O Parlamento da triste figura

Quiçá a conselho dos ex-leninistas-caviar da sua bancada - que ainda recordarão que “só a verdade é revolucionária” - o PS inviabilizou hoje a audição parlamentar do ex-Director Nacional da Polícia Judiciária, sobre as circunstâncias que rodearam a alteração da equipa dirigente da PJ, depois de ter viabilizado a audição do Ministro da Justiça sobre o polémico assunto.

“Lei da rolha no parlamento”, clama o PSD, ofendendo injustamente a Lei de Imprensa de 1850, aliás chamada “das rolhas”. Os aspectos criticáveis da dita lei, bastante empolados pelas paixões políticas da época, são um fait divers quando comparados com a presente degradação da instituição parlamentar, que já não cuida sequer de aparentar um mínimo de transparência no escrutínio de factos e actuações políticas.

O crescente descrédito do Parlamento parece não preocupar a maioria da Deputação, que decerto não ignora que o PS e as instituições democráticas irão pagar uma grossa factura por conta destes números malabares.

Até quando irá Sócrates suportar os custos políticos dos sucessivos paliativos destinados a adiar o bota-fora ministerial do Dr. Alberto Costa? – é a questão que se impõe.

Publicado por Gomez 17:26:00  

4 Comments:

  1. Valmoster said...
    Tal como a ASFIC(Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Crimininal) que mandou calar o Dr. Santos Cabral, está o PS que também o não quer ouvir. Estranha coincidência!!!!!
    Clara said...
    De recordar que o PSD, quando Maria José Morgado foi demitida por Celeste Cardona, também impediu a sua audição na Assembleia da República. Além disso, se Santos Cabral fosse uma pessoa digna e estivesse a ser sério, ~falaria apenas na Assembleia e não teria andado pelos canais de TV e rádio (e jornais) a desmentir o Ministro e a dizer a sua opinião. Então, se ele já disse tudo o que queria na comunicação social, para quê ir à Assembkeia?
    Gomez said...
    Quanto a situações passadas do mesmo género, a Clara não pode deixar de ter razão. Deve ter havido várias (não me recordo se a que refere se passou exactamente assim). Mas as vergonhas parlamentares pretéritas em nada diminuem a gravidade das presentes. A menos que o lema da actual maioria seja: queremos ser tão maus como os que nos antecederam. Em algum momento, terá de se pôr cobro à degradação da instituição parlamentar e consequente fragilização da nossa democracia.
    Veja-se a total falta de crédito dos inquéritos parlamentares.
    Nem comento a sua apreciação sobre a dignidade e seriedade de Santos Cabral por reporte às atitudes de Alberto Costa.
    A justificação para a audição parlamentar residia, exactamente, nas graves divergências entre os factos e afirmações, tornados públicos, quer pelo Ministro quer pelo ex- Director da PJ. Ambos se pronunciaram publicamente. A haver audição parlamentar, ambos deveriam ser ouvidos para esclarecer a polémica. Se o melindre da matéria o justificasse, poderiam inclusivamente ser ouvidos "à porta fechada".
    Alberto Costa também disse tudo o que quis na comunicação social. Se Santos Cabral tivessse reservado as suas explicações para uma hipotética audição no Parlamento, ficou demonstrado que nunca as conheceríamos.
    A versão do Ministro da Justiça não pode ser "a verdade a que temos direito"...
    Gomez said...
    Ainda três breves notas:
    - Sem que isso altere o que disse no comentário anterior, a verdade é que, ao contrário do que a Clara referiu, Maria José Morgado foi ouvida no Parlamento, durante sete horas, na sequência da sua demissão da PJ (ver aqui);
    - Até Vital Moreira já veio defender que Santos Cabral deveria ter sido ouvido na AR;
    - Aos interessados em conhecer as vicissitudes do processo legislativo da Lei das rolhas, sugiro a leitura do estudo que Maria de Fátima Bonifácio recentemente lhe dedicou no livro “A segunda ascensão e queda de Costa Cabral 1847-1851” (Lisboa, ICS, 2002).

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