Diz que é uma espécie de tesourinho deprimente

Parece que tiveste mesmo sorte, pá! E ainda por cima, as noticias, como de costume nestas coisas, confundem e deturpam as regras de processo penal, desinformam o leitor e contribuem sempre para a falta de esclarecimento do público que procura saber. Num caso tão simples, como é o de alguém que se submete a uma apresentação a tribunal por causa de condução sob efeito do álcool, não há um único jornal que dê uma informação fidedigna e correcta do que se passou realmente e com base na aplicação das normas e rotinas dos tribunais. Os jornalistas, pá, são assim uma espécie de apontadores de notas de rascunho que aproximam, mais ou menos o leitor, daquilo que se passa. Neste, como certamente noutros casos, porventura piores.

De acordo com o expoente do jornalismo da “verdade, verdade, verdade” , 24 Horas em cada dia, levaste “ 400 euros de multa e nem a carte te tiraram”! Segundo outro farol das novidades diárias, o Correio da Manhã, ( o único com link activo e disponível) afinal não foi uma multa, mas apenas uma “doação de 400 euros a uma associação”, e saíste do tribunal “a guiar”!
Para o outro guia diário das opiniões de jornal, o nosso Público, que ingloriosamente definha de dia para dia nas vendas de quiosque, afinal foste mesmo condenado, pá! E logo em “40 horas de trabalho comunitário” e ainda terás de doar uma “boa quantia, ainda não estipulada, a uma associação de solidariedade social” .

Em que ficamos, pá?
Ontem, alvitrei aqui que deverias fazer valer o estatuto de vedeta, para garantir igualdade de tratamento com o futebolista do ano passado, por esta altura. E parece que assim foi, de acordo com o CM: "equipa de advogados", entrada por porta lateral, " para evitar oas objectivas fotográficas" e ainda a "mordomia", segundo o CM, de esperares na sala dos advogados enquanto os restantes 29 arguidos, na mesma situação que tu, esperavam no sítio que lhes está reservado- e que não é a sala de advogados...
Vedeta, portanto. Não sentiste um pouquinho de vergonha, pá? Aliás, não tens vergonha desse papel deprimente, de diferenciação na desgraça, pá?
Parece que a tua causídica lembrou ao magistrado de serviço de turno, algo sobre suspensão de processo, à semelhança do tal Luisão do ano passado. E fez bem, se de facto foi ela a lembrar.
Afinal, como escrevi aqui, ontem, para vedeta igual, tratamento igual, ora! E a Constituição é para se cumprir quando escreve, no artº 13º nº 1 - "todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei".
Na verdade, uns são mais iguais que outros, mas enfim, é a vida, como dizia o outro que inventou esta lei de processo ( é de 1998 e é mesmo o governo dele, do tal que assim desabafava) .

Assim, o MP e o juiz aí do sítio, parece que entenderam que era caso menor ( condução com álccol no sangue, numa taxa de 1,65 quando o mínimo penal é 1,20) , de rapaz bem comportado e sem antecedentes penais da mesma natureza ( com certificado de registo criminal na hora, certamente) ; com culpa leve ( afinal, que culpa grave tiveste, em bebericar champanhe ao longo do programa? Calha a qualquer um, está bom de ver…) e de relevância reduzida ( quem é que liga a estas coisas, a não ser estas bestas dos jornais que querem sempre a “verdade, verdade, verdade” com a coscuvilhice das vedetas? Aliás, não é assim que se ganha, bem, a vidinha? ).

Pronto, deram-te uma sanção em modo de regra de conduta ou injunção, apesar de nenhum dos referidos diários prestigiados falar nesse termo concreto que está na lei. Apenas o Correio da Manhã, faz entrever essa possibilidade, ao dar a palavra à tua causídica que esclareceu (?!) que foste julgado num processo sumaríssimo “(?!!!) e que “o procurador do MP, invocou o artº 281º do CPP que prevê a suspensão provisória do processo”.
Ora bem, a levar em conta este parágrafo que se contradiz logo na frase seguinte, ao escrever que “ a medida ( a tal doação ,claro) prevê uma série de contingências que podem fazer com que Quintela nem sequer vá a julgamento” , temos que te quilharam apenas com uma “medida”, uma “doação”, em substituição dos termos correctos que são injunção e regras de conduta ( no tal artº 281 do CPP) .
Ou seja, afinfaram-te com uma injunção e regra de conduta com as quais concordaste, necessariamente. Foi assim, não foi? Se foi, quanto a mim, quilharam-te muito pouco.

Não tens culpa disso, mas há dois anos, houve mais de 20 mil infractores que conduziram carros com álcool no sangue em medida criminosa. Quantos tiveram a tua sorte, pá?
Mais ainda: em relação aos outros 29 que estiveram contigo, ( mas na sala ao lado...), quantos tiveram a mesma sorte que tu , pá?
Se foram todos os que estavam nas mesmas condições, podes gozar com o caso e fazer um sketch como um tesourinho deprimente.
Se não foi, podes limpar as mãos à parede do teu humor de pacotilha, pá. E já agora, leres os comentários dos leitores dos jornais on line...

Publicado por josé 11:59:00  

14 Comments:

  1. Luís Bonifácio said...
    É o retrato do Portugal que temos. Neste socilismo à beira-mar plantado uns são filhos (Políticos, inspectores-gerais, futebolistas e agora humoristas) e outros (o resto da população) são enteados.
    Agora vamos ver a DGS a dar o dito por não dito e a retirar os casinos da aplicação da lei anti-tabaco.
    MM said...
    O que é que a magistratura que temos tem que ver com o governo!?Não percebi Sr bonifácio.
    António said...
    De facto, uns são filhos, outros enteados. Os jornais também noticiaram no mesmo dia do caso «Luisão», que um Conselheiro jubilado do STJ foi julgado por aquela Alto Tribunal e condenado a 90 dias de prisão substituida por multa e inibido de conduzir por 90 dias.
    Mas o caso só seria notícia pela negativa se, corporativamente, o STJ o tivesse abolvido!
    josé said...
    Um conselheiro do STJ por muito que alguns tentem, ainda não é vedeta nacional...

    Logo, não tem cabimento a comparação.
    António said...
    De facto, a comparação a um caso de «vedetismo nacional» não tem cabimento. Mas tem cabimento a reflexão de que o dito Conselheiro, rigorosamente, se ouvido no mesmo tribunal do «Gato Fedorento», decerto não teria direito à «mordomia» de esperar na sala dos advogados...Assim como o não teve no STJ! O que está a dar, com efeito, é ser vedeta!
    Cosmo said...
    Oh José, francamente...um copito a mais não custa nada... e é Natal!...

    Agora se fosse caso de pedofilia, tenho a certeza que qualquer outra vedeta seria prontamente julgada e condenada.
    rb said...
    Já agora, este, também, é o retrato da justiça que temos.
    josé said...
    rb:
    É. Estou completamente de acordo consigo, nisto. E não gosto, acredite.
    Laoconte said...
    Se disséssemos aos familiares das vítimas de atropelamento "francamente... um copito a mais não custa nada... e é Natal!..." que achariam?
    Carlos Medina Ribeiro said...
    Então já é trivial?

    Foi notícia, hoje, na TV, que a segunda fase da operação «Noite Branca» (da PJ do Porto) foi cancelada à última hora porque se veio a descobrir que os alvos dela (e até jornalistas!) tinham sido avisados devido a uma fuga-de-informação.

    O curioso é que isso, que devia ser motivo de escândalo e de "caixa alta" (pelo menos na blogosfera), parece ser já tão corriqueiro que dificilmente se encontra quem se lhe refira...
    .
    josé said...
    E será mesmo assim? Amanhã, veremos.
    Carlos Medina Ribeiro said...
    Seja; e, enquanto esperamos, aqui fica outra redacção:

    «Foi dito hoje, na TV (com direito a bastante tempo e a imagens de arquivo), que a segunda fase da operação «Noite Branca» (da PJ do Porto) foi cancelada à última hora porque se veio a descobrir que os alvos dela (e até jornalistas) tinham sido avisados devido a uma fuga-de-informação.
    Mesmo na eventualidade de a notícia não ser verdadeira - no todo ou em parte -, não parece estranho como
    não é referida, nem desmentida, nem objecto de qualquer esclarecimento - como se uma coisa dessa gravidade já estivesse banalizada? Ou foi-o, e eu é que não encontro nada?»
    .
    lusitânea said...
    Sou analfabeto em matéria de justiça, mas assentando esta em corpos sociais(MP e JUÍZES)só estes corpos podem expurgar os maus elementos que costumam sugir em todas as organizações.
    Parece-me que existem elementos muito facilmente "pressionáveis"...e que estão na base dos maiores escândalos do regime.
    zazie said...
    Este é um caso em que nem é o idiota do desengraçadinho do Quintela que devia ser criticado mas os imbecis dos juízes. Sem sombra de dúvidas. E acho que é mais um caso em que o nome do responsável pela decisão devia vir escarrapachado.

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