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Erros, Peripécias, Asneiras e Distrações

Alguns apoiantes ferrenhos do governo extinto dos doutores Lopes e Portas desenvolvem uma intensa indústria de caça às trapalhadas do governo actual, para mostrarem não só que há duplicidade nos media – evidência das evidências – mas também similitudes na governação de baixa qualidade. Terminam sempre com ar vingativo: e então o sr. Presidente a estes não dissolve? Para além do masoquismo inerente ao exercício, mostra uma forma muito particular de ressentimento.

Esta enumeração das trapalhadas é uma pura distracção que nunca levará o governo Sócrates a conhecer o mesmo destino do de Santana Lopes, pela simples razão que há uma diferença abissal que separa os dois. O de Sócrates tem uma forte legitimidade eleitoral, formal e real, e não a perdeu, pelo contrário a reforçou, com as medidas de política que tomou. E, por muitas voltas que se dê, erros, peripécias, asneiras, distracções, mesmo quando semelhantes, não vão dar ao mesmo resultado porque não tem a mesma dimensão nem são vistas pelas pessoas isentas como sendo da mesma natureza.

Os erros, peripécias, asneiras, distracções, do governo anterior iam ao coração do poder, directamente aos lugares cimeiros da governação e eram vistos como extensões da identidade e do estilo dos governantes. Mais: eram potenciados na primeira pessoa, por ditos e eventos, que punham em causa a competência do governo na sua condução central, e encontravam todos os dias novas justificações para que a suspeita de incompetência fosse mais do que isso, mas sim uma realidade.

Culminaram na campanha eleitoral negativa, cujos contornos ainda não se conhecem completamente, no culto de personalidade absurdo do “menino guerreiro”, e foram consolidados depois pelo modo como se soube ter sido tratada a questão dos “sobreiros” (refiro-me ao plano político) e matérias como o orçamento de estado. Tudo isto deixou os respectivos partidos mergulhados numa crise de credibilidade, de que só sairão com muita dificuldade, e para a qual a caça às trapalhadas simétricas não traz nenhuma contribuição. Esta atitude aponta mais para a continuidade das trapalhadas originais e mostra um entendimento da política como um jogo de pingue-pongue, infelizmente muito comum no Parlamento.

A crítica a este governo tem muito por onde se fazer, mas tem uma condição sine qua non para ser eficaz e merecer ser ouvida: a de se demarcar das trapalhadas do governo anterior sem ambiguidades, nem desculpas, nem simetrias.

José Pacheco Pereira

Ainda de Pacheco convinha pensar nisto, antecipadamente.

Publicado por Manuel 16:29:00  

6 Comments:

  1. josé said...
    Meu caro Manuel:

    Comecei a ler este postal, de cima para baixo, como manda a lógica da leitura e como o écran tapava a autoria, não sabia quem o tinha escrito.

    Após o primeiro parágrafo já me interrogava sobre quem o teria escrito e pelo estilo correcto e sem ademanes, alvitrava "este" ou "aquele", mas sem pensar que era do Abrupto himself!

    Pois bem! Logo que deparei com o nome de sua autoria, caí em mim e disse cá para os meus botões que tenho sido um bocado marrão com o Abrupto. É verdade!
    O texto acima mostra todo o estilo abruptiano, na sua quintessência. A saber, mostra também ele "uma forma muito particular de ressentimento".
    Ele sabe muito bem que este estilo de "pingue pongue" sempre foi o estilo da politiquice caseira, mesmo no início dos anos noventa,no Parlamento. Sabe melhor do que ninguém que um Marques Mendes é exactamente um representante desse estilo , também repuxado para a sua quintessência e que o PSD, ma sua esmagadora maioria é "isto"!
    Sabe que Durão foi como foi e era como era.
    Então porque vitupera o Santana e sus muchachos e muchachas, alguns deles até com valia muito superior aos ministros actuais ( por exemplo o min. da Justiça)?!

    Porque não quer reconhecer a realidade circundante e preferir viver numa fantasia de elite estilosa, como se o Santana fosse um weirdo da política e estes que agora lá estão, com um Jorge Coelho a sair da toca todos os dias, o exemplo mais perfeito do homo politicus?

    Não sei. Sei que aborrece este ressentimento e que é verdade que a este governo se desculpa e perdoa o que nunca se admitiria ao do Santana.
    E falo com o à vontade de quem considerou a primeira entrevista de Santana à Visão, uma montagem de propaganda, cuidada ao pormenor de o pôr ler um livro que nunca na vida terá voltado a ler...
    josé said...
    Ainda quanto ao JPP e sem que isto seja sintoma de qualquer obsessão...

    O Abrupto escreveu isto no blog:
    "O Eugénio mudou a minha vida muito para além da amizade, porque me “educou”, dando-me a ler e discutindo (mais conversando do que discutindo) o que lia. Por mão dele li A Montanha Mágica, a Morte em Veneza, de Mann, Narciso e Goldmundo de Hesse, as Memórias de Adriano da Marguerite Yourcenar, os Cadernos de Malte de Rilke, muita poesia, Holderlin, Rilke, Novalis, Goethe, nas traduções de Quintela, Lorca, nas do próprio Eugénio, Walt Withman, Eliot, Pound, Apollinaire, Michaux, René Char, Perse, Valery, muitos na colecção dos “Poetes d’Aujourd’hui” da Seghers. Mas não eram só livros, eram também poemas isolados. Poemas individuais, de Cernuda, Vicente Aleixandre, Antonio Machado, as “Coplas por la muerte de su padre” de Jorge Manrique, muita da poesia espanhola que ele amava e o tinha “feito”, “La Complainte” de Rutebeuf, Villon, Shakespeare, enfim, quase tudo. Tudo certo e na altura certa, porque se há coisas que os amadores de palavras sabem é que há alturas certas para ler determinados livros e eles só são os “livros da nossa vida” quando são lidos nessa altura. Depois passa."

    Como é que quem leu isto tudo, "na altura certa" não é mais sábio do que aparenta?!
    Anónimo said...
    Venerável Irmão José:
    Achei geniais os seus comentários. Não podia estar mais de acordo com o que escreve...

    Posso sugerir uma razão para explicar porque é que o Pacheco não consegue dar um traque sem dizer que é contra o Santana Lopes?
    É que essa é a unica maneira de ser mencionado aqui, nesta Venerabilíssima, Grande e Limiana Loja...
    Anónimo said...
    Toda a gente sabe que o JPP tinha (e continua a ter) um ódio de estimação ao PSL. E esta "perturbação" mental de JPP enfraquece, notavelmente, a sua inteligência e o nível da sua craveira de homem muito culto. É como misturar água, mesmo pura, com um excelente vinho: este vinho nunca mais é vinho que se veja, isto é, que se beba.
    Anónimo said...
    O governo do Socrates, não está a necessitar dos Santanas e Cª para nada, aqui o Pacheco Pereira espalha-se........
    As borradas do Socrates e dos seus ministros, são suficientes para ele estar a afundar-se!
    Ouvir as opiniões dos economistas ontem no programa dos prós, revela, que estamos a ser enganados pelo Socrates, que em cem dias tem tudo virado ao contrario. Até já consegiu as empresas de notaão a desclassificar-nos.
    Então Sampaio o que diz ao seu pupilo socialista, mais borrada
    vamos continuar a ter na discussão
    do rectificativo.......
    José Barbosa said...
    JPP não deveria fazer oposição a Sócrates e apoiar PSL? Livre-nos Deus dos falsos amigos que os inimigos nos chegam.

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