contra a corrente...

sobre Karl Joseph Ratzinger, o pastor alemão perigosamente fundamentalista que excomungou o Monsenhor Lefébvre, perigosamente reformista...


RATZINGER

O post de hoje parte do Mário. Ele escreve com ironia sobre Ratzinger. Eu nem tanto. Como lembrei no Independente outro dia, "o “politicamente correcto” via-o [ a João Paulo II ] como um “fundamentalista” ou mesmo como um “reaccionário” quando, na realidade, ele não podia ser outra coisa, sob pena de quase tudo perder sentido e passar a ser pura e simplesmente “outra coisa”. E acrescentei que, "na sua intransigência, na sua ortodoxia e, sobretudo, na sua fé, Wotjyla manifestou permanentemente, com método e sem desfalecimentos “intelectuais”, ao que vinha". Ora a escolha do novo Papa, olhada pelo lado da Igreja, passa por isto. É este o significado das palavras de Ratzinger na missa que antecedeu o conclave dos cardeais: "estamos a avançar para uma ditadura de relativismo que não reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o próprio ego e os próprios desejos". Logo, exige-se uma fé "mais madura" e um combate sem tréguas ao "radicalismo individual" que nos faz "ser criança andando ao sabor de ventos das várias correntes e das várias ideologias". Ratzinger não representa a "evolução na continuidade". Ele é, como deve ser, radical na continuidade. Não podia, aliás, ser outra coisa.

João Gonçalves


Ratzinger foi eleito Papa, Benedictus XVI. Hans Küng, o seu antigo colega de seminário e antigo amigo, não, nunca chegou sequer a cardeal, e graças à sua prolífica prosa acabou proibido de ensinar teologia pela Congregação da Doutrina da Fé de... Ratzinger. São muito provavelmente os dois nomes mais importantes da Igreja Católica do Séc. XX. Ambos pivots no Concílio Vaticano II, ambos absolutamente brilhantes, e intelectualmente arrasadores, ambos fundamentais para se compreender os dilemas que atravessa a Igreja, neste início de milénio. Paradoxalmente ou talvez não, gosto dos dois. Gosto do estilo radical, de cortar a direito, de Küng, gosto da sua paixão pelo que defende, e aprecio ainda mais a certeza com que se sente infalivelmente embutido (irónico vindo de quem defende consistentemente a inexistência da infalibilidade papal); em concreto aprecio particularmente a sua eclesiologia, e não posso deixar de reconhecer rasgo à sua teologia, se bem que a ache demasiado avant garde, e excessivamente estilizada para meu gosto. Tem para terminar, há que o reconhecer, coragem: ainda agora quando o mundo inteiro se rendia numa homenagem monocromática a João Paulo II, o Homem, Küng, no Der Spiegel, arrasou o Papa. Ratzinger, que em 1966 Küng recrutou para ensinar teologia dogmática na sua faculdade, é o contrário, o oposto. Onde Küng é excessivamente palavroso e vistoso, Ratzinger é a sintese e a discrição em pessoa; onde Küng defende a ruptura, Ratzinger defende o compromisso, que não necessariamente a tradição. Duas visões, a mesma Fé, a mesma energia, a mesma Igreja.

Ironicamente, e pesem as vozes do mau agoiro, Ratzinger tem tudo para ser um bom Papa, tem a autoridade para meter os duros na linha (já o fez por diversas vezes no passado) e a inteligência para perceber os novos tempos. Dele é politicamente correcto dizer que não se espera nada; eu, católico, que nem sequer gosto da Opus Dei, e similares, espero tudo. Alguns verão neste texto uma contradição insanável, eu não. Que o Espírito Santo esteja com ele.
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Publicado por Manuel 18:18:00  

11 Comments:

  1. Anónimo said...
    Confesso que preferia uma escolha mais arriscada e imprevisível (Cláudio Humes ou mesmo Francis Arinze), mas depois de ler este post admito mudar a minha impressão o novo Papa.

    Parabéns pelo conteúdo do post, que teve, pelo menos, o mérito de me estimular a pesquisar mais sobre o passado de Ratzinger

    Do 'irmão' André
    josé said...
    E o melhor postal, a par deste, está AQUI
    zazie said...
    "Mas preferiria Frei Bartolomeu dos Mártires, se tivesse direito a voto."

    ";O)
    Nino said...
    Uma avaliação brilhante.
    Anónimo said...
    "Se não o podes derrotar, alia-te a ele ?". "Entre mortos e feridos alguém há-de escapar ?" É este o teor da maioria dos comentários que se lêem. Soam a falso. O que vale é que o homem com 78 anos não deve ter tempo para blindar definitivamente o aparecimento de alternativas e de outras visões da igreja, através do reforço de mais cardeais sintonizados com a mesma linha de orientação. E, cá fora, o mundo pula e avanço e não espera que um grupo de gerontes, que lembram os últimos anos da ex URSS, entravem as novas necessidades das sociedades modernas. Estaremos à beira de um cisma ? Depende de até que ponto este homem com nome de Panzer, fará o jogo da extrema direita católica. Até hoje fê-lo. Porque haveria de mudar ?
    X
    Zu said...
    Não foi da Congregação da Doutrina e da Fé que saiu um documento sobre a participação das mulheres na missa, as músicas, etc, etc, etc? Uma coisa retrógrada e anti-feminista, que deixou todos de boca aberta de espanto? Não consigo encarar a escolha do novo papa como algo de bom para a Igreja. Estive a ler o que Küng disse no "Der Spiegel"; do que como leiga conheço, acho que ele tem toda a razão. E, tanto quanto sei, em muito do que diz respeito aos aspectos negativos apontados, Ratzinger esteve por trás.
    António Balbino Caldeira said...
    A história do "draft" sobre a liturgia talvez tenha a ver com a tentativa de afastar Ratzinger da sucessão de João Paulo II. A notícia foi filtrada, obviamente, com esse motivo...

    Até agora, o dito documento não foi publicado.
    Alef said...
    Dizer que Ratzinger e Hans Küng «são muito provavelmente os dois nomes mais importantes da Igreja Católica do Séc. XX» é uma afirmação manifestamente gratuita e infundada. Karl Rahner e Urs von Balthasar (para citar apenas dois exemplos de «opostos» no espectro teológico católico «ortodoxo») levam-lhes a melhor como teólogos; João XXIII e João Paulo II tiveram manifestamente muito maior peso; etc., etc.
    Anónimo said...
    A Igreja Católica é uma gerontocracia, reforçada por esta eleição...
    Esperava tudo menos Ratzinger (ou alguem do seu grupo conservador). Tanto Cardeal das Américas, de África, da Ásia e tinha de nos sair um ex-membro da Juventude Hitleriana...?
    O Espírito Santo trabalha de forma misteriosa... vem S. João XXIII e ilumina-nos...
    Gabriel Silva said...
    Perspectiva interessante e bastante acertada.
    Marco Oliveira said...
    Vamos lá a ver o que vai acontecer ao diálogo inter-religioso.

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