sim, Choque de civilizações

Romano-Cristãos

Na sua mais recente obra, “Jesus e Javé, os nomes divinos” (ed. Objetiva), Harold Bloom ataca o mito da "civilização judaico-cristã", lugar comum interiorizado no "ocidente" nas últimas décadas, e pretende demonstrar que Javé e Jesus, judaísmo e cristianismo, têm discursos divergentes e mesmo antagónicos, pelo que estão condenados a nunca se entender.
De facto, pergunto-me se, mais do que "judaico-cristã", a nossa civilização "ocidental" não será antes romano-cristã. Instituições, leis, filosofia, relações familiares e sociais, tudo o que nos caracteriza e diferencia dos "outros" não tem a sua origem no Império Romano cristianizado de há 2.000 anos? E não residirá aí a génese do tão propalado "choque de civilizações"? É que foi o "ocidente" (chamado de "cristandade" até ao sec. XIX) romano-cristão quem gizou todo o direito internacional que rege o mundo actual. Foram cabeças "ocidentais", milenarmente familiarizadas com o conceito cristão de igualdade entre os homens ("Não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" - Gálatas 3:28) que fizeram a declaração universal dos direitos do homem, criaram a ONU e todo o seu edifício legislativo e programático. Mesmo aqueles que no "ocidente" se declaram agnósticos ou ateus beneficiam-se da sociedade e do direito criados pela "cristandade" e incorporam os seus valores. Algumas vezes chamando-lhes outra coisa. "Socialismo", por exemplo. Daí que conceitos como "democracia" e "direitos do homem" soem a ouvidos orientais (das mais diversas longitudes) como heresia ou proselitismo cristão. E quando tais "ameaças" lhes são empurradas goela abaixo, ou toleram-nas, por temor reverencial e de olho na ajuda em dólares (ou euros) que costuma compor o pacote. Ou rechaçam-nas com violência, como um corpo estranho que lhes ameaça a própria existência.

in Gândavo

Publicado por Manuel 20:06:00  

1 Comment:

  1. Pedro M said...
    Também não é propriamente novidade esse conceito da apropriação dos valores ditos cristão spela esquerda. Já Nietzsche o dizia. Aliás, na génese de ambos os movimentos está a mentalidade do fraco, do escravo, que intelectualiza e nega a sua condição real para a enobrecer e legitimar.
    Ao contrário do que pode parecer, um comuna tem muito de semelhante com um cristão.

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