Coelho e Companhia


Acabo de ver na Quadratura do Círculo, da Sic-Notícias, a bonomia dos intervenientes, a felicitar pela anuência bem-disposta, a ida de Jorge Coelho para um cargo importante, na empresa privada Mota-Engil.

O Jornal de Negócios de hoje, anunciava mesmo a presidência da empresa, como o destino certo do político-empresário e figura do ambiente mediático. Jorge Coelho, modesto ( Pacheco Pereira dixit) não confirmou. Apenas esclareceu que vai presidir a um congresso, a realizar por cá, em Maio, sobre a aviação...

O jornal indicava ainda que António Mota seria o “chairman” e Jorge Coelho o CEO, numa analogia mais do que impressionante com o ambiente empresarial dos Estados Unidos, como se nós fôssemos uma economia tipo americana.

Ninguém, na Quadratura, se interrogou ou comentou o que isto significa verdadeiramente. É tudo normal, para estes indivíduos que por vezes se encrespam a comentar as notícias sobre corrupção, sobre as declarações do Bastonário dos advogados e coisas assim. Até Jorge Coelho fala abertamente dos problemas da “corrupção”, sem qualquer rebuço de consciência. É a anomia mais flagrante.

Pois bem. A ida de Jorge Coelho para a Mota-Engil, é o sinal evidente de que a empresa de António Mota, um indivíduo esperto e industrioso, que fiquei a admirar depois de o ouvir num recente programa Prós & Contras, decidiu acautelar o futuro profissional de milhares de pessoas, tendo evidentemente à cabeça o próprio “chairman”.

A empresa, empregava há um par de anos, cerca de 400 engenheiros. Está em todos os campos industriais, tem uma carteira de encomendas de 1,9 mil milhões de euros, com uma taxa de crescimento e consolidou o ano de 2007, com uma facturação de 1,4 mil milhões de euros, com cerca de 97,5 milhões de euros de lucro.

Na empresa já lá está Luís Parreirão, como presidente da Mota-Engil Concessão de Transportes e que já fora secretário de Estado, de Jorge Coelho, nas Obras Públicas, precisamente. O jornal, adianta mesmo que é a pessoa que melhor conhece o funcionamento dos concursos públicos em Portugal. Não se duvida.

Quanto ao perfil de Jorge Coelho, é de luxo. Há mais de 20 anos que é influente no PS. Entre 1988 e 1989, foi chefe de gabinete do secretário de Estado da Educação e Juventude no Governo de Macau e foi depois secretário de Estado adjunto.

Depois disso, entre 1997 e 1999, esteve no governo de Guterres, como ministro da Administração Interna e foi ministro da presidência a partir de 2000, ministro do Equipamento Social em 2001 e apesar de ter declarado uma retirada da política, manteve cargos na comissão política do partido, ao ponto de recentemente alguém ter dito que Jorge Coelho era verdadeiramente a figura forte do partido.

Jorge Coelho começou na Carris, como empregado colocado por Murteira Nabo e acabou na Mota-Engil, de António Mota, numa época de grande crise.

Mota, em tempos, numa entrevista, não fez segredo nenhum dos objectivos a prosseguir pela sua empresa: progredir, em estratégia de ampliação de carteira de obras e fusão de empresas, com objectivo declarada e tendencialmente monopolista. António Mota queixa-se da dispersão das empresas portuguesas e preferia ver um grupo mais forte e sólido, na sua área de negócios. De preferência, o seu grupo, claro.

Tem por isso, toda a lógica, a contratação de Jorge Coelho para a Mota-Engil. É a lógica das empresas que havia antes de 25 de Abril e que durante muitos anos, foram denunciadas pela Esquerda como dependentes do Estado, em regime de oligopólio e por isso com poucos empresários e empresas. Os celerados Tenreiro, Mello e Champallimaud, são os exemplos apontados, daqueles que se serviam do Estado para engordar as contas.

E agora? É o que se pode ver. Agora, com estas notícias acerca de contratações de antigos governantes, como Dias Loureiro e agora mesmo, Jorge Coelho, que devemos pensar deste regime que mantemos há trinta anos num poder democrático? Como é que devemos classificar as nossas empresas mais relevantes?

Segundo o Jornal de Negócios, a empresa pretende deixar de ser familiar e tornar-se mais profissional na gestão e a melhor escolha para a transição, segundo Mota, é mesmo Jorge Coelho.

Que dizer mais sobre isto?

Jorge Coelho saiu há sete anos de funções governativas, mas nunca deixou de ser um político com influência partidária.

A escolha de António Mota, representa a real politik que já vimos em acção, no caso BCP.

Alguém ainda conseguirá dizer mal do sistema económico que tínhamos, antes do 25 de Abril?

Alguém tem coragem para isso, tirando os comunistas?

Isso para não falar no problema do tráfico de influências, entre os organismos públicos de matriz governamental e uma empresa privada.

Não é preciso ser ingénuo para não perceber que é este o problema número um que esta escolha representa. Não há volta a dar nesta questão, de tão evidente que é.

Então, o melhor, será fazermos de conta que o crime de tráfico de influências, previsto no Código Penal, pela primeira vez, em 1995, ( precisamente no Governo de que fez parte Jorge Coelho), é um crime vazio de sentido penal. Essencialmente, é um logro, para alimentar pretensos escândalos. Esqueçamos os problemas da Goldman-Sachs, da PLMJ, de António Vitorino, de alguns outros.

Os verdadeiros escândalos, deixaram de existir. O que é uma perfeita vergonha. Mais uma.

É fartar, vilanagem! As empresas, precisam que se fartam. Aproveitem!

Publicado por josé 00:15:00  

9 Comments:

  1. Vidas said...
    Tudo dito. E bem.
    RP, escriba do modesto http://vida-das-coisas.blogspot.com
    Augusto Martins said...
    Sabe o que me revolta mais nisto tudo José, é eu ser obrigado a pagar impostos para manter estes tubarões e este regime político no qual já não me revejo minimamente, mas como diria Santos Fernando no su absurdíssimo, "durma tranquilo, Morf zela por si".
    JC said...
    Calma, pessoal!
    Em breve Marinho Pinto virá desmascarar mais este escândalo!
    Podemos dormir descansados!
    Se não o fizer nos próximo 15 dias, desafio os senhores jornalistas a perguntarem-lhe o que é que ele acha desta "contratação".
    Nomeadamente, se acha o mesmo que achou da ida de Ferreira do Amaral para a Lusoponte!
    josé said...
    vidas:

    Estive a dar uma vista de olhos pelas suas coisas, no blog e apreciei.

    Tenho esperança que não andaremos sózinhos por aqui, nesta terreola a dar tiros de virtuais, de opinião, para o éter.

    Temo que sejamos poucos, no entanto.

    Tanto faz. Um dia seremos mais e talvez os Jorges Coelhos tenham mesmo que trabalhar para ganhar a vida, sem ser à custa directa ou indirecta do Orçamento, com contrato vitalício e sem regras escritas derivadas de juramentos de lealdade à coisa pública.

    Gostei da short list dos blogs porque também é a minha. Mais coisa menos coisa ( faltam o Dragoscópio e o Cocanha).
    Laoconte said...
    Mas o MP não pode fazer nada para além de investigar as nossas crianças das escolas?
    Jacinto said...
    Parafraseando o outro,este é um regime que nos fica curto nas mangas...
    Realmente corrupção,mas corrupção a sério,só depois do 25A.
    Os outros eram,comprovadamente,uns amadores,comparados com estes "artistas".
    Zé Luís said...
    Pois...
    Pêndulo said...
    Gostaria de recordar (creio que já o disse aqui) o facto de Luís Parreirão ter exercido funções governamentais como Secretário de Estado das Obras Públicas na altura em que foram decididas várias concessões SCUT. Como sabemos está a ser negociado pelo governo o fim de alguns desses contratos e consequentes indemnizações às concessionárias.
    Luís Parreirão preside actualmente aos conselhos de administração das seguintes empresas :



    MOTA-ENGIL, CONCESSÕES DE TRANSPORTES, SGPS, S.A.

    AENOR - Auto-Estradas do Norte, S.A.

    LUSOSCUT – Auto-estradas da Costa de Prata, S.A.

    LUSOSCUT – Auto Estradas das Beiras Litoral e Alta, S.A.

    LUSOSCUT – Auto-Estradas do Grande Porto, S.A.

    LUSOLISBOA - AUTOESTRADAS DA GRANDE LISBOA, S.A.

    Fonte- Site da Mota-ENGIL
    Vítor Ramalho said...
    Eles comem tudo e não deixam nada.

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