"Os dias loucos do PREC"

Foi publicado recentemente o livro Os dias loucos do PREC, recolha de textos publicados em jornais, pelos jornalistas Adelino Gomes e José Pedro Castanheira. Como bons jornalistas que são, relatam os anos de brasa da Revolução vistos das redacções e do ponto de vista editorial do momento que passou. Falta a perspectiva histórica fina e afinada pelo saber, cultura e reflexão crítica.
Aqui vai uma tentativa, das melhores que conheço.
É um texto interessante, esquecido, vindo do fundo dos tempos de 1979 e ...da Alma Lusíada.

O 25 DE ABRIL E A HISTÓRIA
António José Saraiva Diário de Notícias 26-01-1979

"Se alguém quisesse acusar os portugueses de cobardes, destituídos de dignidade ou de qualquer forma de brio, de inconscientes e de rufias, encontraria um bom argumento nos acontecimentos desencadeados pelo 25 de Abril.

Na perspectiva de então, havia dois problemas principais a resolver com urgência. Eram eles a descolonização e a liquidação do antigo regime.Quanto à descolonização havia trunfos para a realizar em boa ordem e com vantagem para ambas as partes : o exército português não fora batido em campo de batalha; não havia ódio generalizado das populações nativas contra os colonos; os chefes dos movimentos de guerrilha eram em grande parte homens de cultura portuguesa; havia uma doutrina, a exposta no livro "Portugal e o Futuro" do general Spínola, que tivera a aceitação nacional, e poderia servir de ponto de partida para uma base maleável de negociações. As possibilidades eram ou um acordo entre as duas partes, ou, no caso de este não se concretizar, uma retirada em boa ordem, isto é, escalonada, ordenada e honrosa.

Todavia, o acordo não se realizou, e retirada não houve, mas sim uma debandada em pânico, um salve-se-quem-puder. Os militares portugueses, sem nenhum motivo para isso, fugiram como pardais, largando armas e calçado, abandonando os portugueses e africanos que confiavam neles. Foi a maior vergonha de que há memória desde Alcácer Quibir.

Pelo que agora se conhece, este comportamento inesquecível e inqualificável deve-se a duas causas. Uma foi que o PCP, infiltrado no Exército, não estava interessado num acordo, nem numa retirada em ordem, mas num colapso imediato, que fizesse cair esta parte da África na zona soviética. O essencial era não dar tempo de resposta às potências ocidentais. De facto, o que aconteceu nas antigas colónias portuguesas insere-se na estratégia africana da URSS, como os acontecimentos subsequentes vieram mostrar.

Outra causa foi a desintegração da hierarquia militar a que a insurreição dos capitães deu início e que o MFA explorou ao máximo, quer por cálculo partidário, quer por demagogia, para recrutar adeptos no interior das Forças Armadas. Era natural que os capitães quisessem voltar depressa para casa. Os agentes do MFA exploraram e deram cobertura ideológica a esse instinto das tripas, justificaram honrosamente a cobardia que se lhe seguiu. Um bando de lebres espantadas recebeu o nome respeitável de «revolucionários».

E nisso foram ajudados por homens políticos altamente responsáveis, que lançaram palavras de ordem de capitulação e desmobilização, num momento em que era indispensável manter a coesão e o moral do exército, para que a retirada em ordem ou o acordo fossem possíveis. A operação militar mais difícil é a retirada; exige, em grau elevadíssimo, o moral da tropa. Neste caso, a tropa foi atraiçoada pelo seu próprio comando e por um certo número de políticos inconscientes ou fanáticos, e em qualquer caso destituídos de sentimento nacional. Não é ao soldadinho que se deve imputar esta fuga vergonhosa, mas aos que desorganizaram, conscientemente, a cadeia de comando, aos que lançaram palavras de ordem que, nas circunstâncias do momento, eram puramente criminosas.

Isto quanto à descolonização, que, na realidade, não houve. O outro problema era o da liquidação do regime deposto. Os políticos aceitaram e aplaudiram a insurreição dos capitães, que vinha derrubar um governo, que, segundo eles, era um pântano de corrupção e que se mantinha graças ao terror policial : impunha-se, portanto, fazer o seu julgamento, determinar as responsabilidades, discriminar entre o são e o podre, para que a nação pudesse começar uma vida nova. Julgamento dentro das normas justas, segundo um critério rigoroso e valores definidos.

Quanto aos escândalos da corrupção, de que tanto se falava, o julgamento simplesmente não foi feito. O povo português ficou sem saber se as acusações que se faziam nos comícios e nos jornais correspondiam a factos ou eram simplesmente atoardas. O princípio da corrupção não foi responsavelmente denunciado, nem na consciência pública se instituiu o seu repúdio. Não admira por isso que alguns homens políticos se sentissem encorajados a seguir pelo mesmo caminho, como se a corrupção impune tivesse tido a consagração oficial. Em qualquer caso já hoje não é possível fazer a condenação dos escândalos do antigo regime, porque outros talvez piores os vieram desculpar.

Quanto ao terror policial, estabeleceu-se uma confusão total. Durante longos meses, esperou-se uma lei que permitisse levar a tribunal a PIDE-DGS. Ela chegou, enfim, quando uma parte dos eventuais acusados tinha desaparecido e estabelecia um número surpreendentemente longo de atenuantes, que se aplicavam praticamente a todos os casos. A maior parte dos julgados saiu em liberdade. O público não chegou a saber, claramente; as responsabilidades que cabiam a cada um. Nem os acusadores ficaram livres da suspeita de conluio com os acusados, antes e depois do 25 de Abril.

Havia, também, um malefício imputado ao antigo regímen, que era o dos crimes de guerra, cometidos nas operações militares do Ultramar. Sobre isto, lançou-se um véu de esquecimento. As Forças Armadas Portuguesas foram alvo de suspeitas que ninguém quis esclarecer e que, por isso, se transformaram em pensamentos recalcados.

Em resumo, não se fez a liquidação do antigo regímen, como não se fez a descolonização. Uns homens substituíram outros, quando os mesmos não substituíram os mesmos; a um regímen monopartidário substituiu-se um regímen pluripartidário. Mas não se estabeleceu uma fronteira entre o passado e o presente. Os nossos homens públicos contentaram-se com uma figura de retórica: «a longa noite fascista».

Com estes começos e fundamentos, falta ao regime que nasceu do 25 de Abril um mínimo de credibilidade moral. A cobardia, a traição, a irresponsabilidade, a confusão, foram as taras que presidiram ao seu parto e, com esses fundamentos, nada é possível edificar. O actual estado de coisas, em Portugal, nasceu podre nas suas raízes. Herdou todos os podres da anterior; mais a vergonha da deserção.

E, com este começo, tudo foi possível depois, como num exército em debandada: vieram as passagens administrativas, sob capa de democratização do ensino; vieram «saneamentos» oportunistas e iníquios, a substituir o julgamento das responsabilidades; vieram os bandos militares, resultado da traição do comando, no campo das operações; vieram os contrabandistas confessos e os falsificadores de moeda em lugares de confiança política ou administrativa; veio o compadrio quase declarado, nos partidos e no Governo; veio o controlo da Imprensa e da Radiotelevisão, pelo Governo e pelos partidos, depois de se ter declarado a abolição da censura; veio a impossibilidade de se distinguir o interesse geral dos interesses dos grupos de pressão, chamados partidos, a impossibilidade de esclarecer um critério que joeirasse os patriotas e os oportunistas, a verdade e a mentira; veio o considerar-se o endividamento como um meio "honesto" de viver. Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco.

Ao contrário das esperanças de alguns, não se começou vida nova, mas rasgou-se um véu que encobre uma realidade insuportável. Para começar, escreveu-se na nossa história uma página ignominiosa de cobardia e irresponsabilidade, página que, se não for resgatada, anula, por si só, todo o heroísmo e altura moral que possa ter havido noutros momentos da nossa história e que nos classifica como um bando de rufias indignos do nome de nação. Está escrita e não pode ser arrancada do livro.

É preciso lê-la com lágrimas de raiva e tirar dela as conclusões, por mais que nos custe. Começa por aí o nosso resgate. Portugal está hipotecado por esse débito moral, enquanto não demonstrar que não é aquilo que o 25 de Abril revelou. As nossas dificuldades presentes, que vão agravar-se no futuro próximo, merecemo-las, moralmente.

Mas elas são uma prova e uma oportunidade. Se formos capazes do sacrifício necessário para as superar, então poderemos considerar-nos desipotecados e dignos do nome de povo livre e de nação independente. »

( Texto corrigido, por sugestão de António Viriato, do blog Alma Lusíada, em 28.4.2006)

Publicado por josé 22:50:00  

10 Comments:

  1. Francisco Bruto da Costa said...
    Creio que a análise de AJSaraiva é aguda, inteligente e... injusta !
    Injusta porque silencia todos os dados históricos coevos da descolonização e do 25 de Abril.
    O verdadeiro e grande culpado do estado a que se chegou foi um senhor de nome Oliveira Salazar que contra os ventos da História criou uma "coisa" chamada "Acto Colonial" fazendo com que o regime político das colónias regredisse dezenas de anos (no início do séc. 20 existia um regime de altos comissários em que o grau de autonomia das colónias era notável para a época - Salazar não sabia conviver com outros poderes, só sabia mandar, e através do acto colonial transformou as colónias em "províncias" de regime fictício - cabe na cabeça de alguém equiparar Angola ou Moçambique ao Minho ou a Trás-Os-Montes ???)
    Com isso o velho ditador conseguiu criar uma "panela de pressão" que estava prestes a rebentar a 25 de Abril - a descolonização foi feita à pressa, sem dúvida, mas qualquer pessoa com juízo foge a sete pés de uma panela de pressão prestes a explodir...
    Havia por outro lado a questão da guerra fria, que estava no auge nos anos sessenta/setenta - interesses hiper-poderosos (EUA, URSS, China, Movimento dos Não Alinhados) instalaram-se rapidamente nas colónias portuguesas ainda no período colonial, com a "ajuda" da política oficial portuguesa, que com o seu autoritarismo primário e cavernícola atirava literalmente os nacionalistas africanos para os braços dos movimentos comunistas e afins.
    Todos se preparavam para o "Day After"... menos os portuguesinhos, cuja doutrina oficial era a de que esse dia nunca chegaria.
    Naquele xadrez de forças hiper-poderosas as jogadas portuguesas estavam condenadas ao fracasso pois Portugal foi colocado em contra-corrente e era alvo de condenações internacionais quase diárias - na ONU as humilhações aos nossos diplomatas eram quase dia sim, dia não - com um regime político a cair de podre e uma diplomacia 30 ou 40 anos atrasada nos ventos da História era provavelmente impossível ter-se feito melhor do que se fez.
    Finalmente, equiparar o MFA a um bando de rufias é terrivelmente injusto: esse "bando de rufias" instaurou um regime constitucional e democrático, entregou o poder aos políticos civis e recolheu aos quartéis - um verdadeiro bando de rufias teria ficado com o poder nas mãos, teria instaurado um regime de tipo justicialista e ter-se-ia eternizado no poder, enriquecendo e aumentando o seu poder.
    Não é, evidentemente, da responsabilidade do MFA o facto de os políticos civis terem transformado a democracia portuguesa na realidade triste, mísera e mesquinha em que ela se tornou.
    Pedro M said...
    Concordo com o que Francisco disse sobre a injustiça se se chamarem "rufias" aos elementos do MFA.
    Além de traidores "clássicos" foram "tótós", leia-se idiotas úteis.
    O Raio said...
    Discordo em grande parte com o que António José Saraiva escreve.
    É evidente que Portugal estava em condições de negociar um fim de guerra muito diferente do que realmente aconteceu. As tropas portuguesas controlavam em grande parte o terreno, nalguns casos até totalmente, e o diálogo era possível com o inimigo que culturalmente estava muito próximo de nós.
    Mas no resto AJS falha completamente. Não sei quem mexeu os cordelinhos por detrás da cena mas a verdade foi que a actuação do MRPP com indivíduos como o Durão Barroso, por exemplo, à frente que destruiu qualquer tipo de negociação.
    O MRPP com o slogan “nem mais um soldado para as colónias” e com a sua actuação entre nos quartéis entre os recrutas impediu a renovação das tropas no terreno. As tropas que teriam de ter partido para África ou não partiram ou partiram tão mal preparadas que se tornaram inúteis.
    Os que “fugiram como pardais, largando armas e calçado” foram raros e foram de tropas preparadas de pois do 25 de Abril já com a doutrinação do MRPP nos quartéis.
    É que numa fase crucial em que era necessário não diminuir a força no terreno e até talvez aumenta-la houve grupos como o MRPP e outros que tais que apunhalaram as negociações pela retaguarda deixando os negociadores portugueses sem nada nas mãos e provocando, em última análise um imenso banho de sangue.
    É uma ironia que um dos causadores deste banho, Durão Barroso, se encontre agora como Presidente da Comissão Europeia e inocente como o mais puro dos anjos…
    Sliver said...
    http://www.observatoriodajihad.blogspot.com/
    maloud said...
    Eu juntaria ao MRPP do Durão Barroso outros MLs, todos eles viveiros de grande parte da fina flor da nossa actual classe política.
    Principe Negro said...
    Pandilha de piolhentos mal-cheirosos, entretanto convertidos ao burguesismo politicamente-correcto. Agora a falta de pensamento crítico, a piolhice, irresponsabilidade e sobretudo a muida falta de vergonha não são infelizmente exclusivo dessa época. Fazem parte do ADN lusitano e estão aí resplandecentes como o prova o Portugal "moderno" que entretanto construimos (ou deixámos construir)
    tina said...
    Pois é, também não percebo como é que se admite alguém que pertenceu à juventude nazi ser actualmente o chefe da igreja católica. Ai, como anda este mundo...
    António Viriato said...
    Informo que o texto de AJS foi já por mim de novo cotejado com o do livro em que ficou inserido, «Os Filhos de Saturno», e corrigido em alguns pequenos mas importantes pormenores. Em respeito ao seu distinto autor, que primava pelo acendrado culto da Língua Portuguesa, peço-lhe que faça outro tanto.

    Obviamente que também lhe agradeço toda a publicidade que dele tem feito, com o que todos nós, portugueses, lucramos, ainda que um tanto nos doa a lê-lo. Mas, por vezes, como reza a sabedoria popular, de mães de Ministros e tudo, o que arde cura. Quem nos dera que AJS ainda por cá andasse, para sofrermos o ardor de o escutar !

    Obrigado.
    Fado Alexandrino said...
    Acabo de o comprar.
    Deve estar a csausar uma grande azia a muitos que ainda andam por aí.

    A fotografia de Otelo (Pag. 89) a chegar de heli aos jardins da Gulbenkian, com os jornalistas em respeitosa veneração, é toda ela um programa.
    Cingab said...
    Não será bem como ele escreveu, princialmente no que diz respeito às adjectivações dos herois do 25 de Abril...
    Falta construir o 25 de abril... Faltava em 79, em 2006 continuamos na mesma... E tenho pena que muitas das suas dores continuam presentes!...

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