Pequenos deuses caseiros

Celebrou-se esta semana que passou, o centenário do nascimento de António Gedeão. O poeta António Gedeão, agora conhecido como Rómulo de Carvalho, professor do ensino secundário e que publicou há cinquenta anos, o seu primeiro livro. Segundo o próprio declarou em entrevista televisiva, antes não se sentia preparado, seguro, para tal. E foi por isso que pretendeu o anonimato relativo de um pseudónimo que escondeu da própria mulher.

Mas… a comemoração falhou um aspecto primordial, essencial, do fenómeno e que consiste em termos um poeta, conhecido principalmente através da música popular.
Mais: não fora o movimento dos baladeiros, no final dos anos sessenta e António Gedeão, não seria a figura que é, na poesia portuguesa. Mais ainda: a Pedra Filosofal , em vez da Grândola, deveria ter sido o sinal musical do 25 de Abril, na minha opinião.
Como é que aqui se chegou?
Tudo começou com a Pedra Filosofal cantada por Manuel Freire, no início de 1970.
Antes, em 1968, Manuel Freire cantara já, acompanhado a viola acústica, Dedicatória, de Fernando Miguel Bernardes ( “Se poeta sou, sei a quem o devo; Ao povo a quem dou os versos que escrevo. Da sua vida rude, colhi a poesia; tentei quanto pude, dar-lhe a melodia”) e ainda Livre, de Carlos de Oliveira ( “Não há machado que corte A raiz ao pensamento. Não há morte para o vento, não há morte.”).
Manuel Freire, com a Pedra Filosofal, relançou o interesse na poesia de António Gedeão, cujas obras completas, tinham sido publicadas cerca de dez anos antes.
A canção, editada pela marca Zip-Zip Movieplay, em 14 de Janeiro de 1970, foi um êxito, logo à saída, e a sua divulgação, ao vivo, no programa Zip-Zip, de Carlos Cruz, Raul Solnado e Fialho Gouveia, apenas acrescentou notoriedade ao cantor e ao poema.
Em 1970, para além de Manuel Freire, nas cantigas a solo e que mereceram o epíteto de baladeiros, antes de serem catalogados como cantores de intervenção, podiam ouvir-se na rádio e em discos ep, singles e até em longa duração, José Afonso, Padre Francisco Fanhais, Adriano Correia de Oliveira, Vieira da Silva, Barata Moura ( que cantava também em francês), Luís Cília, Duarte & Ciríaco e …nada mais, quase. Fausto, cantou Ó Pastor que choras, ( obra prima), em 1970 e parou até 74. O tempo de José Mário Branco, Sérgio Godinho, Luís Cília ( ausentes em França) José Jorge Letria, Fausto, viria também a seguir.
O sucesso de Manuel Freire, com a Pedra Filosofal, levou-o a uma fama duradoura nos anos vindouros. Em 27 de Março de 1970, participou no convívio promovido por uma revista do Porto, Mundo da Canção, cujo primeiro número saído em Dezembro de 1969, continha já as letras das suas primeiras canções ( Dedicatória e Livre). A revista, aliás, fez tudo o que podia e devia pela divulgação da nova música popular portuguesa, a par com a publicação de letras de música do estrangeiro anglo-saxónico, francês, italiano e espanhol, para além, claro, do brasileiro. Porém, a ênfase era sempre colocada na música portuguesa de intervenção (e não só); foi aí, nesse viveiro intelectual e artístico que aprendi a gostar da música portuguesa.

Quanto à poesia de António Gedeão, continuou nos anos a seguir, a servir de inspiração a grandes obras da música popular portuguesa.
Manuel Freire, em 1971, também na etiqueta Zip-Zip, edita o ep Dulcineia, contendo este poema de José Gomes Ferreira e ainda o Poema da malta das naus, de António Gedeão.
Em 1972, António Gedeão, levou mais um grande empurrão na fama, com a intervenção de outro músico, também médico, também alferes, recolhido no mato do norte de Angola, em tempo de guerra ultramarina.
José Niza, apanhou o volume da poesia completa do poeta e com o tempo longe de todos, compôs uma obra prima da música popular portuguesa: Fala do Homem nascido, saído em 1972, destacando a poesia de António Gedeão, reforça as vozes já antes reveladas, de Samuel, Duarte Mendes, Tonicha, Carlos Mendes e a orquestração de José Calvário, para além do que se conhecia dos festivais da canção, cunhados como do "nacional-cançonetismo”, termo da autoria de João Paulo Guerra.
Talvez seja este disco que nos anos a seguir, passou com frequência nas rádios da época, normalizado pelas vozes correntes e festivaleiras, a pedra de toque na divulgação da poesia de António Gedeão.
Lágrima de preta, associa-se à voz de Duarte Mendes, como a Luísa da Calçada de Carriche, fica ligada à voz de Carlos Mendes ( sobe Luísa; Luísa sobe…) ; Poema da malta das naus, antes cantado também por Manuel Freire, num registo lento, refaz o vigor épico, na voz mais estugada de Samuel e o pícaro Poema do fecho éclair só se entende na voz de Carlos Mendes.
Enfim, passados todos estes anos, as memórias que sobram das músicas e poesias do Portugal da década de setenta, ecoam nas décadas que seguem, repetindo os mesmos nomes, num universo restrito e que fatalmente esbarra em pequenas estrelas, grandes astros, cometas ( António Macedo e Luís Rego por exemplo), e também estrelas cadentes.

O pequeno universo da música popular portuguesa que fazia na época brilhar, até hoje, a poesia de António Gedeão, contava-se em poucos nomes.
Alguns, importantíssimos, como é o caso de Carlos Cruz, divulgador ímpar da mesma, no programa e produções Zip-Zip.
Os nomes que giraram à roda desse pequeno universo de produção musical, conhecido como o Tempo Zip, abrangem quase todo o espectro de uma esquerda que já não há, mas que se solidarizou nas amizades antigas.
Músicos, produtores de tv, compositores, actores e personagens dos media portugueses, solidarizados em compreensíveis amizades, atestam a inocência de um tempo que acabou. São muitos, estão espalhados pelos jornais, rádios, tv´s, e foram já apanhados por outra geração.
O tempo Zip passou e ficou a memória de algo ímpar, nestas últimas décadas, em prol da cultura popular. António Gedeão, Manuel Freire, as produções Zip, José Niza, a rádio da época, alguns jornalistas de época, estão ligados no tempo. E o tempo é implacável. Este tempo é implacável.
Rever esse tempo actualizado, com essas memórias, desvenda-se por vezes como uma tragédia, por causa de um escândalo sexual. Grega ou Shakespeareana é o que falta saber. Mundo da Canção,nº5, Abril 1970

PS
. Este texto é uma espécie de resposta às brilhantes incursões nas memórias de M.C.R., aqui, neste lugar de culto.
Nota: o título do texto é de Manuel Freire.

Publicado por josé 19:01:00  

3 Comments:

  1. zazie said...
    Mais outro post de antologia. Isto é que não se lê em mais lado nenhum!
    ricardo batista said...
    A propósito:

    Impressão digital

    Os meus olhos são uns olhos.
    E é com esses olhos uns
    que eu vejo no mundo escolhos
    onde outros,com outros olhos.
    não vêem escolhos nenhuns.
    Quem diz escolhos diz flores,
    De tudo o mesmo se diz.
    Onde uns vêem luto e dores
    uns outros descobrem cores
    do mais formoso matiz.
    Nas ruas ou nas estradas
    onde passa tanta gente,
    uns vêem pedras pisadas,
    mas outros, gnomos e fadas
    num halo resplandecente.
    Inútil seguir vizinhos,
    querer ser depois ou ser antes.
    Cada um é seus caminhos.
    Onde Sancho vê moinhos
    D. Quixote vê gigantes.
    Vê moinhos? São moinhos.
    Vê gigantes? Sâo gigantes.
    António Gedeão
    M.C.R. said...
    Fora a questão grandola/pedra filosofal (que é interessante mas que não resiste á história) o texto é excelente. sobretudo se. como parece ser o caso, V., nessa época ser ou muito novo ou mesmo só um projecto. E começo por agradecer (como velho amigo dos irmãos Niza, contemporâneos meus, camaradas do CITAc e de outras várias aventuras) a referência ao Zé Niza que tem sido muito (demasiadamente) esquecido nesta história da música popular e na da sua vertente cultural e cívica. O Zé Niza está na história por direito próprio e brilho próprio. Vou ver se arranjo alguma coisa dele como músico do CITAC (foi ele quem -julgo- compõs a música do Galiza ficas sem homens, para uma peça rapidamente proibida a estrear pelo CITAC).
    gostaria porém de salientar o facto de José Afonso ter sido sempre uma excepção. Em 60 já era conhecido como fadista de Coimbrea e como autor de baladas (entre elas a balada do Outono). Daí que JA tenha sido sempre mais uma referência do que um membro de qualquer grupo. apadrinhou alguma gente nomeadamente o Sérgio e o Zé Mário que colaboraram com ele em gravações em Paris e cantou várias vezes mano a mano com o Adriano Correia de Oliveira e com o Bernardino (aqui funcionava a comum origem coimbrã). O duarte e oi críaco também coimbrões terão começado por influencia de vários membros do Orfeon (de coimbra) gente ligada à república dos "corsários das ilhas" que trouxeram para Coimbra as cantigas açorianas foi através deles que o JA as conheceu ((entre outros relembro o malogrado José Orlando Bretão e Germano Rego de Sousa ex-bastonário da Ordem dos Médicos, também membros do CITAC - aquilo era um mundo! - e presos comigo em 1962 por ocasião da crise académica).
    Eu, de vez em quando debico nessas histórias da música popular portuguesa, e nem sequer compreendo como os autores se esquecem de tanta coisa. dá a ideia que ou tem pouca informação ou deliberadamente ocultam aquela que não convém ou de que não gostam.
    De todo o modo obrigado por me obrigar a este esforço de memória e, en passant, obrigado pelas suas gentis refeências ao meu texto.

Post a Comment