Altos funcionários
domingo, agosto 19, 2007
No tempo do PGR Cunha Rodrigues, calhou como director da PJ, o agora conhecido Fernando Negrão, então juiz requisitado em comissão de serviço para a tarefa de orientar a principal polícia de investigação portuguesa.Cunha Rodrigues era, na PGR, aquilo que se convencionou imaginar como “um senhor”, um condottiere da imagem de uma procuradoria da República, algo pindérica e desajustada da imagem do seu líder máximo. Como exemplo máximo a apontar, pode elencar-se a suprema vergonha de, paredes meias com o gabinete do senhor PGR, vicejar um foco de corrupção potencial que deu em condenação criminal, por delito comum, de burla e outras malfeitorias que o anterior senhor PGR, eventualmente desvalorizava e se limitava a apreciar com uns meros reparos de circunstãncia tipo “ então, snrª drª, está tudo bem consigo?”, ou coisa que o valha, segundo rezaram as crónicas de jornal ao tempo do escândalo. A este, o senhor PGR da época, sobreviveu e ultrapassou, sem mácula e sem consequência, como se nada tivesse a ver com a sua excelsa personagem de recorte florentino. O ridículo não mata toda a gente, mas apenas aqueles que se dão ares. E um inteligente nunca se dá ares de coisa nenhuma.
Numa entrevista deliciosíssima ( todas as entrevistas do antigo PGR Cunha Rodrigues são dignas de leitura atenta), em 6.5.1993, ao Público, C.R. afirmava sem qualquer rebuço que “A polícia deve obedecer à magistratura”.
Laborinho Lúcio, ministro da Justiça, em 28.10.1994, por ocasião da nova lei de combate à corrupção, numa entrevista ao mesmo Público, enviava recados a Cunha Rodrigues, no sentido de o mesmo se conformar com os meios que até aí reclamava para combater o flagelo da corrupção.
Em Dezembro de 1994, houve um encontro celebrizado entre o então director da PJ, o juiz Mário Mendes e o PGR Cunha Rodrigues, para afinar estratégias de combate à mesma corrupção. Os resultados, passados estes anos todos, são amplamente conhecidos: quase zero.
Em Outubro de 1998, em pleno governo guterrista, um general, Garcia dos Santos, e um líder da CIP, avisavam através de apito, nos media, do problema grave de corrupção na JAE. Cunha Rodrigues, ouviu o apito e mandou seguir o comboio, sem inspeccionar devidamente as carruagens, por falta de inspectores a sério.
Em 1999, o director da PJ, o tal Fernando Negrão, afrontou directamente e sem temor, o senhor PGR Cunha Rodrigues, que com o seu ar florentino lhe respondeu em directo pelas televisões que não respondia a observações de “altos funcionários”, reduzindo-o logo ali, ao lugar de director geral que verdadeiramente é o do director da Polícia Judiciária.
O confronto prosseguiu, conduzindo directamente a uma participação crime, apresentada contra Negrão pelo senhor PGR Cunha Rodrigues, a propósito de uma evidente violação de segredo de justiça, apanhada numa transcrição telefónica anulada postreriormente em decisão superior, por invalidade formal. Ficou porém à vista que Fernando Negrão enquanto director nacional de uma polícia de investigação, anunciou antecipadamente uma busca policial e ficou impune por isso.
Em Março de 1999, Negrão conseguiu polarizar uma guerra institucional entre a PGR do senhor PGR Cunha Rodrigues e uma fronda de juízes empenhados em alterar o figurino da investigação criminal,
O juiz Orlando Afonso, moderado e sensato, mas presidente, à época, da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, tomou partido nessa guerra contra o senhor PGR Cunha Rodrigues: “A PJ não pode ser uma polícia privativa do MP”, disse então, congregando o sentimento de muitos outros. Neste cenário e conforme o Público de 27 de Março de 1999, o senhor PGR Cunha Rodrigues, declarou não querer comentar…apesar de escrever ao Público a lamentar a desinformação do jornal em assuntos particulares e de relevância judiciária. Às acusações de “maquiavelismo e hipocrisia”, o senhor PGR Cunha Rodrigues respondeu então com uma elegância actualmente desconhecida de muitos actores políticos: limitou-se a escrever que essas não eram características da sua personalidade ou do seu carácter. Mais uma vez, um senhor da renascença italiana.
Fernando Negrão acabou por se demitir, regressou aos tribunais como juiz de círculo, e numa das suas primeiras decisões, enquanto juiz, a propósito de caso de tráfico de droga, teceu duras críticas aos investigadores que antes orientara, na PJ. Exemplar.
Sobre o percurso de Negrão, está á vista: política, PSD, deputado, candidato à CML. Antes juiz de direito, actualmente político a tempo inteiro, sem grande sucesso ou relevância, após a passagem pela polícia.
Tudo isto vem a propósito do conflito aberto e institucionalmente objectivo que estalou agora entre o senhor PGR Pinto Monteiro e o director da PJ, Alípio Ribeiro.
Alípio Ribeiro, um magistrado do MP, culto, inteligente e com savoir-faire, amigo pessoal do actual ministro da Justiça, declarou que não concorda com o facto de o actual senhor PGR, ter mandado abrir um inquérito à denúncia possivelmente anónima, relativa a factos que envolvem mais uma vez, gente do futebol e magistrados e polícias que a investigaram.
Alípio Ribeiro, declarou frontalmente , ressalvando o devido respeito ao senhor PGR, que tal “não se justifica”.
Provavelmente, Alípio Ribeiro terá razão. No que pode muito bem não ter, é no modo de o exprimir.
Um director de polícia, “alto funcionário”, como lembrava o senhor PGR Cunha Rodrigues, não deve falar publicamente, sobre o que o PGR decide ou não fazer.
A questão será sempre institucional, mesmo que aparentemente pudesse ser pessoal, como o terá eventualmente sido no caso de Negrão e Cunha Rodrigues.
O estilo de Alípio Ribeiro não é obviamente o de Negrão, como também o estilo de Pinto Monteiro não é o de Cunha Rodrigues. O estilo é o homem, já lá dizia o outro.
Espera-se que Alípio Ribeiro tenha pensado bem neste estilo de intervenção institucional, porque as circunstâncias mudaram em dez anos, mas não mudou a essências e modo se ser das pessoas e a natureza das instituições.
A atitude do director da PJ é neste caso, em tudo semelhante à atitude de Fernando Negrão, com a diferença, irrelevante no caso, de ser ainda mais frontal e transparente: a discordância objectiva, torna também objectivo o conflito entre duas instituições que não devem conflituar publicamente.
Imagem, do Público de 27 Março de 1999.
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Agora que o tempo abriu - bom fim de semana
sexta-feira, agosto 17, 2007
Publicado por Carlos 17:24:00 3 comentários Links para este post
A crítica aos críticos continua
Quem quiser ler uma verdadeira crónica de costumes do tempo de Elvis Presley, com música à mistura e de um modo que deveria ser o habitual em papel de jornal dedicado aos sons populares, leia este excerto, tirado desta incursão no tempo de há cinquenta anos:
(...)Tudo isto porque, subitamente, descubro que Elvis Presley morreu há 30 anos. Isto das efemérides tem muito que se lhe diga. Em boa verdade, Elvis, morrera muito antes, dez, doze, quinze anos antes. De facto, em 62 ou 65, como queiram ele já criara todas as belíssimas canções que conhecemos. E que canções! Dispenso-me de fornecer aqui essa longa e gozosa litania porque Elvis tinha o toque de Midas. Vivi esses anos atormentado. Encantavam-me aquelas canções ( e não só as dele. Os meus últimos anos de liceu foram preenchidos por Bill Haley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Gene Vincent, Chuck Berry, Fat’s Domino, eddie Crochram, Platters, four Tops, Buddy Holly e dois cavalheiros estranhos a este universo, ou não tanto: Harry Belafonte e Nat King Cole. Desculpem a lista mas eu tinha esta dívida por pagar. A eles, aos meus amigos e à minha juventude). entretanto diziam-me, um bom revolucionário não liga a essas ninharias, a música americana e particularmente o rock é um produto do capitalismo e destina-se a fazer esquecer a consciência de classe, a urgencia da revolução e mais um par de patacoadas do mesmo género. Daí o meu desconcerto.
Os discos ainda eram em 45 rotações, lado A (o bom) lado B (assim, assim). E nem todos traziam duas canções em cada lado. No Colégio dos Carvalhos, uma prisão educacional igual a outras tantas, um dos nossos colegas tinha um gira-discos (um luxo) e não passava uma semana sem comprar um disco, às vezes dois (uma blasfémia capitalista num tempo em que o dinheiro estava contado para o tabaco, o cinema de domingo e pouco mais). Chamávamos-lhe o “Discóbulo”, num misto de inveja e espanto. Ele não se importava mas antes de dar a ouvir a preciosidade comprada, ouvia-a sozinho um par de vezes, para a decorar. Estava no seu direito de pernada. Ao fim e ao cabo fora ele que ardera com os cacaus para comprar mais esse disco.
Cinquenta anos depois, vejo-o distintamente, o Discóbulo, alourado, cara de pássaro, cabelo cuidadosamente abrilhantinhado e ligeiramente comprido a imitar sei lá que cantor.
Mas tudo isto vem a propósito do maior, do King, de Elvis. Deixemo-nos de coisas. O homem mudou, não o mundo, mas isso ninguém muda, mas muito, muito do que éramos, aqui, à beira mar plantados, pasmados, fartos de Fado de futebol e de Fátima, por muito que isto desgoste algum leitor menos generoso. O rock começou a nossa revolução e nisso incluo não só a música mas também as letras. Muitas delas serão ingénuas, repetitivas mas basta fazer o sacrifício de comparar o que se cantava à volta com os do rock e estes últimos parecem Bach.
(...)E, último apontamento, última homenagem: Elvis trouxe a música negra, o gospel, o primeiro soul e sobretudo o rhythm’n’blues para o palco da América. Fez mais pela causa do anti-racismo que vinte leis anteriores. Deu uma boleia a muitos grandes criadores negros, tornou-os visíveis, eles que como bem dizia Ralph Ellison, constituíam o “Invisible Man”, livro grandioso que me abriu insuspeitos horizontes para já não falar dos autores que na esteira dele li. Mas isso fica para outra história.
Agosto acaba por ser um mês de múltiplas efemérides. Relembremos apenas que Woodstock se celebrou justamente no meio do mês e deu, também ele o bilhete de identidade definitivo à grande música popular americana. Já sei que me virão falar de Monterey dois anos antes (em Junho-Julho dessa vez). Convém porém dizer que se bem que importante e inaugural foi ainda um encontro minoritário (pese embora a aparição da Janis Joplin ou de Otis Redding para não citar Hendrix ou os Mamas and Papas).
O texto, que nada deve de substancial às wikipedias da música ( a não ser uma ou outra lembrança eventualmente), é modelar daquilo que pretendi dizer sobre a escrítica pop actual: em vez de repositório de ideias feitas, alheias ainda por cima, deveria ser o lugar da opinião pessoal, escrita com o estilo. Podia até ser o d´Oliveira
Publicado por josé 13:22:00 1 comentários Links para este post
Os apaniguados do sistema
O gesto virtual, feio na ética internética para apagar manchas na putativa brancura da biografia do actual primeiro-ministro e realçar a alvura do perfil , é anónimo.
O que não ficou no anonimato, porque o diabo cobre com uma mão e descobre com as duas, como os apaniguados em comandita já se deram conta, foi o lugar de onde partiu a empreitada: um computador ligado ao Centro de Gestão da Rede Informática do Governo. Os responsáveis não comentam e se comentarem, já se sabe: n-e-g-o.
Quem comentou, acusando-se abertamente de habilidades semelhantes, que no caso serão legítimas porque pessoais e intransmissíveis, foi uma jornalista, adepta da glóra fácil e que colabora num blog que abomina os anónimos que lhes estragam arranjos de conveniências. O comentário, habilidoso, procura desvalorizar a diferença entre a intervenção pessoal, legítima e segundo as regras do lugar, de um visado, na enciclopédia online, associando-a e normalizando-a à intervenção de uma equipa, de um governo, de um país, para edulcorar biografias e apagar referências incómodas, mesmo que nem se tratem de falsidades. É por isso um trabalho institucional, pago pelo erário público e dedicado a proteger a imagem de quem manda. Um trabalho de sabujos? Depende do ponto de vista. Por mim, julgo tratar-se mais de um trabalho de apaniguados, ou seja, de protegidos e sectários. Avesso, por isso, à dissonância e à oposição, confundidas manobras de caluniadores em "campanha".
Na taxinomia própria à facilidade, os da fronda da crítica a este tipo de gente, acoitam-se nos blogs caluniadores, difamadores e de “campanha” e que assim estragam a festa da maioria absoluta, conquistada com habilidades, como por exemplo prometer impostos de pataco, para fustigar as corporações.
Veremos como vai ser quando a festa acabar e os apaniguados tiverem de desmontar a tenda de bugigangas e banhas da cobra, para irem pregar a glória fácil para outra freguesia.
Quem afinal combate, na prática, estes apaniguados, com a técnica que liberta, tornando-se um dos inimigos da mentira e da dissimulação, é Virgil Griffith, cujo perfil se encontra, precisamente na Wikipedia . Merece um louvor público e o reconhecimento de milhões.

Publicado por josé 11:30:00 7 comentários Links para este post
A lógica do sistema
Entrevista muito interessante de José António Barreiros à revista Sábado que saiu nesta Quinta-feira.
Além do mais, pronuncia-se sobre um acontecimento que explica em parte o governo actual que temos, do Partido Socialista.
José António Barreiros, foi enviado para Macau, por conta de nomeação do PS ( a que pertencia e de quem se desvinculou depois de ter regressado) e para substituir António Vitorino, “depois de a Administração Pinto Machado cair. Mário Soares designou Carlos Melancia governador e eu fui para secretário adjunto da Administração e Justiça”, conforme explica.
Como explica ainda a exoneração do actual ministro da Justiça, Alberto Costa. Assim:
“Foi uma decisão óbvia. Justifiquei-a por escrito e não voltaria atrás. Tinha grande apreço e admiração por ele, mas na posição em que ele se colocou era meu dever demiti-lo.”
Mas teve uma consequência, adianta o entrevistador Nuno Tiago Pinto…
“Demitiram-me. Sabia o que estava a arriscar e percebo que o sistema tem uma lógica. Quando mais tarde vi Alberto Costa ministro, compreendi perfeitamente.”
Percebeu o quê, afinal, José António Barreiros?
“É uma lógica a funcionar. Basta ver o rol de testemunhas que arrolou- Jorge Sampaio, Jorge Coelho, enfim-, para se compreender que o futuro estava com ele. Eu era o obstáculo que tinha de ser removido. E fui.”
No final da entrevista, JAB explica que pertenceu à Maçonaria do GOL e depois da GLRP. Saiu em 1992, porque descobriu então que a Maçonaria, em vez de ser um clube de reflexão filosófica, era mais um clube de filosofia de vidinhas em luta pelo poder. Como hoje acontece.
A lógica do actual sistema de poder política fica aí explicada. Nas entrelinhas, cosem-se as demais parcelas do pano que daria ainda para muitas mangas. A questão da licenciatura de José Sócrates, arrumada pela anomia reinante, é uma delas.
Estamos tramados. Por uma clique que não merece este poder que lhe caiu nas mãos.
Publicado por josé 02:39:00 0 comentários Links para este post
Um prenda que chegou do Brasil
Publicado por Carlos 00:39:00 2 comentários Links para este post
A crítica dos críticos, parte 2.
quinta-feira, agosto 16, 2007

A diferença entre estas três décadas, relativamente aos media, reside num aspecto curioso e que se banalizou, mas ainda impressiona: a quantidade de informação disponível sobre o assunto, seja a factual, seja a meramente opinativa, aumentou exponencialmente, à medida em que se vulgarizou o acesso à informação em Rede que permite além do mais, facilitar a informação em papel e suporte vídeo.
Sobre Elvis Presley, existe hoje em dia, uma quantidade de informação avassaladora, acrescida pela publicação dos seus discos, colectâneas e reedições sucessivas que acrescentam algo muito importante e que em 1977 não existia deste modo: o conhecimento da música do artista, em praticamente todas as gravações disponíveis e a preços acessíveis, quando não de graça, através dos canais certos da Rede.
Mesmo assim, que podemos ler acerca da música do intérprete que dominou a era do rock n´roll, naquela meia dúzia de anos em que durou? Considerações sobre o “rei”, afirmações de princípio, em segunda ou terceira mãos e opiniões de quem, não tendo vivido o tempo original, inventa as memórias que nunca teve, copiando as de outros.
O Público de hoje, cita John Lennon, através de outros citadores não nominados para dizer que “antes dele, não existia nada”, como se o disco do próprio Lennon, Rock n´Roll, publicado em 1975, não fosse uma compilação de músicas contemporâneas do aparecimento de Presley na cena americana, algumas delas ( Hound Dog, de Jerry Leiber/Mike Stoller ou Be bop a lula de Gene Vincent ou Ain´t that a shame de Fats Domino), anteriores ao próprio sucesso de Elvis…tal como Chuck Berry ou Fats Domino e principalmente a primeira gravação tida como o primeiro êxito do rock n´roll: Rock around the clock, de Bill Haley and the Comets, de Julho de 1954.
Para citar todos estes nomes, basta dar uma olhada rápida à Rede e relacionar factos e acontecimentos históricos, narrados em profusão em diversos sítios, a abarrotar de informação.
Nenhum jornal ou revista portugueses, hoje em dia, suplanta esta fonte de informação, que se espraia da Rede. Qual a diferença, então, que se poderia e deveria ler, nessa imprensa? A opinião abalizada e bem escrita, sustentada com os factos histórios conhecidos ou potencialmente conhecidos de todos os que se interessam. E com citação expressa das fontes e dos locais mais aprazíveis para se saber mais. O que nem é difícil, porque o Google e a Wikipedia, permitem essa facilidade até aos mais inexperientes.
Infelizmente, não temos por cá, seja quem for que mereça a atenção devida, para realçar essa diferença de modo escrito. Temos, em quantidade mais do que suficiente, quem faça recopilações de opiniões allheias, e recolha textos de outras fontes de informação. Alguns, a maioria, fazem-no sem sequer citarem as fontes originais, onde foram buscar directamente a informação. Outros, erigindo-se em decanos da escrítica, citam a formação livresca e revisteira, porque a jornaleira só adviria de um Melody Maker desaparecido de vez ou de um New Musical Express já transformado. Os escribas originais desses jornais, reciclaram o papel antigo e escrevem agora em revistas mensais, como a Uncut, a Record Collector, Goldmine ou a Mojo, ainda as melhores fontes de informação original, porque aí escrevem aqueles que viveram a época, ouviram os discos e viram os concertos.
Desta vez, o artigo do Público sobre Elvis Presley, cita a revista inglesa Mojo como fonte da inspiração citadora, o que parece ser novidade, ainda tímida e desgarrada ( a citação vem no fim e no miolo nada se lê com referência directa). Veremos amanhã, no artigo de fundo da Ípsilon, quem aparece citado…
Nota em 17.8.2007:
Afinal o Público, na Ípsilon de hoje, apenas publica a crítica ao disco de Elvis Presley, Elvis the King, da autoria de Mário Lopes.
O escrito, assinado por quem já me surpreendeu positivamente, uma vez ou outra, vem logo referenciado na abertura: a All Music Guide, enciclopédia online que também se consulta em papel, em livros especializados por géneros. A edição de 1997, que foi a segunda, sobre o Rock, tem mais de 1200 páginas, com entradas em letra minúscula.
O escrítico, porém, padece das mesmas enfermidades apontadas acima: reposita referências estereotipadas, sem a alma de uma crítica pessoal à música, ou o estilo que a suplantaria como acontecia no caso do MEC.
Ficamos assim à espera de algo diferente do que se pode obter na Rede, confirmando a noção de que a informação, sendo interessante, precisa de apreciação crítica diversa do lugar comum de há muitos anos a esta parte.
Publicado por josé 18:54:00 1 comentários Links para este post
Feira dos Petiscos III
segunda-feira, agosto 13, 2007
Publicado por Carlos 22:23:00 1 comentários Links para este post
Feira dos Petiscos II
Publicado por Carlos 22:21:00 5 comentários Links para este post
Feira dos Petiscos I
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A crítica aos críticos, parte 1.
domingo, agosto 12, 2007
Um dos críticos criticados no postal sobre os palimpsestos virtuais, respondeu na caixa de comentários. Aqui fica o comentário ( sem correcções ortográficas, as quais no entanto, foram ressalvadas pelo autor):
A falta de conhecimento é uma coisa, o falso testemunho é outra, e de outra índola. Aventar, por um segundo que seja, que ficcionei o que quer que fosse, é de uma total sobranceria, e de uma má formação moral que me repugna.
Respondo-lhe, no entanto, para o deixar descansado: o texto sobre Leonard Cohen - que não é uma figura dos anos 60, mas sim do século XX (mas isto o senhor não é obrigado a saber) - foi baseado em vários biografias, todas elas disponíveis na Amazon, entrevistas que recolhi ao longo de cerca de 17 anos (talvez mais), artigos de jornais, e de revistas especializadas. Há, além disso, e para quem quiser consultar, vários documentáios (alguns sobre Cohen) em que o bardo é mencionado, outros em que esse concerto é abordado. Material mais que suficiente para a abundância de pormenores, que era, aliás, um dos meus objectivos iniciais ao escrever o artigo.
Nunca consultei a Wikipédia (nem uma única vez), e sou do tempo em que se liam livros.
Qualquer dúvida em relação a artigos pode colocá-las ao director, ao editor e ao provedor -o que será mais correcto do que o que fez.
Fique também a saber que o livro de estilo do Ípsilon permite outro registo de escrita e que não hé um jornal do mundo que cite todas as biografias que utiliza, em particular num suplemento acima de tudo urbano e "jovem" (detesto o termo, mas enfim).
Espero que não volte a usar o meu nome nos termos em que o fez.
Para além do comentário que segue, também colocado na caixa dos ditos, apetece ainda respigar considerações sobre a alta estima pessoal que o crítico do Público tem por si mesmo e pelo nome que ostenta em Ípsilon. De tal modo que lhe vejo o dedo em riste, no comentário escrito, para ameaçar com retaliações de índole ignorada. Sugere que escreva cartas ao director e ao provedor e coisas assim, para protestar contra as crónicas. Enfim.
Afirma ainda não ter consultado a Wikipedia e para cronicar, “leu livros”. Leu poucos, a meu ver. Ou então, leu demais, como bem me parece.
De resto, não leu o suficiente para perceber sequer o significado da palavra “ficcionar” e daí, talvez, o acesso de agressividade no escrito. Acalme-se, Bonifácio. Para a próxima, vai ser pior…entretanto, entretenha-se e ria um bocado connosco que só lhe fará bem.
Não se abespinhe tanto. Sabe porquê? Em primeiro lugar porque não o insultei- limitei-me a criticar a sua crónica. Nem sequer lhe chamei abertamente ignorante, porque lhe faço a justiça de pensar que o não será.
Fiz uma crítica, simplesmente. Aquilo que você faz, habitualmente, referindo-se a trabalhos alheios.
Não está habituado? Então, vá-se habituando, porque tem aqui um leitor que quando lhe apetecer, desancar-lhe-á nos escritos, se o merecer. E olhe que merece muitas vezes, para lhe ser franco e nem sequer por outro sentimento menos digno que não a mera opinião pessoal.
E vai ser sempre sem apelo nem agravo da sua parte, a não ser o do sentido de humor que já vi que lhe falta em alto grau.
Depois, porque com um pouco de humildade ( ou humor), é possível mostrar inteligência...
Abespinhe-se um pouco, se quiser, mas para dizer a todos como é que consegue escrever os verbos no tempo do costume, sem que saibamos em que tempo viu leu e ouviu, o lugar onde o fez, como o fez e já agora, se não for pedir muito, porque o fez.
Se não experimentou - porque é demasiado novo para isso- em directo e no tempo certo, as experiências que narra na primeira pessoa, quer que chame a isso o quê?
Jornalismo à
Bem gostaria, mas infelizmente não lhe vejo talento para tanto. Mas nem por isso deve aborrecer-se, porque em terra de cegos quem tem um olho é naturalmente rei.
Na crítica musical, cá na terra, os reis morreram todos há muito tempo, se é que alguma vez houve monarquia por cá.
Houve um regente, que usurpou o poder em meados dos setenta, chamado MEC, mas não era crítico: era amador de escrita. E por isso fazia escrítica. Pop, no caso.
Quanto ao assunto Cohen, diz que há cerca de uma dúzia e meia de anos que anda a recolher material. Fez bem. Como fez bem escrever sobre a recensão dos primeiros discos de Cohen.
Mas poderia ocorrer-lhe que há quem os tenha ouvido na altura em que saíram...e também tenha espírito crítico para ouvir e comentar e tenha lido outros críticos, noutras revistas com bem mais do que os 17 anos de pesquisa.
Para escrever sobre Cohen com um mínimo de interesse crítico, não basta aflorar umas ideias que parecem adequadas embora respeite a sua crítica, pelo trabalho que representa.
Mas se aceitar a crítica à crítica dê-se ao trabalho de ler outros críticos, no que escreveram sobre essas três obras de Cohen.
E não escreva com toda a facilidade do momento que Songs ...é o disco mais respeitado da folk do séc. XX, a não ser com o espírito do escrítico que dizia o mesmo dos Joy Divison, in illo tempore.
Sabe quem sabia mesmo escrever sobre Cohen? Jacques Vassal.
Julgo que saberá de quem se trata e dispenso por isso apresentações.
Em Maio de 1971 ( há muito mais tempo do que os 17 anos), escrevia numa revista que tenho aqui à minha frente, uma crónica do tal disco que é ( para si) o mais respeitado disco folk do séc. XX. Entre as diversas frases adjectivas, sobre o disco, refere expressamente a orquestração de Paul Buckmaster ( que você nem cita, como nem cita os músicos e seria importante fazê-lo), como refere as canções:
Love calls you by your name ( melancolia etérea); Avalanche ( patética); Famous blue raincoat ( infinita tristeza dos coros que cheira intensamente a autobiografia); Joan of Arc ( surpreendentes rupturas); Dress rehearsal rag ( ironia desesperada). E a apreciação pessoal de Cohen: "homem da subjectividade total, tentando atingir não se sabe que sol e amar o seu ódio, de aconchegar o amor ao ombro, num impermeável rasgado, de cantar outra canção, ( por esta estar velha e amarga) e chamar o amor pelo nome e- nunca é demasiado tarde para o fazer-aflorar o sexo de Joana D´Arc".
Como pode ler, estão aí todos os clichés acerca do que se tem escrito sobre Cohen.
E já foram escritos em 1971.
A diferença, neste caso concreto, é que eu coloco aqui, onde leio o que porventura escrevo e não gosto muito de palimpsestar [o que porém, será sempre inevitável, na medida em que nos basearmos nos sons que ouvimos e nas palavras de outros, para saber factos e ter a noção de coisas que de outro modo nos seriam estranhas].
Vocês, dão-se ao luxo de se acharem catedráticos da crítica[dispensando a citação de fontes para as croniquetas].
Tenho pena, da vossa falta de humildade e sentido de humor.
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Cacela
sábado, agosto 11, 2007

Publicado por André 18:41:00 1 comentários Links para este post
Palimpsestos virtuais
De há uns meses a esta parte ( para não dizer anos) tenho ficado embasbacado com o grau de conhecimentos específicos sobre fenómenos da música popular que se podem ler nos artigos da especialidade no Público ( e certamente noutras publicações portugueses).
Nos últimos dias, no suplemento P2 e Ípsilon, do Público, dois artigos de fundo de catálogo, serviram ao leitor, as impressões e opiniões, numa escrita feita de verbos retóricos, no presente do indicativo e em pretéritos perfeito e mais-que-perfeitos, acerca de dois personagens da cultura popular dos anos sessenta: primeiro Lee Hazlewood e depois, Leonard Cohen, em escritos assinados por Kathleen Gomes e João Bonifácio, respectivamente.
O que impressiona nos escritos aludidos, para além da retórica dos verbos em presentes e pretéritos, em relatos de tempos improvavelmente vividos, é o espantoso conhecimento enciclopédico digno de uma wikipedia sem direitos de autor. A quantidade de referências concretas a um tempo passado, com décadas de distância e experiências relatadas em aparente primeira mão, nota-se nos escritos como se os autores narrassem o vivido presencial que os verbos atestam.
“Lee Hazlewood está a beber whisky com a eternidade”, é a primeira frase do texto sobre Hazelwood.
De onde virá a tremenda inspiração para tal frase narcótica? Do jornal inglês The Telegraph, uma das duas fontes citadas para o obituário, a par do suplemento do Observer e ainda da página no MySpace? O que sustentará a prosaica referência, mais genérica ao “ assim rezam as crónicas”? É certo que tudo isso está ao alcance de dois cliques, no genérico da Wikipedia, mas ainda assim...
Vamos então, direitos ao assunto: escrever obituários, crónicas musicais retrospectivas ou mesmo recensões críticas de discos antigos, nos jornais de hoje, é “piece of cake”, para qualquer escriba em défice de ideias e tempo para as pôr
Perante esta facilidade de cópia e colagem imediata a ideias alheias, porque não citar os originais ou mesmo as fontes directas do conhecimento? Para que serve passar em claro, todo um conunto de fontes de saber, virtual e metaforicamente enlatado, em lugares selectos na Net? Para alardear sabedoria emprestada, escrita em palimpsesto e esconder as fontes de origem, apresentando-as como propriedade intelectual do escriba?
O jornal The Telegraph ou o suplemento do Observer ou o sítio do MySpace, explicam em parte o artigo sobre Hazlewood, mas não explicam tudo e muito menos a frase do início, que continua a ser um mistério transcendental.
O artigo sobre Leonard Cohen, começa numa intimidade de quem reproduz um passado presenciado: “ Eram quatro da manhã naquela noite de 1970, na Isle of Wight, costa sul da Inglaterra.” Frightening. E a apreciação crítica em modo sumário, é definitiva: “Songs of Love and hate é o mais respeitado disco folk do século XX, mas não é um disco folk”. Ok, uma opinião respeita-se sempre. O problema são os factos que a sustentam e por exemplo os discos de Woody Guthrie e Pete Seeger, para ficarmos pelo continente americano.
No entanto, como a crónica assegura que irá contar em duas páginas, incluindo fotos tamanho gigante, a “história de como se chega ao extremo de amarga lucidez”, a leitura torna-se obrigatória para perceber como se escreve um artigo de tamanho fôlego sem uma única citação de fonte, de cópia ou mesmo de inspiração. Astounding.
É de meridiana evidência que estes escritos devem sempre algo a alguém que antes disso escreveu sobre o assunto. Será talvez difícil descortinar a fonte original, mas quem começa a escrever que “eram quatro da manhã naquela noite de 1970, na Isle of Wight” o mínimo que pode fazer, por respeito de quem lê, é dizer onde leu primeiro o relato de uma experiência que não podia ter vivido.
A não ser que seja tudo ficcionado, para começar um texto de antologia sobre a amargura da lucidez.
Publicado por josé 01:17:00 10 comentários Links para este post
Segredos, quem os quer?
sexta-feira, agosto 10, 2007
Lisboa, 10 Ago (Lusa) - O director nacional da Polícia Judiciária (PJ), Alípio Ribeiro, afirmou hoje à Lusa que o caso do desaparecimento da criança inglesa Madeleine McCann "está longe de ser esclarecido", apesar de terem surgido "novos elementos na investigação".
"Há novos elementos na investigação, mas ainda não sabemos onde estes nos irão conduzir", acrescentou o responsável nacional da PJ, considerando, por isso, que a Judiciária "está longe de esclarecer o caso" do desaparecimento da menina inglesa de quatro anos de idade, a 03 de Maio passado na Praia da Luz, no Algarve.
Em declarações à agência Lusa, Alípio Ribeiro revelou que "houve uma evolução na investigação [com a recolha de novos elementos de prova], não estando, contudo, ainda bem claro em que sentido" se irá desenvolver o processo.
Muito bem. Exemplar, até. Só falha uma pequena coisa: os abusos acerca das violações do segredo de justiça, continuam, impunemente, porque não há modo de travar a curiosidade que mata os gatos e alimenta muita gente.
Parece, a ser assim, que há apenas uma solução para este imbroglio e estas contradições sucessivas que hão-de continuar com esta e com a futura lei de processo penal que prevê a matéria do segredo de justiça: mudar a lei. Alterar o regime do segredo e acolher a sugestão de Rui Pereira, enquanto responsável pela Unidade de reforma penal. E mesmo assim...
.
O que se lamenta é a subsistência de dois pesos e duas medidas nesta matéria. No caso da pequena Madeleine, ninguém se lembrou de pedir demissões de responsáveis da investigação criminal, sendo certo que os indícios acerca da responsabilidade das violações, são de uma evidência que dispensa prova. Noutros casos, como o da Casa Pia, mudam-se os códigos e exigem-se inquéritos parlamentares e os notáveis acusam abertamente na tv os responsávels pelas violações do temível segredo.
Publicado por josé 21:23:00 4 comentários Links para este post
Acho que chegou a hora de revelar um segredo
quinta-feira, agosto 09, 2007
Publicado por Carlos 16:49:00 1 comentários Links para este post
Vingança
terça-feira, agosto 07, 2007
Publicado por Carlos 23:13:00 2 comentários Links para este post
Tendências:
— Barack Obama tem-se mostrado forte nos debates, mas terá cometido a primeira grande gaffe ao dizer que não hesitaria em bombardear o Paquistão, se tivesse provas que a Al Qaeda tem abrigos nos vizinhos do Afeganistão. Continua a ser o único candidato com dimensão suficiente para retirar a nomeação a Hillary, mas terá que refazer a sua estratégia de modo a surgir refrescado nos meses que antecedem o arranque das primárias. No Iowa, Obama ganhou terreno para Hillary e Edwards e pode, neste momento, sonhar com uma vitória no Estado de arranque, triunfo que poderia baralhar um pouco as contas
— Hillary tem um avanço que, em alguns estudos, é superior a 20 pontos e pode, por isso, começar a fazer uma campanha de minimização de danos. Ela está a conseguir ser a cara da experiência e da segurança, o lado da razão perante a vocação arrebatadora — de emoções, sex-appeal e sonho — na qual tem jogado a campanha de Barack Obama
— Rudy Giuliani continua como front-runner do lado republicano, mas está a ver o seu avanço diminuir perante a conquista progressiva de Fred Thompson do eleitorado mais fiel deste campo: os conversadores com um forte componente religiosa. No entanto, há uma fatia importante que vota republicano que continua a apontar Rudy como o candidato mais bem preparado
— McCain, depois de ter caído a pique entre Abril e Julho, estará a colher os frutos de uma autêntica revolução na sua campanha. Já recuperou o terceiro lugar, que havia perdido para Mitt Romney, mas ainda está muito longe de Giuliani e mesmo de Thompson, que mesmo sem estar oficialmente na corrida mantém um avanço de 5 a 10 dez pontos sobre o terceiro lugar
ÚLTIMOS NÚMEROS:
DEMOCRATAS
— Hillary Clinton 48
— Barack Obama 26
— John Edwards 12
-- Outros+indecisos 15
REPUBLICANOS
-- Rudy Giuliani 33
-- Fred Thompson 21
-- John McCain 16
-- Mitt Romney 8
-- Outros+indecisos 22
Publicado por André 15:41:00 3 comentários Links para este post
A/C do senhor ministro Augusto Santos Silva
O governo chinês emitiu um decreto proibindo o Dalai Lama de reencarnar. "O chamado Buda vivo é ilegal e inválido sem a aprovação governamental", afirma o texto assinado pela Administração para os Assuntos Religiosos. Público, pag.13
Publicado por Carlos 11:38:00 1 comentários Links para este post
Mais episódios no canal radical (não aconselhável a menores)
Dicussões conjugais, suspeitas de homossexualidade, uma professora atrevidota. São os últimos desenvolvimentos da novela que está a apaixonar o País. O Sexo e os Tribunais, no Direito de Pernada
Publicado por Carlos 00:28:00 2 comentários Links para este post
Afinal, diz tinto ou diz branco?
segunda-feira, agosto 06, 2007
Ontem, o argumento era simples: um “director de um museu do Estado” não poderia criticar a política da tutela sem se demitir (ou ser demitido), por não ser “possível executar lealmente uma política de que se discorda”. Era uma questão de coerência e bom senso.
Como ninguém conseguiu vislumbrar, como regra, uma tal impossibilidade, que teria como corolário uma visão da administração pública totalmente politizada e partidarizada, Vital Moreira adaptou o argumento às conveniências do patrocínio e vem hoje, mui doutamente, explicar ao vulgo a distinção entre os “cargos públicos de livre nomeação” e a “função pública propriamente dita”. Traduzindo por miúdos a lição magistral, conclui-se que, afinal, a directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) foi demitida por ... motivos políticos. E muito bem, porque - ensina o mestre - no dia em que os ministros não pudessem demitir livremente, por razões políticas, os titulares dos cargos de livre nomeação, “deixaria de haver governos capazes de levar a cabo as suas políticas”.
Vamos por partes - e falemos claro.
Antes de mais, uma constatação. Ontem, a tese de Vital Moreira era geral e abstracta. Aplicava-se a qualquer “director de um museu do Estado”. Hoje parece que, muito convenientemente, só se aplica ao responsável pelo MNAA que, ao que se noticia, é o único director de museu do Estado cujo cargo é de livre nomeação, por ser equiparado a cargo de direcção superior (os demais directores de museus são nomeados por concurso). É evidente que se trata de uma distinção meramente formal, uma espécie de status honorífico e para enquadramento remuneratório, uma vez que, na prática, o MNAA não dispõe de autonomia administrativa e financeira, sendo a autonomia de gestão do seu responsável idêntica, no essencial, à dos demais directores de museus do IMC (era esse, aliás, o pomo da discórdia entre a directora cessante e a tutela). Imagino que os politólogos estarão maravilhados com o, até aqui insuspeitado, relevo político do cargo de director do Museu Nacional de Arte Antiga e as exigências de estrita confiança política que, Vital dixit, lhe são inerentes... mas adiante.
Dando de barato que, no plano jurídico, a demissão da dirigente não é questionável (estaria, até, em regime de gestão corrente, por efeito do PRACE), não está em causa saber se a Ministra podia demitir a directora do MNAA. O que está em causa, é saber se devia fazê-lo e qual a real leitura política de tal decisão, no caso concreto.
Não se vê que o Governo possa argumentar que, caso não demitisse a Directora do MNAA, deixaria de ser capaz de “levar a cabo as suas políticas” para a área dos museus ou, em particular, para o MNAA.
Do que veio a público, parece adquirido que a directora do MNAA nunca se furtou a executar, com diligência e profissionalismo, a política definida pela tutela e que, não obstante ter entendido dever criticar o modelo de gestão superiormente perfilhado, no âmbito da preparação de uma reestruturação, revelou, mesmo no enquadramento de que discordava, um desempenho excelente e invejável, que até o PR enalteceu.
Assim, a leitura política possível é – uma vez mais – a de que o Governo cultiva o seguidismo na administração pública e trata as críticas como delito de opinião. Prefere a fidelidade acrítica à competência - e não tolera a irreverência.
Ao que tudo indica, a directora do MNAA não foi demitida por incompetência, por não atingir resultados ou por não dar garantias de cumprimento da política do Governo. Foi demitida por ter ousado quebrar a tal lei do silêncio, por discordar (com razão ou sem ela), por não ser um instrumento atento, venerador e obrigado, por não ser muda, afinal.
Bem pode Vital Moreira continuar a singrar placidamente as águas virtuais do politicamente correcto, seguro da distinção teórica de que, apesar de tudo, esta exigência de fidelidade política absoluta, em pensamentos, palavras, actos e omissões, a existir, só se aplicará – por excepção – aos "cargos públicos de livre nomeação".
Os funcionários de carreira da administração pública, que vivem no mundo real, não se enganam na leitura dos reiterados sinais políticos que o Governo está a dar. Em tempos de PRACE, de novas regras de avaliação, de quadros de disponíveis e afins, sabem bem com o que podem contar, na prática, se divergirem do pensamento único. Como Sophia, não ignoram “...as outras maneiras que sabemos, tão sábias tão subtis e tão peritas, que nem podem sequer ser bem descritas”.
A continuarmos nesta senda, os ilustres constitucionalistas da nossa praça ainda vão ser forçados cunhar um novo (velho) conceito: a liberdade de expressão ... a que temos direito.
Publicado por Gomez 21:51:00 2 comentários Links para este post
um segredo sem qualquer valor
Hoje, a atenção dos media pelo caso da pequena Madeleine, voltou à ribalta do interesse maior.
O Jornal de Notícias, dá conta de pormenores da investigação criminal que decorre, em estrito sigilo de justiça, por várias razões, uma das quais é a mais importante para a existência desse segredo: a protecção da investigação criminal.
A notícia do JN, diz assim:
Cão inglês encontrou sangue numa parede do quarto do casal McCann, no Ocean Club. Indícios recolhidos podem levar PJ a interrogar de novo família e amigos da criança desaparecida . Este facto permite o jornal titular que Madeleine pode ter morrido por acidente.
Estas notícias e especulações, vindas a público, assentam numa cicunstância que configura um crime: o de violação de segredo de justiça, tal como configurado na actual lei processual penal e ainda mais definido, na futura que se apresta.
Não obstante esta evidência, o legislador parlamentar, entendeu restringir ainda mais a possibilidade de os jornalistas noticiarem acontecimentos investigados em processos ainda em segredo de justiça, com violação expressa da lei que configura um crime, sempre que isso sucede.
Com uma agravante de peso: neste caso, como é por demais evidente, não foi a Procuradoria quem violou os segredos e tudo aponta para que o responsável ou responsáveis, estejam precisamente entre aqueles que investigam directamente o caso.
A sistuação torna-se por isso insustentável, porque há casos em que a violação de segredo assume foros de escãndalo que levam a exigências de demissão do procurador-geral, como aconteceu ( hipocritamente, diga-se) com o anterior, Souto Moura e em relação ao actual , ainda ninguém se atreveu a escrever o mesmo tipo de atoardas. Sinais dos tempos, sem dúvida, mas muito mais sinais de que algo está profundamente errado, neste domínio.
Melhor exemplo do que este, para mostrar o que valem as leis em Portugal que, neste caso, são como dizia o anterior presidente da República, meras sugestões, não se pode arranjar.
Toda a gente dos media viola os segredos de justiça. sem sentimento de qualquer culpa ou mesmo sentido de responsabilidade penal. Por isso foram recentemente absolvidos e por isso, irão continuar a proceder no futuro, embora sem possibilidades de invocação de erro sobre pressupostos da culpa ou da ilicitude.
Aproxima-se por isso o tempo das contradições e a responsabilidade não será dos aplicadores da lei nem dos seus destinatários, mas sim, apenas e simplesmente, dos legisladores actuais.
Actualização às 16h e 20:
Entretanto, um dos indivíduos que se viu envolvido e cujo nome foi propalado pelos media, na voragem das violações de segredo de justiça, declarou hoje ao jornal Sol que "vai pedir uma indemnização ao Estado Português pelos danos causados»."Obviamente".
Curiosamente, o senhor Murat, pensa, "obviamente", pedir uma indemnização ao Estado português, porque está convencido de que de que foi implicado no alegado rapto da menina inglesa pelos jornalistas ingleses: «Não sei como me vi envolvido no caso, mas tenho a certeza de que foram os jornais ingleses a meterem-me nisto».
Portanto, o eventual pedido de indemnização vai ser apenas para inglês ver.
Publicado por josé 13:10:00 9 comentários Links para este post
Mudam-se os tempos, não se mudam as vontades
domingo, agosto 05, 2007
“...há na SEC um regulamento de disciplina, entre o siciliano e o militar, que faz pagar caras as excepções à lei do silêncio...”,
dizia, em 1992, José Magalhães, a propósito de um processo disciplinar mandado instaurar pelo Secretário de Estado da Cultura de então (Santana Lopes) ao arqueólogo Luís Raposo, técnico superior do Museu Nacional de Arqueologia, na sequência de um artigo que este assinara no “Público” (de 13.06.92), no qual criticava, em linguagem aliás muito contundente, a política da tutela para a área da Arqueologia (v. “O Independente”, de 28.08.92, pág. 18).
Seria deveras interessante saber o que José Magalhães tem a dizer agora da actuação da Ministra da Cultura, no recente caso da demissão da Directora do Museu Nacional de Arte Antiga.
Enquanto não o faz, resta-nos a opinião do defensor oficioso do Governo, em escala permanente na blogosfera. Mas, hélas, Vital Moreira desta vez não se esforçou muito ... por pouco não se limitava a “pedir Justiça”. Sibilinamente, o prestigiado constitucionalista não contesta que os dirigentes da administração pública possam criticar as políticas da tutela. Entende, porém, que não o podem fazer “sem se demitir” (ou, supõe-se, ser demitidos). Isto porque, não seria “possível executar lealmente uma política de que se discorda”.
Haverá casos limite em que tal suceda (ou em que a opinião manifestada possa ser sancionada por se verificar, em concreto, um uso abusivo da liberdade de expressão). No caso em apreço, nada o indicia. Não obstante a discordância quanto às opções da tutela, o desempenho da dirigente demitida parece ter sido excelente, não se conhecendo dados que permitam presumir que não continuasse a sê-lo.
O curioso entendimento de que a discordância das opções da tutela impediria, necessariamente, a leal execução das políticas de que se discorda, teria como corolário a generalização, na administração pública, da regra da livre nomeação / demissão por critérios de confiança (política ou pessoal). Sendo Vital Moreira - honra lhe seja feita - um conhecido defensor da excepcionalidade e da estrita delimitação dos cargos de livre nomeação, cai agora em manifesta contradição. A menos que, no fundo, entenda que na administração pública não vigora o direito à expressão de críticas (que, a meu ver, em certas circunstâncias, será até um dever funcional...). Ou que, como dizia José Magalhães em 1992, há que fazer pagar caro as excepções à lei do silêncio.
Coerência e bom senso, nem sempre abundam. É um facto.
Publicado por Gomez 19:34:00 12 comentários Links para este post
Saudade (aquela caneca....)
sábado, agosto 04, 2007
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"Já que estou aqui"
Publicado por Carlos 00:03:00 1 comentários Links para este post
As auto-estradas do desenvolvimento
sexta-feira, agosto 03, 2007
O Público revela hoje um documento importante para o nosso modo de vida e de escolha política: uma publicação do INE, intitulada Portugal, 20 anos de integração europeia.
De modo simples, explicam-se estatísticas sobre o nosso crescimento e até uma visão do desenvolvimento económico de duas décadas.
Assim, uma verificação empírica torna-se agora científica: os líderes portugueses dos últimos vinte anos, pós- integração europeia, apostaram num modelo de desenvolvimento que privilegiou a construção civil de grandes obras, o betão, a argamassa, o ferro e asfalto. Temos, depois de vinte anos, uma rede viária invejável com
Assim, o nosso futuro, sempre adiado e de há vinte anos atrás, para os governos de então, passava em boa parte, pelas auto-estradas e pela circulação rodoviária.
Por causa desta aposta num regresso ao futuro, feita apenas há vinte anos, o estudo do INE, de agora, conclui que existe “um sobredimensionamento da importância da construção civil”, sobre os demais factores de desenvolvimento.
Na educação, o país estiolou, estatisticamente. Temos pouco mais de 26% de pessoas com estudos secundários, contra 70% na Europa. Não há criadores, inventores ou comunidade científica que se possa apresentar colectivamente aos europeus, apesar das melhorias de vinte anos. Há, principalmente, a ideia patente de que tudo poderia ter corrido diferente, para melhor, caso as opções fossem outras e os modelos seguidos, diversos. Portugal atrasou-se na última meia dúzia de anos e continua a aumentar a distância em relação ao pelotão da frente, meta almejada pelos “honestos gerentes” deste pobre país, também considerados, uns “pobre diabos”, por quem viu outros tempos e lugares e sente ainda o peso de um conjunto de valores bem diferenciados dos actuais, em voga, estimulados por governantes com diplomas obtidos como os brindes que dantes saíam na farinha Amparo.
Em 1971, no tempo do regime antigo, odiado pelos antifascistas por lhes coarctar os seus anseios a uma liberdade de também poderem oprimir, de modo pior do que o foram, os projectos de crescimento económico e de desenvolvimento, também assentavam em parcerias com a Europa, sem esquecer a África; também assentavam em melhorias rodoviárias, de acordo com padrões europeus e também assentavam principalmente, numa sistema de liberalismo económico, com intervenção mínima do Estado no sector produtivo. Talvez seja esse o sistema agora perseguido pela actual “esquerda”, que abandonou as referências marxistas e se concentra agora em grandes empreendimentos geridos por comissários, tipo Pina Moura, Vital Moreira e outros que perderam o rumo no final dos anos oitenta.
Porém, em 1971, numa revista moderna, escrevia-se como hoje não se escreve em lado nenhum, sobre as auto-estradas que hoje disfrutamos ao som da música do autorádio. Previa-se a construção, nos dez anos seguintes, de
Sabemos agora, que as opções de 1986, nem sequer foram prioritariamente essas e que até essa altura, nem dinheiro havia para mandar cantar os cegos das esquinas, quanto mais construir km de auto-estrada.
Como é que isto foi possível? Quer dizer, passarmos de um crescimento económico de 6% ao ano, com tendência a crescer, mesmo com crises petrolíferas e guerra colonial, para uma miséria que nem atinge os 2%, actualmente e de há longos anos a esta parte?
Alguém que o diga. O advogado José Miguel Júdice, hoje no Público tenta esboçar uma explicação interessante, com continuação para a semana que vem. O tema é sobre os apóstatas do comunismo e o futuro do socialismo sem Marx. Escreve que a esquerda moderna europeia “foi sendo formada pelos que deixaram de acreditar”, referindo-so aos desiludidos do marxismo que se reclamam ainda de esquerda, “não socialista”. Seja lá o que isso for, parece-me que se pode chamar social-democracia e o espaço da mesma tem vindo a ser ocupado, por todos os partidos políticos portugueses, com excepção do PCP e dos extremistas das bombas.
- Clicar nas imagens, extraídas da revista Observador nº 5 de 19.3.1971, para ler o texto:
Publicado por josé 23:05:00 4 comentários Links para este post
Marcelino, pão e vinho
quinta-feira, agosto 02, 2007
Curso de Sócrates livre de ilegalidades, é o título do Diário de Notícias, dirigido por João Marcelino.
Um título falso, uma notícia incorrecta e uma manipulação, também assessorada pelo gabinete do primeiro-Ministro que ontem, logo após se saber o resultado do Inquérito acerca da eventual falsificação do diploma, se apressou a comunicar a mesma mensagem, em nome do chefe do Governo. Pura propaganda, manobras de spin doctors reciclados, é o que temos como informação do Gabinete de um Governo, já abertamente acusado de tentar silenciar vozes incómodas nos organismos que dependem do Executivo e perseguir politicamente quem discorda ou diverge do discurso único governamental . Ficamos cientes e o último exemplo, é o da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, substituida por não alinhar no discurso único.
Quanto ao Diário de Notícias de João Marcelino, o Público de hoje , dá conta que corre na redacção do jornal um abaixo-assinado, mostrando a apreensão com a forma como a direcção do jornal tem lidado com os trabalhadores. A redacção de 135 pessoas, já logrou concitar o protesto de 45 redactores e é um inequívoco sinal de crise no jornal.
Parafraseando um dito de guerra, em tempo de crise, a primeira vítima, é a verdade. É o que acontece com o Diário de Notícias. As questões de sobrevivência, obrigam a esconder as verdades inconvenientes, para quem manda. Mais tarde ou mais cedo, o velho ditado sobre os romanos pagarem a traidores, vai aparecer bem visível, num editorial de um outro jornal qualquer. Um 24 Horas, por exemplo.
Publicado por josé 21:39:00 1 comentários Links para este post
Noites de Verão
Publicado por Carlos 21:13:00 1 comentários Links para este post
A manipulação
quarta-feira, agosto 01, 2007
Resposta em nome do visado, José Sócrates, pelos vistos na improvável qualidade de primeiro-ministro:
O gabinete de imprensa de São Bento, em nome do primeiro-ministro, considerou que o arquivamento do processo "deixa ainda mais claro" que existiu uma campanha com o objectivo de "caluniar e atacar pessoalmente" o chefe do Governo.
"O primeiro-ministro nunca esperou outro resultado que não aquele que o inquérito veio a apurar, mas a verdade é que a conclusão deste processo deixa ainda mais claro o que muitos portugueses certamente já tinham percebido: a campanha desenvolvida contra o primeiro-ministro foi uma campanha totalmente destituída de fundamento e não teve outro objectivo senão o de caluniar e atacar pessoalmente o primeiro-ministro", referiu o gabinete do chefe do Governo.
O que este comunicado revela, é uma manipulação inadmissível.
O Inquérito do DCIAP, destinava-se apenas a averiguar se algum incerto (ou o certo José Sócrates, enquanto cidadão, e sublinho cidadão porque se fosse como primeiro ministro, certamente as coisas correriam de outro modo e feitio), destinava-se, escrevia, a averiguar se alguém, falsificou um documento autêntico (...), na modalidade de falsidade de documento, ou de crime de uso de documento autêntico falso, envolvendo a licenciatura
Foi apenas isto que o DCIAP investigou. Passar além disto, para branquear toda a problemática à volta da licenciatura, é pura e simplesmente querer fazer dos outros parvos e estúpidos, no que o gabinete do primeiro-ministro, pelo menos neste caso, parece apostado. Como parece apostado em pronunciar-se em nome do cidadão José Sócrates, assumindo o comunicado em nome do primeiro-ministro, num abuso de poder de expressão pública que merece censura.
Esperemos para ver e ler amanhã, a imprensa.
Nenhum título de jornal deveria passar disto: DCIAP arquivou inquérito sobre a eventual falsificação do diploma de José Sócrates.
Foi só isso que não se apurou, e em termos indiciários, diga-se.
Publicado por josé 21:22:00 6 comentários Links para este post
era uma vez um País...
onde uns tem 'sorte', e outros não.
Boas férias a todos!
Publicado por Manuel 20:54:00 1 comentários Links para este post
Arquivamentos na República
Do comunicado da PGR de hoje, sobre o Inquérito à licenciatura de José Sócrates:
“29 diligências, das quais 27 inquirições, duas buscas e recolha de variada documentação proveniente da Câmara Municipal da Covilhã, Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Superior, Inspecção-Geral do Ensino Superior e Ordem dos Engenheiros" , para chegar a uma conclusão: arquive-se, nos termos do artº 277 º1 do C.P.P.No dia 11 de Abril de 2007, José Sócrates chegou às instalações da RTP1, numa comitiva de cinco carros de Estado, com o estadão de primeiro-ministro, com assessores e seguranças, para responder a perguntas de dois jornalistas, sobre dois anos de governo. A entrevista, no entanto e como se previra, centrou-se no assunto relevante da sua licenciatura, cujas dúvidas José Sócrates admitiu então serem legítimas, depois de apodar de caluniadores quem as levantou em primeiro lugar, particularmente nos blogs ( hoje, já depois de conhecido este comunicado, voltou a apodar de caluniadores os que colocaram dúvidas sobre o seu percurso académico e retomou a tese da campanha ). A este propósito, importaria esclarecer que o que o DCIAP fez e faz, é apenas investigar a prática de crimes. Há outros aspectos de relevância importante, no caso concreto que nada têm a ver com responsabilidade criminal, mas com a pura e simples vergonha ou com a ética política e pessoal, se se quiser. Há perguntas cuja resposta não está dada e que o Inquérito em causa, certamente não dá nem deve dar. Por exemplo, como é que se compreende que haja dois documentos na A.R, fotocópias, um deles rasurado, sobre habilitações literárias, sem que se tenha descoberto o original? Há resposta cabal e decente para isto, há? Enfim.
Durante semanas, um silêncio ensurdecedor, adensou dúvidas sobre a correcção na obtenção dessa licenciatura, levantadas em primeira mão, por António Balbino Caldeira e desenvolvidas pelo Público.
Na entrevista, dois pormenores, entre vários, mereceram atenção de quem esteve atento.
O primeiro, na altura
Dias depois, a TVI noticia que afinal, existia um documento, ( seria o mostrado por José Sócrates, na RTP1, com evidente relevância jurídica?) que fora usado posteriormente (em 2000?), para reclassificação profissional naquela Câmara, pelo mesmo, e era apócrifo, pois continha dados posteriores à suposta data de emissão e que demonstravam contradição com outros existentes.
Afinal, José Sócrates, através do seu gabinete de primeiro-ministro (?) , perante esse novo dado de facto, deu o dito por não dito e voltou à data jocosa, como sendo a da sua verdadeira licenciatura: o Domingo, dia 8 de Setembro de 1996.
Foi este assunto que agora foi investigado pelo DCIAP. O comunicado de hoje é taxativo:
“Da análise conjugada de todos os elementos de prova carreados para os autos, resultou não se ter verificado a prática do crime de falsificação de documento autêntico (...), na modalidade de falsidade de documento, ou de crime de uso de documento autêntico falso, envolvendo a licenciatura
Das duas, uma: ou o documento mostrado por José Sócrates na RTP1 é verdadeiro, autêntico, não apócrifo e atestado válido que a licenciatura em engenharia civil ocorreu no dia 8 de Agosto de 1996 e isso foi devidamente apurado através das 29 diligências realizadas, ou não é, como o gabinete do primeiro-ministro acabou por reconhecer.
Além disso, se o documento mostrado na RTP1, for o certificado apócrifo, implicitamente reconhecido como falso pelo primeiro-ministro, e se for esse o apresentado na Câmara da Covilhã em devido tempo, continua a dúvida sobre a natureza e relevância das investigações do DCIAP. Afinal , o que é que se investigou mesmo? O documento mostrado por José Sócrates era verdadeiro ou não? E o seu detentor, sabia ou não desse pormenor juridicamente relevante?
Atenta a natureza do assunto, supõe-se que será legítimo perguntar e saber como se fizeram as investigações, para que não ofereça qualquer dúvida mínima acerca do modo como se faz investigação criminal em Portugal, neste como noutros casos.
Esse é o primeiro aspecto que merece consideração, sobre o processo agora arquivado.
O segundo, ligado a este, por motivos óbvios e que deveria igualmente ter sido averiguado, supondo-se que o terá sido, tem ainda a ver com datas, coincidências e amizades perigosas. O percurso académico de José Sócrates no seu núcleo central, encontra sempre um nome no caminho: António José Morais, o professor do ISEL que acompanhou a transferência de José Sócrates para a UNI; que lhe fez o plano das equivalências e que o acompanhou já como docente nessa universidade, nas quatro das cinco cadeiras para a licenciatura, responsável por isso pela aprovação nessas cadeiras esseciais e fulcrais para a licenciatura. Morais, em Março de 1996 fora nomeado por Armando Vara, director do GEPI, um organismo do Estado que acabou envolvido em negócios com uma empresa de consultadoria de que Morais…chegara a ser sócio.
À parte o pormenor esquisito de José Sócrates em declarações publicitadas pelo Público, ter referido inicialmente que não se recordava dos seus professores na UnI, subsiste ainda outra questão básica e central, ainda não esclarecida:
José Sócrates disse, para toda a gente ver e ouvir, na RTP1, em 11.4.2007, que apenas conheceu António José Morais, enquanto seu professor. Nem esclareceu que tinha sido no ISEL e ficou a impressão que fora apenas na UnI. Portanto, para registo futuro, ficou a afirmação de José Sócrates de que só conheceu António J. Morais, enquanto seu aluno. O mesmo António J. Morais, confirmou tal facto , numa entrevista ao Diário de Notícias de 22 de Abril de 2007.
Agora só falta saber se isto é verdade e se de facto, José Sócrates disse a verdade. Disse? Apurou-se? Se este assunto não foi abordado, ponderado ou investigado minimamente, resta ainda uma conclusão: a investigação criminal em Portugal, relativamente a certos assuntos, continua na mesma. Arquive-se, portanto.
Nota correctiva, em 3.8.07:
Impõe-se uma correcção no que acima ficou escrito sobre o que José Sócrates disse na RTP1, em 11.4.2007. A data que o mesmo referiu como sendo a da sua licenciatura, segundo os registos dos jornais, foi efectivamente a de um Domingo de Setembro, noticiada antes da entrevista.
Nos dias seguintes a essa entrevista, foi noticiado que afinal havia um certificado de habilitações, depositado na Câmara da Covilhã, tendo a data de 8.8.1996, como sendo a verdadeira data da licenciatura.
Imediatamente, o gabinete do primeiro-ministro, aproveitou a deixa e fixou para a posteridade de alguns dias, que afinal ficaria assim "explicada a situação de uma alegada conclusão da licenciatura num domingo: podia ter acontecido, mas não aconteceu".
Como se veio a verificar pouco depois, a discrepância de elementos deste certificado, originou a suspeita de falsificação ou de uso de documento autêntico falso, que terá sido investigada pelo DCIAP, com o resultado conhecido.
Fica aqui a correcção, nomeadamente no que se refere à afirmação que José Sócrates desmentiu implicitamente o que teria afirmado na RTP1. Não desmentiu, efectivamente. Quem desmentiu – e por duas vezes- foi o seu gabinete. Certamente sem o seu conhecimento. Por isso mesmo parece que já nem serão os mesmos elementos, os que dele farão parte…
E fica também por aqui a conversa sobre esta assunto que já farta e que afinal, para uma boa maioria, não passa de um fait-divers. Seja.
Publicado por josé 19:48:00 4 comentários Links para este post







