prioridades

O João Morgado Fernandes e o João Gonçalves não gostaram da manif dos polícias, um queixa-se que vai perdendo o respeito à autoridade, outro recorda o PREC. No Porto, e perante uma audiência selecta onde pontificava o sr. José Oliveira, braço armado do Major Valentim e personagem central do affair Dourado, Pinto Balsemão julgou ter descoberto a pólvora, o militante número um do PSD, Pinto Balsemão, alertou para a falta de grandes causas que devolvam ambição e orgulho, o défice, só por si, "não basta", ressalvou, apontando como prioridade a reforma da Justiça.

Aos três escapou o essencial. O facto é que desde há muito que existe - transversal à sociedade e a todos os sectores desta - um sentimento de desprezo, mais ou menos contido, quando não é de raiva, para com os políticos e a política. A política é vista como uma actividade pouco respeitável, nebulosa, como um meio de enriquecimento mais ou menos ilícito onde - com mais ou menos nuances - s(er)ão todos iguais e incompetentes. Em tempo de crise económica e de cortes cegos é natural e expectável que este sentimento só se agudize.

Não acreditando nos políticos, que é suposto representarem-nos a todos nós, não se acredita no sistema, e não se acreditando no sistema não se acredita em nada e desconfia-se de tudo. A lentidão da justiça associada a episódios pouco recomendáveis como o tratamente de favor - para não dizer mais - com que a olho nú o Dr. Pedroso foi tratado no caso pio faz com que até sistemas independentes do político como o judicial sejam confundidos com este por parecerem tomar também eles decisões políticas, segundo critérios e lógicas políticas.

Assim se chega ao pântano em que nos encontramos. Ora, enquanto não se perceber que enquanto não se encontrarem fórmulas estáveis de reintegrar toda a gente no sistema, de a fazer sentir, e não apenas quando é cortejada para ir votar, importante, relevante e tida em conta, enquanto não se reinventar o nosso sistema político de forma a este poder contar sempre com os melhores, e não com o refugo, nada, mas nada de essencial mudará.

Podem-se discutir reformas cirúgicas aqui, ali e acolá, mas enquanto o problema de fundo, que é também um de confiança, que é a relação dos portugueses com o sistema não for resolvido, nada se resolverá. Curiosamente não vejo por aí a falar seriamente de uma reforma - e digna desse nome - do nosso sistema político... Têm medo de abir uma caixa de pandora, não percebendo que já estamos todos é dentro de uma.

Publicado por Manuel 16:37:00  

6 Comments:

  1. fernando gonçalves said...
    Meu caro Manuel

    Concordo com a quase totalidade do seu texto.

    Só que, o Manuel acredita em milagres.

    Tendo o sistema politico sido "conquistado"por gente incompetente e com "ligações muito perigosas", quem vai fazer a reforma do sistema?

    Os que lá estão ?

    Milagre, não ?

    Então quem ?

    Concordo que o "sistema" tem que ser muito mudado, mas volto a perguntar:

    Quem ?
    Manuel said...
    quem ? nós, você, eu, enfim, o povo.
    Anónimo said...
    E eu.
    Para o político português, no mais restrito sentido da palavra, é preciso chegar a 1º ministro para passar a supranacional.
    Não foi o Guterres que falou no pântano?
    O que me espanta e emociona diariamente é o tamanho do cadáver de Portugal, canibalizado há 500 anos. O que foi construído em 300 ainda durará outros 500?
    Entristece-me a pequenez e a tacanhez dos nossos mandatados mesmo comparados com Salazar.
    fernando gonçalves said...
    Meu caro Manuel

    "Nós, você, eu, enfim, o povo".

    Se está à espera do "povo" (o que é isto do povo?) para fazer seja o que for, o melhor é esperar sentado.

    Quanto aos "nós, você, eu..." se não estivermos organizados, até porque somos muito poucos, é melhor nem pensar nisso, porque é o caminho mais directo para a depressão e o psiquiatra.

    Para finalizar, quantas pessoas já "passaram" por aqui desde que colocou este texto?

    Dezenas, centenas?

    Comentários: os meus, o seu e o do "anônimo" das 6.56.

    Este "nosso povo" é de comer e calar, nem se atreve a dizer (escrever) o que pensa, mesmo sendo "anônimo".

    Não pretendo, com este texto, ser derrotista, mas um pouco de realismo para saber os caminhos que devemos trilhar para têr algum sucesso, parece-me da mais elementar prudência.
    Anónimo said...
    Caramba! Estou esmagado com tamanha sabedoria de Manuel & Gonçalves...
    fernando gonçalves said...
    Anônimo das 10.35

    Chamo o 112 ?

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