A nossa vergonha...

Atentem-se no seguinte raciocínio, todos nós não poucas vezes já nos interrogamos quanto custa efectivamente um incêndio ao país Portugal.

Não se trata apenas de contabilizar os custos dos incêndios, no desgate dos meios, nem tão pouco quanto custa mas sim de calcular o verdadeiro valor da irresponsabilidade de privados e do Estado quando não gerem da melhor forma os incêndios e a sua prevenção.

Esta deveria ser a vergonha de todos os governantes...Todos sem excepção, porque pior que um político que não faz nada é aquele que aproveita os incêndios como meio de auto-promoção política.

Decidi por iniciativa própria e sabendo dos riscos que corro, em meter-me pelos caminhos da modelização económica, sempre sujeita a muitas interpretações, construir o Modelo Económico de avaliação dos custos dos incêndios por incêndio, daqui em diante denominado modelo da vergonha...


Y = Custo Global dos Incêndios
RAh = Rendimento Anual médio por hectare no concelho em análise.
AR = Àrea Ardida
NP = Nº de Anos de improdutividade dos hectares afectados pelo incêndio
ND = Duração do incêndio em dias
CBD = Custos com Bombeiros, gasolina, Àgua, assistência técnica diário.
NAC = Nº horas contratadas para meios àereos
PH = Preço hora dos meios àereos
CD = Compensações Diversas cedidas pelo Estado a título de regimes de calamidade
EP = Postos de trabalho perdidos
MN = Número de Mortes causadas directamente pelos incêndios
CI = Clausula Indeminizatoria atribuida à família.
CP = Compensações Segurança Social Fundo Desemprego
NMM = Numero Meses do subsidio . Neste caso é estabelecido 18 meses.
CFL = Custos de florestação por hectare
CMS = Custo médio de sáude por habitante
PP = Propensão Marginal dos custos de saúde provocados directamente pelos incêndios.

Assim, e por pura dedução lógica..

Y = (Rah*AR*NP) + (ND*CBD) + ( NAC*PH )+ (NM*CI) + CD + ( EP*CP*NMM)+ (CFL*AR) + ( (CMS *PP) + CMS )

No incêndio de Monchique do ano de 2003 arderam 40.587 hectares durante 10 dias. O Rendimento Anual por hectar do Concelho de Monchique é de 4300 Euros. Calcula-se que todos os bombeiros mobilizados tenham gasto cerca de 10.000 Euros por dia. Foram contratados 2 Canadairs durante 10 dias a uma média de 10 horas por dia ao preço de 3.000 euros hora. O estado gastou ao todo 4.573.000,00 até 31/01/2004 em apoios aos concelhos com áreas ardidas . O valor da variável CD é obtidor pela divisão do total pago como indeminizações e apoios face a % da area do incêndio de Monchique relativa ao total da àrea ardida nacional. Como em Monchique ardeu 40.587 e a área ardida em 2003 em Portugal foi de 431.000 hectares, logo o valor calculado corresponde a cerca de 10 %.

Perderam-se 180 postos de trabalho directos, que a Segurança Social comparticipará em 400 euros mensais por 18 meses. O custo de reflorestação está estimado em 350,00 Euros por hectare. Estima-se que a área ardida demore 4 anos a voltar a tornar-se produtiva.

Y =(40.587*4300€*4)+(10*10000€)*(100*3000,00€)+ 457.704,06 € +(350 € * 40.587 )+(180*400*18)= 746.170.560,00 Euros

Setecentos e quarenta e seis Milhões, cento e setenta mil quinhentos e sessenta euros

Já Chega. É este o verdadeiro preço apenas no concelho de Monchique da descoordenação vivida no ano passado.

Nota - O Modelo baseia-se em meras estimativas por baixo. Não estão contabilizados os valores do aumento dos custos de saúde.

Publicado por António Duarte 00:51:00  

42 Comments:

  1. clark59 said...
    Isto é verdadeiro serviço público. Convinha que o Governo confirmasse, ou afinasse, os números aqui inseridos. Mas que fizesse qualquer coisa.
    PluribusUnum said...
    Fantástico trabalho... Se fosse eu a fazer isto, estaria orgulhoso, mesmo vaidoso.
    Parabéns a quem quer que seja o autor... serviço público, como diz o Clark...
    Quanto ao assunto em si, é desesperante, uma tristeza imensa...
    Pedro M said...
    Governo?
    Mas qual governo?
    Há quanto tempo não temos um?

    Venha o golpe de estado...
    Anónimo said...
    Vamos a ter calma com os números...

    a maior parte dos hectares ardidos não tem qualquer rendimento e aqueles que o têm dificilmente se aproximam dos 4300 euros anuais
    Serradura Liquida said...
    O que é o CI? O que é a Propensão Marginal dos custos de saude? O rendimento anual é de 4300 euros? per capita ou por hectare?

    Isto parece o raciocinio apressado de um aluno de macro 1.... uma aritmética um bocado precipitada...

    arecem os raciocinios do Augusto Mateus mais ou menos 60% mais coisa menos coisa....
    António Duarte said...
    Caro Anónimo

    No caso de Monchique a àrea ardida corresponde em grande parte a destruição da economia do medronho, que constitui fonte de rendimento.
    Serradura Liquida said...
    Falta a análise do custo de oportunidade dos canadairs que estão alugados (e mesmo que sejam comprados) haja ou não incêndios. E no prejuizo total parece que todo o prejuizo é suportado pelo estado. Pelo contribuinte. Um raciocinio à la Louçã. Ora o prejuizo também é privado e não esto a ver nenhuma razão para essa parte ser "apropriável" pelos contribuintes.

    Os meios aéreos são uma pequena e mínima parte do problema. Os verdadeiros problemas são elsewhere.
    António Duarte said...
    Serradura...

    Os custos de saúde não estão incluídos no modelo, exactamente por não ser fácil encontrar o acréscimo dos mesmos que os incêndios causaram em problemas respiratórios e afins.

    Repito não estão incluídos nos cálculos.

    O valor de 4.300,00 Euros corresponde ao Rendimento Anual médio por hectare no concelho de Monchique, como se encontra na definição da variável Rah.

    Caro Serradura...se não sabe porque pergunta ?
    António Duarte said...
    Serradura..

    "mas sim de calcular o verdadeiro valor da irresponsabilidade de privados e do Estado quando não gerem da melhor forma os incêndios e a sua prevenção"

    Ninguém disse que o valor apurado era apenas do Estado.

    Use a serradura para pensar.
    Anónimo said...
    O "rendimento" das áreas ardidas não tem só a ver com dinheiro.Ou tem? Basta que a floresta arda, algo se queime aos hectares para haver prejuízos, quanto mais não seja para o ambiente em que todos vivemos. Parabéns ao autor do post.
    Pedro M said...
    Vou repetir o conteúdo de um meu "post anterior" porque também ve a propósito e não teve resposta ou mereceu comentários - que agradecia!

    "Já agora: já viram a legislação que enquadra os Planos Regionais de Ordenamento Florestal?

    E o Decreto-Lei 156/2004?

    E da impossibilidade legal de "invadir terrenos" não limpos para efectuar limpeza preventiva?

    Que que efectuar limpeza de matos é visto por algumas cabeças como uma violação ao regime legal da REN já que se vai estar a alterar o "coberto vegetal"?

    Uma vêz que me parecem habilitados a malhar nas leis, façam também na legislação sobre este tema...

    Cumprimentos."
    António Duarte said...
    Caro Pedro M

    A falta de tempo às vezes tem destas coisas. Prometo debruçar me sobre essas leis até sabádo. Pode ser?
    Serradura Liquida said...
    É um defeito terrível eu sei. Mas alguns de nós pobres campónios gostam de auscultar os sábios. Entretanto mantêm-se a misteriosa variável independente CI.... O que seria do mundo se toda a gente desse o cu perante a sapiência....

    Imagine mesmo que um dia ouvi falar em relações espúrias e que elas estão presentes neste modelo, mesmo tendo em atenção que é um modelo meramente aditivo.... Mas lá está a ignorância da serradura é uma vantagem exibicional...
    António Duarte said...
    SerraDura..

    MN = Número de Mortes causadas directamente pelos incêndios
    CI = Clausula Indemnizatoria atribuida à família.

    Na fórmula..(NM*CI)... No incêndio de Monchique morreu uma pessoa vítima directa do incêndio. Por não saber o valor atribuído à família, o produto (NM*CI)NAO entra no apuramento do custo do incêndio...repito NAO ENTRA !

    Mais alguma dúvida ?
    Mario Rodrigues said...
    Caro António

    O seu trabalho é muito meritório; diria mesmo que é excelente.

    Mas não é necessário ser economista para fazer estes cálculos complexos.

    É do mais elementar senso comum que o que se perde em danos emergentes e em lucros cessantes é muito superior ao que se gasta em prevenção e combate.

    O problema é que a maior parte da floresta é de privados, de simples cidadãos como nós ou até menos importantes económica e socialmente do que nós, seres desprezíveis. E para a escória da classe política portuguesa, nós os simples cidadãos somos apenas lixo, cujo único préstimo é irmos votar nessa escumalha para legitimar o seu acesso ao poder.

    Assim sendo, para esse estrume que nos tem governado, o que arder é problema dos seus donos. Eles que se lixem! O problema é deles! Nosso!...

    Para a fecal classe política que temos, isto pode arder tudo, desde que eles continuem com os seus tachos e panelas...
    LNT said...
    Para além de serem estas, ou outras variáveis a serem consideradas, este escrito indica que se forem feitas contas para a prevenção ficará sempre muito mais barato, para já não falar do que não tem custo, prevenir do que remediar. Está de parabéns o seu autor.
    Referi este Post num texto do Tugir em português[882]
    Serradura Liquida said...
    Portanto 746 milhões de euros para 40587 hectares ardidos dá 18000 euros por hectare ardido

    Se arderem 500.000 hectares 5,1% do território nacional teremos (mantendo as premissas do medronho...) mais de 9 mil milhões de euros ou seja 7,11% do último PIB. Se o rendimento considerado for maior poderemos chegar a valores de 12 a 15% do PIB.

    O modelo não só compreende já as transferências externas líquidas como prova obviamente da bondade de comprar um canadair por cada concelho.
    António Duarte said...
    Vamos por a Serradura a pensar...

    Quer experimentar em construir um modelo alternativo ?
    Serradura Liquida said...
    Longe de mim ousar modelizar coisa para as quais ignoro as variáveis. Mas às vezes convêm testar os modelo pelo menos por comparação....

    Um estudo do Banco Mundial estima em 9 mil milhões de dolares (a estimativa por dedução feita atrás...) o prejuizo com a área ardida na Indonésia para uma área ligeiramente acima de metade de Portugal... talvez lá não tenham medronho...
    Serradura Liquida said...
    já agora o estudo vem referenciado em

    http://news.nationalgeographic.com/news/2001/12/1203_loggingfires.html
    Serradura Liquida said...
    depois talvez se deva contextualizar a coisa...
    With an average of 50 000 fires and 600000 ha burnt, forest fires in the Mediterranean basin represent a significant part of all fires that occur in the world. Several sources estimate the total annual cost of fire fighting and safety devices in the region to be more than US$1 billion (Le Houérou, 1987).

    Despite the efforts made, particularly in the countries of southern Europe, the phenomenon is far from stabilizing and even appears to be increasing significantly in most of the 23 countries studied.

    Nowadays, forest statistics are better kept than 20 years ago. Some of the increases observed might in fact be due only to an improvement in the quality of the data.

    em http://www.fao.org/docrep/x1880E/x1880e07.htm

    é que expertise de secretária todos temos um pouco
    Serradura Liquida said...
    depois talvez se deva contextualizar a coisa...
    With an average of 50 000 fires and 600000 ha burnt, forest fires in the Mediterranean basin represent a significant part of all fires that occur in the world. Several sources estimate the total annual cost of fire fighting and safety devices in the region to be more than US$1 billion (Le Houérou, 1987).

    Despite the efforts made, particularly in the countries of southern Europe, the phenomenon is far from stabilizing and even appears to be increasing significantly in most of the 23 countries studied.

    Nowadays, forest statistics are better kept than 20 years ago. Some of the increases observed might in fact be due only to an improvement in the quality of the data.

    em http://www.fao.org/docrep/x1880E/x1880e07.htm

    é que expertise de secretária todos temos um pouco
    Manuel said...
    Ó Serradura,

    Eu acredito piamente que textos como este o preocupem e sobretudo preocupem *quem* lhe paga mas seja mais sensato e pertinente nos dados que selectivamente resolve atirar para o ar. É que assim você parece apenas um bikini - mostra tudo menos aquilo que interessa...
    António Duarte said...
    A serradura pensa e o homem existe...

    Segundo a NG para uma àrea que é metade da território português ou quase 2 vezes o Alentejo, a NG estima um prejuizo de 9 biliões de dólares.

    Assim o custo do incêndio de Monchique representa 8,29 % do custo do incêndio na Indonésia citado na NG.

    Primeiro, nunca referi que o modelo é o exacto. Aliás pelo que sei em Portugal este é o primeiro modelo que contabiliza algumas variáveis. Depois não conheço as variáveis que a NG inclui. Por exemplo no modelo que construi o maior custo está no custo implicito de ter a area ardida improdutiva durante anos.

    No caso de Monchique, existia medronho, explorações de pecuária e pouco rendimento retirado da floresta.

    Mas qual é a sua dúvida os 4300 euros anuais de rendimento ? Dou.lhe um exemplo prático, um agricultor vitima do incêndio de Almodovar disse ontem que anualmente retirava do hectar que tem 9.000 euros em cortiça...Como ve os 4.300 representam uma estimativa por baixo.

    Depois não creio que países como a Indonésia gastem 20 Milhoes em concursos de aluguer de avioes. Provavelmente possuem meios proprios.

    Finalmente, se conseguir dizer que os custos de prevenção são mais altos que os custos implicitos e explicitos actuais e no futuro de um incêndio...então caro Serradura...o lugar no céu é seu..

    Eu sei que a Serradura è líquida mas por vezes parece liquidefeita...
    António Duarte said...
    Depois caro Serradura...

    Como voce diz atrás " With an average of 50 000 fires and 600.000 ha burnt". Em Portugal o ano passado arderam 431.000 hectares em 670 incêndios.

    Depois " total annual cost of fire fighting and safety devices in the region to be more than US$1 billion Le Houérou, 1987" Primeiro o ano de 1987 não deve servir como modelo para o exercício passados que estão 17 anos.
    Depois Gastar mil milhões de dolares em combate e prevenção não significa que os custos dos incêndios sejam só estes.

    Portugal gastou apenas 12 milhões de Euros o ano passado.

    Eu sei que lhe custa assumir, mas o número de 750 milhões é demasiado elevado para não sentirmos vergonha..

    Nota : Leve Grátis um Guarda-Fatos oferecido pela Serradura Liquida, onde os números emagrecem à vista.
    Serradura Liquida said...
    Agora a sério o que eu gosto no vosso blogue é a excitação, o sentido de urgência, e o paternalismo.

    E aprecio ainda mais o insulto do "Eu acredito piamente que textos como este o preocupem e sobretudo preocupem *quem* lhe paga mas seja mais sensato e pertinente nos dados que selectivamente resolve atirar para o ar. É que assim você parece apenas um bikini - mostra tudo menos aquilo que interessa..."

    Meu caro não projecte nos outros o que se passa consigo.
    Não depreenda que eu sou um amanuense nem um um moço ou uma moça de recados...

    É irrelevante mas é bastante divertido porque os senhores levam-se mesmo a sério e eu posso dar-me ao luxo de ser diletante.
    Serradura Liquida said...
    E eu não afirmo que os custos da prevenção são mais altos ou mais baixos. Nem demonstro nada. Eu sou um indigente. Limito-me a divertir com os candidatos a messias ou educadores do povo. (e até nem vos incluo nestas categorias...) Mas tenho apreciado o ar conspirativo e sobretudo os post tipo Octavio Machado que deixam subentendidos, insinuações de sabedorias milenares escondidas e reveladas em concilios de iniciados. E é sobretudo isso que aprecio no vosso blogue. Mas não levem a mal porque o sentido de humor é claramente psicótico....
    josé said...
    Ahahahah! Você, agora, fez-me rir, Serradura.
    Ao se assumir como diletante, já tem o desconto todo garantido, da minha parte. Mas talvez faça mal em julgar apressadamente como sabedoria octaviana o que por aqui vai sendo escrito.
    Se tem razão em desconfiar de certos educadores que também vejo por aqui e por ali, a blasfemarem desalmadamente, por aqui, acho que lhe falece essa capacidade de análise crítica.
    O voluntarismo que por aqui perpassa, às vezes, está muito caldeado na humildade intelectual que denotam todos os postadores, sem exccepção, se reparar bem.

    Isso, você não encontra por aí aos pontapés- reconheça lá!
    Luís Bonifácio said...
    Esse valor representa quantos canadairs?
    António Duarte said...
    Caro LM

    Cada Canadair novo custa 25 Milhóes de Euros.
    Serradura Liquida said...
    Ó José! Quanto ao voluntarismo eu dou de barato. Às vezes o excesso de voluntarismo e entusiasmo leva a confundir acrónimos de APIFARMAS com ANFS e a falhar o punch line.... Agora a humildade intelectual em todos os postadores da Loja, é que eu já vou ali e volto... Que o senhor tenha umas postas muito compostas e de nível eu digo já que sim senhora. Mas o senhor José tem mais uma coisa que aluns outros do seu blogue não têm tão evidenté. É que tem sentido de humor. E isso é crucial para um diletante como eu.

    Outros confrades seus têm menos sentido do dito... e levam a coisa muito a sério....

    Olhe...deviam ouvir mais o move to Rhymin' Man...
    Anónimo said...
    Serradura tem alguma razão, não percebo porque ficaram tão defensivos. Há antecedentes?

    De qualquer forma (não querendo ser mesquinho, mas tem importância para o meu comentário) as contas estão mal feitas (e está um sinal * em vez de +).

    Fazendo as contas correctamente, o custo estimado daria 714 455 554 €.

    Daqui resulta, que a primeira parcela calculada, que diz respeito ao rendimento por hectar perdido tem um peso de 97,7% no valor final.

    Por si só, este facto não constitui problema, mas o cálculo do rendimento médio por hectar parece-me demasiado simplificado. Qualquer variação neste valor leva a uma variação quase directamente proporcional no custo estimado. 4.300 Euros anuais por um hectare (mesmo que seja de medronhal) parece-me um exagero.
    Anónimo said...
    Este último comentário foi meu,

    Nuno
    Anónimo said...
    Este post condensa alguns disparates que tem sido ditos.
    Juntamente com os outros post's sobre os canadair's, está feito o retrato de muitas imbecilidades por hectare, ditas nos últimos dias.

    Primeiro, sobre os Canadairs, deixem-me dizer que o que foi dito só pode ter sido dito por alguém que nem sequer esteve próximo dum incêndio a sério. De contrário, saberia que mais Canadair ou menos Canadair, o resultado seria exactamente o mesmo. Saberia que as toneladas de água dum Canadair em cima dum incêndio descontrolado (em que este gera pequenos tornados e seca literalmente toda a água e verdura nos muitos metros que circundam a combustão descontrolada) é pouco mais eficaz do que pôr a pila na mão fazer xixi para cima dum pneu a arder.

    Ainda ontem tivemos uma extrordinária (e inédita penso eu) força de combate aereo ao incêndio e pouco fez para além de salvar aldeias. Já em Espanha, o único incêndio de grandes propoções em Espanha (na Andaluzia) também continuava descontrolado apesar da frota imensa de Canadairs espanhois.

    Meus caros, se querem debater incêndios, começem por perceber o que o João Miranda disse no Blasfémias sobre a biomassa. Não concordo muitas vezes com o que o "liberal" JM diz, principalmente sobre o combate ser um assunto de privados e não do estado, mas o que ele disse sobre a biomassa ajuda a compreender quase tudo sobre os incêndios deste ano e do ano passado. Nas décadas de 80 e 90, a maior parte da área florestal do norte e centro do país foi devastada de uma ponta à outra. Na altura não tinhamos o frenesim mediático de hoje e poucos se lembram, mas poucos hectares terão saído incolumes dessas 2 décadas. Milagrosamente, o Alentejo norte, centro e Algarve escaparam a incêndios devastadores. Mas nos últimos anos a carga de biomassa acumulada nestas regiões é brutal. É explosiva. Não tenham dúvidas, é a coisa mais natural do mundo que este ano arda o que não ardeu o ano passado, e para o ano arda o pouco que sobrar de agora. É tão inevitável e natural como fazer sol no Verão e chuva no Inverno.

    Quanto às contas, foram feitas grosseiramente, mais uma vez, sem conhecer mimimamente a realidade. Quem dera a Portugal tamanho rendimento florestal.... falo por experiência própria que tenho alguns hectares de eucalipto e pinheiro na beira interior.


    Para terminar, é assunto tabu, já o ano passado um ministro foi fuzilado por criticar bombeiros. Mas eu não posso deixar de dizer o que penso: há 2 realidades distintas de bombeiros. As do norte e centro, e o resto. Os primeiros tiveram 2 décadas de incêndios devastadores e hoje tem um conhecimento profundo do combate ao incêndio rural. Quanto aos bombeiros do sul e grande lisboa, o conhecimento destes da realidade do incêndio descontrolado em mata é nulo. Chega a ser anedótico a forma amadora como deixam reacender incêndios por absoluto desleixo do rescaldo, que ocupa mais tempo do que o combate em si.
    A mesma critica aos autarcas. 99% dos autarcas do sul ignoraram olimpicamente a realidade explosiva da biomassa, apesar das lições duras que os autarcas a norte tiveram que engolir. Se quiserem perceber mais sobre o assunto, informem-se por exemplo dum concelho no centro/norte, chamado Mortágua, e sobre a forma como a criação de centenas de largos caminhos florestais tornou este concelho quase um case-study na área de combate a esta chaga que devastou o mesmo concelho durante anos a fio. Alguns caminhos eram tão bons que foram aproveitados turisticamente para fazer algumas etapas do Rally de Portugal. A sul nada foi feito. A natreza agora cobra o preço.
    Manuel said...
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    Manuel said...
    A posta deste último anónimo quase que convence... só há um detalhe... um reles detalhe...

    É que a história da biomassa não explica tudo... também fez muito calor durante o Euro e fogos nem ve-los.

    De resto e quanto aos bombeiros e à limpeza das matas e aos caminhos 100% de acordo...
    Manuel said...
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    Manuel said...
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    Manuel said...
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    Serradura Liquida said...
    Ora finalmente um anónimo que fala sobre os incêndios a sério. O caso de Mortágua é o de um autarca que criou uma equipa que todo o santo ano faz aceiros e fizeram corta fogos obrigando os proprietários a comparticiparem na despesa, no verão é a população que se encarrega de auxiliar na vigilância. Um modelo bastante exportável...

    Os meios aéreos são ótptimos se agirem no inicio...

    A biomassa é crucial... com tempo quente já se sabe...

    Depois era preciso ver como se financiam os amadores...´em muitos concelhos do país é bastante evidente uma coincidência (ia a dizer correlação) entre projectos de urbanização e áreas que vão arder... alguns destes projectos são colocados por "beneméritos" que oferecem "imensas" ambulâncias mas sobretudo "carros de comando".... ultimamente bastante mais Rover...

    Depois há as guerras de accionar ou não accionar os planos de protecção civil municipal distrital etc... tem a ver com quem paga o quê...

    Ordenamento limpeza etc....é ver quem são os donos das empresas de projectos de reflorestação...quem são as empresas de reflorestação.... quem mete projectos em Bruxelas e quem diz pra ter calma e deixar arder ....

    Há muitos factores ....os mais interessantes para discutir são os canadair....são claro está os que menos importam.... mas também é verdade como aqui disseram na Loja que há coisas estranhas...estranhas não serão são luvas e pouco mais de estranho têm...
    Anónimo said...
    Sobre a importância dos Canadair's, o que disse foi que considero ser pouco importante a sua compra ou não. Importante para mim são as questões que precedem os incêndios, não o seu combate. Mas isso não vende jornais e se calhar não dá votos (pelo menos no curto prazo).

    Sobre os negócios pouco claros do modelo actual de combate, também suspeito deles e é de aplaudir que a questão tenha sido levantada pela Grande Loja. Aliás, mesmo não concordando com algumas coisas que se escrevem, acho que os blogues estão de parabens pois bem ou mal, as questões são discutidas, e coisas positivas emergem no debate.

    Sobre Mortágua, sim, para além dos caminhos florestais, há um notável esforço de vigilância dinamizado pela autarquia e com a ajuda das populações através das associações locais. Pelo que me disseram, nas áreas mais perigosas chega a haver patrulhas nocturnas de voluntários durante todo o Verão.

    E também me esqueci de referir a central termoeléctrica de biomassa de Mortágua, que produz energia a partir de residuos florestais, construida a mantida a funcionar com enormes dificuldades mas também muita teimosia de meia duzia de pessoas mais iluminadas do que a mediocridade reinante. Quase única na Europa, mas olimpicamente ignorada pelos media por exemplo. Custou menos do que a compra de um Canadair (se calhar menos que o aluguer), e funciona com o "petroleo" português, a nossa biomassa, não tão rentável como o petroleo sujo e poluidor, mas com enormes vantagens que certos lobbys querem ocultar.
    Anónimo said...
    Após algumas pesquisas, encontrei alguns links que acho úteis sobre a questão:

    ----------------------------------------------

    Um interessante thread num forum, já de 2003 onde se discute a viabilidade económica da limpeza das matas.

    http://neptuno.uevora.pt/ambio/082003/threads.html#00039


    ----------------------------------------------
    Notícia Correio Manhã 2004-07-30

    Floresta - só 27% das autarquias investiram
    CÂMARAS SEM PREVENÇÃO
    Os incêndios devastadores do Verão passado, que queimaram cerca de 400 mil hectares de floresta e mato, mataram várias pessoas e consumiram várias habitações, não parecem ter sido suficientes para mobilizar as autarquias para uma atenção redobrada na prevenção dos fogos

    http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=122727&idselect=9&idCanal=9&p=94

    ----------------------------------------------

    Notícia Portugal Diário 12-02-2004

    Proprietários florestais são responsáveis pela prevenção dos incêndios. Foi uma decisão política do governo francês

    ...
    Depois de falarem de casos de sucesso no combate aos fogos em Espanha, os participantes no encontro discutiram durante a tarde a silvicultura de prevenção como forma de minorar o problema dos incêndios florestais, exemplificada com três casos nacionais: uma herdade na região de Castelo Branco, uma associação de produtores florestais de Coruche, e o concelho de Mortágua
    ....

    continua na cache do google :

    http://64.233.179.104/search?q=cache:Qx2vb3qOk80J:www.portugaldiario.iol.pt/noticias/noticia.php%3Fid%3D167948+%22exemplo+de+mort%C3%A1gua%22&hl=en


    ----------------------------------------------

    Artigo extenso sobre a central de biomassa de Mortágua publicado na revista da AIP (documento PDF)

    http://www.aeportugal.pt/Areas/AmbienteEnergia/CadernosPDF/Caderno3/BiomassaFlorestal.pdf

    ----------------------------------------------

    Mais um documento sobre a central de biomassa:

    http://europa.eu.int/comm/energy/res/publications/doc2/EN/MORTA_EN.PDF

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