Observatório 2008 - a herança dos anos Clinton


Bill Clinton: o evoluir das primárias para 2008 está a reforçar a ideia de que a herança dos seus dois mandatos na Casa Branca será favorável às aspirações de Hillary obter a nomeação democrata e conquistar a Presidência. A viragem para o campo democrata, já iniciada nas últimas eleições para o Congresso, parece indicar que os americanos já estão fartos de oito anos da «Nova Direita» e acreditam numa espécie de regresso dos anos de expansão económica e prestígio internacional (guerra da Jugoslávia à parte...) que caracterizaram a liderança de Bill Clinton, talvez o melhor Presidente americano depois de Roosevelt. Mas... será que a história pode repetir-se?


«Incrivelmente, apenas cinco anos depois de o presidente Bush (pai) ter assinado a Lei relativa a Americanos com Deficiência, que fora aprovada com grandes maiorias bipartidárias, os republicanos chegaram a propor que fossem reduzidos os direitos ao abrigo da lei. Quando estes cortes orçamentais se tornaram públicos, recebi uma chamada, uma noite, de Tom Campbell, meu colega de quarto durante quatro anos em Georgetown.

Tom era piloto comercial – vivia com desafogo, mas não era rico. Numa voz agitada, comunicou-me a sua preocupação com os cortes orçamentais propostos para os deficientes. A sua filha Ciara sofria de paralisia cerebral. A melhor amiga dela também sofria da mesma doença e vivia apenas com a mãe, que tinha um emprego onde recebia o salário mínimo e para o qual se deslocava diariamente de autocarro, numa viagem que durava uma hora em cada sentido.

Tom fez-me algumas perguntas sobre os cortes orçamentais que a maioria republicana no Congresso queria aprovar e eu respondi-lhe. Depois, ele disse: ‘Então, deixa-me ver se percebi bem. Vão-me reduzir os impostos para cortar o subsídio que a amiga da Ciara e a mãe recebem para cobrir os custos da cadeira de rodas da miúda e dos quatro ou cinco pares de sapatos especiais e caros que ela tem de ter todos os anos, assim como o subsídio de transporte que ela recebe para se deslocar para um emprego onde ganha o ordenado mínimo?’ ‘Isso mesmo’, respondi. ‘Bill, isso é imoral. Tens de os impedir de fazer isso’.

Tom Campbell era um católico devoto, um ex-marine que fora educado num lar conservador republicano. Se os republicanos da Nova Direita tinham isso demasiado longe para ele, eu sabia que os podia vencer.

No último dia do mês, Alice Revlin anunciou que a economia em expansão levara a um défice inferior ao esperado e que podíamos agora equilibrar o défice em nove anos, sem os cortes propostos pelos republicanos. Eu estava a apanhá-los».
in «A Minha Vida», Bill Clinton, Temas e Debates, pág. 680, capítulo 43
Últimos números do campo democrata:
-- Hillary Clinton 44
-- Barack Obama 26
-- John Edwards 17
-- Outros 6
-- Indecisos 7
(Fonte: CBS News/New York Times)

Publicado por André 21:18:00 3 comentários Links para este post  



mais leituras

The scruffy charms of an insecure president

Biographer Robert Draper explains that Bush has a surprising intellect but is incapable of curiosity and owning up to mistakes.

para ler aqui (salon.com)

Publicado por Manuel 18:28:00 1 comentários Links para este post  



leituras

Dominic Lawson: This tidal wave of emotional tyranny

Kate McCann, through dignity and self-preserving detachment, has denied the mob its vicarious pleasure

Published: 11 September 2007

Everyone has a view on the disappearance of Madeleine McCann – but only the media have the power to inflict on us a tsunami of prejudice masquerading as detection.

The Independent
.


No dia em que o mesmo ministro da Justiça que ontem, na AR, não tinha uma palavra a dizer, e que hoje, fora do País, certamente motivado pela performance soberba ontem do Director Nacional da PJ, se viu forçado a falar em nome do Governo e... pasme-se da Procuradoria Geral da República, no País onde toda a gente tem uma opinião e toda a gente é especialista em qualquer coisinha, convinha - dizia - ler, e meditar um bocadinho, na prosa que acima se indica. Eu sei que é chato, que é escrita por alguém da terra 'deles ', eu sei que fica bem sempre defender os da 'nossa' tribo, cor, clube ou partido, e que neste cantinho, mais tarde ou mais cedo, os favores, oh! e as solidariedades, se cobram 'sempre', e com juros. Só que às vezes, por muito inoportuno e incómodo que possa parecer, um bocadinho de distanciamento e abstracção não faziam mal, nada mal, a ninguém.

Publicado por Manuel 16:30:00 1 comentários Links para este post  



Vanessa da Mata


«Viva a felicidade
Abolindo quase toda a maldade
Como se o amor trouxesse o gozo da infância

Bem que volta à inocência
Bem de ter carinho e delicadeza
Viva o que nos torna o bem maior da natureza

Ai, eu era sem primavera
Dessas que o ano não principia
Poesia não me dizia
Ternura em mim não havia
Faltava encanto na melodia

Não parava uma saudade
Velha de pouca idade
Ia vivendo a necessidade…»

«Bem da Vida», Vanessa da Mata


Seis anos depois do dia mais infame para o Ocidente, na história do pós-II Guerra Mundial, felizmente o Mal não prevaleceu. Eles tentaram, por vezes assustam-nos, como no 11 de Março em Madrid e no 7 de Julho em Londres, mas não venceram.

Publicado por André 13:40:00 1 comentários Links para este post  



Um guardanapo

O penalista de Coimbra, Costa Andrade, um professor a sério e que não contemporiza com universidades de pacotilha que examinam alunos por fax, descasca hoje a cebola dos novos códigos penais, numa entrevista ao O Diabo, único jornal que ao longo dos anos tem percebido a importância e o valor de certos professores de direito penal e os vai ouvir realmente e com tempo. O resto da malta dos jornais, contenta-se com os palpites de Moita Flores ou até dos bastonários sucessivos da Ordem. Critérios.
Que diz, de essencial, Costa Andrade, na entrevista?
Que as recentes alterações penais, eram escusadas e que as verdadeiramente importantes, não se fizeram ainda. E exemplifica com as alterações relativas à responsabilidade das pessoas colectivas, tornada mais ampla com o novo Código Penal e que dantes se circunscreviam às leis avulsas, com incidência na economia. Actualmente, os problemas que se colocam nesta matéria, são de tal ordem que em breve se colocarão na prática dos tribunais, problemas processuais e substantivos gravíssimos, a que a legislação penal não dá solução e que vai provocar mais uma vez o desenrascanço e também dar a ganhar muito dinheiro aos advogados. A certos advogados, entenda-se e esta parte não vem na entrevista de Costa Andrade.
Mas vem a seguir o reparo que faz relativamente ao regime das escutas telefónicas que ficou mais uma vez, aquém do que seria de esperar de uma revisão deste tomo. O problema aqui, é a extensão do regime a outras formas de comunicação, por exemplo a gravação de conversas cara a cara, a intercepção de e-maisl e gps e comunicações electrónicas em geral. A confusão vai instalar-se sem remédio à vista, para Costa Andrade, que acha esta forma de legislar esquizofrénica. De um lado reforça as garantias, do outro, deixa de fora, nos subterrâneos, todo um campo de aplicação prática que nega essas garantias, na hora e sempre, porque permite todos os abusos. E ainda chega a referir outros problemas que não foram equacionados na revisão.

Quanto aos jornalistas e à proibição da divulgação de escutas e submissão dos mesmos ao segredo de justiça, Costa Andrade, é benevolente. “os políticos que dêem graças a Deus”. E porquê? Ora, porque afinal, os jornalistas, ao contrário do que acontece noutros países têm-se revelado sóbrios e prudentes nas notícias sobre a vida privada e respeitam a intimidade dos políticos. Pois…vamos a ver daqui a pouco. Deixem passar esta linda brincadeira.
Quanto a uma frase forte e contundente, de António CLuny, sobre esta revisão conter normas que são um “sinal político de tolerância ao crime,” Costa Andrade, diz assim: Concordo plenamente com o dr. António Cluny. E aponta o exemplo da prisão preventiva, agora só aplicável quando os crimes tiverem moldura penal máxima, superior a cinco anos de prisão. É que há crimes que tem moldura mais baixa e causam verdadeiro alarme social e relativamente aos quais, a prisão preventiva pode ser necessária.
Finalmente, com cerejinha no topo deste bolinho de corante rosado, a afirmação de quem sabe: Estas mudanças foram impulsionadas pelo processo Casa Pia e perdeu-se mais uma bela ocasião para se mudar coisas fundamentais e que pedem mudança, deixando a essência intocável, por ausência de paradigma alternativo.
Portanto, mais um a denunciar a sem-vergonha deste legislador apressado que deu à luz mais um rebento cego. E já vai no 15º. Como diz, Costa Andrade, “globalmente é uma reforma falhada”.
Assoem-se a este guardanapo.

Publicado por josé 12:11:00 3 comentários Links para este post  



Paulo Teixeira Pinto

Um 'retrato' possível para ler aqui. Surpresa ? Claro que não.

Publicado por Manuel 11:03:00 1 comentários Links para este post  



Pelos caminhos do “Partimónio”



Em Reguengos de Monsaraz alargou-se uma estrada. Obra bonita e de préstimo. O diabo é que, pelos vistos, o milenar Menir de Santa Margarida estava no sítio errado. Para não interferir com a circulação dos veículos, a solução foi a que está à vista. Obra asseada, com um corte perfeito, na vertical da extremidade da via. As autoridades do Partimónio estão de consciência tranquila. Afinal, o menir até já tinha sido classificado como Imóvel de Interesse Público...

Publicado por Gomez 07:50:00 8 comentários Links para este post  



O Ministério Público e o caso Madeleine Mccan

“A direcção do inquérito cabe ao Ministério Público, assistido pelos órgãos de polícia criminal” diz o artigo 263.º do CPP, actuando estes “sob a directa orientação do Ministério Público e na sua dependência funcional”, como autoridade judiciária.

A mesma autoridade judiciária que pode prestar esclarecimentos públicos, excepcionalmente, em casos de especial repercussão, na medida do necessário para a reposição da verdade sobre factos divulgados, para garantir a segurança de pessoas e bens e para evitar perturbação da tranquilidade pública.

Pois apesar das conhecidas “sensibilidades” do Ministério Público todas as vezes que se toca na “autonomia” estratégica e técnica da Polícia Judiciária – e o novo diploma orgânico, em vias de promulgação, acentua a sua dependência e aproximação do Poder Político –, neste caso nem uma palavra sobre o decurso da investigação e das suas atribuladas dificuldades.

Por mais cómodo que isso seja para a Instituição que dirige o inquérito, não pode deixar que a PJ seja imolada neste lume brando, que afinal também acabará por a consumir. Para o bem ou para o mal, tem de assumir a sua quota de responsabilidade, ainda que custe.


Por ALM no Cum Grano Salis

Publicado por Carlos 02:23:00 2 comentários Links para este post  



Carlos Anjos

Num par de intervenções nos Prós e Contras da RTP, o presidente do Sindicato da PJ, Carlos Anjos, conseguiu explicar com serenidade algumas questões sobre o caso de Madeleine Mccann. Algures neste blog, já me tinha pronunciado sobre o papel dos sindicatos ligados à justiça. Fazem um papel que não é o deles, mas fazem-no bem. Parabéns!

Publicado por Carlos 02:13:00 0 comentários Links para este post  



uma constatação

Na RTP, em directo das terras de Sua Magestade, Sandra Felgueiras denota sair manifestamente à mãe. É fogo!

Publicado por Manuel 23:26:00 7 comentários Links para este post  



induções.

José Miguel Júdice disse à pouco em directo na RTP 1 que as escutas telefónicas são uma nova forma de tortura (!) porque obrigam (os escutados) a revelar algo que não queriam e desejavam. Logo a seguir um 'criminologista' vem dizer que a polícia científica do futuro dispensará confissões porque 'deslindará' tudo, sem precisar da 'cooperação' mais ou menos voluntária dos envolvidos. Em suma, e por transitividade, a polícia científica do futuro só dependerá da... tortura. Júdice dixit.

Publicado por Manuel 22:57:00 1 comentários Links para este post  



Actuel- Bizot

Por cá, vai passar incógnita, a morte de Jean-François Bizot, ocorrida no passado dia 8, devido a cancro. Contudo, não devia, porque todos os que se derreiam de incómodo à simples menção de Maio 68, deveriam saber quem foi Bizot, para poderem perceber melhor porque é que Sarkozy veio a escolher como ministro dos Negócios Estrangeiros aquele que no dia 7 esteve em Viana do Castelo: Bernard Kouchner, e que hoje disse ao Le Nouvel Observateur: “Era meu amigo, um formidável companheiro de aventuras. Tinha a inteligência dos seus magníficos talentos. Gostou das peregrinações de Bukowski e do underground americano cujas sendas secretas foram captadas pela Actuel, uma revista a que ficará para sempre ligado. Tenho de homenagear a memória deste decifrador que soube casar os contornos do seu sonho e incidir no espelho do tempo os seus reflexos mais variados”.

A revista Actuel, fundada em 1970 por Bizot, era um must da então chamada contra-cultura, um conceito fluido sem margem de definição precisa.











A revista, de grafismo fantástico e delirante, com desenhadores do sonho dos comics americanos, paginava textos libertários e de combate ao satus quo. “O capitalismo cheira mal” ( Outubro 1971). Nesse mesmo número, o mesmo Bernard Kouchner, actual ministro de Sarkozy, escreve sobre a revolta nas prisões americanas: Sabemos bem: cada um deve bater-se por si. Bairros de lata e racismo são também assunto nosso e as morais abjectas do dinheiro, da bófia e das autoridades. Mas poderemos mudar de vida, gritá-lo nas ruas e acreditar nisso, se nos afastarmos dos oito milhões de agonizantes do Bangla Desh sob o pretexto de não terem uma etiqueta política suficientemente nítida? Ou que o acontecimento não seja suficientemente mobilizador.” Aí estava a ideia da Esquerda internacionalista, proletária e tudo.

Nunca admitiriam ser de Direita, embora a marginalização na Esquerda clássica fosse imprecisa e talvez sejam afinal os percursores das novas tendências do idealismo utópico, para além do comunismo e antes do liberalismo. Muitos dos seus representantes conhecidos, tornaram-se reconhecidos pelos poderes actuais do socialismo e até pelo sarkozismo nascente. O discurso actual de Serge July é o melhor exemplo dessa ponte de contradições que atravessou três ou quatro décadas. Não lamenta o desaparecimento do PC em França e admitiu o capitalismo liberal no jornal que ajudou a fundar. Por cá, temos o José Manuel Fernandes do Público, e outros, como exemplos Actuel.

Vieram do trotskismo, do anti-estalinismo, e do anti-capitalismo. Nos anos sessenta, em França, opunham-se ao PC e ao Gaullismo. Amantes de jazz, descobriram depois o rock e foram os primeiros a usar jeans.

Esquerdistas, estes libertários? Peut être, no sentido que Lenine lhes deu: pequenos burgueses que sem gostar do capitalismo, repudiavam igualmente a revolução de Lenine. Em França que não por cá, os seus intelectuais , repudiaram o estalinismo e opuseram-se ao colonialismo e ao capitalismo ainda. O partido comunista nunca lhes deu trela, por isso mesmo, mas ainda assim, herdaram a tradição da grande Esquerda das ideias libertárias, do surrealismo, do anarquismo, numa palavra: da Utopia. E por isso, usaram a sua linguagem codificada, de antifascismos, de lutas contra a burguesia, com todas as palavras emprestadas daquela Esquerda que diziam execrar.

Em França, o seu jornal de sempre é o exemplo do tempo que passa. O Libération, falido, acabou comprado pelos grandes capitalistas e segue a utopia de sair dia a dia, tentando vender o que é preciso para pagar as despesas.

Encalharam agora no reduto da defesa das minorias, das causas minoritárias e sempre à sombra da velha Utopia que Bizot acarinhava. Se a esquerda comunista sonhava com amanhãs a cantar, de que estofo será o sonho destes libertários? Se a verdade da Esquerda marxista, sonhava em transformar o Homem, num novo Ser, será que estes avatares, sonhavam com sucedâneos? Parafraseando um livro de Philip Dick, um autor de ficção científica caro a Bizot: será que os andróides sonham com carneiros eléctricos?

Publicado por josé 22:51:00 4 comentários Links para este post  



Pensamento do Dia



«Sinceramente, não creio que esteja alguém ao volante. Os que mandam não fazem a mínima ideia para onde nos estão a levar.»

Manu Chao, citado pela revista «Visão»

Publicado por André 22:07:00 1 comentários Links para este post  



O costume

Já foi dito, redito, esclarecido em inquérito parlamentar vergonhoso e tudo. O anterior presidente da República nunca foi escutado no âmbito do processo Casa Pia.
No entanto, o comentador, cronista, romancista, Miguel Sousa Tavares, continua a afirmar que sim. Na última crónica, no Expresso, onde escreve sobre tudo e mais umas botas em saldo, vende este naco de mentira:

"Quando se descobriu que, por engano ou por excesso de zelo, até o Presidente da República foi escutado no ‘caso Casa Pia’, o anterior procurador veio afirmar candidamente que “não haveria mais” do que sete ou oito mil escutados habitualmente - como se fosse pouco!"

Num país civilizado, onde o respeito pelos leitores, fosse algo mais do que uma batata, este tipo de comentadores, seria relegado para o descrédito rápido e não voltaria a escrevinhar atoardas destas. Aqui, é promovido a guru de televisão, com audiência marcada.

Publicado por josé 20:49:00 3 comentários Links para este post  



Hipócritas

A SIC já sabe o teor do inquérito à inglesa, mãe de Maddie, efectuado na semana passada. Divulgou amplamente no jornal da noite, há minutos, as respostas concretas dadas pela mesma, às perguntas mais pertinentes.

Quem deu à SIC, estas informações que violam de modo flagrante o segredo de justiça? Alguém se importa? Algum comentador vai pedir responsabilidades ao procurador- geral da República?

HIPÓCRITAS!

Entretanto, o antigo procurador-geral da República, Cunha Rodrigues, que nunca se pronunciou antes, sobre fosse o que fosse, na tv, aparece agora a falar aos jornais e à tv, e a substituir o ministro da Justiça, que preferiu o silêncio do "não comento". Cunha Rodrigues, como juiz da UE, está sujeito a reserva. Diz que não fala em casos concretos e tudo o que diz é concretamente interpretado...
Este filme, é estranho. Deveras estranho.

Publicado por josé 20:07:00 3 comentários Links para este post  



inglês técnico

Por falar em Vital Moreira, intriga-se o blogger com um assunto de pronúncia azarada a propósito do anglicismo "rugby". O esmero da análise, justifica comentário.

Se em Inglês a modalidade se chama "Rugby" (cuja pronúncia soa algo como rágbi) e se em Português se escreve usualmente "Râguebi", por que bula é que a generalidade das pessoas pronuncia "reiguebi"? - escreve Vital.

A resposta sai na ponta da tecla: porque a maioria dos portugueses não cursou "inglês técnico" caro Vital. E alguns que o fizeram, foram examinados via fax.
E- mais importante ainda- poucos se podem dar ao luxo de contar piadolas destas em público.

Publicado por josé 17:13:00 9 comentários Links para este post  



Os Santos e o diabo, ou uma questão de chá

Há alguns dias atrás, a propósito de uma questão qualquer, o Director Nacional da PJ não hesitou - alto e bom som - em criticar e demarcar-se ruidosamente do Procurador Geral da República. Pouco importa a razão (que até parece que a teria), o facto é que Alipio Ribeiro escolheu consciente e voluntariamente o ruído e o terreiro mediático para fazer valer a sua causa. Diálogo, coordenação, sincronização - tudo foram variáveis secundárias - num terreno pantanoso que todos fizeram e fazem questão de calcorrear - quando a única coisa que conta é o imediatismo do aparecer no momento nos média. O parecer ao invés do ser.

Hoje, Pinto Monteiro, Procurador Geral da República, julga que se vingou. Foi dizer, que, e cito, 'soube pela televisão. Foi-lhe apenas dado conhecimento, de que os McCann tinham sido constituídos arguidos e ficariam sujeitos a termo de identidade e residência.' (Público - Última Hora) - em suma, qual Pilatos decidiu lavar as mãos.

A todos os títulos lamentável. A exposição internacional do caso, por si só, bastaria para que outro recato, outra descrição, outro profissionalismo existissem, antes, durante, e depois, em alternativa a algo que mais não é lavar roupa suja em público. Em bom rigor, falta o mais básico e elementar Sentido de Estado.

Num país normal a esta hora, face a este triste espectáculo, nem Pinto Monteiro nem Alípio Ribeiro teriam condições para continuar. Mas num país normal Alberto Costa também nunca teria chegado a ministro da Justiça, muito menos o último CPP seria aprovado 'às cegas', como dizem agora alguns, e nos termos e nas condições em que o foi. As coisas são o que são, e a descer - está visto - todos os santos ajudam, os santos e o diabo. E isto é só o início.

Publicado por Manuel 15:41:00 3 comentários Links para este post  



títulos que valem por mil palavras.

Dalai Lama: Elevada procura de bilhetes.

no Portugal Diário

Publicado por Manuel 14:51:00 0 comentários Links para este post  



A nossa democracia

Segundo o advogado José Maria Martins, citado no Correio da Manhã, no processo da Casa Pia, constam transcrições de escutas que indicam ter existido um grau elevado de pressões de certos políticos no activo, para que a investigação não decorresse como os magistrados e a polícia entenderiam que deveria decorrer. Em suma, certos políticos, tentaram interferir nas investigações em curso, fazendo-o logo que perceberam que um ou mais dos seus correligionários estaaria envolvido nas investigações, com suspeitas da prática de crimes.

Esses políticos estão identificados como Ferro Rodrigues, António Costa e agora, José Sócrates. Todos do PS que agora tem a maioria absoluta na AR e manda no governo da nação, em termos executivos .

Sobre a participação de António Costa e Ferro Rodrigues, no caso concreto, já se sabe o que sucedeu, porque o Ministério Público referiu expressamente as conversas privadas, gravadas pela polícia, com autorização de juiz de instrução. A mais vergonhosa frase dessas transcrições expostas na motivação de recurso do MP, para sustentar a actualidade e adequação da prisão preventiva de um dos arguidos, era a que se referia ap segredo de justiça. A mais ignominiosa nem sequer era essa, mas a prova da pressão exercida e da absoluta falta de vergonha em procurar influenciar o decurdo da investigação, conforme foi alegado então pelo MP.

Ferro Rodrigues, acabou desterrado, em consequência directa desses acontecimentos. António Costa, é hoje presidente da autarquia de Lisboa, depois de ministro influente e com lugar importante no governo.

José Sócrates, depois de eleito indirectamente, é hoje primeiro-ministro de um governo e de um partido que se aprestou a rever as leis penais, num sentido inequivocamente direccionado para a protecção de arguidos e com artigos particularmente inspirados no caso da Casa Pia.

Ninguém, maioritariamente, em Portugal, acha isto uma vergonha inominável num Estado de Direito, continuando a dar o benefício eleitoral, a estes personagens da nossa opereta política. Ninguém, maioritariamente, em Portugal, considerou o caso estranho do percurso académico de José Sócrates, digno de ser avaliado ética e politicamente. Marcelo Rebelo de Sousa, ontem, na sua intervenção semanal na RTP, voltou a referir, por contraste, esse assunto, ao dizer que na comparação de Sócrates com Marques Mendes pelo menos este tem uma licenciatura séria, ou coisa que o valha. Julgando pela atitude de MRS, seria interessante ouvir a maioria dos académicos deste país, sobre o assunto, e tentar perceber se colocam a consciência profissional ao nível da conveniência.

Neste contexto, o advogado José Maria Martins, requereu nesse processo, a autorização para se publicarem as escutas relativas à intervenção de José Sócrates nesse processo concreto e que alegadamente mostram uma intervenção inadmissível, atenta a circunstância concreta em que se verificou.

Pergunta-se: será útil, agora, saber qual o teor dessa intervenção de José Sócrates, em 2003, no âmbito das escutas efectuadas e que aquele advogado que as conhece, considera “vergonhosas”?

Será importante, para se perceber o papel de certas personagens do partido socialista, agora no poder, no âmbito concreto desse processo que envolveu pessoas de notoriedade elevada do partido em causa?

A resposta a estas questões, em primeiro lugar pelo tribunal e depois pela opinião pública, dará a conhecer o nível de desenvolvimento da nossa democracia, da divisão de poderes real e efectiva que existe e no final de contas do grau de desenvolvimento da nossa cidadania. Permitirá também avaliar melhor o sentido da última revisão do Código de Processo Penal que alguns ( Paulo Rangel), associaram já ao processo Casa Pia, em algumas das suas modificações, nomeadamente a que permite a publicação deste tipo de escutas transcritas em processos. A partir de 15 de Setembro, isso torna-se praticamente inviável e toda a gente percebe porquê, além da razão oficial.

Se isto acontecesse na Inglaterra ou nos USA, nem é preciso perguntar o que sucederia. Se ocorresse na Itália, poderemos sabê-lo através da experiência recente com o governante Berlusconi e se por acaso, fosse no Brasil, também não teríamos grandes dúvidas.

Portugal que democracia tem?

Aditamento:

Ainda não tinha lido o guru do pensamento socialisticamente correcto, mas reparo que o mesmo concorda implicitamente com a publicação destas escutas e com o requerimento do advogado JMM. Senão, leia-se:

Compreendo bem que a defesa da privacidade possa impor muitas vezes a proibição de publicação (por exemplo, conversas íntimas); mas não vejo por que é que não pode ser publicada uma conversa entre, por exemplo, um autarca e um empreiteiro que prova um acto de corrupção ou uma conversa entre dois terroristas a combinar um atentado.Não conheço nenhum direito fundamental que goze de protecção absoluta...
[Publicado por vital moreira]
9.9.07

Um caso, como este, que envolve as manobras insidiosas de óbvia perturbação de inquéritos criminais, de políticos no activo e em perspectiva de governo num futuro próximo, como aliás veio a acontecer, torna obrigatório que o público possa conhecer quem nos governa e o que será capaz de fazer com o poder executivo nas mãos em maioria absoluta.

Publicado por josé 13:27:00 8 comentários Links para este post  



o fim do regime

Já lá vão uns anos Francis Fukyama escreveu um livro que o fez famoso, primeiro pelo arrojo do título, e da tese, e mais tarde, pelo ridículo. O livro chamava-se 'O fim da História', e proclamava a vitória absoluta e definitiva da civilização ocidental. O problema é que a história está longe de acabar. Atente-se em Portugal - com histórias atrás de histórias, muitas sem fim à vista - em que se assiste hoje, ao vivo e em directo, aquilo que mais não é que o fim, o último estertor, de uma espécie de regime. A prova provada que a História está muito longe de ter acabado.

Os sinais andam todos por aí, para quem os quiser ver. A objectividade é coisa que deixou de existir, a única exigência que se requer é a da fidelidade, e tudo - mesmo tudo - se tornou governamentalizado , e governamentalizável. Os factos esses não interessam - só o spin. Vivemos num país onde é possível aprovar um novo Código de Processo Penal, o qual contém uma alínea que de tão insidiosa, (quase) ninguém se recorda de a ter introduzido e - pasme-se de a ter lido. Nem quem o votou, nem quem o aprovou - em Belém. É a velha lei - as rolhas flutuam sempre, e há-as de todas as cores. É a lei... do silêncio em que tudo se arranja, em nome do sossego, de um favor, de uma promoção, ou da chantagem mais ou menos discreta. O medo - basta ver o episódio DREN - também conta.

Vivemos num País onde não é possível mais dissociar o Estado, um ente abstracto - em quem todos deviamos confiar - 'deles'. Já criticamos esta e aquela medida porque 'eles' - sejam quais forem não são de 'confiança'. Portugal agora está assim. Cerceia-se a liberdade básica à informação, ao mesmo tempo que se tenta entreter o bom 'povo' com a mais pura propaganda. Por estes dias até - pasme-se - a cartada nacionalista se agita - seja para proteger o Presidente da Comissão Europeia, seja naquela que é seguramente uma das mais bem montadas (e arriscada - e vamos ver se não também suicida - também) operações das últimas décadas, para salvaguardar o bom nome da nossa polícia, naturalmente a 'melhor' do mundo. Ao mesmo tempo, promovem-se 'reformas' - eufemismo que serve para justificar o controlo e governamentalização estrita de tudo e mais alguma coisa. Estava tudo tão mal, e estava, que tudo passa - porque afinal não poderá ficar pior. Pode, e vai ficar. Sobram, pesem os submarinos, no papel, os militares, que não por acaso, e para quem souber ler, sacaram a Cavaco o único veto realmente relevante que veio de Belém.

O drama disto disto é que a 'rapaziada', dos que nos governam, ao Noam Chomsky português, não percebem que (já) se está no domínio da insustentabilidade. O nacional-porreirismo, o deixa andar, que nos caracteriza permitiu a criação de uma sociedade por castas, onde uns podem podem opinar e mandar, quiçá ter acesso a informação privilegiada e outros não. A tese, e o esquema, tem barbas e nunca deu grandes resultados. Eles, os guardiões do templo, acham-se únicos e imprescindíveis. Mesmo quando arrufam entre si, não vislumbram, muito menos desejam, qualquer alternativa que não sejam eles próprios. Nos entretantos esperam que o povo cante e ria.

Só que, destruindo - por acção e omissão - toda e qualquer espécie de escape e de equilíbrio - através do próprio sistema - estão tão só e apenas a cavar não só a sua própria sepultura como também a do regime em que se inserem, já que impedem toda e qualquer capacidade deste se auto-regenerar por dentro.

E não, este não é uma prosa pessimista, antes pelo contrário. É, quanto muito, uma prosa levemente fatalista e resignada. Isto vai mesmo ficar muito pior, antes de haver uma réstia de esperança de poder ficar melhor. As coisas são o que são.

Publicado por Manuel 09:31:00 2 comentários Links para este post  



Um caso de polícia

Moita Flores como perito, ex- inspector, criminalista, etc. etc. disse há poucas horas, na SIC que é indecoroso o silêncio da polícia portuguesa, da PJ, relativamente ao caso Maddie/McCann.

Moita Flores, acha que tem existido, desde sempre, uma dificuldade inadmissível, das autoridades policiais e não só, em comunicar ao público em geral, assuntos desta natureza, explicando o que no seu entender, deve ser explicado.

Moita Flores foi polícia, agora é autarca e antes disso e em concomitância, foi e tem sido comentador de televisão e guionista de séries sem grande fôlego qualitativo, intervindo agora, na extraordinária qualidade de perito nestas matérias. Os verdadeiros criminalistas, devem sentir alguma vergonha, desta encenação mediática, porque Moita Flores, pese embora toda a sua boa vontade, não é um perito criminologista ou se o pretender ser, não andará muito longe de um Inspector Varatojo, de saudosa memória, aliás.

Moita Flores, porém, não se dá por achado e lá vai alvitrando palpites de senso comum e de sensatez regular, numa bonomia que conquista o écran, mas ajuda pouco em esclarecer coisas fundamentais nos assuntos de que trata.

Desta vez, acusa as polícias de falta de comunicação e terá alguma razão. Mas…que razão será essa que poderemos atender?

Moita Flores não conhecerá suficientemente o Código de Processo Penal, para saber que os esclarecimentos, para além do segredo de justiça, só se admitem, em casos contados e definidos no artigo 86º nº 13 ( versão actual) do CPP.? Diz assim, o preceito:

O segredo de justiça não impede a prestação de esclarecimentos públicos pela autoridade judiciária, quando forem necessários ao restabelecimento da verdade e não prejudicarem a investigação:
a) A pedido de pessoas publicamente postas em causa; ou
b) Para garantir a segurança de pessoas e bens ou a tranquilidade pública.

Nenhuma destas circunstâncias ocorre, no caso concreto, actualmente, a não ser que Moita Flores, entenda que está em causa a tranquilidade pública…

Para além disto, este caso, tem algumas particularidades de forma e de fundo que o tornam singular, independentemente da essência da investigação e descoberta da verdade material relativamente à qual nem me atrevo a dizer seja o que for e espanta-me que alguém o faça, com a desenvoltura de quem está por dentro do assunto e dominas os pormenores.

Uma delssas particularidades, é a continuada violação de segredo de justiça naquilo que este tem de mais genuíno: a protecção da investigação. Alguém se importou com isso, como se importou por exemplo e para não irmos mais longe, com as violações de segredo no processo Casa Pia? Alguém, daqueles do costume ( Proenças, Júdices, Amarais, Tavares e outros), apareceu a reclamar a responsabilização do actual procurador-geral da República, pelas contínuas e graves ( agora ainda mais do que antes e de evidente proveniência) violações do segredo de justiça? Ninguém apareceu, o que me autoriza a chamá-los de hipócritas.

Por outro lado, este caso, como todos os Inquéritos tem uma direcção: o MP. Alguém ouviu o MP, neste caso? Discrição, sim, mas tanta reserva até ao ponto de se deixar ao cuidado da polícia, toda as despesas da interacção com a comunicação social, é um sinal inequívoco que se dá a toda a gente, de que o caso é exclusivamente de polícia e nada tem a ver com as magistraturas. Alguém conhece o procurador do processo? O juiz de instrução? Compare-se com outros casos recentes, totalmente ao contrário e tirem-se as conclusões, para se fazerem as interrogações, sobre este modo particular de encarar o processo penal português.

O drama maior, neste aspecto e para além do resto, parece-me este. Os cínicos da magistratura, dirão que assim, se as coisas correrem mal, quem se queima na praça pública é a polícia. Será?

Vasco Pulido Valente, na sua crónica de ontem, Domingo, escrevia preto no branco que estes casos de polícia, recentes, humilham a Justiça. Tomem nota, porque o crítico desta vez, é certeiro.

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Leitura para um domingo à noite de Setembro

«Escócia, 1746

Lillias salvou‑se da carnificina porque, seis horas antes da batalha, viu o pai morto, como realmente ele haveria de morrer mais tarde. Atravessado pelas baionetas, de modo que os buracos na barriga vertiam sangue, bílis e excrementos. Tom Fraser estava em pé, tapando a entrada, espalhando como sempre a escuridão. Ela pensou que aquilo que tanto o feria era o surpreendê‑la adormecida na cama de madeira, que se usava somente em três momentos de uma vida: parir ou ser parido, acasalar pela primeira vez e falecer.

O pai mostrava o seu desgosto abrindo o corpo, falando pelas fezes arruivadas. Lillias queria esconder‑se, mas sabia que um pecado de filha nunca mais desaparecia da visão de um pai. Arremeteu‑lhe contra as pernas e passou pelo meio delas, tão pequena e azulada que isso lhe dava qualidades de animal. A sua camisinha esvoaçava como penugem ao sabor da ventania, enquanto ela corria e se afastava cada vez mais, sem se dar conta de que, em verdade, ainda nada sucedera. Acabaria por acostumar‑se e quando, anos depois, em Portugal , viu abater‑se uma cidade inteira, levantou‑se em silêncio do enxergão, fechou a trouxa e foi dormir para o jardim, sem avisar ninguém daquilo que iria passar‑se mais à frente, de manhã.
Pensou que, se falasse, criaria um estado tal de confusão que os acidentes começariam a acontecer antes de o terramoto os provocar. Estava, naquela altura, com quinze anos, mas aprendera a ser tão avisada que a precaução já lhe cortava o meio da testa com vincos próprios da maturidade.
Mas, por agora, vemo‑la fugir na sua fuga de criança, destinada a fazer‑se sentir naqueles que devem estar, naquele momento, a perdoar‑lhe.
Os seus pequenos pés irão batendo ao mesmo tempo contra o peito da família, e aqueles que a amam já estarão sangrando na pena de a buscar, tão esfacelados pelas neves da encosta que hão‑de gritar, pedindo o seu perdão. Lillias não sabe exactamente onde se encontra, pisa ao acaso o gelo e os rebentos. O vento norte investe contra os troncos e atravessa a sua camisinha, fura‑lhe a pele, como essa baioneta que vai abrir o estômago do pai.

O mês de Abril, que vai a meio, torna o frio um pouco mais difícil de entender, é um frio de oiro, e as novas criaturas deixam‑se armadilhar pela beleza, afastam‑se das mães, entontecidas com a poalha que sobre elas cai. Esta nossa menina, Lillias Fraser, começa aqui a sua dança do pavor, dá voltas cegas em redor das árvores, chora em silêncio porquenão se atreve a misturar a voz com a floresta. Esquece agora a razão por que fugiu, aleija‑se nas pedras, nas raízes, fere‑se, ao meio‑dia, como quem atravessasse o monte em plena noite. Por isso, quando cai e se apercebe de que o declive a vai levando para baixo, ela produz a sua própria escuridão, fechando os olhos, quase sem sentidos. Parece que aquele chão se fartou dela, de observar o medo humano uma manhã inteira, porque a empurra como se ondulasse, ferindo‑a um pouco mais, mas devolvendo‑a à estrada, em baixo. E pensa que a salvou.

Há, com efeito, uma mulher que vai passando e que recolhe Lillias nos braços. E, no entanto, o som do sofrimento ainda paira sobre o ar, incomodando, e a natureza vê que não se trata apenas da criança tresmalhada mas que, a nordeste, para além do lago Ness, se mata e morre, tão intensamente como é costume de qualquer batalha, mas com inusitada rapidez. Começa ali um fim que há‑de atingir quem se julgava à margem dessa história, como Lillias, e o monte onde subiu, que se tornará pasto de carneiros e perderá os sentimentos e as trevas».

in «Lillias Fraser», Hélia Correia

Publicado por André 21:19:00 1 comentários Links para este post  



Duas formas de dizer o mesmo

Instruções sobre a Censura à Imprensa (1933)

É particularmente objecto de vigilância da censura tudo quanto respeite:

(...)

f) À divulgação de notícias e boatos destinados a perturbar a tranquilidade e ordem públicas ou a prejudicar o crédito público, o que sejam susceptíveis dessa perturbação ou prejuízo.



Código do Processo Penal (2007)

Artigo. 88

(...)

4 - Não é permitida, sob pena de desobediência simples, a publicação, por qualquer
meio, de conversações ou comunicações interceptadas no âmbito de um processo,
salvo se não estiverem sujeitas a segredo de justiça e os intervenientes
expressamente consentirem na publicação.

Publicado por Carlos 00:45:00 3 comentários Links para este post  



Feiras Novas e arguido


É já na próxima semana. Sexta, Sábado e Domingo lá estarei junto ao Bar Girabola. Na Segunda-feira, às 10,30h espera-me a constituição como arguido. Para que os nossos leitores ingleses percebam: I will be declared arguido

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Os intelectuais e os amadores diletantes

O livro de Andrew Keen, sobre a Internet, chama-se The Cult of the Amateur. A essência do livro, citado hoje, por José Pacheco Pereira no artigo do Público, já foi indicada no postal que antecede e contende com a validade da Internet como veículo de verdadeira informação e cultura. Quem ler Keen, fica atento à preocupação do autor com a falta de objectividade na Rede; com a disponibilidade do meio em permitir a qualquer um o acesso sem restrições, à publicação de conteúdos, muitos deles roubados e com a dificuldade que tudo isso cria aos artistas que vêem o futuro comprometido pelos amadores que nem sequer criam grande cultura, mas aproveitam obras alheias. Para Keen, na Internet, trivializa-se a cultura.

Não obstante, o autor, não se limita à escrita, porque tem um sítio na Internet e um blog de publicidade às suas obras. E o artigo na Wikipedia que lhe é consagrado, concentra links para outros sítios com artigos sobre Andrew Keen.

Num deles, Keen explica-se a Steven Colbert, num talk show de brevidades e superficialidades culturais. A entrevista, tem momentos hilariantes e nada de novo acrescenta à ideia básica difundida por Keen: a vulgaridade e a mediocridade tomaram conta da…tv, perdão, da Internet.

Segundo um artigo do Sunday Times, de Julho do ano corrente, Keen acha que aquilo que define as mentes brilhantes, é a habilidade em passar além do vulgo, da multidão e das ideias correntes. Para Keen, a Internet não contribui para a expansão desse desiderato e que caminhamos para uma ditadura de idiotas formados na Rede. Todas as informações e ligações aqui recolhidas, foram-no no espaço de alguns minutos, de borla e muitas mais existem no mesmo sítio.

Será que Keen tem alguma razão no que diz e escreve? E, melhor ainda: que pretende Andrew Keen ( e já agora o nosso Abrupto)? Destruir a Internet? Nã…querem mais controlo. Controlo, sim. Censura. Repressão de ideias. Curto-circuito a certas veleidades anónimas. A gente percebe onde querem chegar. Não se percebe bem é porquê.

Num artigo publicado na última edição da revista L´Histoire, Pierre Assouline, jornalista e escritor, escreve sobre os intelectuais e conta a história de duas revistas de papel – a Prospect de Londres e a Foreign Policy de Washington.- que se associaram há dois anos para decidirem quem seria o maior intelectual de sempre, no mundo ( anglo-saxónico, na prática). O primeiro escolhido na votação de 5000 votos expressos e a partir de uma lista, ficou, muito destacado, Noam Chomsky, à frente de Umberto Eco, Richard Dawkins,, Vaclav Havel, Jurgen Habermas, Eric Hobsbawn, Timothy Garton, Paul Kennedy, Gilles Keppel e outros.

Na Alemanha, há alguns meses atrás, a revista Cicero, graficamente uma pequena maravilha, fazia o mesmo tipo de sondagem. O intelectual que figura à cabeça, destacado e à frente de Peter Handke, Martin Walser e Gunter Grass? Joseph Ratzinger, o Papa actual.

E se alguém fizesse o mesmo em Portugal? Que lista se proporia para os votos? E há alguma revista tão prestigiada como aquelas, para financiar a sondagem? E se o fizessem na Internet? É que na ausência de revista ou jornal suficientemente sérios ou prestigiados, para tal tarefa, a Rede ou no caso, um blog, poderia sem grande incómodo, suprir os suportes em papel, dos media tradicionais. Nos USA ou na Alemanha, pode nem ser assim. Aqui, infelizmente, é. A Rede em Portugal, é o refúgio, para quem pretende sair da mediocridade dos media que copiam da Rede muita coisa que nem citam; que escrevem asneiras sobre assuntos que não dominam e que não informam como deve ser, em quase nenhum assunto. E nisso, JPP, parece não querer elaborar muito. Prefere citar autores ressabiados, estrangeiros e que pouco ou nada nos dizem.

Publicado por josé 20:58:00 18 comentários Links para este post  



Observatório 2008 -- pode Obama escapar ao segundo lugar?

Barack Obama: o senador do Illinois atrai multidões e desperta a atenção das luzes mediáticas. Não é, apenas, um produto do marketing, tem ideias e consistência, mostra-se muito forte no duelo com os front-runner republicanos, mas ainda não conseguiu provar que tem dimensão suficiente para roubar a liderança da corrida democrata a Hillary Clinton. E isso, neste jogo, é o mais importante...



É uma das grandes questões do momento na louca corrida para a Casa Branca, em 2008. Hillary Clinton vai cimentando a imagem de favorita, tanto para a nomeação no lado democrata, como para a eleição a 4 de Novembro do próximo ano, mas Barack Obama é a grande estrela da campanha, somando apoios de famosos e muito, muito dinheiro.

Jovem, inteligente, com carisma e magnetismo indiscutíveis, o senador tem o dom de atrair para si os focos de atenção, quase sempre por boas razões: com um discurso responsável e consistente, Obama tenta ser o candidato do consenso, aquele que estará em melhores condições de levar a América a reconciliar-se consigo mesma.

O problema é que tudo isto de pouco lhe valerá: é que a realidade de Obama, neste momento e já há muitos meses, é o segundo lugar. Como só a a vitória dará acesso ao direito de disputar a presidência ao nomeado republicano, resta perguntar: para quê tanta excitação em redor de Obama?

Para começar, é preciso explicar que o segundo lugar, numa corrida tão acesa como a que está a ser no campo democrata, obtido por um senador com apenas dois anos de Capitólio, sendo o único senador negro do momento (e quinto em toda a história da América) é já um feito de registo.

Barack é o primeiro candidato negro com reais hipóteses de ser eleito por várias razões: em primeiro lugar, pela sua qualidade política; depois por ser um negro com especificidades que o diferenciam de antigos candidatos como Al Sharpton, Alan Keyes ou Jesse Jackson — é filho de um queniano negro e de uma americana branca, do Kansas, e assume-se como produto de uma mistura que representa, ela própria, a história da América.

Em vez de apelar à raiva, ao ressentimento, como tantas fizeram outros candidatos negros, mais ligados a associações de minorias, Obama é um candidato de consensos: tem um discurso moderado, mas mobilizador; apela ao sonho (e, nesse plano, tem sido muito comparado a Kennedy) e faz as pessoas sonhar.

Sabendo que só pode ser nomeado se obtiver fortes apoios em todos os sectores da sociedade, Obama está longe de ser o candidato dos negros (bem pelo contrário, dado que entre os afro-americanos, Hillary está à frente, muito por mérito dos anos Bill Clinton, presidente que sempre teve um forte apoio no eleitorado negro).

Obama fala na reconciliação da América, entre raças, estratos sociais e, sobretudo, numa reconciliação da América consigo própria, após anos de perda de prestígio internacional, durante os dois mandatos W. Bush. E tem conseguido dar provas de que pode marcar pontos nesse plano: um candidato que nasceu no Hawai, cresceu na Indonésia, é filho de um negro e uma branca, foi educado pelos avós brancos e estudou em Harvard tem, sem dúvida, muitos trunfos quando tentar seduzir a comunidade internacional.

Apontando Hillary como a candidata do sistema, aquela que já passou oito anos na Casa Branca e sete no Senado, Obama assume-se como o candidato do futuro, da mudança, falando em conceitos como «o regresso do bom senso».

Tudo isto confere interesse e relevo a Obama, além do facto de continuar a ser um campeão em recolha de fundos para a sua campanha (aí, está claramente à frente na corrida, mesmo contando com os candidatos republicanos), mas a verdade, nua e crua, dos números é esta: Barack está a uma grande distância de Hillary(10 a 20 pontos) e já viu John Edwards, o terceiro classificado, bem mais longe.

Ainda tem uma boa margem de crescimento, sobretudo no eleitorado negro — que olha para si com admiração mas, ao mesmo tempo, uma certa desconfiança, acusando-o de não ser... suficientemente negro no discurso e na postura — e nos jovens, que, historicamente, só se interessam pelas campanhas presidenciais a poucas semanas do seu fim.

Pode, por isso, acontecer que as sondagens, daqui para a frente, dêem números, no plano nacional, mais animadores para uma viragem no campo democrata que não estará posta de parte. É que Obama, na hora da verdade, pode aparecer com outro trunfo forte na manga: o de se mostrar, no duelo com os principais candidatos republicanos, mais forte do que Hillary Clinton.

Com a mais baixa taxa de rejeição de todos os candidatos até agora (apenas 33 por cento, contra 42 de Giuliani e 46 de Hillary), Barack Obama será sempre um candidato de respeito, tendo em conta que parte para a corrida com um universo de 67 por cento dos eleitores dispostos a votar nele, caso sejam convencidos.

Será que isto vai contar? Ou será que Hillary Clinton se manterá num registo seguro, muito previsível é certo, mas suficiente para se manter à frente?

É uma questão de escolha da mudança: se a agulha está, claramente, para a viragem para o campo democrata, a verdade é que é muito diferente uma escolha por Hillary ou Obama. Quanto maior for o desgaste dos eleitores em relação ao poder de Washington nas últimas duas décadas, maiores serão as esperanças de Barack, que poderá recordar, na hora da verdade, que uma eleição de Hillary Clinton significaria que a Casa Branca iria ser presidida por um Clinton ou um Bush durante... 28 anos!

Num país que, historicamente, sempre rejeitou as monarquias, talvez seja um bom argumento.

Publicado por André 20:57:00 2 comentários Links para este post  



O que vem à Rede é perigoso

Ciclicamente, José Pacheco Pereira , lá do Abrupto, atira à Rede, para apanhar peixes incautos Desta vez, a crónica no Público, ( citada aqui) em modo de pesca de arrasto, pretende apanhar novamente os blogs, particularmente os ignóbeis anónimos que pululam aos milhares pelo éter, e ainda os sítios de referência que sistematizam informação, como a Wikipedia e outros lugares de culto de textos grátis e de consulta aberta.

O pretexto, é um livro de ensaio de um obscuro autor, conhecido de uns tantos, mas que Pacheco Pereira publicita como a última voz autorizada, embora em tonalidade simplista, em comentários sobre a Rede.

Pacheco Pereira, cita a tese central do livro de Andrew Keen, para enfatizar que “múltiplos aspectos da nossa cultura milenar ( do Ocidente) estão a ser postos em causa pela potenciação que as novas tecnologias associadas estão a dar à ignorância presumida de saber, ao “amador” que pensa que pode competir com o profissional ( seja jornalista, seja crítico literário, seja cientista, seja especialista de qualquer área do saber), apenas porque pode livremente e sem edição colocar num blog o que lhe vem à cabeça; pela erosão do direito de autor pela pirataria generalizada na rede, com o consequente desinvestimento em estúdio e qualidade de gravação); pela vulgarização do plágio”, etc. etc. até chegar ao ponto crítico do mundo obscuro dos avatars, das identidades virtuais na rede, aos comentários anónimos que tanto o afligem e aos malditos blogs anónimos que surgem como cogumelos nesta anarquia virtual e sem controlo à vista.

Pacheco Pereira, acha tudo isto “um “assalto moral” em que se dissolvem as regras e comportamentos éticos valorizados no mundo real e em que o “culto do amador” legitima uma degradação acentuada dos critérios de qualidade de muitas actividades que implicam ou um saber especializado, normalmente resultado de muitos anos de estudo e trabalho, ou de uma prática profissional extensiva.”

E atira-se à Wikipedia como modelo de ressentimento contra este estado de coisas. A Wiki, para Pacheco Pereira, citando Keen, é o melhor exemplo de perda de critérios de qualidade e rigor, a favor de uma ideologia utópica do homem comum, das massas, escrevendo por tentativa e erro, uma enciclopédia colectiva. O Horror intelectual, em suma. A que se soma o Horror supremo, de ver a substituição da comunicação social de referência, pela “cultura dos blogs”.

Este “culto do amador” está a matar a nossa cultura, segundo Pacheco Pereira, secundando o tal Keen que ninguém sabe quem é, mas que a Wikipedia já define como um crítico acerbo da Web.2 e que Pacheco Pereira omite como informação relevante, na sua referência ocasional. Valha-nos a Wikipedia criticada por Keen e Pacheco, para podermos saber quem será o tal Keen…e já agora, o próprio Pacheco Pereira.

A Wikipedia, acompanhando perigosamente os argumentos de JPP, também diz que Keen considera a Web 2.0 como um grande movimento utópico, semelhante ao do comunismo imaginado por Marx, ao mencionar a emergência do amador que se contrapõe ao profissional, disputando-lhe o público e o campo de intervenção. A Web 2.0 seria por isso o maior inimigo do elitismo tradicional, nos media e a ideia de luta de classes, entre o lumpen anónimo e a elite de retrato posto em jornal, está assim na ordem do dia, o que aliás, já fora mencionado antes, por JPP, em escritos diversos de ataque aos blogs.

Não obstante estas críticas ao lumpen intelectual que pulula na Rede, não se pense que Keen é adverso aos seus instrumentos. Tem um blog e intervém activamente na Rede. Coisas das elites. Do que parece não gostar, é destes proletários do verbo e da verve que se pronunciam abertamente sobre tudo e todos e fatalmente sobre ele próprio de os vários JPP. Keen, à semelhança destes, preferiria o sistema tradicional dos jornais de antanho que pediam a colaboração de especialistas em assuntos gerais, e a entidades míticas da cultura, a proeminências intelectuais que a democratização arredou das colunas. Os Vitorinos Nemésios que falvam com a mesma desenvoltura, da cibernética ou das sementeias de girassol e os detentores das cátedras de jornal, em modo de comentário sobre os acontecimentos da semana, perdem agora para o espaço da Rede onde se pode aprender mais em cinco minutos do que dantes num mês de consultas em bibliotecas centralizadas.

O monopólio do saber livresco e catalogado por autores, burocratizados em fichas, deixou de existir, conotado e acantonado com esses especialistas da generalidade. Esse saber catalogado, deixou de ser monopólio e passou a produto de nicho, para ratos de biblioteca. As principais revistas científicas, estão na Rede. A própria enciclopédia da elite, a Britânica, cedeu os seus direitos de exclusividade às exigências da Rede. A Wikipedia é uma concorrente séria daquela, pela actualização constante e permanente, mesmo com os riscos conhecidos e sempre sobrevalorizados por estes críticos suspeitos. Não permitindo a transferência integral do todos os saberes, a Rede permite um acesso facilitado a muitos deles e isso é arma mortal para quem vivia do mercado restrito do saber empacotado em colunas semanais.

Como exemplo, o verbete sobre Andrew Keen, na própria Wikipedia ( e que permite que o próprio autor a corrija se entender mal escrita) permite ler o que só seria possível a uns poucos iluminados pela cultura livresca e que vivessem no país de origem do autor e ao mesmo tempo, permite contextualizar o que diz o citado e o que dele dizem outros.

Em matéria de listas, nomes, estatísticas, referências, sobre as principais actividades artísticas, a Rede, através de motores de busca fornece um manancial impressionante de informação que dantes era perfeitamente impossível de obter, em pouco tempo e a custo zero, a muito estudioso da elite que se abalançava às teses de centenas de páginas. Para além disso, há uma área do saber que não pode circular na Rede: a das experiências práticas e científicas que não prescindem de tempo, balões, tubos de ensaio e circuitos artesanais. Mas, ainda assim, até esses não prescindem da Rede.

Assim, como entender esta reticência ácida à democratização do acesso à informação que nem é necessariamente, à Cultura?

A Rede ainda não dá licenciaturas ou cursos integrais de especialidades universitárias, mas tendo em conta algumas que são propostas em certas universidades, poderia perfeitamente concedê-las. A diferença não se notaria, e os exames far-se-iam por...fax ou mais prosaica e modernamente, por email.

Salvo algumas experiências singulares, a Rede ainda não permite o acesso à leitura integral de livros interessantes, com a mesma facilidade do manuseio do papel impresso e encadernado, mas permite o acesso a nomes e catálogos e principalmente a lugares de compra. A Rede, transformou-se em pouco tempo, também em lugar de mercado.

Aqui há uns anos quem quisesse um disco antigo, ou um livro de referência, tinha que percorrer quilómetros e procurar em curiosos que se guiavam pela memória dos antigos. Agora, a descoberta e obtenção rápida e barata de muitos desses produtos culturais, está à distância de alguns cliques, através de lugares virtuais como a ebay. Com a vantagem de se poder procurar livremente e sem custos de maior, o que se pretende e aguardar as oportunidades que surgem.

A possibilidade de aceder a lugares de informação especializada, é quase ilimitada, se a informação estiver disponível. Assim, quanto maior a quantidade de informação disponível em rede, mais a democratização do saber avulso ou de referência ficará assegurado. As mnmónicas para localizar textos, autores, versos, imagens, permitem aceder a pequenas maravilhas que só o advento da Rede permitiu e sítios como o Google autorizam.

Este é um admirável mundo novo, sem a carga de cinismo da antiga referência orweliana.

As limitações do saber em Rede são óbvias, mas inevitáveis: só procura saber quem tem conhecimento e a Rede é apenas um modo de aceder a certo conhecimento. Quem não sabe, não pergunta. Quem não pretende saber, não precisa da Rede para isso, embora a utilize para outras coisas.

O conhecimento específico, especializado, não se obtém satisfatoriamente através da Rede como não se obtém satisfatoriamente através de autodidactismo, apanágio da maior parte dos generalistas que concluíram cursos secundários para “dar aulas”, em qualquer disciplina específica e acabaram cursos superiores para perfazer currículo exigível . Não sendo o caso de Keen, é certamente o de alguns outros.

Ora esta pecha, é a que geralmente se pode apontar aos especialistas de tudo e alguma coisa, geralmente situados na área das Humanidades, com incidência na Sociologia e parentelas. Estes especialistas de coisa nenhuma é que se costumam convencer da sua própria capacidade em conseguir comentar tudo o que mexe à sua volta. É destes especialistas que saem os comentários na televisão sobre fait-divers sociais, ligados ao crime ou aos negócios e fatalmente à política, campo aberto onde disparam à vontade contra o que mexe e lhes parece caça para abater, apoiados em armadilhas para os gambuzinos.

Neste aspecto, não será a Rede que vem ampliar o nível de ruído, sobre aquele que os mesmos inevitavelmente provocam. A Rede, particularmente os blogs, neste caso, contribui apenas para aumentar o leque de intervenção comentarística, diversificando eventualmente o ruído e desvalorizando o oficial, genuíno e de nicho, próprio dos comentadores encartados pelos jornais e media em geral. Restringe-se assim, fatalmente, o interesse no mercado de opinião e só sobreviverão os mais fortes, como em toda a concorrência aberta e livre. É esse o problema detectado por este tipo de críticos, na “cultura dos blogs” . E mais nenhum. E esse problema só afecta quem vive do mercado tradicional: perder o interesse de quem lê ou ouve, por causa da variedade que aumenta a oferta de opiniões interessantes.

Assim, os generalistas da cultura do comentário avulso, sentem-se prejudicados na sua área de mercado específico e reagem por isso com a naturalidade dos privilegiados que vêem a ameaça ao seu feudo que tanto custou a conquistar. Esta é uma interpretação possível e realista. A inveja, afinal, atinge os acusadores de putativos invejosos, tal como l´arroseur foi arrosé, no cinema mudo de antanho.

E afinal, nem haveria necessidade. Enquanto os comentadores oficiais e reconhecidos em Público, continuarem a ser alvo da atenção dos comentadores, mesmo anónimos, na Rede, a fatia de mercado continua assegurada e eventualmente aumentada. O perigo advém da lassidão. Um dia destes, o que JPP ou outros, dizem ou deixam de dizer passará a ser igual ao litro, e isso já é norma para muitos dos anónimos em Rede. Continua por isso, o debate.

Publicado por josé 18:12:00 8 comentários Links para este post  



Coisas do estrangeiro

Durante a vida de Don Calò, os camponeses de Villalba citavam muitas vezes a seu respeito um dístico muito mais terra a terra: Cu avi dinari e amiciczia, teni ‘nculu la giustizia.

John Dickie, Cosa Nostra - A História da Máfia Siciliana (pag.275)

Publicado por Carlos 00:29:00 1 comentários Links para este post  



A fama internacional do arguido

Carlos Pinto de Abreu, advogado da família Mccann, declarou hoje, à saída da PJ de Portimão, que Gerry e Kate foram "declared arguidos" no caso do desaparecimento da filha de ambos, Madeleine Mccann

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A vogal da ERC

O curriculum vitae oficial, de Estrela Serrano, vogal da ERC, no seu Conselho Regulador, está aqui.

Uma vista ao Google, permite-nos ver alguns textos recheados de citações de Régis Débray ou Daniel Boorstin ou ainda de edições avulsas da Columbia Journalism Review, sobre assuntos seriados e de séria preocupação com a prática do jornalismo pátrio.

É apontada como um caso raro de alguém que já esteve dentro, de fora e de novo dentro, dos percursos sinuosos dos jornais.

Estala em polémia, de há dias a esta parte e nas páginas do jornal, com um cronista do Público, Eduardo Cintra Torres que aparentemente não gosta da senhora professora doutora em Sociologia da Comunicação, summa cum laude, pelo ISCTE.

Também não gosto, por motivos improváveis e estranhos e por isso, parto deste preconceito para analisar a polémica breve e escrita. Não gosto do percurso; do jornalismo da RTP de 1980, já não gostava. Diz que foi para a RTP pela mão de Soares Louro, um socialista que fez o frete da propaganda, ao governo da época. Não sei como entrou para lá; que qualificações profissionais tinha; que qualidades pessoais apresentava; que motivos determinantes a levaram ao jornalismo e como o praticou durante anos. Não gosto de doutoramentos no ISCTE que me parecem fracos de acordo com standards que aprecio e me lembram os das ESE´s deste país engravatado que se assoa à gravata por engano.

Perante isto tudo e muito que não sei, aprecio pela aparência que leva ao engano, mas serve muito bem à distância crítica. Alimento o inefável preconceito de que esta senhora professora doutora, configura muito do que não aprecio no jornalismo e que tem muito a ver com a falta de independência e o enfeudamento a correntes e amigos do peito. Como não é asim que entendo e aprecio o jornalismo e os jornalistas, por isso, não gosto e nunca gostei de ver o nome da senhora, escrito por aí e sempre associado a uma certa esquerda de tempos modernos e de socialismo engavetado.

Como a senhora professora doutora do ISCTE lê blogs, se isto ler, tem sempre a possibilidade de responder à letra, na caixa de comentários, ao que vou passar a escrito. Presumo que não o fará, porque se julgará num patamar de inatingibilidade, depois de ter passado por onde passou e não irá rebaixar-se a um anónimo que nem o nome todo assina e escreve letras de mabeco, como alvitrou em tempos, um destacado defensor da ERC. Se assim for, tanto pior.

No Sábado, 1 de Setembro, o crítico de televisão, Cintra Torres, escreveu no Público algo que mereceu a resposta pronta de Estrela Serrano, sem que o crítico a citasse particularmente. O que ECT escreveu é duro de ler, mas não personalizado: “ Esta, como outras deliberações da ERC, cria um grande incómodo aos amantes da liberdade: por que raio um organismo do Estado, enfeudado ao Governo, faz relatórios sobre o trabalho dos jornalistas? Note-se que ninguém pediu à ERC este relatório. Mas ela quer vigiar a liberdade. Considerando outras deliberações suas, cheias de intromissão na liberdade jornalística, de manipulações, de verborreia e de um “acho que” intoleráveis para um organismo de Estado, esta é muito factual: apresenta os dados e a sua análise sumária.”

A polémica estalou logo que ECT contestou as estatísticas da ERC que afrma em deliberação que o candidato às eleições de Lisboa, ganhador, afinal tinha sido o mais prejudicado nos favorecimentos dos media. Coitado de António Costa, um verdadeiro piu piu, para a ERC. Esta entidade topou estatísticas, números que o atestam e afirmou-o, sem mencionar afinal o mais favorecido. Como isto parece um gato escondido com um rabo felpudíssimo de fora, no final de contas, uma chico-espertice da ERC, o crítico assinalou-o. Fê-lo de modo pessoal, emitindo uma opinião, sem citar nomes, a não ser a instituição do Estado, imbuída da gravitas de estado e órgão colectivo, cujos Conselho Regulados nem é presidido ou vice-presidido pela dita Estrela que é mera vogal nesta conjuntura consoante.

Na edição de quarta-feira,a vogal da ERC(S), assina artigo de opinião-resposta, personalizada e directa, onde alardeia logo em subtítulo o teor substancial do artigo: ECT é um desonesto Intelectualmente desonesto, entenda-se. Usa também o “again” anglófono para sustentar que é relapso na desonestidade.

Na escolha de adjectivação, de elegância rara numa senhora professora doutora em sociologia, ao longo de três colunas, detectam-se as referências primorosas ao “estilo caceteiro”; à “paixão compulsiva do homem para com a ERC, bem conhecida dos leitores do Público” ( nunca reparei…); “despautério do colunista”; “catilinária do escriba” ; “ Ignorante”; “competente”, com aspas originais; “obcecado”; “conspirativo”; “Independência”, com aspas originais.

Esta adjectivação do escriba, acompanha o tom chocarreiro do escrito da vogal. Chocarreiro, segundo o Houaiss, significa aquela que graceja com desabuso e insolência e que me parece ser o caso, numa evidência desnecessária numa vogal da ERC.

Sem querer entrar na substância do assunto, por além do mais ser de lana caprina e nem perceber por que razão a ERC ocupa o seu tempo com matérias de medição subjectiva de tendências, há desde logo algo que pretendo dizer, em livre exercício opinativo: esta senhora vogal da ERC, veio para o público , em nome da ERC e a título forçosamente pessoal, chocarrear com um crítico, por causa de uma opinião que nem pode ser confundida com acusação, mesmo que dolorosa para a vogal em causa.

A instituição de que faz parte a vogal, é um dos órgãos e supervisão do Estado português. Ler coisas assim, escritas por uma vogal de um desses órgãos de Estado, em defesa de causa própria e desligada de matéria alheia à função, é um abuso, uma vergonha e um autêntico despautério ( este sim), porque revela além do mais a autêntica falta de sentido de Estado que preside naquela instituição.

Um crítico de televisão, num jornal privado, pode muito bem emitir a opinião que entender, e a contestação nestes termos elencados, da vogal do órgão criticado, revela afinal que há pessoas que não sabem ocupar lugares públicos.

Talvez por isso mesmo, ECT, respondeu ontem, quinta-feira, no jornal, à interpelação bizarra, anotando apontamentos sobre o “jardim da Estrela”, numa deselegância consentânea com o escrito da vogal. Que disse de substancial ECT?

Que a vogal Serrano, mesmo com todo o espaço disponível para se dedicar à função, e que é o das deliberações da ERC, ainda vem ao Público arranjar mais letras para a indignidade patenteada e apresenta a conta do ressentimento dos insultos, indignos para quem ocupa um cargo de Estado, escrevendo sobre causa própria. Coincide com a minha opinião. E rebate argumentos espúrios que a vogal acrescentara no artigo do Público, em arremedo de nota explicativa da decisão da ERC. Denuncia ainda um método infeliz da vogal: a divulgação de conversas particulares com fontes. Termina, alinhavando a perplexidade por ver alguém com funções de Estado a comportar-se como se estivesse na praça pública dos jornais.

Apesar da observação, a Vogal da ERC, responde-lhe hoje, outra vez à letra de ontem, no Público e começa logo por reincidir no estrangeirismo dispensável, Titula o escrito como “O “cronista” sniper” ( sic).

Confessa que hesitou em maçar os leitores, com a resposta, mas quanto a mim, leitor, maça nada. Irrita-me, isso sim, ler acusações recalcitrantes de quem se julga em patamares diferentes de avaliação pública. Uma para o público que lê o Público; outra para o diário oficial onde se publicam as deliberações que subscreve. Reincide na acusação de ignorância, de indigência na escrita e “again” ( sic) de insinuação sobre (in)competência e a busca de opbjectivos pessoais e políticos do crítico, defendendo a dama da ERC, com a justificação de que os textos de ECT têm sido mais ofensivos da honra colectiva da instituição do que alguma vez o escrito pessoalizado o foi. Lindo argumento e que revela que esta senhora vogal, está a mais da ERC. E nem percebe porquê. Temo que seja porque o tempo e o modo lhe são favoráveis.

Quando escreve que “é dever de uma entidade pública defender-se no mesmo terreno em que é atacada e difamada”, está a obnubilar duas coisas que revestem, no caso, extrema gravidade: a primeira é que a vogal da ERC não pode escrever pela ERC, e muito menos nos termos e modos como o faz. A segunda, mais grave ainda, é nem perceber que a crítica do público e particularmente dos críticos, é um direito democrático e a resposta dos criticados é institucional. Nunca pessoal.

Fora! E nem é por não gostar da senhora que de facto não gosto. É por ser insustentável que alguém com as responsabilidades de vogal da ERC não perceba que não pode escrever num jornal a defender a instituição, numa causa que lhe é própria e nos termos apontados.

Publicado por josé 15:11:00 6 comentários Links para este post