O poder das nódoas

Vale a pena ler o que se escreve no Blog ouve-se, a propósito das notícias do Público, sobre o portfolio de José Sócrates, enquanto engenheiro técnico, numa autarquia da Beira.

Pelos vistos, a investigação jornalística de José António Cerejo, (na elegante definição do primeiro-ministro, um "bem conhecido jornalista"), um dos poucos jornalistas portugueses que se dá a essa maçada, fez-se in loco, como teria que ser, através da consulta de projectos arquivados na autarquia da Guarda, na década de oitenta. Dos cerca de mil, numa década, seleccionou os vergonhosos 27, do engenheiro técnico. E falou com alguns dos donos das obras. E escreveu mais uma página para o anedotário nacional, já enriquecido por este primeiro-ministro que teima em não se enxergar.

O pedido para consulta dos documentos arquivados, foi através de carta endereçada ao presidente da autarquia, mencionada naquele blog pelo próprio autor ( em comentário ao respectivo postal) , nos seguintes termos:

José Mendes, jornalista do PÚBLICO, para efeitos relacionados com a preparação de um trbalho comparativo sobre as práticas urbanísticas em vigor em várias regiões do país na década de 80, e ao abrigo da Lei de Acesso aos Documentos Administrativos (Lei 65/93), solicita a V. Exª que lhe seja indicado, nos prazos legais, o local, dia e hora em que poderá ter acesso, para efeitos de início de consulta, à totalidade dos processos de licenciamento de obras particulares entrados nos serviços dessa câmara no período compreendido entre Janeiro de 1980 e Dezembro de 1989.Com os meus cumprimentos,José Mendes, Jornal PÚBLICO(...)".

Na mesma caixa de comentários, um anónimo suficentemente identificado como conhecedor dos meandros da autarquia da Guarda, escreve:

Sabe que a carta não mencionava o Público. Sabe que só no fim da consulta revelou a sua verdadeira identidade aos funcionários que o assistiram, «por consideração à gentileza.

A esta informação anónima, o próprio JAC responde, afirmando a sua falsidade, realçando o facto de o presidente da Câmara ser figura próxima, como antigo colega e amigo de José Sócrates e portanto, justificando as cautelas, desconfiar da colaboração que poderia esperar da autarquia, mesmo num caso em que qualquer pessoa tem o direito de consultar os arquivos, sem justificação, nos termos da lei de acesso a documentos.

Tudo isto , é agora apontado como pecado de mensageiro, pelos apaniguados do costume, alguns deles jornalistas, com comentário no blog e tresanda a intriga para tramar o jornalista que investigou. Alega-se falta deontológica, até! E que exige, sabe-se lá o quê, mas de certeza retira credibilidade ao "bem conhecido jornalista"!
Os inquisidores de JAC, em comentários anónimos, como convém à coragem de apaniguados, bem demonstrada, aparentemente também são jornalistas.
Se calhar também fazem investigação, no local, por convite e com recepção no fim. Não cospem na sopa que lhes dão e compreende-se. O meio é pequeno, não dá para todos e encomiar, louvaminhando o poder, sempre foi a fonte mais limpa de ganhar boas graças e vidinha porreira - pá!
E por isso, toca a aviltar os que não lhes seguem a ração comum, de cantina de luxo, preferindo petiscar em tascas de comida caseira, mas com maior autenticidade.
Pode lá ser, um jornalista em pessoa, apresentar-se com o seu nome não habitual, destinado obviamente a afastar reservas imediatas, apanhar os assuntos em rama ainda verdejante, documentar-se sem mácula e solidamente consultar parecer técnico-jurídico!
Pode lá ser, um jornalista atrever-se a vasculhar o passado profissional de um político já em vias de profissionalização e que acabou por tornar-se primeiro-ministro, depois de se ter licenciado na UnI, do modo escorreito que toda a gente sabe!
Pode lá ser, um jornalista dar-se ao desplante de colocar em crise, novamente, o caracter pessoal e político de um primeiro-ministro já com medas de palha, na credibilidade pessoal!

Claro que não pode ser! Isso é assassínio de carácter. De um belíssimo carácter, como todos podem observar e apreciar nas medidas e decisões públicas que o magnífico chefe aprova.

Por isso mesmo, distinguem-se os assassínios de carácter de dois modos: os que visam os políticos que mandam nas pessoas, através do seu poder executivo obtido para impor medidas e os outros, aqueles que visam essencialmente os que não concordam com elas e acham que um político deve ser sério, honrado, competente e com um mínimo de valores comuns.
Há apenas uma diferença, nesta escolha de alvos: os políticos, geralmente contam com os apaniguados profissionalizados que vivem à sombra de prebendas e tachos, mesmo de carreira; os outros, contam com eles mesmos, sozinhos e isolados ou em grupo disperso.
Normalmente, nestas coisas, a verdade vem sempre ao de cima, como o azeite.
Os apaniguados, enterrados até ao pescoço, na mistela dos interesses, são os que apanham, em primeiro lugar, com as nódoas. De gordura.

Publicado por josé 11:58:00  

8 Comments:

  1. JC said...
    Caro josé:
    Felicito-o pela forma elegante como escreve e pela perspicácia que revela nos seus artigos.

    Sobre as "maisons" do Snr. Engenheiro Técnico, sinto que o assunto morreu já na actualidade noticiosa nacional.
    O que lá fora seria motivo, no mínimo, para explicações públicas perante os Representantes do Povo, aqui mereceu, apenas, uma mera indignação pública do visado antecedendo um qualquer acontecimento público.
    E sem Gato Fedorento para pegar no assunto, resta-nos a blogosfera!.
    Porreiro, pá!
    Dylan T. said...
    Caro José

    Essa dos "outros que contam com eles mesmos, sozinhos e isolados ou em grupo disperso", a propósito de uma investigaçãozinha à la carte e retroactiva a 25 anos feita por um tal de José Mendes (António Cerejo para os amigos), correspondendo a uma encomenda editorial respaldada por um grupo económico forte com interesse em acalmar uma azia da vida, tem graça, reconhecê-lo-á.

    Dizê-lo mantendo um ar sério é que me parece tarefa mais difícil.

    Cumprimentos

    Dylan T.
    josé said...
    O mais que vi escrito, sobre a tal encomenda, foi um editorial a sustentar a legitimidade e acerto da investigação jornalística.

    E depois...quem tem verdadeiramente o poder de dispor de interesses alheios? Quem pode realmente, decidir de certo modo, cada vez mais secreto e enviesado?

    É o Público?
    josé said...
    Mais:

    O Diário de Notícias alguma vez publicaria uma coisa destas, ou daria assentimento para uma investigação deste género ou do género da licenciatura?

    Porquê? Porque não tinha interesse jornalístico?

    E imaginando que publicava, o que aconteceria aos seus directores nos dias ou semanas a seguir?

    Será preciso dizê-lo, ou é claríssimo para todos,incluindo para os tais directores?

    Há alguma liberdade de expressão plena, numa sociedade de diários de notícias assim?

    Ou tal equivale ao tempo de Salazar/Caetano, com o Século e as Novidades?
    zazie said...
    José: não sabia que para esta maltosa quem foi eleito para primeiro ministro foi o Zé Manel Fernandes?

    É mesmo assim- o resto, se for preciso, ainda justificam com as traquinices do menino tonecas e mais de um primo da Dona Clotilde que também tinha uns pecadilhos no cardápio e que entretanto até já morreu.
    Jacinto said...
    Corja de lacaios avençados a tentarem tapar o sol com uma peneira!
    São directamente proporcionais ao aspirante a mestre-de-obras que bajulam!
    AM said...
    são a(ssa)ssinaturas de carácter.... senhores
    Dylan T. said...
    Caro José

    Mais me ajuda. Se elabora comparativamente sobre o condicionamento dos directores (o exemplo do DN é seu), o mesmo valerá pelo lado inverso da questão.
    Logo, o Público só o fez porque tem interesse - que, de acordo com o raciocínio, terá de ser mais que jornalístico - em fazê-lo. O interesse do grupo económico que é seu proprietário. Não era disso que estávamos a falar?

    Cumprimentos

    Dylan T.

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