O Ministério da Cultura vai tutelar – whatever it means – as comemorações do centenário do nascimento de Fernando Lopes-Graça. Para além de achar que é mais do que obrigatória a homenagem ao Compositor Português do sec XX, esperando que esta seja feita à séria e não apenas para cumprir calendário, pois uma entidade com as responsabilidades do Ministério da Cultura não deve, por uma única vez que seja, comportar-se como uma qualquer SAD que apenas vai a jogo para não descer de divisão, alimento também o obscuro desejo que um dia destes apareça registo de uma conversa que supostamente um dia alguém teve a insensatez de gravar sem o conhecimento do compositor e na qual este arreou de cima abaixo em muito do que ainda hoje se dá por adquirido como genial. Para que não fiquem dúvidas, desde já declaro que do assunto apenas tenho conhecimento por via indirecta, embora, neste caso, seja tentado a aplicar-lhe o mesmo princípio que me faz acreditar que a Lua existe, apesar de nunca lá ter estado.

Publicado por contra-baixo 00:34:00  

9 Comments:

  1. João Miguel Pais said...
    Caro Contrabaixo:

    não percebi exactamente qual é o contributo do seu poste. No que é que iria ajudar saber o que o compositor disse numa situação privada? Que quer dizer com genial, de outras músicas, da sua própria, ...? O que é que quer dizer, certamente?

    Quanto à "tutela", bem, talvez não vá mais longe que uma oportunidade de alguns tipos sacarem mais uns concertos pagos (mais subsídios da EU), para depois voltar tudo à mesma. Se querem fazer o compositor vivo, há muitas coisas que podem fazer:
    - republiquem (ou ponham-nos na net, já que ele é considerado património nacional - depois de morto, claro) os escritos dele, que não são poucos
    - o Museu Verdades de Faria (Estoril) ficou com o espólio do compositor. Esse museu disponibilizava a quem pedisse fotocópias GRATUITAS de qualquer obra que não esteja publicada - como se pode adivinhar, 90% da produção de FLG. Eu próprio tenho em casa o seu Requiem e outras peças. Não sei se o museu ainda o faz, mas não custa perguntar.
    - até agora, que eu saiba, a única musicóloga que fez algum trabalho sério foi a Teresa Cascudo, espanhola (http://contemporaneas.blogspot.com/), e nenhum português publicou algo significante (análises, recensões, seja o que mais...).
    - se a música de FLG é tão importante para a cultura musical nacional, porque é que os alunos dos conservatórios não tocam mais da sua música? porque é que a única música que "sobrevive" são as harmonizações corais, cantadas pelos coros amadores? (as harmonizações, não as peças "modernas", que também as há)
    - no ano passado foi executado o seu requiem, organizado por um seu antigo colaborador, José Robert, exactamente no dia do 10o aaniversário da morte do compositor. Para além de a própria SPA se ter esquecido de uma execução há vários anos atrás em Lisboa (por isso diziam, erradamente, que era a primeira execução em Portugal), para além de terem havido acções de boicote (eliminação de cartazes, p.e.) na última da hora foi cancelada a gravação do concerto pela RTP (http://theamazingtroutblog.blogspot.com/2004/11/dez-anos-sem-graa.html).

    Será que existe cultura, ou memória, em Portugal? Será que vale a pena, mesmo?

    João Miguel Pais
    contra-baixo said...
    Caro João Miguel Pais,

    O contributo do meu poste, tirando o de anunciar o centenário do nascimento de FLP, de exigir que o MC saiba estar à altura do acontecimento e a oportunidade de o ter a comentar, é “0”. Em relação à "conversa privada" de certeza que dela tem tanto conhecimento quanto eu e, se calhar, até mais. Se considero que seria lícito divulgá-la, respondo-lhe que não! Se me ia divertir em conhecer o seu conteúdo? - claro que sim (não sou perfeito, nem tenho essa pretensão). Se me pedir para optar, decido-me pela primeira, pois entendo que a privacidade é um direito de mesmo de quem não está entre nós e espero que em torno disto não seja criado nenhum caso, pois não passa de um fait divers com alguma graça.
    Gostei bastante da sua posta e das suas ideias. Este será um assunto ao qual em breve voltarei, pois fiquei com uma pulga atrás da orelha por causa do site (e domínio .com) que o MC anunciou, mas esta é uma história completamente diferente.
    contra-baixo said...
    (Já agora, deixe-me dizer-lhe que durante o evento Porto Capital da Cultura registei como de grande nível uma peça de cujo nome não me recordo, e a apresentação com intérpretes à altura, para orquestra e violoncelo de FLG. É uma obra cujo registo não se confunde com as Heróicas e que é digna de ser gravada e promovida cá e lá fora, espero é que poderes públicos e os agentes culturais envolvidos estejam à altura da empresa.)
    João Miguel Pais said...
    Por acaso não conheço a tal conversa nem tinha ideia que existisse (sou novo demais para essas andanças).
    Se o seu conteúdo fosse útil, porque não divulgá-la? Pelo menos por ser privada de certeza que seria sincera e directa (de paninhos quentes estamos todos fartos). O Graça já escreveu bastante sobre o tema no livro "Problemas da música e dos músicos portugueses" (?), que ainda está bem actual.

    Quanto à promoção de obras, em primeiro lugar é preciso ter uma política, coisa que o MC não tem, pelo menos em relação à música. Criando registros, edições, e espalhando a informação a coisa poderia andar. Mas as soluções até agora apresentadas foram sempre de curta dura.
    contra-baixo said...
    Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
    contra-baixo said...
    João Miguel,

    Nem sempre é fácil aos poderes públicos promover acções que visem a salvaguarda e a promoção do "nosso" património imaterial, como é o caso da música, quando este não está no domínio público. Disse que o espólio do compositor é detido pelo Museu Verdades Faria, acontece que para se agir da forma que propõe não basta ter a posse do suporte material das obras, é necessário ser-se também detentor do direito sobre as obras ou estar-se autorizado a fazê-lo e, nestas alturas, é costume esbarrar-se com os herdeiros dos autores, trata-se de uma espécie de gente que mais não faz do que viver à conta do trabalho de outros e que aproveita todas as oportunidades para que a herança lhes renda, colocando todo o tipo de entraves e mais alguns cheirando-lhes a dinheiro, a próprio SPA costuma ajudar à festa, preocupando-se mais com o rendimento que dá operação lhe poderá advir e menos com a valorização do autor que supostamente representa -prioridades!
    Desconheço no entanto em que estado se encontram as obras de FLG e se a situação descrita pode ocorrer, se o João souber agradeço-lhe que me informe pois tenho alguma curiosidade.

    PS: Esteja atento à GLQL, durante esta semana irei descrever o actual comportamento da SPA em relação a um determinado segmento da música popular e então dir-me-á o que pensa desta organização com quem é necessário lidar. Depois as pessoas admiram-se que escritores como o José Saramago optem por ser representados pela SGAE espanhola em vez da SPA nacional.
    João Miguel Pais said...
    [meio telegráfico, que tenho pouco tempo]

    "quando este não está no domínio público" - exactamente, é preciso fazer com que as coisas fluam e circulem.

    "Museu Verdades Faria" - a informacao que tenho nao é recente, pois há vários anos que nao os contacto. Essa foi a situacao há bastantes anos atrás, nao sei se mudou por enquanto. O melhor talvez seja perguntar (de momento nao tenho o contacto telefónico, mas está na lista - nao sei se a encarregada ainda é a Conceição Correia). Eu penso que o Graça lhes deixou o seu material em testamento, por isso eles terão direito a fazer o que melhor entenderem com a sua obra (mas isso será melhor confirmar).

    Um outro exemplo é o caso de Jorge Peixinho: o seu espólio encontra-se na posse do violinista José Machado (membro do GMCL, prof. do Cons. de Lisboa). Qualquer pessoa lhe pode pedir por uma partitura que ele tira uma fotocópia (mas neste caso já se paga o valor da mesma). É uma pessoa bastante simpática, mas estas coisas têm que ser manuseadas por investigadores profissionais, que juntamente fayem uma investigação, e que depois saberão como voltar a pô-las em circulação. Mas esses fios têm que ser tecidos.

    "Esteja atento à GLQL" - desde há vários anos que sou leitor diário. Não há hipótese de passar.

    "representados pela SGAE espanhola em vez da SPA nacional" - se eu próprio tivesse tido mais certezas e/ou um pouco mais de energia há uns meses atrás, já seria representado pela GEMA alemã. Mas esse erro vou corrigi-lo em breve.
    Teresa said...
    Por testamento, a Câmara Municipal de Cascais é a herdeira universal de Fernando Lopes-Graça. Salvo erro, a única excepção são os direitos das Canções Regionais Portuguesas, que foram legados à Fundação Lopes-Graça.

    A Câmara de Cascais fez este ano passado um investimento milionário na Casa Verdades de Faria, onde está instalado o Museu da Música Portuguesa que guarda o espólio do compositor. Foi reaberta no pasado dia 27 de Novembro. Actualmente, a Câmara também está envolvida num ambicioso projecto virtual co-financiado pelo POSI: um site dedicado a Lopes-Graça a partir do qual será distribuída a obra do compositor, que está em processo de transcrição.

    Imagino que a obra para violoncelo e orquestra referida nos comentários é o concerto que Lopes-Graça dedicou a Rostropovich. Existe uma gravação histórica (EMI) da sua execuçao em Moscovo na década de 60.

    Já agora, João Miguel, obrigada pelo teu simpático comentário. Continuo a trabalhar na obra de Lopes-Graça, que bem merece.

    Para o ano - se houver dinheiro... - vai sair um livro (a minha tese revista, pela editora Ariadne de Coimbra) e a edição - minha e de Ricardo Alves - das cartas de Lopes-Graça com os presencistas (pela Câmara de Cascais).

    Em Coimbra, no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, estamos a organizar o congresso internacional "O Artista como Intelectual", onde serão discutidos aspectos relacionados com a sua obra. Decorrerá nos dias 27 a 29 de Abril. Estão convidados, claro.

    Saudações, Teresa Cascudo.
    contra-baixo said...
    Obrigado João Miguel e Teresa Cascudo pelo esclarecimento. Espero é que mais pessoas os tenham escutado, pois parece-me que o vosso contributo ser(à)ia essencial para as comemorações. Eu próprio com o tempo voltarei ao assunto.

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