Ratzinger e a requalificação da Igreja.

O Dr. Soares está triste, o Dr. Louçã indignado, o Sr. Saramago, esse paladino da liberdade de imprensa e expressão no DN nos idos de 75, clama contra o regresso da Inquisição, Paulo Gorjão compara-o a Jerónimo de Sousa, e a Igreja ao PCP, D. Januário Torgal Ferreira, um bispo que aproveita para demonstrar a sua ilimitada fé na perspicácia do Espiríto Santo, tem dúvidas que seja o homem certo, no lugar certo, e para - rematar - o nosso Cardeal, "aliviado" por não ter tido um único voto, D. José Policarpo pede desculpas aos portugueses se os "desiludiu" (!) e diz que os portugueses não devem temer (!) o novo Papa. Portugal também é assim.

Transversal a todas estas palavrosas erupções está um erro fundamental de análise, desculpável a não crentes, dificilmente tolerável a altos membros da hierarquia católica - por muito que custe, Graças a Deus, a Igreja (já) não é um movimento ou instituição secular, político ou social.

A Igreja
, enquanto instituição, não tem - nem deve - que fazer política , não tem que tornar a vida terrena fácil ou palatável, tem - isso sim - que fazer passar a Palavra, a Mensagem. Ninguém é obrigado a acreditar, a seguir, a cumprir, a ter Fé. Eu não quero uma Igreja revolucionária, fácil, mediática, com agendas imediatas, quero, isso sim, católicos, interventivos, e quando muito revolucionários (nos objectivos), sempre de acordo com a sua consciência.

Ratzinger, o duro (a "direita da direita" diz Leonardo Boff - o ideólogo da teologia da libertação - que não deve ter lido a troca de correspondência de Ratzinger com o Monsenhor Lefébvre - o ultra-ortodoxo francês que renegou o Concílio Ecuménico Vaticano II - e que em meados de 80 resultou na excomunhão deste) vai, assim o espero, desiludir ainda mais gente. Já desiludiu os políticos, e João Paulo II foi um político, e homem bom, mas que, na prática, manteve essencialmente a Igreja - instituição - congelada, e em gestão corrente, e tratou - bem - dos assuntos do mundo, e vai certamente desiludir os conservadores inanimistas como o nosso fundamentalista-caviar, o Padre João Seabra, ou o inefável taliban César das Neves.

Palpita-me, e ao contrário do que perora muito analista, que este mandato de Ratzinger, o teólogo, ora Benedictus XVI, Papa, vai ser, fundamentalmente, diferente do de João Paulo II, mais, vai ser em muita medida até uma absoluta ruptura formal e substancial - será infinitamente menos político, menos mediático, e mais virado para a natureza e qualidade - intrínseca - da Igreja Católica Apostólica Romana. Porque só com qualidade é que o ensinamento da Igreja se pode diluir no mundo, sem qualidade o mundo - com todas as suas limitações terrenas - dilui-se, contamina, na Igreja. Porque a Igreja não tem que intervir clara, e activamente, nos assuntos do mundo (e é essa na sua essência a lógica da teologia da libertação), tem é que semear com sabedoria pistas concretas que permitam a crentes, e não crentes, cumprir a história.

É neste regresso fundamental às matérias do espiríto, deixando a César o que é de César, neste back to basics, ao core business, que pode estar, aliás, a grande surpresa, porque é nesse regresso, nesse processo, e não num qualquer contexto sócio-político de conjuntura, que pode, e deverá avançar, o diálogo inter-religioso, a reunificação dos cristãos, a requalificação do papel da mulher e dos leigos na Igreja, assim como do próprio sacerdócio, sem esquecer a moral sexual, uma moral ecológica (sim, também...), e por aí fora...
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Publicado por Manuel 14:39:00  

14 Comments:

  1. CC said...
    Post muito bom.
    Carlos said...
    Parabéns, Manuel! Os anacletos e barnabitas enfiaram a carapuça, e o Soares, ché-ché, tem necessidade de intervir em tudo o que se passa. O que é que eles têm a ver com a igreja?!? Eu apoio incondicionalmente o back to basics, como o Manuel tão bem escreveu. Esperemos que o novo Papa o consiga!
    Anónimo said...
    Muito bons, porque virados para o que é a essência, os seus dois posts sobre o novo Papa. Depois do choque e da, confesso, desilusão, espero e acredito.
    Anónimo said...
    Porque apareceu Lutero? porque os papas, foi sempre uma organização mafiosa, servindo-se de interesses,
    aproveitando a credebilidade das pessoas e por ai fora.
    Já vi eleger com este 4 papas! niti
    damente este foi o mais espectacular e mal cheiroso espectaculo da igreja, a começar
    pelo sofrimento dum homem vai para anos, que obrigado ou de vontade
    sofreu a favor de não sei quem , a
    sua alma esteja em paz.
    È pouco edificante voltar à guerra
    dos papas, como foi toda a vida, mas nos tempos de hoje, para mim è
    mais chocante, os deviam ser crentes, comportam-se como gans ao assalto do banco! que me desculpem os que professam o catolicismo, mas isto foi chocante........
    Afonso Azevedo Neves said...
    Nem sempre tendo concordado com a forma, mesmo qdo concordei com conteúdo do que escreve, tiro o chapéu. Grande poste.
    Anónimo said...
    Este post foi para mim uma inspiração e um consolo.
    Obrigado!
    TA
    Anónimo said...
    Bom post
    diógenes
    Miguel Marujo said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    Miguel Marujo said...
    Mas para se fazer passar a Palavra - a revolução, claro - não deve «A Igreja, enquanto instituição, [...] fazer política»? Deve pois, sem tornar a vida mais fácil e palatável... Mas a Palavra exige uma constante intervenção na Polis - e a política é essa expressão.
    henriquemaia said...
    Isso é que é fé.
    Anónimo said...
    Parabéns, Manuel.
    Bruno Dias said...
    O seu post é bonitinho na forma, mas, no mínimo, é incoerente e, permita-me dizê-lo, ingénuo (ou quer manipular os leitores que considera ingénuos).
    Senão vejamos, a Igreja é uma organização criada pelos homens e que sempre se regiu por dogmas religiosos (portanto, ou temos fé e acreditamos piamente neles ou... não) mais ou menos extraidos dos evangelhos e por regulamentos doutrinários definidos por homens que controlaram a Igreja (porque agora como dantes, qq Igreja tenta controlar a sociedade). Ora esses regulamentos doutrinários, influenciados pela cultura da época em que viveram esses homens, estão, em muitos casos, "desactualizados" porque as culturas e as sociedades evoluiram (umas mais outras menos).

    Continuar a impôr o celibato aos sacerdotes, continuar a descriminar os homosexuais ou até impôr uma qq moral sexual, impedir as mulheres de serem sacerdotes não são questões espirituais, são questões meramente terrenas. Tal como a opolência dos bens da Igreja e dos seus rituais...

    Chamar a isto tudo "questões espirituais" e insinuar que uma Igreja mais aberta aos valores que a maior parte dos homens deste novo século defende (independentemente da sua religião) é o mesmo que ser "laxista" é, na minha opinião, fundamentalista e retrógrado.

    A não ser que se enfie a cabeça na areia e esperar que o que a Igreja decidir para os seus crentes está absolutamente correcto (não acredita que tudo que acontece foi porque Deus quis?).
    Anónimo said...
    Identifico-me com as suas palavras.
    Lucidez? Sabedoria? ou tão só e fundamentalmente, Humanidade.

    MJ
    D said...
    considerar Ratzinger uma boa pessoa é no mínimo ingenuidade. Falar de teologia da libertação sem viver num pais como o Brasil é mais ingenuidade ainda.. e dizer o que Ratzinger fez com Lefébvre ter sido algo ótimo... risos.. ele só fez o que o general faria se algum de seus subordinados o tivesse desobedecido. Há que se controlar.

    Ele vem vindo ao Brasil... canonizar um santo aqui. o que há por tras disso?
    participar do V celam... por que razão?
    vigiar e se tornar mais popular...
    tomara que o calor do Brasil esteja
    muito forte para que o alemãozinho sue muito enquanto andar por estas terras abençoadas por Deus

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