Cantando e Rindo, a cantiga é uma arma.
sexta-feira, setembro 07, 2007
Em 1974, Uma Gaivota voava, voava, num mar de rosas encarnadas e cravos de ocasião, pela voz esquecida de uma Ermelinda Duarte.
Nesse mesmo ano, a explosão de música popular dos cantores de intervenção, avassalou todas as ondas de rádio disponíveis e fixou músicas que se tornaram standards.
José Afonso, cantava a toda a hora, não só a Grândola Vila Morena, como as músicas antigas dos álbuns dos anos setenta, com destaque para o Venham mais cinco e a Formiga no Carreiro. José Mário Branco entoava a Ronda do soldadinho que não se pudera ouvir anteriormente e contava a história de uma mãe e dos seus dois filhos.
A par de José Afonso, José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho, José Jorge Letria, Luís Cília GAC-Vozes na Luta, Francisco Fanhais, outros apareceram na onda de Manuel Freire e do sonho que comandava a vida desde o final dos anos sessenta.
Em 1970, os nomes sonantes no panorama musical de qualidade mínima, já são os mesmos de sempre: Manuel Freire a cantar Gedeão, os discos Movieplay a editar Nuno Filipe a trinar a Cantiga da Manhã e José Afonso com a canção de embalar. Com a chegada do Tempo Zip, na sequência do programa televisivo, aparecem Nuno Martins, Fernando Lopes, Joaquim Letria, Thilo Krassman, Urbano Tavares Rodrigues, para além do trio de fundadores e apresentadores do programa, Carlos Cruz, Raul Solnado e Fialho Gouveia.


Nesse tempo de zips, a toada geral da música portuguesa, soava à esquerda, mesmo nos festivais nacionais da canção, durante alguns anos menosprezados pelos promotores dos baladeiros e autores das letras das suas canções. Um deles, apresentador de rádio, João Paulo Guerra, definiu essas canções festivaleiras, protagonizadas nos anos sessenta por nomes como António Calvário, António Mourão, Madalena Iglésias, mesmo Paco Bandeira, como “nacional-cançonetismo”.
Seja como for, no início dos anos setenta, logo em 1971, as principais canções colocadas nos primeiros lugares, deviam tudo a autores de esquerda. José Carlos Ary dos Santos, comunista, era autor de várias letras, como o Cavalo à solta, cantado por Fernando Tordo que cantou depois a Tourada.
Foi nessa altura que ocorreu em Portugal o acontecimento da década, em matéria musical: o festival de Vilar de Mouros, em Julho-Agosto de 1971, no qual estiveram presentes Elton John e Manfred Mann e pelas cores nacionais uma série de grupos rock, de imitação da batida lá de fora, como os Psico, Sindicato, Pentágono com Paulo de Carvalho, Quarteto 1111, de José Cid, Objectivo, Pop Five music incorporated ( estes títulos!) e outros, como os Celos de Barcelos que levaram uma assobiadela monumental.
Ary dos Santos, fazia letras para músicas de Nuno Nazareth Fernandes e músicos como Pedro Osório e depois José Niza, durante anos a fio, concorreram ao Festival da Canção. Em 1970, Paulo de Carvalho, com Corre Nina; Fernando Tordo, com Escrevo às cidades; o Quarteto Intróito, com Verdes Trigais e Hugo Maia de Loureiro,com Canção de Madrugar, disputaram o primeiro lugar a um desconhecido Sérgio Borges, com Onde vais rio que eu canto que ganhou na votação popular dos representantes dos distritos nacionais. No ano seguinte, a vencedora Menina, interpretada por Tonicha, teve a concorrer, Paulo de Carvalho e Flor sem tempo ( a minha preferida ), Fernando Tordo e Cavalo à solta, (uma das preferidas); Hugo Maia de Loureiro e Crónica de um dia ( uma belíssima canção) e ainda a verdíssima Daphne e Verde Pino e Intróito dos Verdes Trigais e um EFE 5 com Rosa Roseira. Diga-se que na época, a vencedora Tonicha e a sua Menica, foram assimiladas pela bem-pensadoria da Esquerda, um perfeito exemplo do nacional-cançonetismo e disseram-no livremente, ao Mundo da Canção da época. A crtítica das canções concorrentes, feita no Mundo da Canção, é exemplar do espírito do tempo. Sobre a canção de Paulo de Carvalho, Flor sem tempo, escrevia o crítico Fernando Cordeiro:"claro que havia Paulo de Carvalho e toda a gigantesca máquina publicitária levantada pela Movieplay e que chegaram resolutamente a ser apontados de possíveis vencedores. (...)Mas a promoção foi demasiado gritada, quase agressiva, primitiva, em suma. E a própria canção não ajudou muito. Musicalmente incipiente ( estrutura harmónica monolítica, que é como quem diz limitada, pobre, mesmo em variedade e variações; de líricas." Resta dizer que a canção vencedora, Menina, era editada pelas produções Zip Zip, outra das majors da época
A par desses nomes que se repetiram durante anos a fio, pouca gente ouvia falar e muito menos ouvia a música da Filarmónica Fraude e depois, no final de 1973, da Banda do Casaco. Como não se deu importância mediática à música de Luís Rego que no início dos setenta, gravou em França um single fora de série, com a canção Amor Novo. Ou ainda a um espantoso LP de José Almada de 1970, com músicas e líricas fora de tempo e que ainda hoje se pode ouvir como uma pequena maravilha de composição, a par dos melhores discos de sempre, da música popular portuguesa.
E fora dos circuitos de bem-pensantes, e das referências na imprensa, havia o fado. E as canções de grupos como o Conjunto Maria Albertina, Duo Ouro Negro, o conjunto António Mafra do eram p´raí sete e pico e outros êxitos do género da Igreja toda iluminada, do Trio Odemira. Estes contavam para os espectáculos em “serões para trabalhadores”, da FNAT e em romarias populares, num tempo em que ainda nem havia cassetes, mas singles em 45 rtm, e que não se ouviam nos lugares dos progressistas da canção e da cançoneta. Marco Paulo viria depois, com os seus Dois amores e durou até aos anos oitenta ou um pouco mais.
Nessa altura porém, o panorama que o Sete apresentava ao público leitor, era outro, como se evidencia por esta imagem do jornal de 29.12.1982.

Em 26 de Fevereiro de 2000, o Diário de Noticias, pelas teclas dos especialistas do DNMais, elencava os 100 mais da música popular portuguesa. Os primeiros dez, são, por ordem decrescente:
José Afonso e Venham mais cinco, de 1973.
Amália Rodrigues e Com que voz, de 1970.
Carlos Paredes e Movimento perpétuo, de 1971
António Variações e Anjo da Guarda, de 1983.
Sérgio Godinho e Pano Cru, de 1978.
Rui Veloso e Ar de Rock, de 1980.
José Mário Branco e Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de 1971.
Pedro Abrunhosa e Viagens, de 1994.
Fausto, Por este rio acima, de 1982.
Madredeus, O espírito da paz, de 1994.
Quem disser que a Esquerda está mal representada ou que se equilibram as ideias do espectro político no campo musical, não está a ver bem o panorama ou não escutou esta banda sonora.
Imagens: de Vilar de Mouros, do livro Vilar de Mouros de Fernando Zamith, edições Afrontamento, 2003; Mundo da Canção, números de 1971 e 72 e do jornal Sete.
Publicado por josé 01:31:00 10 comentários Links para este post
Um código à medida.
quinta-feira, setembro 06, 2007
Segundo o Público, " a proibição de divulgação de escutas não estava no projecto original de Rui Pereira". Pelos vistos, alguém, anónimo, com responsabilidades governativas e em escrito apócrifo, acrescentou uma norma que não existia no projecto que foi enviado a diversas entidades, para se pronunciarem, antes da aprovação na AR.
Paulo Rangel, diz hoje no Público que a "norma parece desenhada para o processo Casa Pia."
Pronto. Está dito: este código é o Código do Processo da Casa Pia. O CPCP. Só é pena que o PSD tenha aderido, porque o caucionou.
Publicado por josé 13:34:00 11 comentários Links para este post
A cultura pertence à direita
"Há ideias de esquerda, mas só há cultura de direita. A cultura é o costume, a regra a norma, o Direito; as ideias, ma medida em que são elaboradas na consciência, são a transgressão, o desvio, a crítica do Direito. Mas a cultura não nasce das ideias, antes, sim, da vida. O problema todo é: como mudar a vida?"
Para já fica assim (amanhã darei a explicação para este pequeno texto a que faltam uns sinais), porque o epílogo sabe-me a pouco...
Nota de actualização explicativa, às 17h10m de 6.9.2007:
“Há ideias ou sistemas de ideias de esquerda, há projectos de esquerda, como já vimos. Mas a cultura, no significado que se nos afigura mais operacional neste género de discussões, é um meio integrador da sujectividade num outro meio, que os antropólogos designam também por “cultura”, o meio tecno-social, que é anterior à consciência. A “cultura” naquele sentido é a expressão simbólica de vida estabelecida; as ideias podem ser a contestação dessa vida.”
Estas frases, incluindo aquela inicial a que, propositadamente, suprimi as aspas que agora coloquei expressamente, inserem-se num texto publicado por António José Saraiva, no Diário Popular de 21.10.1976.
Foi nesse ano que AJS fundou, com Carlos Medeiros e José Batista, a revista Raiz e Utopia, em que lidava com estes assuntos. Passados 30 anos, a discussão estiolou. Pior: reduziu-se ao clubismo da Esquerda que nem percebe o significado de Cultura, pretende à viva força assenhorear-se da mesma e despreza as divergências semânticas.
Publicado por josé 01:59:00 4 comentários Links para este post
Epílogo
quarta-feira, setembro 05, 2007
A discussão sobre a Esquerda e Direita portuguesas, seria interminável e interessante ao mesmo tempo, se houvesse quem a fizesse. Mas não vejo ninguém verdadeiramente interessado nisso.
O advogado José Miguel Júdice, numa entrevista ao Diário Económico, sai com estas pérolas que não custa nada subscrever:
“Nas ideologias tradicionais, a social-democracia era uma caminhada para o socialismo. Sá Carneiro não queria caminhar para o socialismo. Não querendo dizer que apoie os socialistas, o que vejo hoje é que o PS está a defender um liberalismo avançado. O país virou muito para a direita. Eu deixei-me ficar. Não gosto de fazer ginástica, de correr nem de andar na praia. Sou muito preguiçoso. Fiquei mais ou menos no mesmo sítio onde estava há vinte e tal anos… O PSD tem de se reinventar ideologicamente. O espaço que ocupou, por causa da esquerdização enorme do PS a seguir ao 25 de Abril, foi tomado pelos socialistas. Há absurdamente um espaço na direita que não está ocupado. A direita tem de se assumir como direita. Quero um partido de direita forte para tornar a vida mais difícil a José Sócrates, para que a única pressão não venha da esquerda e o PS acabe por não fazer as reformas.”
É certo que JMJ borra a pintura mais uma vez, ao dizer, à frente, que “somos um país muito merdoso”. Também acharia se me contassem que um governo qualquer dera uma espécie de avença a uma sociedade de advogados para tratar de assuntos de privatização de empresas públicas e perante pedidos públicos de esclarecimento todos se fechassem em copas. Merdosos, foi assim que disse?
Assim, nestas coisas da Direita e Esquerda, a diferença esbate-se. E um anónimo, tipo um José qualquer, tem um valor nulo para essa eventual tertúlia de intelectuais coleccionadores de livros.
Ainda assim, não custa nada escrever umas tretas. Não se paga nada por isso e nem se recebe troco, a não ser o interesse de quem esteja inclinado a perguntar e perguntar-se de onde viemos, para saber para onde vamos e nos situarmos num qualquer lugar.
O exemplo mais interessante e personalizado sobre a Esquerda e Direita portuguesas, pode recolher-se no caso singular de dois irmãos, amigos de sempre e dignos representantes das duas margens dessa caminho, em calçada à portuguesa.
António José Saraiva, seguiu sempre pela esquerda, primeiro pelo caminho tortuoso do partido comunista e depois pela rebeldia do contra; Hermano José Saraiva, trilhou as veredas do salazarismo e de uma certa direita que se opunha à esquerda comunista.
António José Saraiva, nunca admitiria situar-se na Direita. Hermano, nunca seira de Esquerda. No entanto, afastados politicamente um do outro, nunca se separaram, como irmãos, dos sentimentos da amizade e da cumplicidade fraterna.
Que dizia António José Saraiva, de José Hermano Saraiva, numa entrevista ao Expresso Revista de 15.12.1990?
“O meu irmão é um bom homem, com muita imaginação. E eu tinha um carinho muito especial por ele. É mais novo que eu – tem menos ano e meio- e orgulhava-me dele. Saía à rua com a farda da Mocidade Portuguesa e eu acompanhava-o com um certo orgulho por ver aquele rapaz fardado ao meu lado, embora eu nunca tivesse entrado na Mocidade.
- Não entrou porquê?
Porque… não gostava, não sei.
-Mas gostava de ver a farda no seu irmão…
Gostava de ver a farda no meu irmão mas não gostava de a ver
- (…) Mas nunca houve invejas intelectuais dele por si, por exemplo?
- Não. Ele diz que tem uma grande admiração por mim, o que é muito importante, as nossas relações nunca foram conflituosas do ponto de vista político. De resto, talvez não saibam como eram as coisas no tempo de Salazar. Salazar era um homem geralmente respeitado e despertava uma admiração universal. Em mim também: mas eu era anti-salazarista por sistema, devia ser. Porque para mim as coisas funcionavam um pouco na base do “deve ser”. “As coisas devem ser assim, e por conseguinte, são”. E o Salazar era um homem respeitável, tinha uma belíssima prosa. E tinha uma honorabilidade que ainda hoje ninguém põe
E que dizia então José Hermano do seu irmão António José? Disse-o numa entrevista à revista Focus, de 8.9.2004 ( a tal em que retocou a declaração definitiva sobre Cavaco Silva e que de pobre diabo, passou a honesto gerente, numa emenda pior do que um soneto). Disse assim: “Nunca discutíamos. Eu e o meu irmão éramos uma alma com dois corpos. Não passávamos um sem o outro.”
António José Saraiva, um pouco mais subtil, contava assim, a dissemelhança entre ambos, a propósito da política:
(…) Em relação a mim e ao meu irmão, eu era contra e ele a favor; a propósito, vou contar-lhes uma história. Eu e o meu irmão íamos um dia a descer o Chiado, ainda miúdos, eu com 20 e ele com 19 anos. Ele, de repente diz: Viemos muito tarde. E eu, ao mesmo tempo, sem ouvir a frase dele, respondi: Viemos muito cedo. Para mim, tínhamos vindo muito cedo porque achava que o mundo ia ser melhor, para ele, viemos tarde porque o mundo já estava pior”.
Na definição das diferenças ideológicas em consonância com a idiossincrasia pessoal, não há muito melhor do que isto.
Publicado por josé 22:57:00 19 comentários Links para este post
Observatório 2008 - o factor Thompson
Publicado por André 14:14:00 1 comentários Links para este post
A utopia ao virar da Esquerda V
terça-feira, setembro 04, 2007
Não é a pessoa em si, simpatiquíssima e sem reparo que me chama a mencioná-lo. É mais a sua influência concreta nos media dos anos setenta, em Portugal.
Muita dessa influência, a meu ver, nasceu com o estado da Nação, a seguir ao 25 de Abril e ao pathos generalizado, tingido à esquerda.
Conforme já indiquei antes, a imprensa e media em geral, logo a seguir ao 25 de Abril, foi tomada literalmente por simpatizantes do movimento do MFA e dos partidos de Esquerda, com destaque para o partido Comunista e o Partido Socialista.
Em 1974, foi preciso aparecer o Jornal Novo, dirigido por Portela Filho que dirigiu depois, em 1976, a revista Opção, do mesmo modo e de modo nenhum de Direita, para assegurar um pouco mais um pluralismo que se arriscava a reduzir-se ao Expresso, efectivamente dirigido nessa época por Pinto Balsemão, já sintonizado com a Ala liberal anterior a Abril e virado para os negócios como se confirmou depois. Não era dali que viria a voz de Direita ou a voz contra a Esquerda, a não ser a totalitária do PCP, para equilibrar o espectro político-mediático.
Assim, em 2 de Maio de 1975 apareceu pela primeira vez um jornal semanário, de Esquerda democrática, como se dizia, com uma dúzia de jornalistas que comungavam as ideias de José Carlos Vasconcelos que então escreveu o editorial do número 1 de O Jornal, como “intérpretes da vontade colectiva” e vincando bem o progresso em marcha acelerada, “no caminho hoje indesmentivelmente aceite, para uma sociedade sem classes, onde não existam exploradores e explorados.”
Esta profissão de fé, ficou vincada na Constituição de 1976 e José Carlos Vasconcelos, ao longo dos anos e em conjunto com os seus colaboradores nos vários projectos jornalísticos, deram bem provas da fidelidade aos ideiais de Abril, formulados à Esquerda.
Como colaboradores de O Jornal, contavam-se Augusto Abelaira ( director da Vida Mundial), Cardoso Pires, escritor, Fernando Namora, escritor, Miller Guerra, Brederode dos Santos, Amaro da Costa ( do CDS), Eduardo Lourenço e Eduardo Prado Coelho. Muitos jornalistas actuais, com experiência e dos principais media, aprenderam na escola de O Jornal. O Público tem vários.
Em 1978, surgiu o semanário Sete do mesmo grupo editorial, e que só acabou em Dezembro de 1994, num último número que tinha uma entrevista com um dos únicos jornalistas-escritores que pouco pretendia dever à Esquerda ( a não ser a publicação dos seus textos nesses jornais): Miguel Esteves Cardoso, que se assumia então como monárquico ou conservador ou lá o que era que nunca percebi muito bem. Foi nessa qualidade que formou, com Paulo Portas, no final dos anos oitenta, o Independente, uma das poucas tentativas de veicular algumas ideias que nada devessem à Esquerda, em campo luso ou estrangeiro.
Em Maio de 1981, surgia mais um rebento das edições do Jornal: o Jornal de Letras, artes e ideias, cujo editorial, assinado por JCV, garantia que não eram uma revista de certa geração, o órgão de nenhuma teoria, o jornal de qualquer tendência, grupo e muito menos capela”. De facto, não bastam intenções declaradas, quando como principal ilustrador se escolhe o grande João Abel Manta, comunista de gema e grande zurzidor do regime de Salazar, em forma gráfica. O jornal pretendia, aliás, ser “uma mesa fraterna à qual se possam sentar escritores, artistas, intelectuais e cidadãos de variadas formações e ideologias”. De esquerda primordialmente e como “projecto cívico e cultural”.
Em Junho e Julho de 1978, O Jornal, para fazer jus à sua pretendida intervenção cultural e cívica, organizou uma série de conferências intituladas, “Portugal, anos 80-o quê?”, convidando diversos líderes políticos e pessoas de vários quadrantes, com predomínio evidente e esmagador da Esquerda. Mário Soares, afirmava: “Nem novas nacionalizações nem reprivatização dos sectores básicos da economia”. Cunhal, augurava “confiamos
A leitura do relato destas conferências, em quatro números de O Jornal, dá uma imagem precisa, do Portugal dos anos setenta, a caminho da década seguinte e da sua indesmentível inclinação à Esquerda, mesmo de acordo com a bitola de Cunhal. E O Jornal aplaudia, num empenho cívico peculiar.
Segundo O próprio José Carlos Vasconcelos, numa declaração a propósito dos trinta anos de O Jornal, (em 28 de Abril de 2005, na Visão), "o Jornal teve uma influência e um papel notórios na vida portuguesa”.Quem o nega? Resta dizer que José Carlos de Vasconcelos veio do Diário de Lisboa, antes do 25 de Abril, outro viveiro da Esquerda e lugar da Mosca de Cardoso Pires e do canal da Crítica de Mário Castrim.
Com o desaparecimento de O Jornal, 17 anos e seis meses depois, a Esquerda dos jornais semanários não ficou órfã de todo. Vários pais adoptivos estavam disponíveis para a sustentar, colocando lado a lado, o partido comunista e o partido socialista, como pilares da democracia, no lado esquerdo do peito.
O primeiro afloramento de uma publicação tendencialmente diferenciada da Esquerda, foi o Semanário dos anos oitenta, com a sua colecção de Olás que faziam vender o jornal, mais do que as manchetes de Marcelo Rebelo de Sousa. Nada de relevante, por isso, a não ser a opinião de Vítor Cunha Rego.
Em 25 de Março de 1993 surgia o primeiro número da Visão, um projecto ideologicamente semelhante e com colaboradores maioritariamente da mesma área, como se torna notório, nesta folha do número comemorativo dos dez anos da revista.
Em 5 de Março de 1990, tinha surgido no panorama da Imprensa portuguesa, o diário Público. Os nomes dos seus primeiros directores- Vicente Jorge Silva e Jorge Wemans e ainda Joaquim Fidalgo, José Manuel Fernandes, Nuno Pacheco, Adelino Gomes, Teresa de Sousa, Ana Sá Lopes ( estagiária de O Jornal), Regina Louro e Fernando Dacosta, nem precisam de apresentações nem que alguém lhes pergunte para que lado olham em primeiro lugar, sempre que atravessam a estrada política.
Em 1996 surgiu o semanário Já, dirigido por Miguel Portas e depois, já no sec. XXI não é preciso elencar mais nada para demonstrar a ideia básica que me levou à escrita destas notas: a Esquerda, em Portugal, tem dominado completamente, em matéria de ideias, a sociedade que escreve em jornais e a que os lê. Depois disso apareceram Factos, Sábado e outras experiências mundanas. Nada e nenhuma dessas publicações altera o que ficou escrito. Talvez um dos modos de avaliar a natureza da publicação, seja conhecer o seu corpo redactorial. A Sábado, durante o período quente do processo Casa Pia, revelou-se uma surpresa. De Esquerda. Outros órgãos de informação podiam ser analisados segundo a mesma bitola. Fica para outra ocasião.
Mutatis mutandis, a asserção permanece igualmente válida, para a televisão. O canal público da RTP, sempre foi caixa de ressonância dos governos do momento. A SIC teve como primeiro director, um dos expoentes da TSF enquanto cooperativa e que protagonizou rocambolescas aventuras, num outro exemplo da Esquerda dominante nos media,neste caso falados. A TVI, depois do falhanço da Igreja, é o que se vê.
Quando afirmo que existe um discurso unificado, apresentado em primeiro lugar pela Esquerda e depois adoptado, por quase todas as forças sociais ( um conceito de Esquerda) refiro-me aos conceitos operativos que perpassam nas análises de jornal, nos artigos de opinião e que se referem a várias opções políticas da nossa sociedade organizada dos últimos trinta anos. Refiro-me particularmente ao modo como certas questões ainda hoje são abordadas pelos media e que revelam essa inclinação canhestra. Assuntos como o salazarismo, a Pide, os tribunais plenários, o corporativismo, por um lado e por outro, o comunismo, a influência comunista nos socialistas portugueses, as mentiras ainda hoje passadas de mão em mão sobre os regimes comunistas etc etc, são encaradas na imprensa e media em geral, partindo de pressupostos ideológicos marcados à Esquerda.
A ideia escrita por Eduardo Lourenço ( um dos grandes intelectuais desta Esquerda), de que o "fascismo nunca existiu", é a mais perfeita metáfora para este modo de dizer. É o equivalente a dizer que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno almoço, uma estulta e perfeitamente idiota maneira de denegar pelo absurdo algo que se apresentava com as cores do Gulag.
Finalmente, em resposta a JSC do blog Incursões, também concordo que é bem melhor ter alguém a escrever ideologicamente marcado à Esquerda do que assistir a esta "lassidão de ideias". Concordo. Com o que não concordo de todo, é que se justifique de modo algum o predomínio da Esquerda sobre outros modos de ver a sociedade, como tem sucedido por cá, desde sempre. Por uma questão de equilíbrio, seria bom e bem melhor um maior pluralismo e é essa a minha conclusão final.
Imagens( clicar para ler) : editoriais dos primeiros números de O Jornal e Jornal de Letras, e da Visão, edição comemorativa dos dez anos da revista.
Publicado por josé 23:52:00 16 comentários Links para este post
Voltar a Sophia (sempre)
Publicado por André 23:07:00 1 comentários Links para este post
A utopia ao virar da Esquerda IV
A Esquerda não será um todo? Há esquerdas diversas e diversificadas do pensamento que as une? E qual é esse pensamento básico, originário, fundamental? É possível defini-lo, de modo a circunscrever uma Esquerda modelo, de modo a sustentar que determinadas ideia são apanágio típico da esquerda e outras o não serão?
Nos escritos antecedentes, propus uma ideia distintiva: a crença inabalável na igualdade dos Homens e por arrastamento e acrescento, a sua bondade intrínseca.
Na discussão filosófica que se poderia seguir, mas não segue, há quem tenha organizado bibliotecas, sobre essa ideia simples.
Assim, aqui, há apenas afirmação empírica e tão válida como o seu contrário: não há distinção entre Esquerda e Direita que possa fazer-se por aqui, neste campo semântico da igualdade do Homem.
Portanto, para operar com ideias e conceitos mais ou menos consensuais, haverá que buscar noutros lados e paragens, os paradigmas.
Poderia assim sintetizar-se que a Esquerda defende, desde sempre, os valores do igualitarismo e da solidariedade, com a protecção dos mais fracos e principalmente a ideia básica de que o colectivismo e acção colectiva se torna indispensável para prosseguir e defender esses valores. Daí o papel do Estado a sua intervenção determinante na definição de políticas sociais e não só.
Ora, virando a agulha em direcção a Portugal, quem, de entre todas as forças políticas, prosseguiu estes objectivos com maior afinco e determinação?
O Partido Comunista Português, sem dúvida alguma. O Partido, concitou a atenção de muitos intelectuais, antes e depois do 25 de Abril, encantacos com ideias simples, enunciadas por Marx, Engels e ainda Lenine, mais prático e operacional. Algumas dessas ideias simplistas e de filosofia antiga e eventualmente inspirada em Hegel e demais pensadores da margem correcta, podem enunciar-se de modo a todos entenderem:
“Toda a História é a história da luta de classes.”
"De cada um segundo as suas possibilidades, a cada qual segundo as suas necessidades.”
“A Religião é o ópio do povo.”
Todo um programa político nasceu destas simples ideias que arrastaram multidões de fanáticos e ainda mais de carenciados pela economia do começo do século. Na Rússica czarista, foi implantada a primeira experiência de Estado, em que estas ideias foram tomadas como dogmas e formado um partido que congregou as aspirações populares, tendentes ao desaparecimento do Estado, logo após a destruição das classes, principalmente a opressora, identificada como a burguesia. A teorização do comunismo é arrogantemente simples e sustentada por aparentes evidências que só se revelaram logros, para o mundo dos anos oitenta e após experiências económicas e sociais catastróficas.
O Partido Comunista Português, à semelhança de outros partidos comunistas, foi um dos que sustentou em Portugal, a validade intrínseca dessas ideias que se estendem por toda o espectro social, económico, artístico e abrange todos os sectores da vida do Homem. Tal como o Humanismo, ao comunismo nada é estranho desde que tenha a ver com o Homem em articulação colectiva.
O seu líder mais carismático e intelectualmente superior, Álvaro Cunhal, declarava simplesmente, no tempo em que a utopia parecia à mão de semear:
Para nós, marxistas-leninistas, o Estado é o instrumento de dominação de uma ou várias classes sobre outras classes. (…)
Criar um Estado democrático significa criar uma política democrática, um exército democrático, uma justiça democrática(…).
E para que não houvesse qualquer dúvida sobre o pansocialismo:
Para quem lute pela transformação progressista da sociedade é justo defender que o artista ( porque a sua obra intervém na sociedade e é um elemento e um factor de emoções, sentimentos e ideias) leve à sociedade com a sua obra uma mensagem que integre valores de classe que, num momento histórico dado, constituem a força de transformação voltada para o futuro.”- Álvaro Cunhal,
Esta visão do mundo e das coisas, determinou programas políticos em Portugal, discursos estruturados e luta política acesa, dentro e fora das instituições a ela vocacionada e influenciou opiniões ao longo dos anos, directa e indirectamente. Opiniões determinantes para opções políticas.
Em 1974 e durante vários anos, o Partido Comunista Português, foi uma das forças mais influentes na determinação das políticas concretas tomadas pelos vários governos por uma simples razão: as ideias comunistas, de Esquerda, foram dominantes na Constituição de 1976, por adesão e aprovação dos partidos maioritários, com destaque para o partido Socialista e por via travessa, diversas ideias de esquerda fizeram caminho, completamente livre de obstáculos, durante anos a fio, em Portugal.
A Constituição aprovada em 1976, apenas com o voto contrário do CDS, dizia expressamente no seu primeir artigo programático:
"Portugal é uma república soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes." O artigo seguinte, fala expressamente no "exercício democrático do poder pelas classes trabalhadoras"
Estas afirmações, absolutamente marxistas e de Esquerda, matniveram todo o seu valor e actualidade, até finais dos anos oitenta e o programa se lhes seguiu, continua a insistir em ideias tipicamente de esquerda, se bem que podadas do marxismo-leninismo das anteriores
Mas o partido Socialista é, actualmente, após guardar o socialismo na gaveta, o que aliás só aconteceu, em data bem posterior ao 25 de Abril, uma força que continua a reivindicar-se "de Esquerda".
As nacionalizações de 11 de Março de 1975, uma das mais evidentes manifestações da vontade da esquerda em colectivizar a economia, tiveram o apoio incondicional do PS.
Aliás, sem perder muito mais tempo com esta questão que parece pacífica, no recente livro acerca da história do PS, dá-se conta da génese do partido: em que "convergiam várias tradições, a democrática republicana e liberal, a socialista portuguesa do primitivo PSP, as correntes neo-marxistas dos anos
Não há neste PS a mais leve afloração de Direita assumida, pelo que Esquerda é a margem em que o partido se coloca sempre, independentemente de acusação da Esquerda comunista de que governo PS faz a política da Direita.
O partido Socialista é um partido social-democrata, tal como o PSD. A diferença entre ambos, programaticamente, é nula, porque partem ambos, na raiz, do revisionismo das ideias comunistas de Esquerda.
O teórico Bernstein, entendia a revolução popular como improvável, devido a entendimentos prosaicos da natureza humana, em que se percebia a tendência para o bem-bom e aburguesamento dos trabalhadores. Tal verificação prática e empírica, levou ao abandono da ideia de revolução socialista e à contemporização pela mudança do capitalismo, gradual, por dentro do sistema e em conquistas graduais e regulares de poder, o que diferencia os partidos social-democratas do modo radical, defendido pelos leninistas e bolchevistas.
Mesmo assim, serão os partidos social-democratas parentes da Direita ou herdeiros directos da Esquerda? A resposta, neste contexto, de tão óbvia que é, prescinde de mais explicações.
Assim, em Portugal, ainda antes de 25 de Abril, nos principais media lidos e com interesse, passou a exprimir-se opinião sobre os mais diversos assuntos e a relatar notícias e fazer reportagens, de um ponto de vista prometido: o da futura libertação do jugo ditatorial imposto à sociedade portuguesa por Salazar e Caetano.
A vontade de mudança era tamanha e com tão elevado grau de desejo que em 25 de Abril de
O Povo estava efectivamente com o MFA da primeira semana de Revolução.
O que é que aconteceu depois, para a tomada de poder da Esquerda em toda a linha e em todos os domínios, incluindo o judiciário, o da educação pública, das opções económicas e principalmente, no domínio da opinião pública e publicada? Aconteceu uma razia. E disso se dará conta a seguir.
Nota: em resposta às observações judiciosas de JSC, no Incursões, espero apenas que me faça justiça de não escrever que a afirmação de domínio da Esquerda se deveu exclusivamente à intervenção de cronistas e opinadores em geral. Isso é ver a árvore. A floresta, reside no "pathos", no ambiente que se instalou e generalizou. Coisa inefável, mas sentida e real e de que esses opinadores dão devida conta. E só por isso são citados. Porque não havia outros, entenda-se.
Publicado por josé 15:06:00 3 comentários Links para este post
Ana Teresa Pereira
Publicado por André 15:00:00 1 comentários Links para este post
Make love, not war
segunda-feira, setembro 03, 2007
O chamado Verão do Amor, há 40 anos, passou despercebido entre nós, nos meses de calor de 1967. Em Maio desse ano, a temperatura social tinha subido estrondosamente, com um assalto espectacular ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, perpetrado no mesmo mês da visita do Papa Paulo VI a Portugal , pela LUAR de Palma Inácio, o revolucionário que assim pretendia recuperar fundos para a luta política contra a burguesia, mas então considerado um simples bandido terrorista e subversivo. Um proscrito.Lá fora, na América da Califórnia e S. Francisco, apesar do Vietnam, celebrava-se outra onda, com vibrações mais sonoras e sensoriais. Os sulistas da América, sentavam-se em colectivo na área de Haight Ashbury, e os ingleses de Londres, reuniam num clube nocturno chamado UFO, experimentando substâncias esquisitas como o ácido lisérgico e as suas propriedades narcóticas e davam largas à maré de paz e amor que os invadia em modo artificial.
O LSD tinha sido descoberto nos anos 40, acidentalmente, na Sandoz e usado por artistas e até pela CIA, como soro de verdade e propalado como droga fantástica por Timothy Leary, a quem os Moody Blues cantavam o desaparecimento, em Legendo of a mind. Timothy Leary morreu em 1996. Cancro na próstata.
O Verão de 67, foi o Verão dos Hippies, a irmandada da paz e amor e o sonho da Califórnia, com flores no cabelo e colares ao pescoço de uma geração de jovens associados ao rock psicadélico dos Jefferson Airplane, dos Love, de Jimi Hendrix, de Donovan e mesmo dos Beatles e dos Rolling Stones, Doors ou Pink Floyd.
Em
Por isso e por cá, quem queria seguir as novidades musicais, mesmo atrasadas, ouvia o Em Órbita de Jorge Gil e José Manuel Alexandre que passou nessa altura José Cid e o Quarteto 1111, com a sua Lenda de El-rei D. Sebastião. Quem não sintonizava a onda progressista, ouvia fatalmente Scott Mackenzie e San Francisco, ou, mais pela certa, a vencedora do festival da Eurovisão, Sandie Shaw que cantou descalça, em palco, Puppet on a string e ganhou nesse ano.
No entanto, a canção do ano de 1967 e que se aguentou este tempo todo de 40 anos, nos ouvidos populares, é uma outra: a dos ingleses Procol Harum e Whiter Shade of Pale. É o que ficou do Verão do Amor. E ficou muito bem.

Publicado por josé 22:52:00 4 comentários Links para este post
A Utopia ao virar da Esquerda- III
domingo, setembro 02, 2007
Em Setembro de 1974, o partido Comunista e a Esquerda em geral, incluindo o partido Socialista que disso se não demarcou e só se assustou verdadeiramente no Verão Quente, no comício da Fonte Luminosa, precisava de identificar o fascismo português com nomes próprios.
Encontrou estes nomes e figuras, na sequência dos acontecimentos de 28 de Setembro, uma tentativa canhestra de alguns saudosos do regime de Caetano, caído em 25 de Abril, reporem algum equilíbrio entre as forças políticas que se erguiam em parada partidária. Havia então, como partidos políticos constituídos, o PCP, o PS, o PPD, o CDS, o MDP, o MÊS, o MRPP, a UDP, a LUAR e uma miríade de grupúsculos partidários e movimentos para as massas, todos de exrema-esquerda.
Quem dirigia o jornal Sempre Fixe de 30 de Setembro de 1974 que assim proclamou publicamente a imagem do fascismo português? Ruella Ramos e outros, anónimos.
O Diário de Lisboa era dirigido por A. Ruella Ramos e José Cardoso Pires.
O Sempre Fixe, só por si, encarregou-se de fazer a folha aos "fascistas", notórios, como Artur Agostinho e Silva e Cunha. Foi nesse mês e dia que Cunhal foi mais longe no seu discurso publico e radical: proclamou que era preciso partir os dentes à reacção e alguns tomaram-no precisamente à letra que era, aliás, bem significante.
Antes deles, e desse mês, é inútil seja a quem for, procurar pela imprensa de época, imagens do fascismo nacional, tirando uma ou outra relativa ao apagamento e apeamento dos seus sinais, como sejam nomenclaturas e estátuas e uma meia dúzia de fotos publicadas no Século Ilustrado ou Flama, retratando em modo paparazzi, os presos fascistas, Moreira Batista e Silva e Cunha, no forte de Caxias.
Houve nessa altura queima de livros ( todos fascistas), também, o que se documenta devidamente se preciso for e foi denunciado publicamente, com grande reacção de familiares de visados, sem memória nem vergonha.
Queimar livros é ideia de Esquerda? Pode ser. E o que havia mais como imprensa em Portugal, para todos lerem, em Setembro de 1974?
O Século Ilustrado era dirigido por Redondo Júnior, Duarte Figueiredo e Rogério Petinga, com a colaboração, entre outros, de Afonso Cautela, José Manuel da Fonseca, Maria Antónia Palla e outros.
A Flama, outra das revistas de grande circulação era dirigida por António dos Reis e Edite Soeiro e a Vida Mundial, por Augusto Abelaira.
A defesa das eventuais virtualidades positivas do regime deposto, supostamente de Direita, ficou a cargo de anónimos irrelevantes, em artigos dispersos, livros mal escritos, e conversadores de café. Em 1975, em Portugal, já não havia jornais de “direita” a defender o regime de Salazar/Caetano e as tentativas que se seguiram, ecoaram todas num mar de indiferença, amplificado pela mediocridade intelectual dos que ousaram virar-se contra a maré. Jornais como a Rua, o Diabo, ou o Dia, acolhiam saudosos e nostálgicos do tempo da outra senhora, chamada Gertrudes, pois os senhoritos tinham-se bem adaptado ao Expresso, depois ao Tempo, e mais tarde ao Semanário.
Ao longo dos anos, pode ler-se a ficha redactorial dos jornais e revistas que foram saindo em Portugal para se perceber se alguma vez a Esquerda, em geral e de ideias matriciais gerais, ficou equilibrada com ideias supostamente de Direita.
Em França, em Espanha ou na Alemanha, para não mencionar a Inglaterra, havia e há equilíbrio ideológico ou mesmo meramente opinativo, nos media.
Em Portugal nunca houve esse equilíbrio. O problema não é a existência da Esquerda como força dominante. O problema grave e sustentado ao longo de décadas é a ausência de vozes que digam ou falem de modo diferente do discurso dominante, relativamente a certos assunos, O melhor desses assuntos, é o regime anterior de Salazar e Caetano. O último concurso televisivo, na televisão pública, para eleger o português mais significativo de sempre, é um bom exemplo do que se pode dizer sobre o caso, através do depoimento recolhido em directo.
De resto, só agora começam a chegar aos escaparates das livrarias, livros sobre o período salazarista, com apreciações diferenciadas das até há pouco publicadas em sintonia com o pensamento único da Esquerda que definiu o fascismo como sendo o período de obscurantismo que mergulhou Portugal numa penúria de ideias progressistas, durante 48 anos.
Aqui ficam as imagens de fichas da redacção de alguns semanários que existiam e surgiram em Portugal após Abril de 1974. Dentre os nomes que aí constam, topem um só( VPV, peut être) que pudesse então ( ou agora) escrever como Jean-François Revel escrevia, ou que pensasse como pensava Raymond Aron, para citar apenas dois franceses da intelectualidade francófona que os de cá liam. Os nomes de Francisco Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Augusto de Carvalho e José António Saraiva, do Expresso, não contam porque não pensavam de facto e de modo a escreverem na época própria o que era preciso para inverter a maré. O nome de Nuno Rocha também não conta, porque sim, simplesmente e para não adiantar mais razões.
Agora, percorram todas essas fichas e perguntem a cada um desses redactores o que pensava de Jean-Paul Sartre e do regime de Salazar em Portugal e terão a resposta exacta, para perceber porque é que a Esquerda dominou e continua a dominar todo o panorama e pensamento político em Portugal, nestes últimos 40 anos. Ou menos meia dúzia, se quiserem.





No campo cultural, também nada havia para além da Esquerda. Durante mais de dez anos, a preponderância do semanário popular Sete, acompanhado do Jornal de Letras, cuja ficha dispenso publicar, por redundância, são o exemplo mais marcante.
Publicado por josé 19:29:00 1 comentários Links para este post
A Utopia ao virar da Esquerda- II
Sendo o Partido Comunista Português, a verdadeira Esquerda portuguesa, porque receptáculo perfeito, da matriz original do pensamento marxista-leninista, conforme foi praticado nas realidades dos países socialistas, que lugar existe para a Esquerda que não quer ser dessa esquerda? Será que ainda pode ser de Esquerda quem renega as ideias de esquerda?
Dito de outro modo, sendo a Esquerda verdadeira, um lugar infrequentável, que lugar existe para a esquerda que não prescinde do nome?
Em Portugal, a pestilência do lugar, só foi descoberta muito tardiamente, por uma legião dos seus ocupantes . A maior parte deles e à falta de melhor lugar para acalentar o sonho incandescente de utopias, acoitaram-se despudoradamente, noutro partido que se reclama de Esquerda, sendo essa a caução para a traição- continuar a luta pela utopia, num lugar mais decente. É por isso e nessa lógica imanente que se dão largas nos conselhos de administração de empresas internacionais de telecomunicações e energia. São as melhores, para se praticar as suas conceituadas ideias de esquerda. Outros, afiançam que as soluções de privatização de poderes públicos, entregando-as a outsourcing duvidoso, são também o ideal para o progresso da Esquerda. Outros ainda, sustentam políticas que a Esquerda verdadeira e original excomunga como sendo da mais retinta Direita que pode haver. Como se podem entender, estes neófitos vitalicia e supinamente instalados na opinião pública?
E por outro lado, o partido que os acoita e onde mandam sem pejo nem peias, e que é o partido Socialista português, pode ser um partido de esquerda?
Segundo alguns, com destaque para os neófitos, pode e deve. É até por isso que subsiste o mito de Manuel Alegre que se seguiu a essoutro mito inefável que se chamou Pintassilgo e convocou um esquerda afectiva sem rumo definido, a não ser a ideia básica, expressa na letra de uma canção progressista de Júlio Pereira ( um dos artistas dessa Esquerda) nos anos setenta: “foi contigo que aprendi que modificar as coisas, acontece de verdade quando se sente no peito, aquilo que não se sabe o que é e donde vem. Mas dá força e coragem para poder gritar aos homens aos vivem na mentira aos vivem sem viver, que a luta pela igualdade é a que nos faz viver.”
A “Luta pela igualdade”, portanto, é o mote sempre presente desta guerra ideológica que se matém viva e acesa ao longo dos anos e sustém todos os equívocos que podem advir das evidências dos erros cometidos.
A ideia de igualdade, é uma das distinções empíricas, porventura a mais sólida e consistentemente proclamada, que a Esquerda apresenta relativamente à Direita.
Alguns autores, no entanto, para evitarem a referência explícita ao igualitarismo que associa a Esquerda aos esquemas marxistas-leninistas, arranjaram uma modificação semântica e passaram a identificar a Esquerda como igualitária, sem ser igualitarista, fugindo assim à redução da desigualdade social através da solução igualitarista de igualdade de todos
E no entanto, não pode ser esse o ponto de diferenciação entre Direita e Esquerda: ambas podem ser igualitárias e o seu contrário e assim o conceito é meramente formal, aplicável em diversos conteúdos e inoperante para o efeito desejado. Por água abaixo vai assim, a ideia de solidariedade e maior justiça social, como apanágio da Esquerda por contraponto à Direita. Contudo, o conceito que permanece na nossa Constituição, é obviamente um compromisso de Esquerda e com a sua marca de água.
Por último, alguns autores pretendem a distinção fundamental, e antinómica, centrada na pessoa e na autonomia do sujeito moderno que faz reviver a distinção entre tradicionalismo e emancipação, antiga e de sempre.
No caminho continuado de busca do graal distintivo, podem ler-se as tentativas de inventar uma roda gasta e por isso, as últimas tendências repousam nas dicotomias Egoísmo-altruismo; Laicismo e libertários-religiosidade e defesa da ordem social.
Seja como for, em Portugal, a distinção faz-se outro modo mais prosaico e sem preconceitos. Alguém é de esquerda, porque sim, não precisando de mais concretizações. De Direita, são os outros. De preferência, os que nunca militaram, votaram ou simpatizaram com o partido comunista, o socialista ou os extremistas da Esquerda utópica.
Quantos haverá em Portugal, assim definidos alegremente, tipo cor de "gato-fedorento" a fugir, e a escrever em jornais e revistas? Tentaremos ver a seguir.
Publicado por josé 17:31:00 5 comentários Links para este post
A Utopia ao virar da Esquerda -I
Je voudrais, sans la nommer,
Vous parler d'elle.
Bien-aimée ou mal aimée,
Elle est fidèle
Et si vous voulez
Que je vous la présente,
On l'appelle
Révolution Permanente !
Enfim, que metáfora redutora poderíamos escolher para melhor definir estes conceitos mortíferos para a harmonia universal?
Teoricamente, a discussão levaria tempos infindos e conduziria à convocatória de milhentos autores e prosadores de crónicas, para no fim, se chegar à mesma conclusão de sempre: gostos não se devem discutir e por isso, quem gosta de esquerda é porque assim se sente e quem a Direita prefere, é porque conserva esse gosto.
Mesmo com gosto e sabores diferenciados, Esquerda e Direita, podem ser conceitos que simplificam e englobam modos diversos de organização da vida em sociedade e que se podem distinguir pelas teorias que os podem sustentar e modos práticos de execução.
A petite histoire, trazida pelos historiadores e divulgada pelos ensaistas, diz-nos que a distinção simbólica, ocorreu, na reunião dos Estados Gerais da assembleia nacional francesa, na França de 1789, que congregou o clero, a nobreza e o terceiro Estado. Os representantes da nobreza e clero, capitaneados por Malouet, sentaram-se, no hemiciclo, à direita do presidente; os outros, radicalizados por Mirabeau, à sua esquerda e a distinção de lugar pegou, no imaginário colectivo.
A simbologia do lugar de assento, associou desse modo, os que defendiam o sistema monárquico e os respectivos privilégios e prerrogativas, em contraposição aos defensores da revolução e alteração qualitativa deste status quo. A Direita pretendia conservar; a Esquerda, revolucionar e mudar. Mas…seria esta distinção dicotómica, a única possível? Não haveria também um lugar de centro, no espectro de assentos disponíveis? Havia, mas oscilante e sem alma própria. Seria a maioria? Quem sabe?
A Revolução triunfou e o ancien regime acabou. No séc. XIX, ressurgiu a ideia de Revolução, como conceito permanente de alteração social do status quo e os partidos marxistas e socialistas herdaram o acervo da Esquerda. Nessa época, porém, os conceitos já não eram claros, porque na Alemanha de Weimar, por exemplo, a esquerda concitava os apoios de comunistas e social-democratas ( do Kpd e do Spd). Entre as duas guerras, a confuão aumentou com o “nacional-socialismo” e a “revolução conservadora” ou o “personalismo comunitário”. Na Itália, Mussolini e os seus sentavam-se na extrema direita do hemiciclo parlamentar.
Na América, depois da II Guerra mundial e já nos anos sessenta, apareceu a “NewRight” , religiosa e tradicionalista e também a “NewLeft”, libertária e anti-imperialista.
Nesta Europa que nos une, a divisão de blocos, entre o Leste e o Oeste, com um comunismo marcado a Leste, de centralismo democrático e colectivização geral e uma democracia parlamentar a Oeste, com modelo económico capitalista, favoreceu o aparecimento de moderados de centro, pela “social-democracia” que afina os conceitos herdados da velha Esquerda, e conduz à amálgama de partidos que se diferenciam apenas pelo programa pontual, nunca pelos princípios programáticos fundamentais.
Nos anos sessenta e setenta, a par de movimentos de extrema direita, revolucionários e de minorias, aparecem os de extrema-esquerda, associados a uma New Left que se reclama contrária ao revisionismo da Esquerda original e que proclamam uma nova ideia de esquerda fundada no neomarxismo e nas experiências maoistas e guevaristas. É a estas experiências propagandeadas por esta Esquerda nova que os partidos comunistas tradicionais, chamam de “doença infantil do comunismo”. Mas é esta Esquerda nova que concita milhentos adeptos, entre estudantes que nasceram nos anos 40 e 50 e que vai desembocar na confusão aparente do início dos anos setenta em Portugal, logo após o 25 de Abril de
É esta nova Esquerda que concita o apoio de muitos intelectuais, em Portugal, logo após o 25 de Abril e a proliferação de partidos, grupos e grupelhos, atinge o paroxismo, nos dois anos que se seguem à Revolução dos Cravos, por si mesma, amplamente aproveitada pelo Partido Comunista Português, tradicional e seguidor atento do modelo soviético e que se esforçou seriamente, até 25 de Novembro de 1974 por implantar o modelo de sociedade basicamente definido como socialismo, mas amplamente conhecido como comunismo.
Esta proliferação de opções políticas, não significa qualquer pluralidade real, porque o modelo básico de construção e organização social, sem falar da ideologia subjacente, é essencialmente o mesmo: colectivização dos principais meios de produção; partido único, de poder, com eventuais apêndices para democratas de outros países rivais, verem e eleições condicionadas pelo partido único, com cerceamento rápido e indolor das principais liberdades cívicas garantidas nas sociedades ocidentais, de democracia parlamentar.
Aplicando os conceitos a Portugal, imediatamente antes e após o 25 de Abril, poderemos procurar em que lugar ideológico se situavam os principais intelectuais e mentores de opinião pública e a resposta que fatalmente terá de ser dada, por quem esteja de boa-fé e sem preconceitos, é a de que estavam todos ou quase todos situados à Esquerda.
Mas que Esquerda, perguntarão alguns?
A Esquerda ideológica, marcada pelo partido comunista e ainda a Esquerda seguida pelos anti-revisionistas, nas sua ideologia fundamental e experimentada na China e na América latina e ainda num ou noutro país modelo de isolamento como era, no caso concreto, a Albânia.
A Esquerda original, "the real thing", aperfeiçoada e com êxito político, de provas dadas na governação, com uma pátria própria e teoricamente coerente com os princípios enunciados por Marx, Engels e Lenine, situa-se no entanto, nos partidos que afiançavam a categoria inultrapassável do seu modelo único: os partidos comunistas, internacionalistas e proletários, de todos os países que prentendiam unir.
Em Portugal, o Partido Comunista Português, logrou implantar nos meios intelectuais e académicos, as ideias básicas, fundamentais da doutrina marxista, desde cedo. Que ideias eram essas, no fim de contas e que ainda contam actualmente no ideiário do PCP?
Estão à vista no seu programa e não mudaram um centímetro ideológico nos últimos 40 anos. Não se percebe por que razão não se enunciam claramente e sem receios públicos, que os desejos veementes de alteração das políticas de “direita” supõem sempre um modelo radicalmente diverso e incompatível com o modelo de organização política e social que temos.
O Partido Comunista Português, não queria em 1975, como não quer ainda hoje, programaticamente, uma democracia parlamentar, embora conviva com ela e com ela sobreviva no espectro político nacional. O PCP não queria em
O PCP não queria então, como não quer ainda hoje, uma sociedade com valores que não bebam ideologia no materialismo dialético e por isso, nunca admitiriam o pluralismo de órgãos de informação que disso discordassem. Para tal, a censura férrea e imposta pelo Estado policial, seria a norma vigente, sempre apoiada, claro, na vontade popular, do "nosso povo".
A bandeira do Partido Comunista Português, desde sempre, foi a luta contra o fascismo. Em Portugal, o fascismo é, simplesmente, o regime de Salazar e Caetano. Era-o em 1974 como o é ainda hoje, e muitos intelectuais de todos os quadrantes de Esquerda, não admitem outra discussão que oblitere esse dogma. Associada a essa bandeira, vem outra mais pequena mas não menos emblemática: a repressão fascista, que levou às prisões centenas de militantes que queriam à viva força depor o regime que detestavam e prender os seus próceres. Entendem como inaceitável e injustificado, um regime que não tolerava a liberdade de manifestação de quem o procurava depor, inclusive pela força das armas. Os que foram presos por causa dessa lógica que não compreendem nem aceitam, são os heróis da resistência ao fascismo e em nome dos quais, se proclama a legitimidade de existência ideológica de um partido.
Em 1965, o maior de todos os comunista portugueses, Álvaro Cunhal, proclamava por escrito um outro dogma que continua a ser seguido pelos comunista portugueses actuais, como o comprova qualquer leitura avulsa da revista O Militante: “ Para nós, marxistas-leninistas, o Estado é o instrumento de dominação de uma ou várias classes sobre outras classes. (…)
Criar um Estado democrático significa criar uma política democrática, um exército democrático, uma justiça democrática(…).
E corentemente com a ideia de Esquerda real e verdadeira, assim escreve n´O Militante de Maio-Junho de 2007, José Neto, membro do Comité Central do PCP:
“Efectivamente, no Estado fascista, a polícia e os tribunais eram instrumentos da opressão de classe exercida pela burguesia monopolista e pelos latifundiários sobre as massas da população.”
Estas simples frases, estas enunciações claras de Revolução quanto ao modelo social vigente, não deveriam ficar impunes, numa discussão democrática, no Portugal actual, para se perguntar que lugar pode ter actualmente, na sociedade portuguesa, um partido que comunga de ideias totalitaristas tão ou mais perigosas que as de qualquer neofascista cuja existência a Constituição proíbe.
E no entanto, são ideias como esta que se impuseram logo em 1974, com o apoio manifesto, amplo, vibrante e intelectualmente sustentável, pela inteligentsia portuguesa que se manifestou após o derrube do antigo regime de Salazar/Caetano.
Essas ideias basicamente revolucionárias e que o partido comunista e a Esquerda em geral apoiaram, em 1974, 1975 e 1976, continuam a ser válidas no Portugal de 2007 para essa verdadeira Esquerda portuguesa que é o Partido Comunista Português. São estas ideias que fizeram caminho ideológico e se aninharam durante anos na própria Constituição da República Portuguesa, como normas programáticas pacificamente enunciadas e
Não obstante, para além e aquém do partido comunista, vicejaram outras forças políticas, no leque partidário português, logo depois do 25 de Abril de 1974 que merecem atenção porque comungaram das mesmas ideias básicas e foram constituídas por intelectuais e militantes que fizeram percursos sociais com relevo na sociedade portuguesa e que nunca se demarcaram ideológica ou intelectualmente das opções básicas da Esquerda, enunciadas nessa altura e que o partido comunista ainda considera válidas.
Muitos desses intelectuais, fizeram gradualmente o percurso de aproximação ao centro político, alguns ultrapassaram e fixaram-se em partidos ditos de direita e outros continuaram fiéis à velha cartilha, confiados na mudança dos ventos da História.
Não obstante, em Portugal, a ideologia de Esquerda, com essa matriz específica que formou a mentalidade de dirigentes partidários e militantes de escrita em jornal ou revista, continua a ser validade por estas asserções:
“ Para quem lute pela transformação progressista da sociedade é justo defender que o artista ( porque a sua obra intervém na sociedade e é um elemento e um factor de emoções, sentimentos e ideias) leve à sociedade com a sua obra uma mensagem que integre valores de classe que, num momento histórico dado, constituem a força de transformação voltada para o futuro.” Álvaro Cunhal,
Esta militância ideológica, para muitos, nunca foi ultrapassada, no subconsciente, porque as ideias de juventude, marcantes e determinantes de opções políticas e sociais, fixam afectivamente para todo o sempre, o lado para onde se olha em primeiro lugar, numa discussão política. É para esse lado que a maior parte dos intelectuais portugueses olha, porque foi assim que aprenderam a olhar em primeiro lugar e não há amor como o primeiro. Principalmente se esse amor, tem razões que a razão desconhece. ( continua).
Publicado por josé 16:22:00 1 comentários Links para este post
Os partidos com paredes de vidro
sábado, setembro 01, 2007
Dificilmente se pode encontrar um caso que envolva a intimidade mais íntima de duas pessoas, do que aquele que nos anos noventa envolveu o príncipe Carlos de Inglaterra, então casado com a princesa Diana, cuja morte ocorreu há dez anos e ainda Camilla Parker Bowles.
A conversa, cujo conteúdo se transcreve a seguir, teve lugar entre duas pessoas adultas, em privado e pelo telefone móvel e não envolvia qualquer assunto de Estado, criminal ou de outra natureza que não a intimidade afectiva de duas pessoas, uma delas apontado como futuro rei de Inglaterra.
Segundo consta, a conversa teria sido gravada através de dispositivos de escuta, eventualmente ilegais, mas possivelmente, também legalmente admissíveis no âmbito da segurança dos serviços secretos, que escutam conversas de acordo com a legislação inglesa.
A divulgação desta conversa causou escândalo, pelo simples motivo de colocar em causa a fidelidade matrimonial do príncipe e por via indirecta, provocar uma crise de relacionamento, grave, entre dois casais, o que terá conduzido ao divórcio de Camilla, em 1995.
Em 1992, a ligação romântica, foi tornada pública, com a publicação de uma gravação, cujo conteúdo era uma conversa entre Camilla e Charles ao telefone móvel, em 1989.
Charles: E quanto a mim? O problema é que eu preciso de ti várias vezes por semana.
Camilla: Mmmm, eu também. Eu preciso de ti toda semana. A todo o momento.
Charles: Ah, Deus. Se eu vivesse dentro das tuas calças ou assim, isso é que seria bom!
Camilla: e em que é que te vais tornar, num par de cuequinhas? Oh, vais voltar como um par de cuequinhas!
Charles: Ou, Deus me perdoe, um Tampax! A minha sorte!
Camilla: És mesmo idiota de todo! Ai, mas que ideia maravilhosa!
Não consta que depois destes factos, a legislação penal inglesa, tenha sido alterada, para proteger os senhores do poder, nomeadamente o príncipe e futuro rei ou tenha sido discutida a liberdade de imprensa na publicação destas gravações de conversas íntimas, tornadas públicas, pelo interesse definido pelos directores dos media e a opinião pública.
No caso Clinton, em 1998, conversas privadas mantidas entre a estagiária da Casa Branda, Mónica Lewinski e uma outra antiga relação de Clinton, Linda Tripp que convenceu aquela a contar em detalhe os pormenores do relacionamento íntimo mantido na Casa Branca, por Clinton e Lewinski, foram conhecidas e não consta que Clinton pusesse a máquina legislativa em andamento para alterar as leis de liberdade de imprensa e a possibilidade de conhecimento, pela opinião pública, daquilo que os presidentes fazem, na privacidade que não podem ter, em função das suas obrigações e responsabilidades.
Outros exemplos se poderiam apontar, como prova de que há países civilizados que não cedem à tentação de cortar o pio aos media, sempre que um ou outro dos poderosos da política se vêem em palpos de aranha para explicar condutas mal amanhadas.
Em Outubro de 2003, um dirigente do partido de oposição, Ferro Rodrigues, entalado num processo medonho, desabafou para outro dirigente do mesmo partido, através do telemóvel que se estava a “cagar para o segredo de justiça”. Embora seja isso que muitos fazem, porventura a maioria, a publicação da transcrição telefónica, por violação do segredo de justiça e que constava ( e consta) de um processo criminal, foi um escândalo maior. Outro correligionário, todo Alegre, terá dito antes que queria que metessem as escutas “pelo cu acima”. Enfim…
Em 2005, o Expresso divulgava que escutas telefónicas, realizadas no âmbito de uma investigação criminal ao caso dos sobreiros da Portucale, mostravam o empenho de Abel Pinheiro, do CDS e ainda de um assessor do então P.R. Sampaio, em mandar o procurador geral da República, Souto Moura, para os quintos dos quintos, designando tal mudança com o belíssimo eufemismo de “chupeta internacional”, à semelhança de outros rebuçados concedidos a notáveis por comportamentos conformes aos interesses de quem manda.
A publicação, para gozo público, da transcrição da conversa telefónica sobre a chupeta, que envolvia o nome de Rui Pereira, depois responsável pelo alteração das leis penais, no âmbito da Unidade para essa finalidade, terá sido a gota de água que fez transbordar o copo das comissões legislativas do PS e partidos adjacentes em pacto sobre a justiça.
Depois disso, houve ainda outras transcrições publicadas, no caso curioso do Apito Dourado que envolvem outros figurões que puseram as barbas de molho e ainda as não tiraram, embora se arrisquem a demolharem o que nem têm.
Estes casos avulsos, que abalaram severamente os detentores de poder político em Portugal que são sempre os mesmos de algumas décadas a esta parte, conduziram muito naturalmente ao resultado que está á vista, na revisão das leis penais: a evolução legislativa suplanta a daqueles dois países democráticos, pela esquerda baixa da decência política.
Mesmo em processos que já nem estejam em segredo de justiça, é proibido, sob pena de prisão e a partir de 15 de Setembro do ano corrente, divulgar transcrições de escutas telefónicas se os envolvidos o não autorizarem.
O sindicato do MP e dos Juízes já denunciaram tal norma legal, como “sinal político de tolerância ao crime” e ainda que “Portugal não é uma sociedade secreta”.
As acusações são de uma violência sem precedentes, mas...alguém duvida da justeza destas apreciações?
Em que país vivemos afinal? Um couto privado de uns tantos políticos conluiados e que se cooptam na altura das eleições democraticamente configuradas para ganharem sempre?
O PS e o PSD, partidos com vocação de governo ( mais os apêndices tipo BE ou CDS) merecem este poder que lhes damos democraticamente? Merecem?
Publicado por josé 15:31:00 9 comentários Links para este post







