O patético PCP

Não se faz! A RTP ignora a força do PCP, não convidando nenhum representante, para o debate televisivo sobre as esquerda/direita, num programa de grande audiência.

O que será a esquerda, hoje em dia?
Serão os valores republicanos, do laicismo, dos direitos de minorias e da defesa acirrada de um sector público, passando pela soberania popular e pela recusa do sistema económico liberal?
Então, se for assim, já há cá disso, no PS e até no PSD.
Que diferença oferece o PCP, digna de afirmação pública, para além da recusa do modelo liberal de organização social e económica?

O PCP defende sempre as mais amplas liberdades, como modelo para todos. Porém, quando se lhe mostra o panorama mundial, dos últimos cinquenta anos, não há resposta coerente para o pacto germano-soviético em 1939; para o apoio expresso ao estalinismo; para o apoio expresso à invasão da Hungria em 1956, pelo exército soviético; para o apoio expresso à repressão em Praga, em 1968, apesar do Maio de Paris. Para o deslize do apoio aos reaccionários contra Ieltsin, no golpe frustrado na URSS.
Onde temos hoje, no mundo, comunismo à PCP? Na Coreia do Norte? Um país fechado sobre si mesmo, com a mais baixa taxa de esperança de vida, onde se morre de fome. Na China? Um comunismo de pacotilha para assegurar a mão de ferro sobre a produção em cadeia do ultra liberalismo explorador do homem pelo homem, como nunca se viu em lado algum. Em Cuba? Deixem-nos rir, com Ibrahim Ferrer embasbacado na quinta avenida de Nova Iorque.

Que resta então da bandeira ideológica do PCP? O combate ao liberalismo globalizante?

Está bem, pode ser. É uma perspectiva de oposição a algo que a direita defende. Chegará isso para definir a esquerda? Não chega. A social democracia faz o mesmo, em certa medida e em Portugal já temos dois partidos social-democratas: o PS e o PSD. Serão esses partidos, a direita que o PCP combate, como oposição de esquerda que pretende ser, ou tenta ir mais além e convencer o povo de que o ideário comunista quase centenário, continua válido? Não é inteiramente clara, a proposta do PCP, et pour cause. O povo já não vai em loas, porque a informação circula e sabe-se hoje mais do que há trinta anos. Mesmo com toda a propaganda notável e avassaladora do PCP, ao longo destes decénios, ao ponto de ter marcado a linguagem corrente, vincando um omnipresente antifascismo como frente de combate a um falso fascismo, continua a não convencer mais do que um dígito na contagem de votos percentuais.
O PCP recusou sempre um aggiornamento e o desaparecimento da foice e do martelo. Em França, Itália e Espanha, os PC´s anularam-se e misturaram-se na social democracia de tendência mais puxada à esquerda.
O PCP resistiu sempre porque tem a seu favor a linguagem política que sempre dominou e conseguiu impor nos media, desde os anos setenta. O PCP condicionou durante anos a fio o pensamento político em Portugal de modo a não ser possível uma outra linguagem que não a de esquerda, em todos os sectores de media e culturais. Ainda hoje é assim.
Por isso será em vão que se poderá esperar um reconhecimento público de erros e malefícios à humanidade. A luta continua sempre. “25 de Abril sempre; fascismo nunca mais!”
Inútil a demonstração de que se o nazismo está associado aos campos de concentração e extermínio, o comunismo está estreitamente ligado aos gulags.
Inútil a demonstração de que a liberdade de expressão, de informação, de reunião, de associação, ou seja as mais amplas liberdades, sempre foram um mito, nos regimes comunistas. Inútil a demonstração dos factos sobre a repressão extremamente violenta aos “fascistas”, em nome do antifascismo definido pelo comité central. Inútil a demonstração de que os regimes comunistas foram extremamente mais eficazes na repressão política, do que os regimes ditatoriais da Europa do sul.
Nada disto conta, porque os antifascistas, por cá, são os heróis do tempo que passou. Com o apoio expresso daqueles que lhes conquistam os votos…
O protesto do PCP, por causa do programa, é patético, porque a esquerda que sempre aí residiu, mudou de casa.
Aburguesou-se, voilà.

Publicado por josé 18:20:00  

5 Comments:

  1. OL said...
    EXCELENTE!

    (O que muitos pensam e não souberam ou não tiveram coragem de dizer.)
    Pedro Namora said...
    O seu texto sobre o PCP é um tratado justificativo da atitude censória da RTP, que só lhe fica mal. Lamento, sinceramente, que o senhor, cujos textos aprecio e habitualmente subscrevo na íntegra, se transfigure tão radicalmente quando fala do PCP. É bem perceptível o ódio que nutre pelos comunistas. Mas, mesmo que tudo quanto disse do PCP fosse verdade - e como sabemos, não passa da sua interpretação da história - julgo ser inegável para qualquer democrata que se preze, que o Partido Comunista Português tem o direito de ser ouvido.
    A vida do PCP está pejada de coerência, coragem, combate à iniquidade, resistência, e isso orgulha centenas de milhares de portugueses. Considera que são poucos? Existisse liberdade de expressão e igualdade de oportunidades e seríamos seguramente muitos mais. Pessoalmente, gostaria que o senhor, que sei um homem sério, fizesse o esforço de comentar aquilo que o PCP efectivamente defende. E que não descesse ao ponto, frequente noutros, de ridicularizar, diminuindo ou adulterando, as posições que o Partido tem assumido.
    Relativamente a Ieltsin: essa referência não o ajuda. Esse alcoólico representou tudo quanto uma pessoa séria pode combater. E julgava não haver anticomunismo que apagasse essa evidência.
    Carlos said...
    Caro Pedro Namora:

    Não sei se ainda vai ler isto que escreverei, mas conto prosseguir neste tipo de pequenos ensaios contra o PCP e a sua ideologia de princípios caducos.

    Porém, escrever contra ideias não significa ter ódio seja a quem for.

    Nem sequer às ideias...
    josé said...
    Este comentário que antecede, é meu - José - e não do Carlos.

    Não sei como é que isto sucede.
    josé said...
    Para além disso e em resumo, caro Pedro Namora:

    O PCP é um partido sem qualquer futuro coerente.

    Faria bem melhor em desaparecer como partido e reformar-se como fizeram os italianos.

    Além disso, a democracia está a precisar de pessoas bem formadas de carácter e sem vícios de poder.

    O PCP está cheio dessas pessoas. O problema é que continuma a acreditar numa utopia sem qualquer sentido no mundo actual.

Post a Comment