A cópia do dia...

É deste blog e parte para a conquista de noções essenciais a qualquer renovação que se preze...

Um dos defeitos genéticos da nossa democracia foi a circunstância de ter demorado muitos anos para que se reconhecesse o óbvio: qualquer democracia pluralista tem uma direita e uma esquerda, porque só há esquerda se houver direita, e só há direita se houver esquerda. Nunca nenhuma situação totalitária ou autoritária disse que era de direita ou de esquerda, porque ambas as posições tinham horror a serem meras partes ou partidos, assumindo-se como o todo, como estando além da direita e da esquerda, acima e por cima. Daí ter sido uma mentira dizer-se que o Estado Novo era de direita.

Primeiro, porque Salazar nunca se assumiu de direita ou de esquerda. Quando viveu em democracia, e até dela foi deputado, até se assumiu como centrista e quando se elevou a dono do poder teve oposição tanto da esquerda como da direita, embora muita literatura de justificação de certa guerra civil historiográfica quase sempre oculte as posturas oposicionistas de gente de não-esquerda, de Paiva Couceiro, e outros monárquicos liberais, a republicanos de direita. Aliás, o marcelismo quando se verteu em ANP também se disse do centro.

Como os partidos nascentes em 1974 viviam em regime de condicionamento, assistimos ao paradoxo de todos os líderes partidários estarem à esquerda dos respectivos aparelhos e estes, à esquerda dos repectivos militantes e votantes, levando a que se confundisse o estar à direita com o ser de direita e esquecendo-nos que, na história comparada, muitas direitas são antigas esquerdas, tal como algumas esquerdas são antigas direitas.

Logo, a direita e a esquerda não são categorias ontológicas, mas posições relativas, situadas, num determinado espaço e num determinado tempo, de tal maneira que um liberal num certo sítio e num certo tempo pode estar à esquerda e, noutro, à direita. Daí que os nossos rigorosamente ao centro de 1974 tenham sido o mais à direita do parlamento, tal como os que estavam a Leste foram o esteio da esquerda, obrigando socialistas democráticos e sociais-democratas a ficarem ao centro, quando não no extremo-centro.

Importa, pois, assinalar que é um erro pensarmos que certos nacionais-revolucionários que não assumem a religião secular da democracia pluralista se considerem como "a direita", ou, melhor dizendo, a direita sem alcunha. Se eles não aceitarem ser parte em dialéctica com outras partes não estão à direita nem à esquerda, estão ao lado, com a pretensão de estarem acima. E o mesmo se diga da pretensa esquerda revolucionária. Porque a democracia é o exacto contrário da revolução e só se aprofunda quando também perder os vícios transicionológicos da pós-revolução.

A direita e a esquerda são muitas direitas e muitas esquerdas. Especialmente as direitas que continuam fragmentadas por mais de quinhentas capelinhas tipo porco-espinho, onde cada uma diz que só ela é que é direita, para que um marechal qualquer as ludibrie, que um presidenciável as hipnotize, que um charlatão as enrede em demagogia, astral ou mezinhas ou que um artista de circo as leve a falsas benzeduras.

Publicado por josé 11:22:00  

3 Comments:

  1. zazie said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    zazie said...
    Tem uma série de questões que também me agradam e sabe sempre bem ouvir alguém que não seja economista.
    Só é pena a escrita ser tão perra.
    zazie said...
    “Porque a democracia é o exacto contrário da revolução e só se aprofunda quando também perder os vícios transicionológicos da pós-revolução.”

    Pois é, vícios e traumas ainda dão forma a muita bandeira...

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