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terça-feira, abril 04, 2006
Publicado por irreflexoes 18:38:00
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Publicado por irreflexoes 18:38:00
Todos os Homens honestos mataram César. A alguns faltou arte, a outros coragem e a outros oportunidade mas a nenhum faltou a vontade
Marcus Tullius Cicero, Philippicae
Henrique Medina Carreira
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K. Zagalo - M.I. secretário do Conde de Abranhos
Bebi sem querer o melhor vinho da minha vida, o Romanée-Conti Monopole de 1996. Inadvertidamente e em plena inconsciência bebi um vinho que, pela ordem natural das coisas, não seria provável beber sem ser convidado por algum amigo muito rico.
Tinha provado recentemente o Montrachet Romanée-Conti. Um conjunto de circunstâncias especiais fez com que me decidisse a mandar abrir uma garrafa desse vinho no restaurante Eleven, uma garrafa de 1990, o preço do vinho na lista era 750 euros, preço exorbitante mas que não me arrependi de pagar, seria uma vez na vida. O vinho foi o melhor vinho branco que alguma vez me passou pela boca, a um dos meus convidados vieram-lhe as lágrimas aos olhos. No nariz dava vontade de o ficar a cheirar para sempre, e o cheiro ia mudando com os minutos, e não mudava para melhor, mudava para diferente e igualmente bom. Na boca era a mesma coisa, justificava dizer-se que o vinho é o néctar dos deuses, era um néctar dos deuses, e como no nariz ia mudando sempre, sempre para diferente, como se estivesse a beber vários vinhos excepcionais saídos da mesma garrafa. Enfim, uma experiência que nunca vamos esquecer.
Em Fevereiro regressei ao tal restaurante Eleven, dizem que tem uma estrela do guia Michelin e tudo. O motivo era uma comemoração especial, a concretização de um projecto profissional. Convidei para jantar dois dos meus amigos mais intímos, também ligados ao tal projecto profissional, os dois grandes apreciadores de bom vinho. E a ideia era oferecer-lhes a experiência excepcional de provarem o Montrachet Romanée-Conti.
Fomos atendidos por um jovem aprendiz de escanção, um jovem leviano, que não devia ser deixado à solta num restaurante que ambiciona manter a tal estrelinha do Michelin. O jovem leviano informou que o vinho tinha acabado, não havia mais, nem para amostra, nem nada que se lhe comparasse. Desilusão profunda, o projecto de excursão só tinha o fim de beber o Montrachet. Com a tristeza na alma comecei a folhear a lista dos vinhos e, de repente, na secção dos tinto franceses, salta-me aos olhos o Romanée-Conti. Preço : 760 euros, uma exorbitância, mas eu ia preparado para pagar 750 euros pelo Montrachet, não era uma diferença tão pequena que me faria mudar de ideias. Na lista constavam os anos de 90 e 91. Optei pelo de 90, eco do Montrachet.
O jovem leviano, que depois se revelou incompetente e irresponsável, trouxe uma garrafa de 1996 e balbuciou algumas precisões inintelígiveis num francês incompreensível, e eu, a olhar para a garrafinha com uma expressão bovina, acenei três vezes a cabeça para cima e para baixo como o Hamlet. Veio o chefe do leviano e levianamente ajudou o leviano a abrir a garrafa. Abriram-na pelo método de cortar o gargalo a quente, e eu aí devia ter desconfiado de qualquer coisinha.
Garrafa aberta, vinho nos copos e expressões como «é a primeira vez que estou a beber vinho na vida !». A descrição que posso fazer da coisa é que foi beber aos golinhos pequeninos para ver se nunca mais acabava. O retrato é igual ao que já fiz do Montrachet, mas em muito melhor. Uma delícia, um prazer sem igual.
Tudo a correr pelo melhor, no melhor dos mundos. Mesmo se a certa altura tive de ser eu próprio a servir mais vinho aos meus convidados, porque o jovem leviano andava distraído sabe-se lá com o quê.
E no fim veio a conta. E o vinho custava 2.800 euros e o jovem leviano não me avisou da ligeira diferença de preço, e levianamente o chefe do leviano também não referiu o pequeno detalhe, e o chefe de mesa do tal restaurante Eleven que tem uma estrela do Michelin e tudo, com alguma candura na voz, explicou-me que tinha perguntado ao jovem leviano se eu tinha consciência do preço da garrafinha, e o jovem leviano a responder levianamente que sim, e eu branco como a cal da parede e a abrir e a fechar a boca como um peixe. E os meus convidados a perguntarem se eu me estava a sentir bem, com medo que me desse alguma coisinha má.
Dias mais tarde o meu amigo João Paulo Martins explicou-me que o Romanée-Conti tem subtilezas de terroir, traduzidas no tal balbuciar de algumas precisões inintelígiveis num francês incompreensível, que eu ignorava e que justificam diferenças notáveis de preço.
Conclusão : um bom exemplo da irresponsabilidade e incompetência portuguesas. Porque é indesculpável, para não dizer pior, porque continuo a querer acreditar que se tratou de pura incompetência, deixar a cargo de um jovem leviano o serviço de vinhos de um restaurante que se pretende de alto nível.
Segunda conclusão : um dos meus amigos avisou que ia tentar não urinar pelo menos durante três dias
João Canijo
Suplemento Fugas do Público