"Todos os nomes"

Um texto à altura do mais inspirado autor de A Quinta Coluna:

O Benfica pôs o nome do Estádio à venda.
Isto de vender um nome tem que se lhe diga. Já desde o Antigo Testamento que dar o nome significa manifestar o poder que se tem sobre o que se nomeia, fazendo-o sua pertença. Deus mostrou ao homem a sua criação e cada espécie «devia levar o nome que o homem lhe desse. O homem deu nomes a todos os animais, às aves do céu e a todas as feras selvagens» (Gén. 2, 19-20).
Ainda agora é assim: os pais dão os nomes aos filhos, os empresários às suas empresas, os autarcas às suas rotundas, as crianças aos brinquedos, o regime às suas pontes sobre o Tejo, etc., etc.
Ora, o Benfica, glorioso herói em decadência, fiel espelho da nação, governado gerido pelos modernos empreendedores das negociatas espertas, com o afã de presidentes da junta nos mercados em manhãs de campanha eleitoral, resolveu abdicar do simbólico poder que ainda tinha. Depois de se vender à sujidade sociedade anónima, de destruir a cada ano que passa a mística que tinha (vejam o que se passa com a mudança das camisolas da equipa de futebol em cada ápoca) - e que o levou, com orgulho muito seu, a ganhar a independência que tinha e fazia calar alguns esbirros
do Estado Novo (as eleições no Benfica sempre foram um espinho na garganta do regime, que assistia impávido à única manifestação democrática em Portugal durante décadas e que mostrava ao País que a democracia podia funcionar), depois de vender o coração, vende agora a alma.

Esta operação mercantilista é tão ridícula e as piadas são tão óbvias e fáceis, que até fica mal perder tempo a pensar no assunto sem tristeza. Assim, decidi ajudar o meu clube a estabelecer alguns critérios úteis. Como a ideia é sacar algum dinheiro aos capitalistas, convém que seja a empresas de alguma dimensão, das poucas que, em Portugal, não declaram prejuízos todos os anos. De preferência, uma multinacional, mas dessas que ainda aqui têm estabelecimentos, fábricas e empregam assalariados residentes neste recanto repleto de estádios de futebol novinhos em folha. Por outro lado, para manter uma aparência de dignidade, deve ser uma firma cujo logotipo não seja verde nem azul, mas da cor do nosso sangue: encarnado vermelho. Assim, não podem ser escolhidas das empresas a quem já foram vendidas algumas bancadas no estádio, como a Portugal Telecom, cujo símbolo já ocupa demasiado espaço nas camisolas dos jogadores, transformando o emblema do clube num acessório menor) ou a Sapo. Era o que faltava, associarmos o nome do Estádio a um sapo, cuja cor, mesmo que esteja saudável e bem-disposto, é uma cor doentia.
Também deve ser rejeitada um empresa portuguesa. Não só porque é difícil encontrar uma com uma imagem de seriedade, competência, modernidade e eficiência, mas porque só uma estrangeira tem a$ qualidade$ nece$$ária$ para não dividir os consumidores e ser penalizada pela inveja dos adeptos de todos os outros clubes. Fica, assim, afastada a Sagres (se bem que a Bohemia é uma bela cerveja, pá), que também tem uma bancada no novo Estádio.

Resta, então, a solução que já era a preferível desde o início: a Coca Cola. A Coca-Cola é antiga, um símbolo
universal de vitória, de sapiência, de modernidade, de história, de estabilidade, de vigor. E além disso, sabe bem, quando fresquinha.
No entanto, deve haver uma referência, ainda que subliminar, ao antigo nome do Estádio, o nome pelo qual era chamado muito depois de ter mudado para Estádio do Sport Lisboa em Benfica, o nome mais poético de todos os estádios e que só em Portugal poderia existir, neste país cujo dia nacional celebra um poeta, o Estádio da Luz. Assim, sugiro aqui à direcção do Benfica, aos accionistas da SAD e aos jornalistas de A Bola e do Record, o nome dos nomes: Estádio Coca-Cola Light.
CC

Publicado por Nino 23:08:00  

10 Comments:

  1. Anónimo said...
    Belo texto e bela piada !
    O Raio said...
    Para resolver o problema do deficit não podiamos colocar o nome do país à venda?
    Ficaria qualquer coisa como "República Coca-cola" ou "República Honda".
    E, claro, o Presidente Coca-cola e o Primeiro Ministro Coca-cola quando dessem conferências de imprensa apareceriam sempre com um boné com o letreiro Coca-cola bem visível.
    E, por um pouquinho mais, também se poderia substituir o escudo da bandeira pelo logotipo da Coca-cola...
    Anónimo said...
    Eu cá optaria pelo nome (desapropriado para bolachas, mas adequado ao SLB) "BIMBO Stadium"
    Adélio Pinho said...
    Eu acho que, em homenagem ao autor do Projecto arquitectónico, deveria ser Estádio Cuetara...
    Anónimo said...
    Que os outros grunhos digam piadas vá que não vá.
    Afinal a inteligência deles não chegou para escolherem um clube com passado presente e futuro.

    Agora o senhor que se diz do Benfica....

    O que o Benfica vendeu foi o nome (que aliás não tinha) do pavilhão e mesmo que vendesse o do Estádio mais não faria do que igual ao que “lá fora” se faz.

    Ou para umas coisas a estranja é boa é para outra é má?
    Barbed Wire said...
    Eu dava-lhe o nome de Sanatório!

    Estádio Sanatório... que tolinhos...

    E no relvado do Sanatório vão alinhar Quim, dos Santos, R Rocha etc etc.
    Era engraçado e apropriado!
    Miguel Marujo said...
    O senhor Adélio está enganado: quem desenhou o estádio do Benfica não foi o arquitecto Tomás Taveira. Para obras desse senhor deve andar um pouco mais na Segunda Circular...
    Luís Bonifácio said...
    Por mais que custe a acreditar o Benfica é, entre os três grandes, aquele que está mais próximo de saldar as dividas com a construção do novo estádio.
    A "Venda" do nome, é apenas temporária e servirá para pagar as dividas.

    Faltam apenas 19 milhões
    Anónimo said...
    Frize: Deixem jogar o Mantorras.

    Até podia ser Frize Morango que é vermelha.
    Anónimo said...
    O Benfica vai vender o nome da Catedral? Faz bem. A Catedral, a Luz será sempre a Catedral e aluz. E se podeos fazer un milhões para uns tipos chamarem um nome comercial à Luz que será sempre Luz, parece-me bem. Eu pergunto ao autor deste post, parece-me que se chama manel: não vendias o teu nome se te dessem 1 milhão de contitos? Para os teus amigos e para ti serias sempre o manel e venha de lá o pilim. Até por menos: por uns mídseros 500 mil bem me podiam chamar cola light ;) ;)
    wwwtapornumporco.blogspot.com

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