Durante muito tempo pensei e desejei escrever sobre o assunto, não o tendo feito exclusivamente por falta de jeito e por justificados pruridos, pois quase de certeza que, ou cairia numa lamechice a que o porte digno da visada não apela, ou porque mediria o grau da desgraça humana pela beleza e atracção sentida, o que me soaria como uma forma de perversão. Felizmente que me fiquei só pela intenção, pois entretanto alguém o fez com as palavras certas.

Soco no estômago


Tem os pés descalços. Melhor, um dos pés. O outro não existe. Nem a perna. Tem o cabelo sempre todo emaranhado, espécie de confusão de rastas involuntárias. E sobre a pele morena, uns olhos verdes, grandes, luminosos, que desviam a atenção dos olhares dos outros da cadeira de rodas onde está sempre depositada, ali, no meio da estrada, quase sempre em frente ao Hotel Ipanema Park, a caminho da Foz. Os carros passam, desviam-se. Às vezes param. Ela rodopia, nunca sorri, estende a mão e regressa à linha que divide as duas faixas de rodagem. Quando há jogos do Mundial e a cidade fica vazia, ela continua lá. Quando os trovões caem do céu para se estatelarem no chão como caixas de sapatos com lâmpadas, também.

Helena

Publicado por contra-baixo 23:10:00  

9 Comments:

  1. Arrebenta said...
    Texto muito bom, e eu sou pouco de elogios.
    Lá, no "Braganza", temos um caso semelhante, a Lola Chupa, e não há chupa, perdão, chuva, nem sol, nem campeonato que a arranque da esquina do Conde Redondo.
    Vocações :-)
    Arrebenta said...
    ... aliás, um misto de vocação e economia paralela.
    No dia em que a Prostituição for fiscalizada, protegida e tributada, acabam-se os pagamentos em corpos, do Valentim Loureiro e do Pinto da Costa.
    Lá para 2100.
    naoseiquenome usar said...
    Homenagem, bonita, sentida...
    infelizmente impotente.
    Se os queremos tirar das ruas, Lamentávelmente, pouco depois voltam.
    Não sei se é a vida que os atira para as ruas, se são eles que querem as ruas. Há casos absolutamente surrealistas e fantásticos de gente intelectualmente dotada, bonita, que tem a perfeita noção de como ali chegou... e, ... não quer sair. Faça chuva, sol, vento ou brisa...
    Um retrato da realidade, sobretudo para reflectir.
    naoseiquenome usar said...
    Como é óbvio, nem sempre é assim. Há gente que é gente e que está ali, por.... destino.
    Um traço comum, é a resistência à mudança.
    Como dizem os fulanos da RFM, "vale a pena pensar nisto".
    maloud said...
    Deste lado, nas Antas, temos a Ana. Dorme nos degraus do prédio curvo e rosa da Pç. Velasquez, e no Verão nos bancos da Alameda Eça de Queiroz. Só pede cigarros. Mais nada.
    Mas é assim que quer viver. Porquê? Não sei.
    alexandre said...
    Cara Maloud (Desculpe dirigir-me deste modo ao seu heterónimo mas habituei-me a respeitá-la desde os tempos do blog da Constança e do Valente).
    Como sabe a vida não é simples. É complexa e contraditória. É real.
    A Ana pede cigarros porque é essa a sua «currency».
    E porque está ali a Ana ? Simplesmente porque ali está.
    Mas será que quer, a Ana, verdadeiramente, viver. Ou aguarda o termo do seu prazo. Perguntas, perguntas...
    alexandre said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    maloud said...
    Eu lembro-me bem de si, caro Alexandre. Tenho algumas excelentes recordações desse blog.
    Quanto à Ana, há muitos anos que me interrogo. Se um dia ela desaparecer, julgo que sentirei a sua ausência.
    Guida do Pino said...
    Para que a cena fique completa só falta dizer que era uma velhinha bonita ou homossexual ou cigana ou negra ou timorense.

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