A Química é uma seca


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Um artigo no Público de hoje, alerta para uma realidade escolar, que pode servir de exemplo daquilo que funciona mal no ensino; daquilo que o provoca e da dificuldade em resolver tal questão.

Essencialmente, diz que a disciplina de Química, no 12º ano das escolas secundárias, anda pelas ruas da amargura .
Há falta de alunos para essa disciplina, porque a mesma desde há alguns anos que é facultativa, opcional. Os alunos, consequentemente, devido à dificuldade inerente à disciplina, não a escolhem como matéria curricular. Para quê estragar médias altíssimas, de entrada num curso de Medicina, com estas secas, se há outras mais fáceis e de resultados garantidos?

O resultado desta opção, é o fecho de turmas onde se ensine a mesma disciplina e a crescente dificuldade em organizar essas turmas, perante a escassez de procura.

Com essa falta que aliás se estende a outras disciplinas como a Física, a Filosofia e o Latim, os cursos de Universidade, onde tais disciplinas se tornam imprescindíveis, ficam à míngua de qualidade, baixando drasticamente os standards de aproveitamento escolar e curricular.
O facilitismo da escolha dos alunos no Secundário, provoca necessariamente uma baixa acentuada na qualidade do Superior.

Como se chegou aqui, a este Estado de coisas?

No que respeita à disciplina de Química, a responsabilidade directa, vem já do tempo de David Justino, como ministro da Educação de Durão Barroso.

Numa apresentação pública em Viana do Castelo, nessa altura, alguém de uma audiência de professores de Física e Química, levantou a questão perante o ministro de então, frisando e prevendo o erro grave que consistia em tornar opcional, para o secundário, uma disciplina essencial no Superior.
Resposta do ministro David Justino: os alunos no Secundário sabem perfeitamente escolher as opções escolares que mais lhes convém. Nada havia a temer,como agora os factos demonstram...

Raciocínio típico de um voluntarismo que o tempo veio demonstrar como profundamente errado e prejudicial para a qualidade de ensino.

David Justino, um ministro da Educação, com ideias válidas para o ensino, deixou-se apanhar numa armadilha do tempo e das opções típicas de uma sociologia que orienta políticas educativas há longos anos no nosso país: a da facilidade que consiste em reduzir dificuldades actuais, dos alunos, sem prever aquelas que logo à frente surgirão, fatalmente, no Superior.

Mais grave ainda: provocando, por arrastamento, no patamar Superior, a não exigência dessas disciplinas essenciais ao conhecimento, na candidatura aos cursos de Ciências, Engenharia e Medicina, replicando novamente a facilidade.

Pior ainda: os poucos alunos que no Secundário, escolhem voluntariamente essas disciplinas difíceis, nem são apoiados, porque as escolas Secundárias nem permitam que se abram turmas para eles, se o número de candidatos ao sacrifício e à seca, não for o suficiente. Economicamente, não compensa...

Será que David Justino, actual assessor presidencial, tem consciência dos prejuízos que isto provoca para a sociedade portuguesa, nos anos que já passaram e nos que virão a seguir?
E quantos erros destes, se terão cometido, tão claros e evidentes que até dói, ao ver os resultados?

Publicado por josé 22:25:00  

8 Comments:

  1. Ricardo said...
    Confesso que esta situação crescente de facilitismo me preocupa bastante.
    Hoje é a Quimica e a Física, disciplinas impriscindíveis para quem pretender seguir um curso superior em Engenharia ou Medicina, amanhã é a Matemática e o Português. Tudo em prol das estatísticas.
    Daqui a sensivelmente 10 anos o país vai pagar a factura.
    Tino said...
    Depois de vermos Cavaco de braço dado com Maria de Lurdes Rodrigues, caucionando a política do Ministério da Educação, e sendo David Justino assessor do PR, é fácil de ver qual será a posição da dúbia criatura que ao contrário de David não teve a coragem de enfrentar o Monstro da 5 de Outubro e soçobrou às mãos dos Golias que dominam aquele submundo onde se congemina a destruição do País.
    CCz said...
    "Daqui a sensivelmente 10 anos o país vai pagar a factura"
    .
    10 anos?!?!?!
    .
    Já estamos a pagar hoje, agora mesmo.
    josé said...
    Pois, só que a famosa responsabilização política é uma treta.

    O David Justino é um dos maiores responsáveis por este descalabro na Química e Física.

    Quem o vai responsabilizar pessoalmente por isso?

    Os comentadores? Quem? Um José qualquer que até o conhece e que já teve oportunidade de lho dizer pessoalmente e no blog da Quarta República?

    Não me parece que por aí tenhamos sorte.

    Isto é uma desgraça colectiva.

    Maior que a queda de uma ponte.
    Fernando Martins said...
    Cá se fazem, cá se pagam. Infelizmente quem as faz não as paga, passa a factura ao país e o resultado é este.

    Mais, embora este caso da Física e Química seja grave (a ponto de a Ministra actual o estar a pensar corrigir...) pior é a enormidade de aldrabices que o actual Ministério impontou para o Ensino: os diplomas à moda da Universidade Independente (novas oportunidades...), os exames a brincar (em breve exames por faxe, SMS, e-mail ou por Messenger...) e quase obrigatoriedade de levar às costas os meninos, mesmo com uma carrada de negativas (há de escolas em que alunos com 8 negativas passaram).

    Não sei porquê mas isto parece-se com os anos vinte em Portugal - embora a desfaçatez de alguns políticos pareça ainda pior...
    CCz said...
    Caro José,
    .
    Acabo de vir de uma reunião meio aparvalhado com o estado da justiça em Portugal.
    .
    Um major da GNR afirmou que através de vestígios biológicos e através de captura dos suspeitos com o produto dos roubos, foi possível relacionar um grupo de suspeitos a 34 roubos.
    .
    A GNR entrega-os ao tribunal e eles no mesmo dia vêm cá para fora. 34 vezes não é suficientes?
    .
    Algo está pôdre, muito pôdre... ou eu é que sou um tótó.
    .
    ccz
    josé said...
    É mesmo assim. E conheço casos piores que por decência, não conto.

    E nada acontece a certos juízes. Nada de nada porque o CSM acha que nada deve acontecer.

    E mais não digo.
    Romeu said...
    Fiquei a saber agora que estas disciplinas são agora facultativas, incrível como isto aconteceu! Isto significa que as áreas da Ciências estão a ser totalmente menosprezadas, isto no mundo qm que vivemos agora!
    Já se verifica, mas parece que daqui para a frente só haverá doutores em letras, advocacia, "ciências" da educação a reger o país, mas que depois não sabem a tabuada...

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