A internet matou a música?

David Ferreira, ex-director da EMI Portugal, fechada para se reduzir a Espanha, deu uma entrevista à revista Única do Expresso, da semana passada.

David Ferreira, sobrinho de Valentim de Carvalho, da loja do mesmo nome, (onde entrou por ser de quem era), e filho de David Mourão-Ferreira, tem histórias para contar, do seu gosto pela música e do negócio associado.

Na entrevista, tenta explicar a crise da industria discográfica, assim: “primeiro acreditou-se que se ia travar a pirataria por via da legislação. Depois achou-se que seria do ponto de vista técnico, com o sistema anti-cópia. “ “ A morte da edição é a morte de uma parte substancial da liberdade. Se a edição está em risco, a nossa liberdade estrá em risco, porque entretanto alguém ocupou esse espaço. As telecomunicações ganharam um poder que não devia ser delas. É um poder usurpado. E nessa autofagia saímos todos prejudicados. Só a estrutura do capitalismo financeiro impediu as editoras de processar as telecom. Dá-se cada vez mais importância à propriedade física e menos à propriedade intelectual. Continuo absolutamente convencido que uma dúzia de acções exemplares teriam um efeito psicológico.
Muitos uploaders fazem daquilo um negócio.”

É este o entendimento simples da crise do negócio do disco, para David Ferreira, o expert que alia a experiência da gestão à prática do negócio, na loja da avenida de Roma.

Os responsáveis da EMI, sacrificaram-no, acabando com a representação em Portugal e transferindo-a para Madrid.

Esta semana que passou, a PJ e a ASAE, fizeram um raid a vários lugares reais onde se anichavam sites virtuais, de animação para descarga de ficheiros digitalizados de música, vídeo e software, sem pagamento de direitos a quem de direito. Pirataria, na linguagem do ofício, porque se trata, segundo a indústria, de lugares de troca de ficheiros digitalizados de música e vídeo que obrigariam ao pagamento de direitos de autor. O raid, foi impulsionado por queixas da Associação Fonográfica Portuguesa e da Federação de Editores de Vídeo, contra sites como BTuga, ZeTuga e ZeMula, onde se partilham ficheiros aí colocados pelos animadores amadores.

Hoje mesmo, a Google noticiou que em Setembro disponibilizará um artifício no site YouTube, que impedirá a colocação de vídeos com conteúdo protegido por direitos de autor.

A fazer fé em responsáveis pela indústria, a Internet e a descarga ilegal de músicas e vídeos, está a matar a arte popular da música e do filme. Os números da crise da indústria musical não deixam enganar e as editoras estão com medo de perder as galinhas de ovos de ouro.

Terá a Internet, eliminado a música em disco? Terão sido os descarregadores de música em linha, os autores da desgraça dos vendedores?

As respostas não são lineares, aparentemente e fazendo fé nas estatísticas, sempre a descer no plano das vendas e sempre a subir quanto às descargas em linha, na Internet.

O acesso da gente nova que costumava comprar discos, em LP e em CD, à música virtualmente disponível para ser comprimida em pastilhas mp3, dispersou-se por vários atalhos de chegada ao som disponível.

Este som, perdeu qualidade ao longo dos anos, ao mesmo tempo que paradoxalmente, se alargaram incomensuravelmente as possibilidades materiais de a ele aceder.

Nos anos setenta, com o aparecimento e massificação dos gravadores de cassetes, incluídos nos autorádios, com uma ajuda preciosa da indústria de consumo electrónico nipónica, a indústria do disco temeu o fim do negócio, com o advento da cassete pirata.

Na altura, não havia meio tecnicamente suficiente para impedir a gravação pura e simples de um disco e a duplicação de cassetes com a música protegida de direitos de autor. A cópia caseira da música do disco em LP, para ouvir em cassete no carro e no leitor portátil que apareceu no início dos anos oitenta, já nessa altura fez soar campainhas de alarme industriais.

Com o aparecimento do CD, ( da Phillips e da Sony) , em meados dos anos oitenta, o perigo da cópia pirata, ainda para a cassete, duplicou de intensidade, porque o cd permitia copiar sem limite e com facilidade aumentada e o som tornou-se o novo standard, ao mesmo tempo que se aprimoravam cassetes especificamente destinadas à gravação digital e audição caseira e no carro.

Com o advento da possibilidade de gravação massificada do próprio cd, no final dos anos noventa, soaram os alarmes do início do fim dos tempos, da música a metro. As soluções técnicas para impedir a cópia, com introdução de codificações sofisticadas, não resultaram porque diminuíam a qualidade sonora e nessa mesma altura ( fins dos noventa) apareceram novas promessas de standard sonoro, com a inovação do dvd-audio e o sacd. A promessa não se cumpriu entretanto, porque surgiram novas formas de entretenimento, como o dvd vídeo, massificado nos últimos anos e com potencialidades de reprodução sonora em condições melhoradas, ultimamente avantajadas com a próxima vaga de blue-ray e hd-dvd, já instalados em drives de novos computadores, prontas a gravar em qualidade superior, imagem e som.

No entanto, a maior modificação nas condições optimizadas para a pirataria generalizada ocorreu nos últimos anos, com a possibilidade de gravação de cd´s em discos rígidos de computadores e o aparecimento e generalização dos meios de reprodução sonora conhecida como mp3. Este, é um nova referência corrente, em expansão entre malta nova que se habituou já a ouvir música em mp3, criando um novo standard de reprodução sonora, de qualidade inferior à do cd, mas negligenciável no meio de audição preferido: o leitor de mp3 e o telemóvel, para além do próprio computador, equipado com sonorização medíocre mas suficiente para ouvidos não exigentes e habituados ao som ambiente.

A facilidade de acesso ao novo standard, via Internet, com a generalização de descargas massificadas de ficheiros sonoros em mp3, precipitou o resto da desgraça anunciada.

Nestes últimos trinta anos, a luta da indústria sonora e videográfica, contra a pirataria, cingiu-se a uma repressão das actividades, tornadas em crime.

No entanto, a história da evolução sonora demonstra que a indústria perdeu sempre estas batalhas pela preservação dos direitos de autor em músicas e filmes. Perdeu na altura das cassetes, na dos cd´s, na dos dvd´s e perderá agora com o mp3.

Os argumentos, no entanto, variam entre aqueles que como David Ferreira ( e agora porventura as associações sonoras e de vídeo), entendem a repressão exemplar e incansável das Asaes, como um meio eficaz de estancar a sangria aos direitos de autor e aqueles que , pelo contrário, acham que a maior liberdade do consumidor potencia o desenvolvimento e o aumento do interesse na música e filmes gravados.

O verdadeiro problema da industrial musical, no que à gravação de música popular concerne, prende-se mais com a intrínseca qualidade desta e do interesse que consegue despertar em quem ouve, do que com a protecção dos direitos de autor.

Por outro lado, a qualidade sonora do mp3, que se descarrega da net ou se grava, ripando os cd´s, para ouvir em aparelhos de bolso, em geral, deixa muitíssimo a desejar em relação ao cd, para já não falar em relação ao velhinho Lp e ao recente dvd-audio e sacd, formatos que por razões imponderáveis estagnaram quando tinham todas as condições de estrita qualidade sonora, para substituir o cd, rei do som dos últimos vinte anos.

A indústria musical, não apostou suficientemente em lançar standards de suporte de gravação sonora que aumentassem a qualidade do produto oferecido. Em vez disso, continua a apostar na gravação em cd, com as limitações técnicas conhecidas e que poderiam já estar ultrapassadas com o dvd-audio ou o sacd.

A introdução de dispositivos anti-cópia, nestes formatos, poderia ser acompanhada de incentivos à audição comparativa e publicitada do som excelente, em detrimento de sub-produtos como o mp3 que afinal contribui para a desgraça da indústria.

As companhias editoras fonográficas, afinal não revelam grande consideração pelo ouvinte, deixando passar mais de vinte anos sem inovações significativas, e suficientemente publicitadas, para fazer nascer o interesse no ouvinte em escutar a diferença.

Apesar das possibilidades técnicas em se ouvir de modo diferente e melhorado, a música dos Beatles, dos Stones, Dylan ou Beach Boys, Eagles ou mesmo Simon & Garfunkel ou os Roxy Music, artistas de catálogo profundo e clássicos no género, as editoras, continuam a editar os cd´s como o faziam há vinte anos, em estéreo razoável, mas sem a abertura ao som superior dos novos suportes. Quando o fizeram ( no caso dos Stones e de Dylan) nem os promoveram como poderiam e deveriam fazer.

Assim, continuaram a apostar em Madonnas, Spices Girls e outras artistas do momento ( como uns DaWeasel nacionais, cópia de cópias internacionais) que nada mais fizeram do que degradar a qualidade musical ao ponto de se chegar às Avril Lavigne, Kelly Clarkson e T-Pain, da actualidade musical de miserabilidade sonora.

É com artistas deste calibre que as editoras vão retomar as vendas em massa e aos milhões?

Os compradores deste tipo de produto, actualmente, nem se dignam distinguir entre a sonoridade do cd, com vinte anos em cima e com estéreo habitual e inferior a outros formatos, e o ainda mais pobre mp3. A diferença audível entre os dois suportes, conta nada para este público e a culpa disso é de quem? Da indústria em primeiro lugar que não promove, não liga nem dá importância a esse pormenor que sempre contou nas gravações dos clássicos dos sessenta e setenta: a qualidade do produto, substancial, na gravação e apresentação ao público, como experiência sonora.

Antes de mandar queixas para as polícias, as editoras e respectivas associações, deveriam em primeiro lugar recomendar a quem manda, aos CEO´s e ás RIIA´s que meditem na merda sonora que andam a contratar, divulgar e promover.

Enquanto uns se queixam, outros tentam aproveitar as oportunidades. Neste sítio, de Bill Nguyen, a música pode ser trocada e depois paga-se uma importância pequena ( chegou a ser $1.75 ) por cd, para receber o produto físico, por correio. A intermediária, Lala.com, fica com alguns cêntimos e o resto é para os direitos dos autores...

Será essa uma das soluções, para o problema? A resposta ainda está no vento.

O panorama sonoro, actual, na música popular mundial, está muito pior do que em 1976, altura do aparecimento do Punk como modo de reacção à estagnação criativa que então se tornava evidente.

Associando esse fenómeno, ao desrespeito pelo consumidor-ouvinte que espera qualidade melhorada nas gravações e apresentações do produto musical com standard qualitativo elevado, pode muito bem acontecer que as verdadeiras razões da crise aí residam e não exclusivamente na tendência da malta nova em sacar a música que ainda lhe propõem para ouvir, na net, em formato sonoro abaixo de cão, relativamente aos standards de há trinta anos.

A indústria musical queixa-se dos consumidores piratas. Mas as queixas, são mútuas e quem tem razão, normal e de costume, é o cliente…

Publicado por josé 23:33:00  

8 Comments:

  1. RCruz said...
    http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9B03E1DA113AF93AA35755C0A9649C8B63
    RCruz said...
    http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9B03E1DA113AF93AA35755C0A9649C8B63

    Agora sim...este link funciona!
    josé said...
    Já lá fui:

    ''The absolute transformation of everything that we ever thought about music will take place within 10 years, and nothing is going to be able to stop it. I see absolutely no point in pretending that it's not going to happen. I'm fully confident that copyright, for instance, will no longer exist in 10 years, and authorship and intellectual property is in for such a bashing.''

    ''Music itself is going to become like running water or electricity,'' he added. ''So it's like, just take advantage of these last few years because none of this is ever going to happen again. You'd better be prepared for doing a lot of touring because that's really the only unique situation that's going to be left. It's terribly exciting. But on the other hand it doesn't matter if you think it's exciting or not; it's what's going to happen.''

    Bowie nunca foi particularmente um artista do meu gosto restrito, embora reconheça que por defeito meu.

    Mas estas declarações, são extraordinárias e contra a corrente destes reaccionários que querem a todo o custo preservar o que nem devia existir: o simulacro da qualidade.
    batuta said...
    Caro José,

    Acho muito pertinente o modo como coloca o problema.
    De facto, a indústria é, em absoluto, culpada da situação em que se encontra.
    Os parâmetros de qualidade, a todos os níveis, foram "revistos" por uma geração que, nos anos 90, tomou de assalto os lugares de decisão da indústria, em todo o mundo.
    Foi um movimento "revolucionário" levado a cabo por uns patetas modernaços que só são vítimas, hoje, da sua falta de visão e da sua profunda ignorância.
    A massificação dos meios de produção trouxe consigo a inevitável falta de talento que advém destes fenómenos de multiplicação, atirando para o lixo todas as bitolas da qualidade na produção, aliada a uma estratégia de direcionamento dessa mesma produção para o "mercado jovem", acabou por produzir um fenómeno de estupidificação musical do qual não se sairá tão cedo.
    É minha convicção que a ordinarice musical maioritária que por aí circula tem os dias contados.
    Mas, enquanto as "majors" não forem obrigadas a repensar todas as brilhantes estratégias dos últimos 15 ou 20 anos, nada mudará.
    Melhor produto, menos produto e melhor suporte poderiam ser três pontos de partida para começar a resolver aquilo que, hoje, ninguém sabe como vai acabar.
    Gabriel said...
    O que assusta David Ferreira e no qual lhe falta toda a razão é quando diz que a liberdade de edição fica coartada.
    Pelo contrário:enquanto antes alguém que quisesse gravar, fosse muito, pouco ou nada conhecido teria sempre de passar por uma qualquer editora para conseguir expressar-se, fora as questões de distribuição e promoção, hoje, qualquer pessoa que se queira fazer editar pode fazê-lo ela mesma, basta querer. E não precisa sequer de distribuição nem de promoção, na medida em que ela se fará consoante a qualidade do produzido.
    O que deve ser chato para as editoras.....mas, será certamente excelente para a tal liberdade de que ele fala.

    Mas David Bowie aborda a questão central: não apenas o copyright , na forma como o mesmo é defendido hoje é um anacronismo idiota, como a própria essencia de tal suposto «direito» cada vez mais se revela, como limitador, ineficaz, absurdo e sobretudo totalmente ilegitimo.
    josé said...
    A posição de observador crítico, de David Ferreira ainda me parece mais interessante, deste ponto de vista:

    Afirma que as telecom deveriam ter sido processadas pelas editoras porque ganharam um poder usurpado e que não deveria ser delas.
    Calculo que esse poder seja o de distribuição de produto...de que o mesmo gostaria de assegurar o monopólio, sempre.
    E acha que as telecom só não foram perseguidas nos tribunais, por causa do capitalismo financeiro. Esta é que é extraordinária! O capitalismo industrial contra o capitalismo financeiro!
    Fantástica análise.
    Joao said...
    Quantos artistas viram chegar a sua musica a locais onde um LP ou CD nunca chegaria? Que difere um site de partilha de ficheiros (muitos dos quais legais) de uma casa de forocópias aberta ao público? AS editoras sentem a perca de controlo e isso assusta-as.
    Rafael said...
    Bem..acho que no fundo isso tudo é culpa das gravadoras. Ficaram tao felizes com o surgimento do CD e nem imaginaram que um dia graças a ele o mercado fonográfico chegaria ao fim. O CD foi rapidamente pirateado e com a vantagem de se obter com a cópia um som igual ao do original tendo em vista q o processo de cópia ´´e digital. Na época dos cassetes piratas muitas pessoas optavam por não comprá-lo pois a qualidade sonora era péssima, músicas vinham cortadas, enfim não valia a pena. Se tivessem deixado em uso o bom e velho LP até hoje, isso não aconteceria, pois duvido muito que sem os CDs se chegaria ao MP3. O mercado fonografico na época dos LPs vendia muito mais...naquela época os cantores ganhavam dinheiro em cima da vendagem de seus discos...desde o surgimento dos Cds essa realidade foi se tornando cada vez mais irreal.
    Acho que como muitas tecnologias que existem por ai, devia-se pensar antes nos resultados dos adventos e não sair lançando-os por ae no mercado.

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