John Lennon



John Lennon
morreu, faz hoje 25 anos. Numa segunda-feira, 8 de Dezembro 80, às 10.50 pm, hora da noite de Nova Iorque, um fanático tresloucado, atirou-lhe cinco tiros, a matar. E assim acabou com a vida de Lennon que tinha 40 anos. Porém, começou logo aí, a mitificação, nos media mundiais e que continua, on and on and on.
Em Dezembro de 1980, John Lennon tinha um disco novo, saído cerca de um mês antes e as rádios passavam “(just like) starting over”. Música banal, quase pop, tal como Elton John sempre fez e com quem John Lennon fazia parcerias musicais.
O último trabalho digno de apreciação artística, datava já de Outubro de 1974, cuja capa, recortada em badana, se referia directamente a um desenho de infância, da sua autoria.
Walls and Bridges foi disco para ouvir no Natal desse ano, na rádio que passava repetidamente as faixas ( dizia-se assim) Whatever gets you through the night( em dueto com Elton John) e #9 dream, o último single digno desse nome, do grande co-compositor dos Beatles .
Nesse final de 1974, outros valores musicais despontavam, na cena da música pop anglo-saxónica: Supertramp tocava Dreamer; Rolling Stones, rockavam It´s only rock n´roll; Santana lançava a Borboletta e os Sparks faiscavam com Propaganda, depois de espantarem com Kimono my House.
Em Portugal, o disco de John Lennon, de finais de 1974, passou quase despercebido, numa onda de canções revolucionárias, entre as de Fausto, José Afonso, Sérgio Godinho misturadas com Victor Jara e Claudina e Alberto Gambino, repescadas de um tempo anterior e de qualidade musical interessante.
Em Dezembro de 1980, ainda sem MTV que apenas se viu em Agosto do ano seguinte, já nem se ouvia falar de John Lennon tanto como se ouvia falar, por exemplo, de Ronald Reagan ou se ouvia a música dos Bee Gees ou ainda a de Rod Stewart. A sofisticação sonora parava no muro dos Pink Floyd e na canção sobre a educação que não era precisa…

O tempo artístido de Lennon tinha passado. Irremediavelmente. Começava o tempo dos Police; dos U2; dos Dire Straits; dos Ac/Dc; de Van Halen e até de David Bowie e Rod Stewart!
Para mim, começava o tempo da descoberta dos Steely Dan de Gaucho, seguido furiosamente pela recuperação de todos os seus títulos dos setenta, tal como aconteceu com a descoberta de JJ Cale. Começou ainda a redescoberta de Milton Nascimento, de Sentinela e os sons de Pat Metheny. Por isso, não tive tempo para Joy Division e outros falidos do punk.

Assim, a homenagem que se faz a John Lennon, por ocasião da efeméride do quarto de século post mortem, só pode recuar ainda mais um pouco. Dez anos, parando em Dezembro de 1970.
Foi há trinta e cinco anos que Lennon compôs e editou a sua canção-testamento: Mother( Mother, you had me but I never had you,I wanted you but you didn't want me, So I got to tell you,Goodbye, goodbye) , tirada do seu melhor álbum, Plastic Ono Band.

O que trazia Mother, de especial, em relação a outras composições dos Beatles?
Trazia o som de um sino a começar e que mesmo em toada lúgubre, lembra os sinos da minha aldeia de que falava Fernando Pessoa (Ó sino da minha aldeia/Dolente na tarde calma/Cada tua badalada/Soa dentro da minha alma.”).
As músicas antigas de John Lennon e esta em particular, trazem todas uma sonoridade autêntica, feita de referências aparentemente sentidas e reais.
É essa a diferença que o separa do outro génio compositor dos Beatles- Paul McCartney.
Lennon escrevia como quem debita sangue, suor e lágrimas nas canções. Paul McCartney, escrevia mais ou menos o mesmo- mas de cor. Genialmente de cor e à superfície dos sentimentos. A canção Mother, tem uma sonoridade que grita um desespero surdo e provavelmente impossível de comunicar em todo o sentido da sensibilidade.
É por isso justo que se escreva nos títulos dos Beatles, para atribuir autoria às canções- Lennon - McCartney.
É mais autêntico. Como aliás, se pode ler, nesta entrevista notável, à Playboy, de Janeiro de 1981, ou esta última, à Rolling Stone. Não há mitos relevantes, nessas entrevistas. Há apenas uma pessoa que se adivinha normal e igual a tantas outras. E isso merece homenagem, nos tempos que correm.
Foto tirada a scanner, da revista NME Originals/Uncut, de Outubro 2003

Publicado por josé 15:31:00  

9 Comments:

  1. cidadão profissional said...
    Caro José
    Dou-lhe os parabéns por este texto.

    (apenas uma nota: quem eram a Claudina e o Gambino?)
    zazie said...
    excelente!
    Mano Pedro said...
    Caro José,

    Você ainda é melhor a escrever sobre o mundo da chamada música ligeira e respectivos fenómenos e epifenómenos do que sobre o mundo da justiça e seus reflexos mediáticos - sendo que aí já é brilhante... Parabéns!

    Concordo muito em especial com o que, com tanta propriedade, soube dizer acerca do Mother, uma das minhas canções favoritas.
    JM Ferreira de Almeida said...
    Bom texto, José. Os meus parabéns.
    zezepovinho said...
    Elogio bacoco à música pimba anglossaxónica. Uma completa banalidade politicamente correcta. Apenas com uma excepção: os cabelos compridos de meia dúzia de pimbas, num mundo de cabelos masculinos curtos. Hoje completamente superados por brincos, pearcings e outras pimbalhadas do género, próprias de quem não tem nada dentro das cabeças.
    Mil vezes Amália, Zeca Afonso ou Madre Deus.
    Paulo said...
    Pois; quem é que, ouvindo Steely Dan, poderia encontrar ainda um átomo de paciência para o Lennon?...
    josé said...
    cidadão profissional:

    Claudina e ALberto Gambino eram cantores...cubanos! Em finais de 1974 tinham um álbum chamado "Daqui de onde nos veem" e tal como Victor Jara, eram presença assídua no programa. Uma das músicas deste último é uma maravilha de sempre: Levantate e mira la montaña! Era comunista, foi assassinado por isso, mas tinha uma voz e um talento que não se mediam em ideologias avulsas.

    A Rádio Renascença, pertença do Patriarcado de Lisboa, nessa época ( finais de 1974) tinha um programa de música popular que começava às 19h e 30m e acabava às 21h.
    Religiosamente, ouvia então o programa e coligia notas sobre a programação- que inda guardo.
    Tome nota, sff, das notas relativas à emissão de 2 de Janeiro de 1975:

    19h e 30m
    Indicativo do programa: Page One dos Pop Five Music Incorporated ( que incluía Miguel da Graça Moura que se diz autor desse instrumental meio funky...)
    1.Grupo desconhecido em Portugal-IF.
    2.Os Man e o álbum Slow Motion.
    Publicidade. Sparks e Never turn your back on mother earth, do 4º album do grupo, Propaganda.
    3. Atlantis e Son of a bitch son- do álbum Oh Baby.
    Publicidade. Instrumental.
    4.Claudina e Alberto Gambino e a canção cubana- Duerme, duerme, megrito. De Cuba também, Pablo Milanez- pobre do cantor que não arrisca ( sic).
    Instrumental. Publicidade.
    20 h:
    1. Johnny Nash. Carole King- change im my change on earth( na realidade é "change in mind", mas a audição em inglês, com 18 anos, ainda não era perfeita...) do álbum wrap around joy. Publicidade. Santana e o álbum Borboletta. Os Snaffle ( na realidade, Snafu...)e No more, do álbum...(deve ser o LP Situation Normal, mas não apontei). Publicidade.
    Um cantor espanhol e Cagitas.
    Sérgio Godinho- Etelvina.
    José Afonso- O que faz falta. Publicidade.
    Jimmy Cliff e Don´t let it die.
    Jack Bruce e Keep it Down.
    Jonathan Edwuards- TOday i started loving you again.
    Publicidade.
    Jim Capaldi e o álbum Whale meat again.
    The End ( sic).

    Foi assim a emissão desse dia 2.1.1975, apresentada por Luís Filipe Martins ( que hoje se chama Luís Paixão Martins e julgo que tem uma agência de publicidade a LPM). NO mês de Agosto de 1974, a emissão foi apresentada por...Artur Albarran! Esse mesmo...


    Em 9.1.1975, sabe quem esteve no programa, em reportagem alargada sobre a Faculdade de Direito de Lisboa que começou pouco depois das 10 h e durou até ás 20 h e 45m?
    Três estdudantes que se chamavam: PEdro Palhinha;Alberto Augusto e...um tal José Barroso! Sabe quem é este último, não sabe?
    Pois entre parêntesis coloquei a seguinte espressão que ouvi então do tal apresentador LPM- "( não reformista"). Ahahahaha!
    No programa começou por se revelar um documento ( carta a Marcelo Caetano, então na Madeira) na pedir o regresso às funções de professor daquela Fac. de Direito, Marcelo Caetano.
    Isto escrevi então...e confio plenamente nas minhas notas.E escrevi que logo a seguir o locutro colocou a tocar um instrumental e depois Sérgio Godinho e ...à queima roupa!
    josé said...
    Corrijo:

    O grupo desconhecido em Portugal, não era o IF. Era um T.
    Ainda hoje não faço ideia de quem se trata...
    josé said...
    Outra correcção:

    a emissão sobre a FDUL, coneçou às 20h...
    O programa da RR chamava-se Página ! e foi dos melhores de sempre da rádio em Portugal.
    Apresentaram-no Adelino GOmes, no início de 71, 72;Também um outro que depois foi correspondente da Deutesch Welle e que era do PS.Adelino Gomes e Luis Filipe Martins foram , sem dúvida os melhores radialistas dessa época gloriosa, do Página 1 da RR.

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