in memoriam

Morreu o geólogo que adorava estudar meteoritos

O geólogo José Fernando Monteiro, estudioso de meteoritos e crateras de impacto, um dos poucos a fazê-lo actualmente de forma sistemática em Portugal, morreu anteontem em Lisboa, aos 43 anos. Nascido no Porto, Fernando Monteiro foi encontrado em casa sem vida. Já em adolescente se interessava por meteoritos e prolongou esse interesse pela vida fora, estudando-os como geólogo. Pode prestar-se-lhe homenagem hoje em Lisboa, até às 11h00, na capela do Instituto de Medicina Legal. O funeral realiza-se amanhã, no Porto às 11h00, saindo da Igreja do Carvalhido.

Tinha 16 anos quando escreveu o primeiro texto (de divulgação científica) sobre meteoritos. "Foi para o jornal escolar dirigido por mim, "O Científico"", contou um dia ao PÚBLICO. Intitulado "A importância do estudo dos meteoritos", esse artigo já revelava dois interesses que o acompanhariam sempre. A par do estudo das rochas vindas do espaço, era entusiasta da divulgação científica.

Escrevia regularmente para o "Jornal de Notícias", publicou várias brochuras e o pequeno livro "Do Big Bang à Vida: Uma Breve História do Universo". Dava palestras em escolas, universidades e um pouco por todo o lado. A próxima estava marcada para a quarta-feira que vem, num "workshop" sobre dinossauros no Museu Nacional de História Natural, em Lisboa. Ia falar de vulcanismo, impactos e extinções em massa. O museu decidiu agora prestar-lhe homenagem nesse dia, às 18h00, convidando para falar alguns dos seus amigos e colegas.

"Era o nosso maior especialista em geologia planetária, não há dúvida nenhuma", testemunha o geólogo António Ribeiro, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e um dos orientadores, a par de José Munhá, da tese de doutoramento de Fernando Monteiro. "Era uma pessoa com uma grande honestidade intelectual. Tinha uma cultura extremamente vasta e interessava-se por todas as áreas da ciência. Era bastante aberto à divulgação científica. É uma perda enorme."

Quando se licenciava em Geologia na Universidade do Porto, teve o primeiro emprego, à noite. Trabalhava no Observatório Astronómico do Porto, onde fotografava estrelas. Era um candidato a geólogo que olhava para cima, para os céus, e não só para a Terra, e relembra esse interesse pelas rochas cósmicas na sua tese de mestrado sobre o meteorito de Chaves: "Recordo os primeiros passos no estudo dessas temáticas, no início dos anos 80, quando "percorria" toda a literatura sobre o assunto existente no Observatório Astronómico da Universidade do Porto."

Depois, foi para a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde fez o mestrado. Foi o primeiro português a identificar, em 1988, o tipo a que pertence um meteorito (o de Chaves, caído em 1925, que estava mal classificado). Repetiu a façanha com o meteorito de Ourique, caído em 1998.

"Nunca imaginei que classificaria um meteorito." Leccionava agora na FCUL e preparava a tese de doutoramento sobre o registo de impactos cósmicos na Terra e o caso de uma estrutura ao largo de Peniche, que terá resultado da queda de um meteorito há 91 milhões de anos. Contava terminar a tese este ano. O sismo e o subsequente tsumani de 26 de Dezembro vieram mostrar como o seu trabalho era importante, já que essas ondas gigantes também podem ser causadas pela queda de meteoritos no mar.

in Público

Publicado por Manuel 10:55:00  

1 Comment:

  1. Adélio Pinho said...
    Obrigado, Veneráveis Irmãos, por recordarem este Senhor da ciência em Portugal...pena ter morrido tão novo, sem completar a sua tese.

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