Observatório 2008 - Hillary firme, Giuliani vacila
sexta-feira, julho 20, 2007

Rudy Giuliani: o ex-mayor de Nova Iorque continua a liderar a média das sondagens no campo republicano, mas não está a conseguir estancar as perdas para Fred Thompson, a nova esperança da Direita religiosa. Rudy transmite uma imagem de liderança, é respeitado pelos eleitores mais urbanos, mas não penetra nos estados mais tradicionais da América, aqueles que deram a vitória a Bush, sobretudo em 2004
-- Hillary Clinton destaca-se como favorita, não só para a nomeação democrata, mas para toda a corrida. A senadora por Nova Iorque vence em todas as sondagens feitas em Julho, mantendo um avanço de 10 a 15 pontos sobre Obama e ganhando todos os duelos com os republicanos, ainda que por margens reduzidas, quando o opositor é Giuliani ou Fred Thompson
-- Barack Obama dá sinais de uma ligeira retoma, mas continua a uma distância considerável de Hillary. O senador pelo Illinois mantém como principais trunfos os números muito favoráveis nos duelos com os republicanos (ligeiramente melhores do que os de Hillary) e continua a ser o candidato, entre todos os que se apresentaram, que tem melhores níveis de aceitação no campo oposto e menores taxas de reprovação. O problema de Obama é que… o segundo lugar de nada lhe valerá e a verdade é que não há dados que apontem para que esta diferença vá reduzir-se em breve
-- John Edwards não descola de números que não lhe dão hipóteses de sonhar com a nomeação. A estratégia de Edwards é tentar tudo no Iowa e em New Hampshire, onde continua a ter condições de lutar pelo primeiro lugar. Edwards acredita que uma possível vitória no Iowa lhe dará um novo impulso para os outros estados, mas não é isso que as sondagens estão a dizer
-- No campo republicano, Fred Thompson não pára de surpreender. Oficialmente, ainda nem sequer está na corrida, mas já aparece, em alguns estudos, em primeiro lugar. O actor está a aproveitar o estado de desgraça de McCain e as desconfianças em relação à religião de Romney e tem conseguido cavalgar o poderoso eleitorado cristão evangélicos. E, neste momento, não há grandes dúvidas: Thompson está na corrida para lutar pela nomeação e é, para já, o mais sério opositor de Giuliani
DEMOCRATAS
-- Hillary Clinton 37
-- Barack Obama 25
-- John Edwards 11
-- Bill Richardson 3
-- Dennis Kucinich 2
-- Joe Biden 1
-- Chris Dodd 0.5
-- Mike Gravel 0.5
-- Indecisos 20
(Fonte: Zogby)
REPUBLICANOS
-- Fred Thompson 22
-- Rudy Giuliani 21
-- Mitt Romney 11
-- John McCain 9
-- Mike Huckabee 5
-- Sam Brownback 2
-- Duncan Hunter 1
-- Ron Paul 1
(Tom Tancredo e Tommy Thompson têm números residuais, Jim Gilmore desistiu, há poucos dias, da corrida)
(Fonte: Zogby)
Publicado por André 01:31:00 1 comentários Links para este post
o nível dois
quinta-feira, julho 19, 2007
Eu e outros dissemos já que um desembargador que costuma exprimir pensamentos rápidos sobre assuntos judiciários, deveria pensar duas vezes, antes de emitir opiniões polémicas e de discórdia segura, porque se arrisca a ser criticado na praça pública da escrita. Quem diz o que quer, ouve o que não gosta, costuma dizer o povo.
Manuel António Pina, numa crónica na Visão, apodou o desembargador de “queirosiano”.
O visado pela crónica da Visão, não gostou da graça e escreveu à revista, que publica a carta na edição de hoje. Considera-se injuriado pelo epíteto e na mesma carta, adverte os leitores da revista, que vale a pena agir através do sistema judiciário, “para pôr cobro às diatribes daqueles que sofrem do complexo da última palavra e julgam que são deuses só porque opinam nas páginas dos jornais, das rádios e nas televisões.”
Quem diria que um epíteto tão prosaico e sem qualquer laivo de ubuesco, serviria para anunciar ao cronista da Visão a sua primeira e próxima experiência do sistema judiciário, como arguido?
Pois é o visado quem o adverte, desde já, que " como redobrou a injúria(...) irá, a mal (?) ou a bem, aprender que o sistema judiciário não é tão simples ou simplório como alguns lhe terão dito que era."
Safa!
Publicado por josé 23:56:00 9 comentários Links para este post
O crime compensa?
terça-feira, julho 17, 2007
O cronista do Público, Rui Moreira, abespinhou-se um pouco com o escrito de ontem e escreveu um comentário na caixa de baixo. Hoje, mais calmo, voltou a comentar e levantou algumas questões que merecem reflexão. Uma delas, sobre o segredo de justiça, ficará bem entendida se o autor ler o que escrevi no postal abaixo, sobre o assunto.
Outra, mais interessante, é sobre isto:
“O José diz que eu não sei que Jorge Sampaio foi escutado. Uma pergunta: o José sabe que o Jorge Sampaio não foi escutado?”
Ora, esta pergunta, inverte o sentido da afirmação da crónica, que positiva a escuta ao presidente Sampaio, dando-lhe um novo fôlego que já não tem. Uma escuta, no âmbito do processo Casa Pia, entenda-se. Uma escuta nunca provada, indiciada sequer ou mesmo suspeita pelo próprio que a propósito nunca se pronunciou nesse sentido, apesar da vergonha que fez passar ao anterior PGR, por causa disso.
Como já se escreveu, a única entidade a descobrir que Jorge Sampaio teria sido “investigado”, nesse processe, através dos telefonemas que fez, foi o jornal 24 Horas, dirigido por esse vulto do jornalismo português, Pedro Tadeu, antes tirocinante no Avante. A credibilidade desta notícia foi imediatamente posta em crise, sendo negada por comunicados da PGR e por opiniões escritas de quem julga saber algo mais acerca das linhas com que se cosem os processos penais em Portugal. É que ao contrário do que Rui Moreira supõe, para se expender opinião sobre algo, é preciso saber algo sobre. Não basta querer e julgar que se pode. Neste caso, o querer não é poder. É muitas vezes, antes, não dever.
Não obstante, Rui Moreira, continua a acreditar que talvez Jorge Sampaio tenha sido escutado. E pergunta-me se porventura eu saberei se não foi…
Ora aqui é que o ponto bate, porque quem pergunta, é porque não sabe.
E nisto de saberes, é preciso mostrar as razões de ciência para que todos entendam porque é que alguém pode dizer o que diz ou afirmar o que afirma. Daí o tal currículo reclamado ou inferido.
Quando eu afirmo e escrevo que Jorge Sampaio não foi escutado ou investigado ( a semiótica conduz ao mesmo resultado pretendido por quem insinua tais coisas), digo-o porque li os comunicados da PGR, o despacho final do processo onde tal matéria se investigou e ainda escrevi logo no dia em que a notícia saiu para a rua, na capa catita do 24 Horas, que o escrito era uma falsidade. Como de facto, era.
Um presidente da República, não pode ser investigado num processo como o da Casa Pia, do modo como se fez a investigação, ou seja, por um grupo de procuradores adjuntos do MP. Mesmo que as escutas nesse processo, relativamente a outros intervenientes, tenham sido- como se provou que foram- autorizadas ou ordenadas por magistrados judiciais, a partir do momento em que surgisse a mais leve suspeita de comportamento criminoso imputável ao presidente da República, parava aí a competência investigatória dos titulares do inquérito e o assunto passaria para outra instância. É preciso saber isto, que aliás vem escrito na Constituição no artº 130:
1. Por crimes praticados no exercício das suas funções, o Presidente da República responde perante o Supremo Tribunal de Justiça.
4. Por crimes estranhos ao exercício das suas funções o Presidente da República responde depois de findo o mandato perante os tribunais comuns.
Sabendo isto, só por estultícia se pode escrever, como o fez o 24 Horas do intrépido Tadeu que “Até os telefonemas de Sampaio foram investigados” no tal processo.
Por outro lado, mais perigoso ainda se torna, supor que a escuta a Jorge Sampaio, poderia ter sido realizada por alguém do processo, mormente polícia ou magistrado que eventualmente tivesse acesso a tal facilidade, (o que no caso, seria manifestamente ilegal, como se viu), e a procedimentos de escutas ao presidente, por via indirecta, ou seja, por este ter sido apanhado e gravado, a telefonar a amigos ou correligionários e tal conversa ter servido de prova para algo mais do que o que estava directamente em investigação.
Uma tal prática, inútil, deletéria, voyeurística e simplesmente criminosa, no fim de contas, serviria para quê, afinal? Para nada. Rigorosamente nada que pudesse aproveitar-se processualmente. Quem é o polícia ou magistrado que arrisca a carreira, por coisa tão inútil?
Logo, tenhamos o bom senso de entender que as suspeitas acerca de escutas ilegais, realizadas por entidades oficialmente credenciadas, no âmbito de um processo como o da Casa Pia, são fruto de ideias antigas, vindas do escuro dos tempos das ditaduras em que se pressentia pelos ruídos e estalidos do telefone que alguém estaria do outro lado, à escuta. Atavismos, portanto, que demoram a passar aos arquivos mortos.
Para além disso que decorre do senso comum, há ainda os relatórios oficiais, as investigações oficiais, o controlo efectuado pelos intervenientes processuais, interessados em descredibilizar a investigação e que demonstraram já a inexistência de indícios acerca da consistência dessas suspeitas.
Tirando isto que me parece o essencial do erro de Rui Moreira, subsiste ainda outro aspecto com interesse para o caso e que pode ser escalpelizado:
E não haverá escutas ilegais, criminosas, feitas por serviços mesmo públicos, da República, e também de particulares? Ou seja, não haverá em Portugal , casos como o do SISMI, italiano, em que os serviços secretos, à revelia de autoridades judiciárias escutam pessoas com vista a nem se sabe bem o quê?
Se esta questão tivesse sido assim colocada, por Rui Moreira, ou outrém, aí já não haveria este postal, porque nem teria havido o primeiro.
Sobre as escutas ilegais, intromissão em computadores, para lhes vasculhar ficheiros e monitorizar andanças blogosféricas e outras, aí…aí…já seria capaz de lhe responder com outras dúvidas.
Perguntaria em primeiro lugar, se há alguém interessado em monitorizar o que pensam, escrevem e dizem em particular, certas pessoas que podem fazer alguma mossa a certos poderes instituídos, altamente colocados. Que teremos como resposta? Haverá alguém do poder central executivo, com tentações, interesse, vontade mesmo, de espiolhar outros que os maçam e prejudicam na sua vidinha?
A resposta a esta pergunta, engata noutra: e se houver, continuará a existir alguém que se dê à canseira, ao trabalho e à sabujice criminosa de escutar telefones, espiolhar computadores e recolher dados para entregar a esses executivos incomodados?
A resposta a estoutra pergunta, vai depender do grau de crédito que se dá às teorias doutrinas de conspiração. Uns dão-lhe um grau elevado; outros, desprezam a importância do assunto.
Por mim, fico a meio da ponte: que interessará verdadeiramente a um polícia qualquer da secreta ou da discreta, andar a espiolhar criminosamente a vida alheia, se a descoberta da façanha lhe pode custar uns anos de cadeia?
A resposta, virá, como sempre da cenoura que lhe apresentam. Mais uma vez, neste como noutros casos, a lembrança de Watergate, assim como a do caso Plame, deveria servir-lhes de lição. Mas pode bem não servir.
Publicado por josé 18:25:00 10 comentários Links para este post
Apita o comboio
segunda-feira, julho 16, 2007
Lê-se hoje no Público, uma crónica de Rui Moreira, sobre as escutas telefónicas e de intercepção de correspondência electrónica, com origem nos serviços secretos italianos, e a membros da Associação de Magistrados europeus, o MEDEL.
Rui Moreira extrapola e paraleliza o fenómeno com as nossas escutas caseiras, em processos crimes conhecidos, para adiantar de graça e a seco que “vivemos num país onde há abusos frequentes das escutas telefónicas e onde gravações que deveriam ter sido destruídas acabem cirurgicamente na comunicação social. Sabe-se que no caso Casa Pia, até o presidente da República foi escutado”.
Este tipo de frases soltas, desgarradas das quadras popularuchas dos jornais tablóides, doem a ler. Porque são disparates pegados, asneiras grossas que passam como moeda corrente neste mercado fiduciário.
Uso estes termos, porque julgo que serão do entendimento do cronista do Público, que após aturadas buscas no Google descobri ser…economista. E quanto ao nome, apenas Rui Moreira, sem perfil, sem biografia, a não ser num ou noutro blog mais afoito, algo que pode nem ser verdade ( um menido da Foz do Porto, um "gajo porreiro", preocupado com a vidinha, é o que se lê em comentários).
Já sabia que era presidente eleito da Associação Comercial do Porto, como sede no Palácio da Bolsa e também já sabia, por ter visto, que era comentador de assuntos futebolísticos num qualquer trio de ataque aos donos da bola, ou coisa que o valha. Um daqueles programas em que se começa a ver, e se pode desligar durante uma hora, retomando calmamente e sem interrupções de maior, o fio à meada, depois desse tempo todo. Um programa televisivo, de elevadíssima formação e conteúdo cultural, onde se adivinha o curso universitário dos participantes, com base no estudo afincado, anos a fio, de manuais profundos de sabedoria como a Bola e do Record, com aulas práticas aos Domingos, nos estádios.
Rui Moreira deve ter lido no pasquim 24 Horas, in illo tempore, que “Até os telefonemas de Sampaio foram escutados”[no processso Casa Pia] e ficou por aí, com a pérola falsa dessa informação errada e apasquinada.
Aparentemente, não sabe, e parece nem querer saber, que os telefonemas de Sampaio nunca foram escutados, nesse processo, nem podiam ser, e escrever isso, é contribuir para a desinformação geral, mesmo depois de inquéritos parlamentares a envelopes e comunicados oficiais.
Além disso, também confunde escutas de serviços secretos, com escutas ordenadas por juízes de instrução, controladas por juízes de instrução e mantidas nos processos, como prova válida, por juízes de instrução. Mesmo no caso do Apito.
Aliás, se apresenta a comparação italiana, pela negativa, também deveria saber, mesmo pelas leituras da Bola e do Record que os organismos desportivos italianos aproveitaram milhares de horas de escutas telefónicas, efectuadas pelo publicco ministerio italiano, para varrerem a corrupção desportiva que por lá se descobriu, com ajustamentos entre clubes e árbitros.
De Rui Moreira, e a propósito deste tipo de casos, género Apito Dourado, suas implicações, vontade de combate sério à corrupção e afastamento de dirigentes suspeitíssimos, nada li ainda. Mas pode ser que tenha dito qualquer coisa, no ataque de trio aos donos da bola.
Publicado por josé 11:57:00 28 comentários Links para este post
Os jornalistas erraram
domingo, julho 15, 2007
A investigação demorou o seu tempo e ficou a cargo de um procurador-geral adjunto, também inspector do MºPº, especialmente indigitado para o caso pela anterior PGR e que resolveu imputar aos jornalistas, da área judiciácia dos principais jornais, a prática de crimes de violação de segredo de justiça.
A questão que nessa altura se colocava ( e continua a colocar) é muito simples de equacionar: um jornalista que tem acesso, indirectamente através de um interveniente processual, a documentos e informações de um processo em segredo de justiça, comete o crime respectivo se publicar essas informações?
Já nessa altura, havia quem se pronunciasse abertamente por uma ou outra solução. O problema era ( e continua a ser) de tipo jurídico. Não obstante, perante a lei substantiva ( o Código Penal) e adjectiva ( o de Processo Penal) que ainda temos ( o penal desde 1982, revista em 1995 e o processo penal desde 1987, revista em 1998), o crime configura-se como podendo ser praticado por qualquer pessoa e portanto, também por jornalistas.
A questão assumiu gravidade e importância, ao longo destes últimos anos de escândalos judiciários e processos mediáticos, porque a avidez de informação privilegiada, jogada na mesa do poker jornalístico, determina a utilização de cartas marcadas e ases saídos da manga, para além do bluff da praxe.
Os jornalistas dos principais jornais, habituaram-se a ligar pouco à lei do segredo de justiça quando perceberam a relativização do mesmo, consoante o tipo de processos. Se for processo de crime de sangue, ignóbil ou hediondo, ninguém ligará à violação mais rasteira do segredo. Mostrar caras de suspeitos, relatos de advogados em directo, depoimentos de polícias ou palpites avulsos de testemunhas, nada disso incomodou fosse quem fosse, durante anos a fio. Criou-se uma cultura deletéria de desresponsabilização e desinteresse pelo cumprimento escrupuloso da letra da lei.
Logo que apareceram casos mediaticamente interessante, envolvendo pessoas importantes do sector político, mediático ou social, os visados lembraram-se então do carácter sagrado do segredo de justiça, como garantia de privacidade de malfeitorias tornadas públicas.
E gerou-se um fenómeno curioso: o segredo de justiça, como arma de arremesso de vários matizes. Os suspeitos a vituperarem os guardiães do segredo, imputando-lhes a sua violação como o pior dos crimes, sempre mais grave do que os de que eram suspeitos e a opinião pública a pedir mais e mais violações, confiada na publicidade como modo de castigo para a impunidade reinante e genericamente perceptível.
Até que se chegou ao paroxismo da declaração, prestada em telefone sob escuta, dirigida a quem foi politicamente responsável pela definição e contorno jurídico do conceito: “estou-me a cagar para o segredo de justiça”! A declaração extraordinária, saiu para a rua e passou o rubicão da vergonha, numa outra violação de segredo, depois de ter sido coberta pelo manto diáfano da sua garantia, rasgado em todo o lado e sem culpados à vista.
As repetidas violações de segredo, foram usadas ainda como arma de arremesso para destituição do seu guardião-mor: o PGR Souto Moura. Por motivos, muitas vezes, mais do que suspeitos. Apesar de os visados estarem, notória e confessadamente, a cagar constantemente para o segredo que defendiam publicamente com unhas e dentes, a contradição só atingiu os guardiães. Por muito que o gato se escondesse, só lhe queriam ver mesmo o rabo de fora. Pediram-se demissões e imputaram-se responsabilidades com a ligeireza dos interesses do momento e as afectividades particulares com afinidades suspeitas.
Tal confusão de papéis, desempenhados pelas mais improváveis personagens e muitas vezes com as máscaras a cair e a mostrar a pintura borrada, de chinó e adereços emprestados, encenou-se em modo teatral, nos media- imprensa, rádio e tv´s.
Nessa farsa notória, alguém teria de desempenhar o papel de ponto e os media ajustaram-se perfeitamente ao papel, ao recitarem a peça, no buraco do palco, lembrando aos actores as respectivas deixas.
Foi nesse contexto que o PGR Souto Moura, metido à força na farsa, decidiu representar a sua função, sem exemplo anterior: mandar investigar as fugas e violações de segredo de justiça. O Inspector nomeado, Domingos Sá, competente e compenetrado, não teve sorte na descoberta dos violadores originais. Sendo muitos, mais que as mães, nada lhe restava fazer do que arquivar o procedimento. Mas, perante a exigência pública de resultados, descobriu os receptadores dos originais, porque assinaram com nome e publicaram para todos lerem: os jornalistas e ainda os directores que autorizaram a publicação.
O zelo foi de tal ordem que gerou perplexidades: então… cadê os outros? , perguntaram legitimamente os jornalistas, sentindo-se apenas bodes expiatórios. E fixaram-se em pareceres de grandes juristas que asseguravam nada de mal terem feito. Um desembargador de Relação ( embora cível, costumava entregar-se voluntariamente, ao comentário do crime) conhecido por falar aos media, logo de manhã cedo, até afirmou sem qualquer pejo jurídico, que os jornalistas nunca poderiam cometer o crime, porque quem o cometia era quem passava os documentos e dava as informações- e mais ninguém, muito menos os jornalistas. E assegurava que ninguém conhecia a lei que pudesse contradizê-lo nessa imensa sabedoria jurídica.
Curiosamente, a decisão tomada pelo colectivo de S. João Novo, a propósito dos 16 acusados que contavam com nomes como Arnaldo Mesquita, Tânia Laranjo e outros do tempo das causas, deu razão ao desembargador civilista: a absolvição fundou-se na presumida falta de culpa prática do crime, por erro de interpretação das proibições. Ou seja, na admissão pública de que os jornalistas não conheciam a interpretação da lei que lhes faria ver o crime em que incorriam. É rara, tal fundamentação, porque normalmente o raciocínio é outro: a ignorância da lei a ninguém pode aproveitar. Neste caso, aproveitou, porque o tribunal considerou mesmo ter existido crime, embargando o raciocínio jurídico do desembargador e outros juristas.
Tal não obstou ao comentário lateral e obsceno de um dos advogados de defesa que sem reconhecer o que o tribunal considerou – a existência do crime tal como foi acusado- atacou mais uma vez o MºPº, num exercício indigno da profissão, afirmando preto no branco que o MP agiu por despeito contra os jornalistas. Arre!
Sobre esta matéria, do segredo de justiça, o que gostaria de ter lido no Público, em vez da notícia simples acompanhada do comentário dos causídicos da defesa, para além de Teixeira da Mota afirmar que o “regime legal de segredo de justiça ser muito restritivo em relação aos jornalistas e ao direito à informação”, seria a apresentação da problemática do segredo de justiça que vai continuar a ser da ordem do dia, porque a questão ainda não foi resolvida a contento da liberdade de informação. Antes, segundo se adivinha, irá agravar-se com a proibição nítida e sem desculpas, relativamente aos jornalistas que a partir de agora, não poderão nunca mais vir a ser absolvidos, por falta de consciência da ilicitude.
Em 18 de Janeiro do ano corrente escrevi assim, nesta Loja:
Na quarta-feira, recorde-se, o PGR [o actual, Pinto Monteiro], na Comissão de Assuntos Constitucionais, disse que “seja qual for a lei, o segredo de justiça será sempre violado” e que “eu não tenho solução nenhuma para o segredo de justiça”.Já não é sem tempo…pois o próprio Rui Pereira, coordenador da Unidade de Missão para a Reforma Penal, teinha delineado já, há muitos meses, uma alteração profunda ao modo como a regulamentação do segredo deveria passar a figurar no Código de Processo Penal, agora em revisão.A ideia básica seria a de que por exemplo, os jornalistas deixariam de ser penalizados pela violação de segredo de justiça, nos casos em que se desconheça que obtiveram a informação directamente de quem guarde o segredo dos processos e além disso, se também ignorassem o carácter prejudicial da publicação da informação, para uma investigação em curso. Também seria um segredo muito mais restrito ( ideia que agora se repristina). A publicidade tornar-se-ia regra e mesmo durante o inquérito, os sujeitos teriam acesso ao processo, na maioria dos casos.Estas novas regras anunciadas então por Rui Pereira não passaram na revisão que chegou à instância governamental e partidária, em pacto.Agora, vemos que foram novamente repristinadas e provavelmente haverá recuos…Mas façamos um pequeno “look at the trailer”, deste filme:Em Junho de 2003, ( há mais de três anos), o então PGR, Souto Moura, tinha declarado ( o Público noticiou) em pleno alto momentoso do processo Casa Pia:“No encontro subordinado ao tema "Imprensa ou Tribunal. Os julgamentos paralelos em debate", integrado na quinta edição do projecto Ágora, El Debate Peninsular, organizado pela Junta da Extremadura espanhola, o procurador tinha-se pronunciado a favor de alterações no segredo de justiça. Souto Moura defendeu que um processo judicial só deve estar em segredo de justiça durante a fase de inquérito, e admitiu que, mesmo nessa fase, o segredo de justiça pode desaparecer se as partes - defesa e acusação - "entrarem em acordo Para o procurador, o segredo de justiça deve desaparecer na fase da instrução do processo. "A instrução é uma fase já contraditória, constituindo em Portugal como quase uma espécie de recurso, uma sindicância da opção do Ministério Público", afirmou.Para Souto Moura, a violação do segredo de justiça é "um crime muitíssimo difícil de investigar de investigar". "Em 99 por cento dos casos, acabam por ser os jornalistas os únicos acusados", ficando "impune quem lhes passa a informação", considerou. E disse ser para ele "claro" que, na violação do segredo de justiça, "há um principal e primeiro responsável, que é a pessoa que passa a informação" seja magistrado, polícia, funcionário judicial ou advogado - a qual, "além do segredo de justiça, está a violar o segredo profissional".
Alguém ligou a estas declarações?! Claro que ligou- para as desfazerem e desfeitearem um procurador geral, vilipendiando-o por razões obscuras e inconfessáveis, continuamente. Nem todos, claro. Apenas os que sempre se estiveram a c**** para o dito segredo- e que são muitos. Alguns, agora , deram ouvidos ao actual PGR. Já não é sem tempo..Por todos, leia-se por exemplo este texto, de um advogado…ou aqui, de um colunista expresso. Ou então, procure-se no Google registos de quantas vezes foi pedida, exigida mesmo, por alguns notáveis da opinião pública, a demissão do antigo PGR, por, simplesmente não conseguir pôr um travão ás sucessivas violações do famigerado segredo.Alguns filisteus hipócritas, têm memória muito curta.
Publicado por josé 15:58:00 1 comentários Links para este post
A selectividade
sexta-feira, julho 13, 2007
Vital Moreira, no seu melhor, no causa nossa de ontem:
Faz algum sentido que um político profissional, líder da oposição e putativo candidato a primeiro-ministro, mantenha uma pequena sinecura numa obscura empresa, quando parece evidente que cedo ou tarde nessas situações há sempre a inevitável tentação de se deixar utilizar em pouco edificantes operações de lobbying, pouco dignas do seu estatuto político?Há cargos em que a imprudência não é recomendável...
O reparo é legítimo e a dúvida pertinente. Porém, o estranho é, mais uma vez, a visão do argueiro, na obscura empresa e no lobbying corrente perante as sólidas traves que lhe tolhem o caminho, para onde quer que se vire.
Nunca tive oportunidade de ler algo no causa nossa, sobre assuntos tão interessantes como a participação do seu correligionário antigo e actual, Pina Moura, em assuntos desta natureza de lobbying e de participação em Assembleias gerais, em empresas não tão obscuras.
Nem sequer li algo da sua autoria oportuna e atenta, sobre um caso tão estranho quanto este, noticiado até pela RTP.
Também nunca tive a oportunidade de acompanhar a sua elevada opinião, sobre estoutro assunto tão interessante e fartamente glosado por essa blogosfera fora e num ou noutro jornal, mormente aquele em que escreve habitualmente as suas catilinárias contra juízes e magistrados e as suas solícitas argumentações em prol do poder executivo:
Vara nomeou Morais para o MAI. A sua casa de Montemor foi feita por uma das firmas que mais trabalhavam para o GEPI.O ministro da Justiça, Alberto Costa, recusa-se a fornecer ao PÚBLICO, desde Maio, um conjunto de documentos que lhe têm sido repetidamente pedidos ao abrigo da Lei de Acesso aos Documentos Administrativos. Os documentos prendem-se com adjudicações e contratações de serviços de fiscalização de obras efectuadas pelo Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça (IGFPJ) no período de 2005-2006, em que foi presidido por António Morais. Costa era ministro da Administração Interna quando o ex-professor de Sócrates foi nomeado pelo seu secretário de Estado Armando Vara para o GEPI e foi ele que o nomeou para o IGFPJ. O PÚBLICO vai recorrer para a Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos.
Enfim, resumindo, Vital Moreira naquilo que escreve publicamente, nunca nos surpreende.
Publicado por josé 11:33:00 19 comentários Links para este post
Quim Barreiros e John Travolta
quinta-feira, julho 12, 2007
Publicado por Carlos 16:42:00 0 comentários Links para este post
Frágil. Cuidado!

Esta entrevista ( da Visão de hoje) de Carlos Pinto, 59 anos, presidente da Câmara da Covilhã, antigo correligionário de José Sócrates na Juventude Social Democrata, que mantém uma relação “óptima” com o primeiro-ministro actual, precisamente José Sócrates, revela em pouco mais de meia dúzia de respostas, temas suficientes para um tratado de sociologia política em Portugal, porque expõe, como poucas, as fímbrias da política à portuguesa actual e porventura, de sempre.
Quando o lodo atinge os centros de poder político executivo, do modo que se pode ler e adivinhar, sem que alguém tenha autoridade suficiente para dizer - basta!- e começar a limpeza moral, cívica e política, devemos concluir que o Portugal oficial do Diário da República, dos ministérios, do Terreiro do Paço e de quase todos os paços dos concelhos, está na decadência mais funda que explica todas as corrupções, todas as anomias e todas as manigâncias maquiavélicas, para conquista do poder almejado e ansiado pelos grupos, cliques e poderes fácticos.
Poderia dizer-se que é assim por todo o lado. Talvez seja um pouco assim. Mas nem tanto, afinal. E em Portugal, afinal, nem sempre assim foi. Mas hoje, é. Como se pode ler por quem saiba ler.
Além disso, a imprensa e media em geral, andam sumamente preocupados com a repressão governamental à liberdade de expressão, derivada das leis em preparação, mormente o Estatuto do Jornalista e as decisões da ERCS.
Não desvalorizando essas preocupações mais do que legítimas, ficam perguntas por fazer e respostas por dar. Por exemplo: o que impede os media, de procurarem saber mais verdades sobre este assunto de que trata a entrevista? É por ser um fait-divers, como já escreveu o director do SOL, com o aplauso de muitos Antónios Josés Teixeiras?
Desgraçado país, o que temos.
Nota em jeito de responsabilidade limitada: A revista Visão contém uma indicação a propósito da proibição de reprodução de textos e fotos, "sob quaisquer meios e para quaisquer fins, inclusivé comerciais". Não esquecendo essa indicação, espero que se alguém da Visão não concordar com a publicação que faço destas duas páginas, tiradas em scanner da revista que comprei ( e portanto paguei e é minha), o diga, aqui, porque a caixa de comentários está aberta e o mail à vista.A publicação parte do princípio de que a reprodução da entrevista, sendo livre no site da revista, também autoriza a publicação noutro site como este. Se estiver enganado nos pressupostos, ficam desde já as minhas desculpas e a promessa de que retirarei de imediato as imagens supra.
Publicado por josé 13:30:00 17 comentários Links para este post
Mudar de vida
quarta-feira, julho 11, 2007

Tenho ouvido nos últimos dois meses, o Lisboémia ( tanto em mp3, como na gravação em cassete do LP original) e é raro o dia em que não me lembre de uma melodia, de uma letra, de um pequeno trecho musical desse LP, com mais de trinta anos. Já o escrevi, o LP merecia uma reedição em cd cuidado, sei lá!, em sacd ou coisa que o valha.
Comprei há dias o último trabalho de Júlio Pereira, Geografias, um álbum de temas instrumentais, com predomínio de bandolim. Ouvi-o três vezes e emprestei-o à minha filha. Já nem sinto vontade de o voltar a ouvir. E que quer isto dizer? Que o disco não presta? Que nenni!
O disco está aperfeiçoado, na técnica de execução e gravação. Tem um ou dois temas que prometem a abertura sonora, sobre as paisagens geográficas da região, mas o roteiro é inóspito e de terra batida, por vezes; outras, de asfalto betuminoso, com grande poder de absorção de humidades. Em resumo, Geografias, é um disco estéril e sem rumo, à moda de um virtuoso instrumental, à cata de fio condutor. É um disco semelhante a tantos outros, no universo da world music, até no jazz- rock, -se é que ainda há disso.
Tal como o embrulho do disco, a perfeição é muito plástica e falta a alma do erro e da imperfeição na execução, cuja metáfora poderia residir na beleza dos desenhos de Carlos Zíngaro, dos anos setenta, sem comparação com os vectores articulados do actual Photoshop, mas com a beleza das coisas simples e com alma.
Nas canções pop/rock, coladas à música portuguesa tradicional, dos dois LP´s citados, dos anos setenta, havia um discurso musical e poético coerente, embora discutível, no plano ideológico. Quanto à música, nem se discute. A qualidade é de alta cotação, assegurada pela manutenção no ouvido interno, ao longo dos anos.
Júlio Pereira tem já em carteira musical, vários discos, os últimos sempre de instrumentos, predominando as cordas. Depois do sucesso de Cavaquinho, logo no início dos oitenta, apenas dois anos depois de Lisboémia, esgotou-se a receita instrumental com Braguesa e Cadói, dos anos seguintes.
Confesso que abandonei a audição da produção seguinte, por desinteresse. E talvez não o tivesse feito se ouvisse novamente, nas décadas seguintes, o que ouvira na anterior. Não há voz nos discos de Júlio Pereira e no entanto a voz do instrumentalista é digna de realce nos registos médios e de timbre semelhante a Roy Harper. E nota-se no último, um deslize para a sonoridade já asséptica de um Pat Metheny.
Júlio Pereira é um grande artista perdido no pequeno meio musical português. Como outros, aliás ( e estou a lembrar-me de Moz Carrapa) . Ontem, Júlio Pereira, escreveu no Público um artigo de louvor a uma plataforma de produção de conteúdos virtuais,na Internet- o My Space. Profetiza-o, como o eldorado dos músicos e artistas que querem divulgar produtos e como prosélito, incita os pares à inscrição.
Para exemplo, apresento o seu espaço virtual na net, no seu endereço do myspace. Aí publicita os amigos que vai fazendo no lugar e transcende a faceta da amizade como destino último do seu espaço. Parece não apreciar a crítica real e sentida ao trabalho do artista, preferindo a louvaminha de quem idolatra.
Se assim for, é grande a pena, porque o trabalho do artista musical Júlio Pereira já nem sequer é só dele, mas de quem o compra, esperando e desejando o melhor, como é próprio de artista.
O MySpace é o exemplo flagrante do capitalismo liberal e de sucesso, à americana: dois indivíduos de Los Angeles, ainda jovens, em 2003, andavam à procura de lugares na net para juntar amigos com interesses comuns e que pudessem partilhar gostos. Em vez de relacionar apenas informação, como nos sites habituais, procuravam uma plataforma estável para estender a ligação às pessoas, em convívio social.
Dessa ideia, nasceu o conceito: liberdade de todos confluírem num espaço comum, virtual, criando páginas personalizadas que trocam contactos e informações entre si, de vários modos: música, imagens, filmes e ideias. É este potencial que Júlio Pereira antecipa como catalizador dos anseios de artistas. E o MySpace apareceu para isso.
Tanto que em 2005, suscitou a cobiça de um dos mais típicos capitalistas dos tempos correntes: Rupert Murdoch, o gigante da NewsCorp, que agrega a informação em forma de tablóide ( NYPost); também a de referência ( The Times e um futuro Wall Street Journal) e mesmo em formato televisivo( Fox news). Um dos Citizen Kane do séc.XXI, alcançou a misteriosa Rosebud e comprou em 2005, o MySpace aos seus criadores por um grande, grandecíssimo punhado de dólares. 580 milhões deles, porque o negócio sempre foi o dos números e o lucro poderá vir… da China.
Mesmo assim, o actual lugar de referência de Júlio Pereira, mantém o aspecto de lugar comum a todos os que vierem por bem, trazendo outro amigo também e livre de influências da NewsCorp de Murdoch. Por quanto tempo e com que significado? Ver-se-á.
Para já, a aposta reside em experimentar. Por mim, faço aqui o link e espero que Júlio Pereira arranje inspiração para criar outro Fernandinho ou percorrer outra Lisboémia. A de há trinta anos atrás precisa de um upgrade e pode haver quem escreva outro roteiro e o músico não se tenha esquecido dos acordes mágicos. Estou a ouvir ( em mp3) a segunda parte do tema sobre o Cais de Sodré em que se canta a Praça da Ribeira. É desta música que gosto, mesmo em tom de chula e a voz não envergonha nenhum cantor que se preze. Então porquê o silêncio da voz, nos discos das últimas décadas?
Imagens: capa do cd Fernandinho vai ao vinho; revista Wired de Julho 2006.
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Figuras de estilo
terça-feira, julho 10, 2007
O jornal Público, na sua edição de hoje, terça-feira, dedica a parte de baixo da primeira página, à esquerda, a uma pequena recomendação, a propósito do incumprimento de uma deliberação da Entidade Reguladora para a comunicação Social, a ERC.
O conselho regulador é o órgão colegial responsável pela definição e implementação da actividade reguladora da ERC. Este conselho regulador é o coração da ERC e compõe-se de um presidente, um vice-presidente e três vogais. É a A.R quem designa quatro desses membros e os quatro cooptam o quinto elemento.
Todos eles, devem ser pessoas de reconhecida idoneidade, independência e competência técnica e profissional. Quem reconhece estas qualidades excelsas, é naturalmente o Parlamento, mediante um procedimento prévio de escrutínio interessante e a estender a outros órgãos de Estado, (por exemplo, o Tribunal Constitucional).
O Público fez acompanhar o pequeno texto, cujo contexto não se conhece e apenas se adivinha, da imagem em contiguidade, de quatro figurões e uma figurona, que fazem parte do conselho regulador da ERC, com as figurinhas legendadas com os nomes.
Fácil será de entender que as figuras, eventualmente, não terão gostado do destaque editorializado e algo despropositado. E nada poderão fazer, no entanto.
Poderiam, apesar disso, aprender uma coisa: com os jornais, pouco adianta tourear o bicho do critério editorial, porque é sempre possível aos figurões dos jornais, manipular figurinhas a seu bel-prazer. Vejam o exemplar Pedro Tadeu, do modelar 24 Horas, experimentadíssimo nestas lides. Não me lembro de a ERC se incomodar com este expoente jornalístico e as suas primeiras páginas estrondosas, a propósito do caso da Casa Pia ou de Souto Moura e o famigerado Envelope nove. Lembro-me, - isso sim – de ver e ouvir uma das figuras da ERC, precisamente a figurona, a dizer publicamente, na TV, durante uma discussão sobre os blogs malditos, anónimos e quejandos que estes meios de informação ficavam de fora da intervenção da ERC, ( por não terem orientação editorial, além do mais) mas eram…uma vergonha ( onde é que também já se ouviu isto?).
Lembro ainda que a mesma figura, associou este blog onde escrevo, ao maldito Muito Mentiroso. Confesso que não gostei do que ouvi. Não pelo que ouvi, mas pelo facto de não lhe poder responder em directo ou em jeito de direito de resposta. Que precisava, lá isso precisava.
Num jornal, o direito de resposta, dirigido ao responsável editorial, de quem se sente no direito e dever de o exercer, publica-se algumas vezes com artimanhas que denotam as habilidades de aficionado. O sítio da resposta; a coluna alinhada à esquerda ou direita; as notícias contíguas; a edição eventual e principalmente a resposta à resposta que dá a última palavra ao jornalista que prevarica, mas se defende com as chicuelinas da praxe.
Enfim, mesmo assim, vivam os jornais que não têm medo das figurinhas de papel.
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Os datchistas
segunda-feira, julho 09, 2007

António Vilarigues, do Partido Comunista Português, apresenta-se a cronicar no Público como “especialista em sistemas de comunicação e informação”. Ironia interessante para quem escreve no Público de hoje, assim:
“Nos dias 25 e 26 de Abril 1974 uma das preocupações centrais da polícia política do regime fascista foi destruir a lista nominal dos bufos. Eram mais de 25 000 os informadores espalhados pelo país. Como o fascismo apenas reconhecia a existência de cerca de um milhão e meio de eleitores ( sim, é verdade), dava qualquer coisa como um bufo para cada 50 cidadãos “politicamente activos”. Bufos esses de que a PIDE mantinha um arquivo com as suas actividades descritas ao pormenor. Mas onde apenas constavam os seus pseudónimos. Daí o queimar apressado. Bufos que apenas eram conhecidos dos respectivos chefes.” (…) Passado poucos anos, muitos ex-pides e ex-bufos eram chamados pelo regime democrático a integrar serviços da República onde poderiam aplicar as suas conhecidas competências.”
Este especialista em sistemas de informação, indigna-se com os bufos do “fascismo” ( a que recusa chamar pelo verdadeiro nome, salazarismo), o que se compreende e aceita como correctíssimo. Quem gosta de bufos, seja de que espécie forem?! E indigna-se ainda mais com a integração dos malditos no regime democrático!
O que estranha mais, nestes especialistas, - que os há por aí às dúzias- , é a falta de memória de tempos bem recentes, por contraposição aos de há quarenta ou cinquenta anos.
Quem lhes falar de STASI, KGB ou das outras polícias políticas de todos os países de leste, satélites da antiga URSS, descartam do discurso e nada dizem a esses costumes. Não sabem, não ouviram, não leram e não viram, principalmente.
Desconhecem a existência de perseguições políticas claras e ocultas, com base em informadores, dentro das próprias casas e contra membros da própria família, em nome do bem comum e colectivo. Desconhecem as descobertas de papéis rasgados e deitados fora, à pressa, nos arquivos da STASI alemã, agora em recuperação por outros especialistas de informação. Desconhecem o horror e o medo que essas polícias infundiam a toda uma população de milhões e milhões de pessoas.
Não querem saber que estes fenómenos aparentados aos nazis e fascistas ( e também salazaristas, mas com grau e violência bem diversos), ainda subsistiam nesses países, não há quarenta anos, mas nem sequer há vinte! Aliás, nunca os denunciaram, como denunciam sempre que podem e lhes interessa, o “fascismo” e a bufaria nacional corporativista. Foram e continuam a ser soldados do comunismo e por isso, com tal, defendem a sua pátria ideológica, para além da coerência e racionalidade. Nunca se arrependeram de nada, tirando os arrependimentos nos Congressos, para mudar de linha, continuando no mesmo rumo, ao socialismo que cantaria dali a dias felizes. Fariam tudo de novo, do mesmo modo e perseguiriam sem piedade, os burgueses que se opõem ao povo. Basta ler O Militante, para se entender o enquistamento ideológico que ainda persiste, alheado dos KGB´s e das STASIS, virados meros intrumentos da propaganda anti-comunista.
Inútil se torna, mostrar-lhes a incoerência argumentativa, mesmo com documentos na mão e à solta na net que lhes provam à saciedade que as polícias politicas dos regimes em que acreditaram e continuam, aliás, a acreditar ( o que é ainda mais grave), foram incomensuravelmente mais cruéis, mais eficazes, mais criminosas, mais mortíferas e capadoras de direitos e liberdade, do que jamais a PIDE ou a DGS o foram.
Uma estranhíssima amnésia destes especialistas em sistemas de informação, afecta-os desde sempre.
Torna-se por isso ainda mais estranho que continuem a ocupar espaço público nos media, sem que alguém lhes faça notar que andam nus, nas suas datchas ideológicas.
Aditamento:A propósito de um comentário que referia os arquivos da PIDE enviados pelo PCP para Moscovo, logo após o 25 de Abril, é preciso escrever preto no branco que as denúncias de Mitrokhin, num livro prefaciado por Pacheco Pereira, relativas a esse desvio de património arquivístico, em favor de uma potência estrangeira, é um escândalo e uma infâmia que os Vilarigues preferem ignorar.
De uma parte desse livro pode ler-se:
"Portugal ocupa uma pequena parte no arquivo de Mitrokhin e quase toda centrada nos acontecimentos de 1974-5. (...)
[No âmbito de operações soviéticas verificadas em Portugal]... avulta o envio, em 1975, para Moscovo de uma parte significativa do arquivo da PIDE/DGS. (...) Para compreendermos a importância deste envio de documentos (...) temos de ter em conta que o âmbito de acção da PIDE/DGS era incomum nas polícias dos países fora da esfera soviética e muito semelhante ao do próprio KGB. A PIDE era uma polícia com funções instrutórias, com controlo de fronteiras, com controlo de actividades paramilitares. Era a interlocutora portuguesa de muitas outras polícias diferenciadas e serviços de informação estrangeiros. Era igualmente uma polícia política de um pais da OTAN (...)
Entre o material que receberam conta-se, sem dúvida, tudo o que diz respeito às relações da PIDE com os serviços de informação ocidentais, em particular a CIA, o FBI, os serviços ingleses e espanhóis, sul-africanos, rodesianos. Embora a PIDE/DGS não recebesse informação do mais alto grau, a não ser numa estrita "necessidade de saber", e mesmo assim muitas vezes na base de contactos pessoais com agentes determinados, recebia relatórios de síntese e pedidos de informação que revelavam os conhecimentos e os interesses dos serviços ocidentais. Para o KGB iria ser precioso.
É preciso não esquecer que em 1975 os arquivos da PIDE não eram arquivos "mortos" com interesse apenas para os historiadores, mas sim arquivos com grande potencial operacional que permitiam tudo: desmascarar informadores, identificar infiltrações, fazer chantagem, etc, etc. (...)".
Imagens: os arquivos da STASI. A segunda imagem mostra o trabalho de recuperação de papéis destruídos pela polícia política, logo depois dos acontecimentos de 1989.
Publicado por josé 11:44:00 7 comentários Links para este post
Um suspiro teórico
domingo, julho 08, 2007
Num blog de suspiros, teoriza-se sumariamente que neste blog se luta contra a Maçonaria.
Enfim...( largo suspiro acompanhado de um metafórico encolher de ombros).
O que neste blog se vai escrevendo, se é que algo de novo se escreve, não é reflexo de um luta contra a Maçonaria. Será antes uma luta cívica contra os poderes ocultos, agregados em clubes tipo Maçonaria e que pretendem dominar organismos democráticos e empresas públicas, para benefício de uns poucos e em detrimento de muitos que votam e querem outra coisa, democraticamente mais transparente, como manda a lei e o direito.
Aliás, esta Loja não anda só, neste modo de pensar. O próprio Jaime Gama, presidente da AR, não há muito tempo, por ocasião dos 200 anos do GOL, defendeu maior clareza e propósitos dos membros das maçonarias. Para bem da própria Maçonaria, entenda-se. Esta destina-se aos que pretendem um aperfeiçoamento espiritual, acima dos interesses materiais.
No entanto, não é isso que se vê e sente, no pulsar das opiniões da vox populi.
O DN de 22.6.2005 escreveu:
Os 200 anos de história do Grande Oriente Lusitano (GOL) estão, desde ontem, abertos ao público, num museu inaugurado pelo presidente da Assembleia da República (AR), Jaime Gama. O primeiro socialista, como o próprio revelou, a ocupar aquela cadeira não sendo maçon. Durante a inauguração, o mote das conversas andou sempre à volta da "transparência" da maçonaria. Jaime Gama defendeu que quem ocupe "cargos de responsabilidade" deve revelar as suas filiações. O grão-mestre do GOL, António Arnaut, deixou uma provocação ". A provocação pode ser lida no artigo...e acaba por confirmar os receios piores: a Maçonaria compete pelo poder.
No entanto, é o próprio Jaime Gama, figura cimeira do Estado português, quem defende o que alguns maçons, entendem indefensável: que aqueles que ocupam cargos de responsabilidade, digam se são da maçonaria. Por mim, limitei-me a sugerir que os juízes do Tribunal Constitucional o fizessem. Custará assim tanto?
Publicado por josé 23:42:00 1 comentários Links para este post
Maçonaria uber alles?
sexta-feira, julho 06, 2007
No blog de José Maria Martins, denuncia-se a ocorrência de uma grave entorse democrática, já com calo ósseo, se for verdade o que lá vem escrito: a Maçonaria dominaria tudo,
JMM escreve: Hoje em Portugal para se ter um emprego é necessário ser da maçonaria. A Maçonaria (…) é hoje o maior centro de emprego político que há. De tráfico de influências . A Maçonaria domina tudo, tudo protege.
Meia dúzia de espertos dominam 10 milhões!!!
Mesmo descontando o eventual exagero de linguagem, a simples menção do fenómeno, deveria fazer-nos pensar um pouco mais e perguntar publicamente : como é isto? Já chegamos à Madeira, ou quê? , como dantes se dizia, embora a Madeira possa bem ser o exemplo do que se pretende dizer…
Que peso efectivo têm as Lojas regulares e irregulares, em Portugal? Será verdade que quem se nomeia para as administrações rendosas de certas empresas públicas, do banco público e de quem detém o poder económico do Estado, em Portugal, precisa de pertencer a clubes secretos ou discretos para ter acesso aos gabinetes executivos e aí assegurar mais condutas nepóticas?
Mais: será verdade que no seio do próprio poder judicial, independente por estatuto e natureza, impera, solene, a prática aventalícia? Em segredo e em concatenação de esforços para auxílio fraternos dos irmãos que precisam de ajuda e co-optação?
Não terá chegado a altura de questionar abertamente os juízes, todos os juízes do Tribunal Constitucional, por exemplo e por serem eleitos, depois de escolhidos por critérios que poucos sabem e muito menos o povo em geral, se pertencem efectivamente a alguma loja discreta ou secreta? Será isto assunto reservado e destinado a ocultação do povo que vota e que detém a essência do regime que vigora entre nós? Ou será este regime apenas uma farsa de democracia representativa?
Quem responde a isto? Jaime Gama que em tempos advogou uma maior transparência nos membros de clubes maçónicos, em termos de declaração pública de interesses?
Alberto Martins, o grande arauto das liberdades reivindicadas no passado?
Isto é sistema que se preze, em regimes democráticos?
Que dizem os constitucionalistas, sobre isto?
Publicado por josé 18:38:00 39 comentários Links para este post
A liberdade, não é...vital?
Não consigo ouvir sem desconfiança um empresário ou gestor da comunicação social a arvorar-se em defensor da liberdade de imprensa e de opinião. Primeiro, porque a liberdade de negócios na imprensa não tem de coincidir com a liberdade de imprensa; segundo, porque a experiência mostra que os interesses dos donos dos media podem ser um dos principais limites à liberdade de opinião nos respectivos meios.
[Publicado por vital moreira] 6.7.07 .
Ora bem. Vital Moreira poderia recuar no tempo uns 33 anos, precisamente à época da Revolução portuguesa e relembrar algo que se passou na…América, com o caso Watergate.
Além de ser muito útil a lembrança, é bom que se diga que Balsemão nessa altura escreveu um editorial a realçar o feito do Washington Post, ao lograr investigar, em 1972, a conduta de um presidente, Richard Nixon, que levou directamente à sua resignação, em Agosto de 1974.
No Expresso de 10 de Agosto de 1974, escrevia assim sobre o assunto:
Sobre este assunto das liberdades e suas ameaças, leia-se este texto d´Oliveira. E sendo este da Figueira, mesmo em época de vilegiatura, merece figurar como texto de referância, numas Farpas modernas.
Publicado por josé 16:51:00 2 comentários Links para este post
Observatório 2008 — Hillary e Fred Thompson ganham terreno
quinta-feira, julho 05, 2007
Hillary Clinton: com a ajuda de Bill, que entrou no terreno para ajudar a mulher, a senadora por Nova Iorque retomou uma liderança relativamente confortável do campo democrata. Mas é Obama quem se mostra mais forte nos duelos com os republicanos. Como resolver este dilema?
— Michael Bloomberg tem motivos para pensar numa candidatura independente. Se avançar, mesmo não tendo razões objectivas para sonhar com a eleição, poderá, certamente, desequilibrar as contas entre democratas e republicanos — falta saber a favor de quem. Os primeiros estudos mostram que, se Bloomberg avançar, pode atingir os 15/20 por cento, roubando votos nos dois campos, mas talvez um pouco mais aos republicanos
— Hillary Clinton teve um bom mês de Junho: conseguiu estabilizar a perda que vinha sentindo para Obama e Edwards, voltando a gozar de um avanço relativamente confortável, como front-runner do campo democrata
— Barack Obama mantém-se como único pretendente capaz de desafiar a liderança de Hillary, arrecadou a fantástica quantia de 32 milhões de dólares de donativos e conquista, cada vez mais, uma posição de melhor candidato democrata na competição nacional com os pretendentes republicanos. O problema é que tudo isto de pouco lhe valerá se não conseguir ultrapassar Hillary nas primárias...
— Giuliani está a perder chama, ainda que se mantenha em primeiro na corrida republicana. Fred Thompson está em alta e até já lidera nalguns estudos, como mostra a mais recente sondagem do Rasmussen: Thompson 27, Giuliani 24, Romney 14, McCain 14. Será o bye bye de John McCain?
Vejamos a média de todas as sondagens nacionais feitas até agora:
DEMOCRATAS
— Hillary Clinton 37,3
— Barack Obama 23,0
-- Al Gore 15,0
--- John Edwards 12,0
REPUBLICANOS
-- Rudy Giuliani 26,3
-- Fred Thompson 18,8
-- John McCain 16,7
-- Mitt Romney 9,8
(Fonte: Real Clear Politics)
Publicado por André 19:06:00 1 comentários Links para este post
Portugal, 24 de Abril de 1974, pela secretária de Estado da Saúde Carmen Pignatelli
Publicado por Carlos 00:12:00 9 comentários Links para este post
€uropa
quarta-feira, julho 04, 2007
BRUSSELS (Reuters) - Talk of monetary union and wine quotas gave way to controversy over orgasms and innuendo at the European Commission on Wednesday as it defended a risque Internet video clip highlighting its backing for European cinema. The EU executive's usually dry daily news briefing sprung to life with questions over whether a 44-second clip of 18 couples achieving ecstasy in a variety of positions and venues was the best way to show how Brussels uses taxpayers' money.
The raunchy clip is made up of snippets from various general release films that have been funded by the EU, including "Amelie" and "Good Bye Lenin!." Some reporters also took a swipe at the title of the sequence, asking whether "Let's Come Together" was acceptable innuendo -- and if it was, whether the pun worked in the 27-member Union's other official languages.
A Commission spokesman insisted it had not received a single complaint in the 14 weeks since the clip first appeared on Internet site YouTube (see video below), suggesting the Brussels press corps should relax and get with the times. "Let us for once also have a good sense of humor and let us not start the old wars of the fifties about what is sex, what is pornography and what is simply normal to watch on television," spokesman Martin Selmayr appealed.
© Copyright 2007 Reuters.
Publicado por Manuel 18:12:00 1 comentários Links para este post
Publicado por Carlos 23:31:00 1 comentários Links para este post
O desagravo
Segundo o Público, “um grupo de 53 empresários de Braga, promove amanhã um jantar de solidariedade ao administrador da Bragaparques, Domingos Névoa, acusado pelo Ministério Público de ter tentado subornar o vereador de Lisboa José Sá Fernandes".
O grupo de 53 (!) empresários de Braga, segundo um dos promotores da homenagem desagravadora, representa 80 por cento do PIB regional e aí se contam os presidentes da Associação Industrial do Minho, Associação Comercial de Braga, Sporting Club de Braga e ainda o sempre presente cónego ( será sempre cónego mesmo que passe a outro estatuto) Eduardo Melo.
A justificação para a homenagem de desagravo, perante a acusação do Ministério Público que é de pura e simples corrupção e não, como escreve o Público, de “ter tentado subornar o vereador”, é a de que “estão a tentar, mas não conseguirão, destruir a imagem de um homem que sempre trabalhou, de sol a sol, para criar riqueza para si, para a região e para o país”.
Braga, cidade milenar, cidade de arcebispos, de Igreja e de Sé, de cónegos, monsenhores e cursos de cristandade, organizou o seu poder autárquico, desde há décadas, à volta de uma pessoa, seus acólitos, mesmo religiosos e de um partido.
Braga precisa de um estudo sociológico aprofundado e agora que tem universidade de mérito, pode e deve fazê-lo.
Em tempos, Braga suscitou o aparecimento de um daqueles blogs anónimos, de maledicências soezes e imputações graves e potencialmente difamatórias. Um daqueles blogs que permitem que se sustente que a blogosfera é um lugar mal frequentado.
Ainda assim o blog que se chamava Um canudo ( et pour cause) durou algumas semanas e apagou-se do éter, porque o peso institucional da região não consentiu a sua permanência.
O que as instituições da região permitem, no entanto, há décadas, é a consagração de um sistema local, feito de pequenas e grandes influências, de medos e cumplicidades variadas, num esquema organizativo notável.
Vá lá! Os sociólogos de Portugal deveriam congressar em Braga e fazer um livro branco sobre o fenómeno da anomia, da indiferença. Deveriam convidar o Domingos Névoa para personagem de honra e convidarem, para palestrar, os 53 empresários , mais o "cónego" Melo e que vão homenagear e desagravar o grande benemérito.
Se não for possível o congresso, façam ao menos um Prós & Contras. Todos precisamos de saber em que país vivemos e que valores queremos proclamar.
Publicado por josé 13:03:00 8 comentários Links para este post
Com perdão
Justificação? Achou-a excessiva. A foto, porém, tem uma resposta mais expressiva.
Publicado por josé 00:19:00 2 comentários Links para este post
o nome, a rosa e o espinho
segunda-feira, julho 02, 2007

A propósito das hiper-sensibilidades - para não lhe chamar outras coisas - que por aí vão é(-me) impossível resistir à tentação de também eu caracterizar de uma forma politicamente correcta o nosso 'primeiro' - José Sócrates. A tarefa é díficil, em particular dadas as dificuldades lexicológicas e semânticas de uma parte substancial do país, nomeadamente daquele que se diz de 'esquerda'. Nos entretantos, e depois de ler isto (não quer dizer que concorde na integra - note-se) fez-se luz - José Sócrates é o G. W. Bush português, ponto. É claro, que depois de ler isto, fica no ar a ideia de que afinal José Sócrates pode ser também o Vladimir Putin português, ponto, outra vez...
Publicado por Manuel 17:46:00 0 comentários Links para este post
Dor de cotovelo
Pronto. Era fatal e já estava previsto. Sob o nome rebuscado e eufemístico de “inveja”, volta a cacetada aos blogs recalcitrantes de críticas e de maledicência.
A explicação simples e afinal à vista de todos, para o fenómeno espúrio da licenciosidade e da libertinagem nos blogs que criticam áspera e livremente o que lhes dá na gana, reside…na inveja.
“os ciúmes, a schadenfreude, o ressentimento, a malevolência, a inveja socializada, o desejo de fazer mal ao Outro, etc., etc” ganham letra de corpo nos blogs, como “intensa e endémica forma de vida” .
O modo Abrupto de ver estas coisas, reduz-se a uma perspectiva manhosa, de pretender entender os outros pelas fábulas de Esopo e afins, citando geralmente as que aludem a vícios e esquecendo as das virtudes, como a Justiça por exemplo.
Esopo, porém, não pensou na inveja quando contou esta história que segue.
Um Asno e uma Raposa fizeram um acordo de protecção contra os perigos da floresta que se aproximava.
Ao entrarem num sítio mais esconso, encontraram um Leão.
A Raposa, apercebendo-se do perigo , aproximou-se do Leão, negociando logo com o rei dos animais, a captura do Asno, se o Leão desse a palavra de honra que não lhe faria mal.
O leão aceitou os termos do acrodo e a Raposa, atraiu o Asno a uma gruta, convencendo-o a entrar para se proteger.
Então, o Leão, vendo que o Asno, já estava seguro, agarrou imediatamente na Raposa e limpou-lhe o sebo ali mesmo. O Asno ficou para mais tarde…
Publicado por josé 09:52:00 5 comentários Links para este post
O tempo da alma
domingo, julho 01, 2007
José Hermano Saraiva, tem vindo a publicar no Sol, o seu Álbum de Memórias de uma vida. As histórias que vai contanto, ajudam a perceber o Estado Novo de que fez parte integrante, como ministro da Educação, já no período tardio de finais da década de sessenta.
José Hermano Saraiva, concluiu um curso de Letras e outro de Direito. No final de cada um dos cursos, pretendeu prosseguir a via universitária e académica e pelo que conta, foi sempre cortado nessa pretensão por causa do seu feitio rebelde e dado a confrontos de poder com a autoridade académica. E não só. Em tempos, definiu Cavaco Silva como um "pobre diabo"; arrependeu-se e na entrevista seguinte, corrigiu: "foi um honesto gerente"...humm!
Duas ou três histórias que conta sobre esse percurso e os escolhos que encontrou, tornam-se elucidativos de várias coisas que hoje em dia parecem miragens de um tempo que não volta e cuja evolução deveria ter sido no sentido da melhoria e da exigência de maior qualidade : a vida e universo académico, nas universidades.
Comparar essas histórias com os episódios picarescos de algumas universidades privadas actuais e com acontecimentos recentes que atingem algumas pessoas que detém o poder executivo, em cargos de governo e em empresas importantes e públicas, hoje, em Portugal, é um exercício deletério e triste, porque espelha o estado actual onde chegamos, ao fim de um pouco mais de trinta anos e principalmente dá-nos um retrato aproximado, da evolução da democracia em que vivemos.
Porém, o que José H. Saraiva conta dos anos 40 e 50, dá uma ideia aproximada da essência do Estado Novo, como imagino que terá sido, porque não o vivi nessa época e apenas a pressinto através destes testemunhos e da conjugação do que fui vivendo na década terminal do regime.
Um episódio que me parece emblemático, a vários títulos, é este que se transcreve:
Logo depois da minha licenciatura em Direito com nota que me encorajava a prosseguir, formulei o projecto de requerer uma bolsa de estudo em Direito numa universidade italiana. Apresentei o projecto no Instituto de Altos Estudos, dei como testemunhas e abonadores os meus professores de Direito, entre eles o professor Paulo Cunha. A minha pretensão foi deferida e foi-me atribuída uma bolsa. Eu iria com a minha mulher para Itália, passaria lá alguns anos a estudar Direito e depois faria o doutoramento na faculdade. Eram estes os projectos no início da minha vida.
Como já disse, tinha relações muito afectuosas com o pai da minha mulher, professor Rodrigo de Sá Nogueira, que passava parte dos seus tempos livres no café A Brasileira do Chiado. Eu saía de casa para ir para o escritório na Rua do Ouro, entrava n´A Brasileira para o ver, tomava um café com ele e seguia o meu caminho. Um dia ele estava acompanhado de um sujeito grave, alto, cor de azeitona de Elvas, A conversa correu imediatamente para o lado da política. Disse, sem reservas, que uma evolução política era inevitável. Estava-se em 1946 ou 1947, e essa era a opinião de muita gente . Depois desta conversa a pessoa que falava com o meu sogro disse-me: “Mas então, se eu bem o compreendo, o senhor é da oposição”.
Eu respondi-lhe com a maior sinceridade e pureza: “ Não sou da oposição e eu até sou um admirador do dr. Salazar e do que ele tem feito por este país. Mas não sou estúpido. As condições políticas mudaram e portanto o comportamento político também deve mudar.” Ele comentou sombriamente: “Tomo nota…tomo nota”.
No dia seguinte fui prevenido de que o Ministério da Educação tinha reprovado e não autorizado a minha ida para Itália por me considerar desafecto ao regime. A pessoa que conversava com o meu sogro n´A Brasileira era o dr. J.M. secretário do ministro da Educação. Ele foi d´A Brasileira a correr para o ministério e disse ao ministro o perigo iminente que passava de deixar ir para Itália um adversário do regime como ele imaginava que eu era. O regime tinha assim aos eu serviço pessoas desta curteza de vistas. Por causa desse mau encontro não fui para Itália e não realizei o projecto de doutoramento.”
Publicado por josé 16:22:00 7 comentários Links para este post
blogs e jornais
Os blogs…continuam a ser uma vergonha. Nem todos, porém. Suspeita-se, no entanto, que os mais vergonhosos possam também ser os mais lidos por quem sente a vergonha na pele.
O que serão os blogs vergonhosos? Aqueles que incomodam os sem-vergonha? Os que escrevem sobre os poderes de facto e de direito sobre a coisa política?
A definição escapa ainda à perfeição terminológica dos catalogadores oficiais, pelo que nada mais que um contributo, se poderá acrescentar à noção de vergonha pública exposta nos blogs.
Portugal, em 2007, será o mesmo país que era há 20 anos atrás, no final dos anos oitenta? Quando se diz “mesmo país”, quer dizer-se o país com o mesmo grau de evolução cívica e democrática, o mesmo desenvolvimento económico e a mesma perspectiva geral quanto ao futuro.
Nessa altura, -é preciso lembrar -, não havia Internet, nem telemóveis ou outros modos generalizados, de simplificar a circulação da informação. O que se podia saber publicamente sobre acontecimentos ligados às coisas públicas da governação e administração geral do país, restringia-se à informação provinda de agências de notícias e de media tradicionais, com destaque para os jornais. A televisão nunca logrou ser uma vergonha para os poderes de facto e de direito, ou seja, os que detêm o poder de mandar nos outros, definindo as regras do jogo democrático, executando-as e controlando a sua execução.
As únicas vergonhas expostas durante estes últimos vinte anos, apareceram nos jornais. Um deles se destacou pela quantidade de imoralidades e escândalos que logrou apresentar á consideração pública. O jornal semanário Independente, foi, durante toda a década de 90, antes do aparecimento da Internet, o veículo de denúncia de desmandos de governação pública e ainda o meio de ajustar contas, preferido, pelas oposições variadas aos poderes situados do momento. Os dirigentes do Independente, na altura, faziam oposição política, evidente, através da contestação aos governantes, denunciando os escândalos, mesmo mesquinhos ( o caso da manta no avião, por exemplo). Actualmente, os antigos dirigentes do jornal, são, eles mesmo, parte da super-estrutura que então se dedicavam a escrutinar para a minar em descrédito público.
Quer dizer, actualmente não há, nos jornais, ninguém com interesse político em apear os califas, para lhes tomar o lugar. Há jornalistas e jornais com interesses em sobreviver, seja com a publicidade, institucional e privada, seja com as vendas, tendencialmente diminutivas.
Nenhum blog que neste momento existe, cumpre a mesma função que o Independente se reservou desde o primeiro número. Nenhum blog, neste momento, é a vergonha que foi o Independente, para os poderes constituídos. Nesse jornal, notoriamente, juntava-se o útil da denúncia pública dos desmandos políticos, ao agradável de constituir uma reputação susceptível de encorpar um grupo ou partido político, pronto a disputar o poder executivo- como de facto aconteceu.
As “campanhas” denunciadas pelos poderes políticos, (e publicamente denunciadas pelo próprio primeiro-ministro actual), como sendo sempre orquestradas por forças obscuras e travessas à normalidade democrática, antes da Internet, começavam então, no Independente, na sua maior parte e na parte mais dolorosa para os executivos da época.
Sendo verdade que também os demais jornais cumpriam pontualmente a tarefa de se constituírem como um contra-poder, o que deveria ser sempre a raison d´être de qualquer jornal que se preze, também não deixa de ser verdade que essa tarefa essencial à democracia, mirrou e tende a desaparecer , como se verifica diariamente. O jornalismo de investigação, resume-se a trabalhos esporádicos, efectuados por jornalistas credenciados mas detestados dos poderes públicos que os perseguem despudoradamente, assustando os demais candidatos. São jornalistas malditos que arrostam com o opróbrio das dúvidas e perseguições pessoais que os poderes políticos não hesitam em lhes lançar aos artigos que escrevem. São eles os difamadores da honra impoluta de quem governa e os caluniadores das boas intenções e rectidão de carácter de quem dispõe da coisa pública, muitas vezes como se própria o fosse.
Num país pobre, pobre do jornalista que se meta com poderosos da política, de modo a assustá-los de verdade. Está frito, num instantinho, se tiver por onde possa ser pegado. O poder não perdoa afrontas, porque a perda do poder, é a perda da imunidade de facto. Trata-se por isso de luta pela sobrevivência em que só os animais ferozes e sem escrúpulos de maior, se safam impunes. Até ao dia em que são devorados pela imprevidência, porque a selva guarda segredos e um deles é a imprevisibilidade do tempo e do clima político.
No entanto, a crescente tendência para a concentração dos títulos em apenas algumas mãos privadas de um diminuído número de grupos económicos, reduzem o leque desejável de pluralidade e concorrência informativa a tal ponto que um cronista do Jornal de Notícias ( Manuel António Pina),leitor de blogs, entende que o essencial do que se passa no país, já passou a ser relatado na net e não nos jornais. O que esperar da Sonae, Cofina, Impresa, Media Capital ou Impala, em termos de qualidade informativa? Pouco, muito pouco, que não venha dos profissionais que por aí exercem e da liberdade que lhes é permitida pelas direcções redactoriais. Estará esta liberdade mais assegurada do que há vinte anos atrás, ou antes pelo contrário foi sendo cada vez mais cerceada, por motivações e razões várias?
Mas, voltando ao ponto essencial: o que será, afinal, esta essência que faltará aos jornais e se pode ler na net dos blogs que aparentemente continuam a ser uma vergonha?
Em tempos, já se escreveu por aqui, algo que diferencia os blogs, em modo de qualidade. Um blog interessante, precisa de algumas desinências que o distinga. Precisa de “candor”, ou seja, franqueza ou mesmo sinceridade (as entrevistas da Playboy eram todas “candid interviews”); “urgency”, em português corrente, premência; “timeliness”, podendo significar oportunidade; “pithiness”, que traduzo habitualmente por substância, conteúdo; “controversy”, claramente controvérsia; e talvez “utility”, com o signficado de útil, relevante, interessante para alguma coisa.
Parece-me bem que é isso que falta aos jornais, hoje, como dantes. Se formos analisar, o Independente, tinha disso, um pouco mais do que outros. À medida que foi perdendo uma ou mais dessas características, foi naufragando nas vendas dos escaparates e afundou de vez, logo que se percebeu que perdera definitivamente a candura. Sim, a candura da franqueza e da sinceridade. Para mim, a palavra honestidade também serve.
Um blog que se preze, tem disso tudo. O que lhe faltará, mesmo assim, é a quantidade de matéria-prima para a premência; suficiente substância, para a relevância e utilidade prática, para os leitores. E falta ainda uma equipa que pensa profissionalmente, organiza com meios e produz profissionalmente. Um blog, é um exercício de artesanato do interesse pessoal de quem o anima. Um jornal, uma obra de grupo. Seria por isso importante que o grupo se desse conta disso. Afinal, vivem do que produzem. Um blog, produz aquilo de que vive. É uma diferença substancial, de facto.
Publicado por josé 10:44:00 3 comentários Links para este post



