VIP na Casa Branca. Só que a Fatah está a perder o controlo da situação na Palestina. O Hamas já ganhou eleições locais e prepara-se para ganhar as eleições legislativas de Janeiro. Se é o povo palestiniano que prefere a via radical, de quem diz que esta é «uma guerra santa», então, estamos conversados.

E com o Hamas não pode haver conversa. Mete-me muita confusão que haja quem desculpabilize os crimes patrocinados pelo Hamas ao longo dos últimos anos. Voltemos à clareza das palavras directas: enquanto os soldados israelitas matam terroristas (sim, já sei, por vezes há excepções, obviamente condenáveis, mas a regra é esta), os radicais palestinianos matam indiscrimadamente.

Só por má-fé, ignorância ou cegueira ideológica é que não se consegue ver uma grande diferença entre matar cirurgicamente membros do Hamas e entrar num café e rebentar com uma bomba, matando israelitas, palestinianos e quem lá mais estiverem, como fazem os terroristas palestinianos.

A jogada de Sharon, ao sair da Gaza, pode não ter sido inocente. Mas teve o mérito de pôr as cartas na mesa: se os palestinianos não souberem aproveitar a oportunidade, acabaram-se as dúvidas — eles não querem a paz, porque só sabem viver na guerra. Diz-se que Arafat «podia mas não queria» e Abu Mazen «quer mas não pode» construir a paz. Não sei. Só sei que a prova dos nove está tirada: ao contrário do que diz certa esquerda europeia (com o BE na primeira linha; claro), o problema não é, está longe de ser, os americanos ou, sequer, o estado israelita (que é democrático, é bom que nos lembremos disso): já passou Reagan, Bush pai, Clinton, Bush. Passaram os PM israelitas acima citados e só dois (Shamir e Netanyhau) tiveram atitudes condenáveis em relação aos esforços de paz.

Passou tudo isto e o problema continua a ser o mesmo: nesta guerra interminável, um dos lados não sabe viver em paz. Releiam as palavras de El Zahar, citadas acima. Chega para acabar com qualquer ilusão.

Publicado por André 20:21:00  

8 Comments:

  1. Anónimo said...
    Isso já se sabe há muito, mas a manipulação dos media só lentamente vai diminuindo: Pode-se enganar todos durante algum tempo mas não durante todo o tempo...

    Mesmo assim tivemos um excelente exemplo de manipulação na RTP1 de "Serviço Publico" em que as afirmações equivalentes de Deif (comandante do Hamas) foram estratégicamente limpas.
    O mesmo não se passou na notícia da TVI mesmo sendo estes ainda mais anti-israelitas e anti-americanos "reféns em abu grahib" ...


    lucklucky
    Anónimo said...
    Parabéns ao autor. Um boa análise, pouco frequente nestes espaços.

    J.
    Anónimo said...
    Se o André considera que o sistema de verdadeiro Apartheid que está institucionalizado no estado de Israel corresponde a uma "superioridade" no plano dos princípios estamos conversados.
    O André defende um regime que se baseia em pressupostos de tipo racista, baseados na discriminação étnico-religiosa, na repressão militar indiscriminda contra a população civil ocupada, no confisco arbitrário de terras aos palestinianos.
    Talvez fosse melhor ler alguns historiadores israelitas recentes (insuspeitos portanto) que mostram como a declaração unilateral de 1948 foi seguida de um processo de limpeza étnica de todas as populações não-judaicas e que foram empurradas para os campos de refugiados de Gaza (sim, estes campos não existiram sempre).

    É importante dar os passos em direcção ao processo de paz, como fizeram Rabin e Arafat, mas só há paz se também houver justiça.

    José Manuel
    Anónimo said...
    Meu caro,
    Escolher o lado errado???? Acho que se calhar devemos olhar primeiro as nossas vidas e ver quem não escolhe todos os dias o lado errado...você por exemplo, já o deve ter feito alguma vez na vida. Assim como eu. Resta saber o que é o lado errado. Sim é muito relativo, para o Hitler o lado errado era aquele que não defendia a raça Ariana, para Bush o lado errado é não apoiar a invasão do Iraque, para os Israelitas o lado errado é não perseguir os Palestinianos. Concordo plenamente com o José Manuel, leia o que dizem os historiadores Israelitas recentes, fique horrorizado com o racismo e a discriminação de que são alvo os Palestinianos, o sofrimento bárbaro a que são sujeitos e depois emita novamente a sua opinião. Por vezes é preciso conhecer o outro lado da história para se conseguir tirar conclusões. Ah, e cuidado com o Português, também é escolher o lado errado, escrevendo de forma descuidada, ou pelo menos não atenta às regras de Português num blogg, isto quando se é rigoroso, não se deve sê-lo só para algumas coisas, e no imediato começar por rever o seu texto já não seria mau.
    tarik said...
    Os radicais palestinianos gostam tanto da paz como os radicais israelitas. Se há palavras de ódio de um lado também as há do outro.
    Não foi o Sharon que disse que lamentava não ter morto o Arafat?
    A política de Israel nunca tem sido em prol da paz, mesmo alguns PM's que se diz que foram bons, construíram colonatos em zonas para onde se negociava a desocupação. Israel nunca cedeu nada, porque nunca deu nada que lhe pertencesse, só deu o que ocupou pela força e há territórios que nunca os dará.
    Alguém acredita que nos próximos anos Israel irá entregar um metro quadrado que seja de Jerusalem? Se nem sequer vão entregar toda a Cisjordânia.
    Isto para não falar dos Montes Golã, que tem as mais importantes fontes de água da região.
    Anos de ocupação, de humilhação, de repressão, de assassinatos não conduzem à paz. Israel tem semeado ódio e agora está a recolher os frutos.
    Anónimo said...
    Lançar um missil contra um prédio de 5 andares é eliminação cirurgica?? Abra um bocadinho os olhos da propaganda neocon.
    Anónimo said...
    Lançar um missil contra um prédio de 5 andares é eliminação cirurgica??

    É porque você não sabe de que missil está falar.

    "Apartheid"
    JManuel vá perguntar aos árabes israelitas porque é que se rebelaram com uma proposta do partido trabalhista de entregar aldeias perto de Jerusalém á Autoridade Palestiniana.

    Se fosse quer falar de apartheid vá ver os numeros da emigração de cristãos árabes das zonas da AP.


    "Não foi o Sharon que disse que lamentava não ter morto o Arafat?"

    E? Arafat queria destruir Israel.

    "fique horrorizado com o racismo e a discriminação de que são alvo os Palestinianos, o sofrimento bárbaro a que são sujeitos"

    Sem vergonha! Você defende quem usa ambulancias e crianças para transportar explosivos.
    Não se lembra de quando muitas cidades ficaram sobre controlo da AP? então? como os ataques continuaram é evidente que Israel teria de voltar a controlar todos os movimentos...

    É a história do adolescente que mata o pai e a mãe e pede clemencia ao juiz porque é orfão...

    lucklucky
    Anónimo said...
    Another boy-bomber caught at Hawara
    Aug. 29, 2005 16:33 | Updated Aug. 30, 2005 0:40

    (...)
    The number of terror threats continued to rise on Monday, with the security establishment registering 57 threats of plans by terrorist organizations to launch attacks.

    On Monday afternoon, security forces arrested a 14-year-old Palestinian at the Hawara checkpoint north of Nablus, caught attempting to smuggle three pipe bombs.

    Paratroopers and military police became suspicious of the teenager, identified as Hassan Khalifa of the Balata refugee camp in Nablus, as he carried a bag containing a box through the checkpoint. They demanded that he pass through the metal detector, and when he set off an alarm he was inspected and the pipe bombs in the box were discovered.

    Border Police sappers were called in to blow up the pipe bombs, that contained explosives, shrapnel and glass balls.

    Khalifa's 16-year-old brother was arrested at the same checkpoint some months ago also attempting to smuggle pipe bombs. Officials said the Khalifa clan is known for its affiliation with the Fatah al-Aksa Brigades.

    Lt. Elad Shoshan, the commander of the Shahar paratroopers' company, declared that the so-called tahdiya or calm was far from reality at the checkpoint, where security forces have arrested more than 30 fugitives and caught large amounts of ammunition, homemade weapons and pipe bombs in recent months.

    Shoshan said Hassan told soldiers he was unaware of the contents of the box and had been told by fugitives in Nablus to hand it over to someone waiting on the other side.

    In June alone, security forces arrested 15 Palestinian minors at West Bank checkpoints caught attempting to smuggle items.

    (...)

    lucklucky

    http://www.jpost.com/
    servlet/Satellite?pagename=JPost/
    JPArticle/ShowFull&cid=1125281962272

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