A Utopia ao virar da Esquerda -I
domingo, setembro 02, 2007
Je voudrais, sans la nommer,
Vous parler d'elle.
Bien-aimée ou mal aimée,
Elle est fidèle
Et si vous voulez
Que je vous la présente,
On l'appelle
Révolution Permanente !
Enfim, que metáfora redutora poderíamos escolher para melhor definir estes conceitos mortíferos para a harmonia universal?
Teoricamente, a discussão levaria tempos infindos e conduziria à convocatória de milhentos autores e prosadores de crónicas, para no fim, se chegar à mesma conclusão de sempre: gostos não se devem discutir e por isso, quem gosta de esquerda é porque assim se sente e quem a Direita prefere, é porque conserva esse gosto.
Mesmo com gosto e sabores diferenciados, Esquerda e Direita, podem ser conceitos que simplificam e englobam modos diversos de organização da vida em sociedade e que se podem distinguir pelas teorias que os podem sustentar e modos práticos de execução.
A petite histoire, trazida pelos historiadores e divulgada pelos ensaistas, diz-nos que a distinção simbólica, ocorreu, na reunião dos Estados Gerais da assembleia nacional francesa, na França de 1789, que congregou o clero, a nobreza e o terceiro Estado. Os representantes da nobreza e clero, capitaneados por Malouet, sentaram-se, no hemiciclo, à direita do presidente; os outros, radicalizados por Mirabeau, à sua esquerda e a distinção de lugar pegou, no imaginário colectivo.
A simbologia do lugar de assento, associou desse modo, os que defendiam o sistema monárquico e os respectivos privilégios e prerrogativas, em contraposição aos defensores da revolução e alteração qualitativa deste status quo. A Direita pretendia conservar; a Esquerda, revolucionar e mudar. Mas…seria esta distinção dicotómica, a única possível? Não haveria também um lugar de centro, no espectro de assentos disponíveis? Havia, mas oscilante e sem alma própria. Seria a maioria? Quem sabe?
A Revolução triunfou e o ancien regime acabou. No séc. XIX, ressurgiu a ideia de Revolução, como conceito permanente de alteração social do status quo e os partidos marxistas e socialistas herdaram o acervo da Esquerda. Nessa época, porém, os conceitos já não eram claros, porque na Alemanha de Weimar, por exemplo, a esquerda concitava os apoios de comunistas e social-democratas ( do Kpd e do Spd). Entre as duas guerras, a confuão aumentou com o “nacional-socialismo” e a “revolução conservadora” ou o “personalismo comunitário”. Na Itália, Mussolini e os seus sentavam-se na extrema direita do hemiciclo parlamentar.
Na América, depois da II Guerra mundial e já nos anos sessenta, apareceu a “NewRight” , religiosa e tradicionalista e também a “NewLeft”, libertária e anti-imperialista.
Nesta Europa que nos une, a divisão de blocos, entre o Leste e o Oeste, com um comunismo marcado a Leste, de centralismo democrático e colectivização geral e uma democracia parlamentar a Oeste, com modelo económico capitalista, favoreceu o aparecimento de moderados de centro, pela “social-democracia” que afina os conceitos herdados da velha Esquerda, e conduz à amálgama de partidos que se diferenciam apenas pelo programa pontual, nunca pelos princípios programáticos fundamentais.
Nos anos sessenta e setenta, a par de movimentos de extrema direita, revolucionários e de minorias, aparecem os de extrema-esquerda, associados a uma New Left que se reclama contrária ao revisionismo da Esquerda original e que proclamam uma nova ideia de esquerda fundada no neomarxismo e nas experiências maoistas e guevaristas. É a estas experiências propagandeadas por esta Esquerda nova que os partidos comunistas tradicionais, chamam de “doença infantil do comunismo”. Mas é esta Esquerda nova que concita milhentos adeptos, entre estudantes que nasceram nos anos 40 e 50 e que vai desembocar na confusão aparente do início dos anos setenta em Portugal, logo após o 25 de Abril de
É esta nova Esquerda que concita o apoio de muitos intelectuais, em Portugal, logo após o 25 de Abril e a proliferação de partidos, grupos e grupelhos, atinge o paroxismo, nos dois anos que se seguem à Revolução dos Cravos, por si mesma, amplamente aproveitada pelo Partido Comunista Português, tradicional e seguidor atento do modelo soviético e que se esforçou seriamente, até 25 de Novembro de 1974 por implantar o modelo de sociedade basicamente definido como socialismo, mas amplamente conhecido como comunismo.
Esta proliferação de opções políticas, não significa qualquer pluralidade real, porque o modelo básico de construção e organização social, sem falar da ideologia subjacente, é essencialmente o mesmo: colectivização dos principais meios de produção; partido único, de poder, com eventuais apêndices para democratas de outros países rivais, verem e eleições condicionadas pelo partido único, com cerceamento rápido e indolor das principais liberdades cívicas garantidas nas sociedades ocidentais, de democracia parlamentar.
Aplicando os conceitos a Portugal, imediatamente antes e após o 25 de Abril, poderemos procurar em que lugar ideológico se situavam os principais intelectuais e mentores de opinião pública e a resposta que fatalmente terá de ser dada, por quem esteja de boa-fé e sem preconceitos, é a de que estavam todos ou quase todos situados à Esquerda.
Mas que Esquerda, perguntarão alguns?
A Esquerda ideológica, marcada pelo partido comunista e ainda a Esquerda seguida pelos anti-revisionistas, nas sua ideologia fundamental e experimentada na China e na América latina e ainda num ou noutro país modelo de isolamento como era, no caso concreto, a Albânia.
A Esquerda original, "the real thing", aperfeiçoada e com êxito político, de provas dadas na governação, com uma pátria própria e teoricamente coerente com os princípios enunciados por Marx, Engels e Lenine, situa-se no entanto, nos partidos que afiançavam a categoria inultrapassável do seu modelo único: os partidos comunistas, internacionalistas e proletários, de todos os países que prentendiam unir.
Em Portugal, o Partido Comunista Português, logrou implantar nos meios intelectuais e académicos, as ideias básicas, fundamentais da doutrina marxista, desde cedo. Que ideias eram essas, no fim de contas e que ainda contam actualmente no ideiário do PCP?
Estão à vista no seu programa e não mudaram um centímetro ideológico nos últimos 40 anos. Não se percebe por que razão não se enunciam claramente e sem receios públicos, que os desejos veementes de alteração das políticas de “direita” supõem sempre um modelo radicalmente diverso e incompatível com o modelo de organização política e social que temos.
O Partido Comunista Português, não queria em 1975, como não quer ainda hoje, programaticamente, uma democracia parlamentar, embora conviva com ela e com ela sobreviva no espectro político nacional. O PCP não queria em
O PCP não queria então, como não quer ainda hoje, uma sociedade com valores que não bebam ideologia no materialismo dialético e por isso, nunca admitiriam o pluralismo de órgãos de informação que disso discordassem. Para tal, a censura férrea e imposta pelo Estado policial, seria a norma vigente, sempre apoiada, claro, na vontade popular, do "nosso povo".
A bandeira do Partido Comunista Português, desde sempre, foi a luta contra o fascismo. Em Portugal, o fascismo é, simplesmente, o regime de Salazar e Caetano. Era-o em 1974 como o é ainda hoje, e muitos intelectuais de todos os quadrantes de Esquerda, não admitem outra discussão que oblitere esse dogma. Associada a essa bandeira, vem outra mais pequena mas não menos emblemática: a repressão fascista, que levou às prisões centenas de militantes que queriam à viva força depor o regime que detestavam e prender os seus próceres. Entendem como inaceitável e injustificado, um regime que não tolerava a liberdade de manifestação de quem o procurava depor, inclusive pela força das armas. Os que foram presos por causa dessa lógica que não compreendem nem aceitam, são os heróis da resistência ao fascismo e em nome dos quais, se proclama a legitimidade de existência ideológica de um partido.
Em 1965, o maior de todos os comunista portugueses, Álvaro Cunhal, proclamava por escrito um outro dogma que continua a ser seguido pelos comunista portugueses actuais, como o comprova qualquer leitura avulsa da revista O Militante: “ Para nós, marxistas-leninistas, o Estado é o instrumento de dominação de uma ou várias classes sobre outras classes. (…)
Criar um Estado democrático significa criar uma política democrática, um exército democrático, uma justiça democrática(…).
E corentemente com a ideia de Esquerda real e verdadeira, assim escreve n´O Militante de Maio-Junho de 2007, José Neto, membro do Comité Central do PCP:
“Efectivamente, no Estado fascista, a polícia e os tribunais eram instrumentos da opressão de classe exercida pela burguesia monopolista e pelos latifundiários sobre as massas da população.”
Estas simples frases, estas enunciações claras de Revolução quanto ao modelo social vigente, não deveriam ficar impunes, numa discussão democrática, no Portugal actual, para se perguntar que lugar pode ter actualmente, na sociedade portuguesa, um partido que comunga de ideias totalitaristas tão ou mais perigosas que as de qualquer neofascista cuja existência a Constituição proíbe.
E no entanto, são ideias como esta que se impuseram logo em 1974, com o apoio manifesto, amplo, vibrante e intelectualmente sustentável, pela inteligentsia portuguesa que se manifestou após o derrube do antigo regime de Salazar/Caetano.
Essas ideias basicamente revolucionárias e que o partido comunista e a Esquerda em geral apoiaram, em 1974, 1975 e 1976, continuam a ser válidas no Portugal de 2007 para essa verdadeira Esquerda portuguesa que é o Partido Comunista Português. São estas ideias que fizeram caminho ideológico e se aninharam durante anos na própria Constituição da República Portuguesa, como normas programáticas pacificamente enunciadas e
Não obstante, para além e aquém do partido comunista, vicejaram outras forças políticas, no leque partidário português, logo depois do 25 de Abril de 1974 que merecem atenção porque comungaram das mesmas ideias básicas e foram constituídas por intelectuais e militantes que fizeram percursos sociais com relevo na sociedade portuguesa e que nunca se demarcaram ideológica ou intelectualmente das opções básicas da Esquerda, enunciadas nessa altura e que o partido comunista ainda considera válidas.
Muitos desses intelectuais, fizeram gradualmente o percurso de aproximação ao centro político, alguns ultrapassaram e fixaram-se em partidos ditos de direita e outros continuaram fiéis à velha cartilha, confiados na mudança dos ventos da História.
Não obstante, em Portugal, a ideologia de Esquerda, com essa matriz específica que formou a mentalidade de dirigentes partidários e militantes de escrita em jornal ou revista, continua a ser validade por estas asserções:
“ Para quem lute pela transformação progressista da sociedade é justo defender que o artista ( porque a sua obra intervém na sociedade e é um elemento e um factor de emoções, sentimentos e ideias) leve à sociedade com a sua obra uma mensagem que integre valores de classe que, num momento histórico dado, constituem a força de transformação voltada para o futuro.” Álvaro Cunhal,
Esta militância ideológica, para muitos, nunca foi ultrapassada, no subconsciente, porque as ideias de juventude, marcantes e determinantes de opções políticas e sociais, fixam afectivamente para todo o sempre, o lado para onde se olha em primeiro lugar, numa discussão política. É para esse lado que a maior parte dos intelectuais portugueses olha, porque foi assim que aprenderam a olhar em primeiro lugar e não há amor como o primeiro. Principalmente se esse amor, tem razões que a razão desconhece. ( continua).
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Os partidos com paredes de vidro
sábado, setembro 01, 2007
Dificilmente se pode encontrar um caso que envolva a intimidade mais íntima de duas pessoas, do que aquele que nos anos noventa envolveu o príncipe Carlos de Inglaterra, então casado com a princesa Diana, cuja morte ocorreu há dez anos e ainda Camilla Parker Bowles.
A conversa, cujo conteúdo se transcreve a seguir, teve lugar entre duas pessoas adultas, em privado e pelo telefone móvel e não envolvia qualquer assunto de Estado, criminal ou de outra natureza que não a intimidade afectiva de duas pessoas, uma delas apontado como futuro rei de Inglaterra.
Segundo consta, a conversa teria sido gravada através de dispositivos de escuta, eventualmente ilegais, mas possivelmente, também legalmente admissíveis no âmbito da segurança dos serviços secretos, que escutam conversas de acordo com a legislação inglesa.
A divulgação desta conversa causou escândalo, pelo simples motivo de colocar em causa a fidelidade matrimonial do príncipe e por via indirecta, provocar uma crise de relacionamento, grave, entre dois casais, o que terá conduzido ao divórcio de Camilla, em 1995.
Em 1992, a ligação romântica, foi tornada pública, com a publicação de uma gravação, cujo conteúdo era uma conversa entre Camilla e Charles ao telefone móvel, em 1989.
Charles: E quanto a mim? O problema é que eu preciso de ti várias vezes por semana.
Camilla: Mmmm, eu também. Eu preciso de ti toda semana. A todo o momento.
Charles: Ah, Deus. Se eu vivesse dentro das tuas calças ou assim, isso é que seria bom!
Camilla: e em que é que te vais tornar, num par de cuequinhas? Oh, vais voltar como um par de cuequinhas!
Charles: Ou, Deus me perdoe, um Tampax! A minha sorte!
Camilla: És mesmo idiota de todo! Ai, mas que ideia maravilhosa!
Não consta que depois destes factos, a legislação penal inglesa, tenha sido alterada, para proteger os senhores do poder, nomeadamente o príncipe e futuro rei ou tenha sido discutida a liberdade de imprensa na publicação destas gravações de conversas íntimas, tornadas públicas, pelo interesse definido pelos directores dos media e a opinião pública.
No caso Clinton, em 1998, conversas privadas mantidas entre a estagiária da Casa Branda, Mónica Lewinski e uma outra antiga relação de Clinton, Linda Tripp que convenceu aquela a contar em detalhe os pormenores do relacionamento íntimo mantido na Casa Branca, por Clinton e Lewinski, foram conhecidas e não consta que Clinton pusesse a máquina legislativa em andamento para alterar as leis de liberdade de imprensa e a possibilidade de conhecimento, pela opinião pública, daquilo que os presidentes fazem, na privacidade que não podem ter, em função das suas obrigações e responsabilidades.
Outros exemplos se poderiam apontar, como prova de que há países civilizados que não cedem à tentação de cortar o pio aos media, sempre que um ou outro dos poderosos da política se vêem em palpos de aranha para explicar condutas mal amanhadas.
Em Outubro de 2003, um dirigente do partido de oposição, Ferro Rodrigues, entalado num processo medonho, desabafou para outro dirigente do mesmo partido, através do telemóvel que se estava a “cagar para o segredo de justiça”. Embora seja isso que muitos fazem, porventura a maioria, a publicação da transcrição telefónica, por violação do segredo de justiça e que constava ( e consta) de um processo criminal, foi um escândalo maior. Outro correligionário, todo Alegre, terá dito antes que queria que metessem as escutas “pelo cu acima”. Enfim…
Em 2005, o Expresso divulgava que escutas telefónicas, realizadas no âmbito de uma investigação criminal ao caso dos sobreiros da Portucale, mostravam o empenho de Abel Pinheiro, do CDS e ainda de um assessor do então P.R. Sampaio, em mandar o procurador geral da República, Souto Moura, para os quintos dos quintos, designando tal mudança com o belíssimo eufemismo de “chupeta internacional”, à semelhança de outros rebuçados concedidos a notáveis por comportamentos conformes aos interesses de quem manda.
A publicação, para gozo público, da transcrição da conversa telefónica sobre a chupeta, que envolvia o nome de Rui Pereira, depois responsável pelo alteração das leis penais, no âmbito da Unidade para essa finalidade, terá sido a gota de água que fez transbordar o copo das comissões legislativas do PS e partidos adjacentes em pacto sobre a justiça.
Depois disso, houve ainda outras transcrições publicadas, no caso curioso do Apito Dourado que envolvem outros figurões que puseram as barbas de molho e ainda as não tiraram, embora se arrisquem a demolharem o que nem têm.
Estes casos avulsos, que abalaram severamente os detentores de poder político em Portugal que são sempre os mesmos de algumas décadas a esta parte, conduziram muito naturalmente ao resultado que está á vista, na revisão das leis penais: a evolução legislativa suplanta a daqueles dois países democráticos, pela esquerda baixa da decência política.
Mesmo em processos que já nem estejam em segredo de justiça, é proibido, sob pena de prisão e a partir de 15 de Setembro do ano corrente, divulgar transcrições de escutas telefónicas se os envolvidos o não autorizarem.
O sindicato do MP e dos Juízes já denunciaram tal norma legal, como “sinal político de tolerância ao crime” e ainda que “Portugal não é uma sociedade secreta”.
As acusações são de uma violência sem precedentes, mas...alguém duvida da justeza destas apreciações?
Em que país vivemos afinal? Um couto privado de uns tantos políticos conluiados e que se cooptam na altura das eleições democraticamente configuradas para ganharem sempre?
O PS e o PSD, partidos com vocação de governo ( mais os apêndices tipo BE ou CDS) merecem este poder que lhes damos democraticamente? Merecem?
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Que seja bem-vindo este Xaile
sexta-feira, agosto 31, 2007

É raro, mas por vezes acontece: quando menos se espera, surge assim um som refrescante, vindo do desconhecido, e que entra directamente para a lista restrita das coisas muito, muito especiais.
Este «Xaile» é, sem dúvida, a melhor surpresa da música portuguesa nos últimos tempos largos. Um som de grande qualidade, mistura fina de música tradicional portuguesa, de recolha aturada e de bom gosto, com motivos sofisticados de jazz, folk e um certo tom místico pelo meio.
Parecem ingredientes a mais, mas a verdade é que, juntos, dão um produto mágico. Vale mesmo a pena ouvir este trabalho de lançamento de um grupo que, espero, venha a ser, muito em breve, um dos mais ouvidos e apreciados da música portuguesa.
A juntar à qualidade musical (mérito, sobretudo, de Rui Filipe e Johnny Galvão, os fundadores da banda), é delicioso apreciar a beleza estética das três protagonistas, diferentes entre elas mas harmoniosas como conjunto: Marie (a loura), Lília (a ruiva, vocalista principal) e Bia (a morena, que toca magistralmente cavaquinho e tem uma voz gaiata que dá ao tema «Haja Saúde» um lado especialmente divertido).
O resto terá que ser julgado por cada um. Eu, por mim, estou rendido.
Publicado por André 23:40:00 1 comentários Links para este post
Os companheiros da alegria e o joelho de Claire.
Nos obituários de Eduardo Prado Coelho, sobressai sempre uma ideia matricial: a ideia de esquerda.
Um dos mais influentes membros dessa particular inteligentsia pátria é, sem qualquer dúvida, José Carlos de Vasconcelos, antigo director de O Jornal e ainda director do Jornal de Letras, um dos produtos culturais do grupo que também teve O Sete, a História e agora detém ideologicamente a Visão.
Este Jornal de Letras, dedicado aos aspectos culturais em modo de ler, ver e ouvir, com predominância para o sentido do olhar, faz na sua última edição, uma homenagem de primeira página a Eduardo Prado Coelho e a “tudo o que escreveu”.
O simples obituário de José Carlos de Vasconcelos (JCV), suscita logo o mote perfeito para a abordagem imperfeita do assunto vasto: a intelectualidade lusa dos últimos 40 anos, centrada em EPC.
JCV declara-se amigo de EPC, “há muitos anos”, o que lhe retira logo a carga de objectividade que poderia esperar-se do escrito. Mas nem por isso se evitaria a repetição dos lugares e tempos que a esquerda portuguesa visitou nestes últimos anos. Digo esquerda, porque não há melhor termo para o definir.
Tal como Tom Wolfe, no seu pequeno ensaio sobre os “três pontos” ( "my three stooges", publicado em Hooking Up de 2000), em que nomeava nas pessoas de Norman Mailer, John Irving e John Updike, o sentido de serem os melhores apontadores de deixas para o que pretendia dizer sobre os mesmos, também JCV se afigura como o exemplo perfeito de “ponto” para uma peça em vários actos que começa ainda antes de 25 de Abril de 1975.
O cenário é a sociedade portuguesa e o enredo, a política e os políticos que nos saíram em rifa nas eleições previstas.
JCV declara-se de esquerda há muito tempo e desde o tempo em que iniciou essa famosa aventura de O Jornal, de O Sete e ainda do Jornal de Letras, para não falar da pequena revista História. Por isso, é com um pequeno orgulho indisfarçado que lembra a sua contribuição para o percurso peculiar de EPC, ao convidá-lo, ainda nos anos sessenta, para redigir textos para a revista Vértice, essa “resistente revista de esquerda e de cultura e arte”.
Esta pequena declaração, contém em si todo um programa político, porque inefavelmente circunscreve à área da esquerda, no sentido afectivo e efectivo do termo, as matérias de cultura e arte. A direita, seja lá isso o que for, afectiva e efectivamente, não tem direito de uso sobre esses campos lavrados pelos cultores da igualdade social, sustentada por teóricos marxistas- leninistas. O privilégio da cultura e da arte, para o público apreciar a ler, ver o ouvir, é apanágio desta esquerda que vem de longe, de muito longe e muito andou para aqui chegar.
Em nome da ideia de esquerda, indefinida mas sempre presente nas apresentações públicas, a cultura portuguesa acantonou-se em nomes, pequenas correntes e capelinhas de culto privado para os connoisseurs de realidades mediatizadas por livros e filmes, como EPC e uns tantos que dominaram por completo o panorama da crítica e da opinião, na imprensa em Portugal, nos últimos decénios e impuseram um modelo de pensamento único sobre estas matérias. Fora da esquerda, não há salvação para a cultura e a arte, em português.
Provavelmente, a influência dessas poucas dúzias de pessoas, foi mais forte e mais implacável sobre a sociedade portuguesa das últimas décadas que os discursos políticos do partido comunista e socialista juntos e em companhia com os extremistas da esquerda do poder popular.
JCV cita Augusto Abelaira e Fernando Assis Pacheco como outros compagnons dessa route em que rodam ainda milhentos de outros corredores que perseguem a utopia que situam sempre do lado esquerdo da estrada que chegará um dia à meta da igualdade entre os Homens e à Harmonia universal, onde de cada um deles se pedirá apenas o que pode dar, e a cada um se poderá dar o que precisa. A definição destas necessidades e potencialidades, não se questiona, porque na ausência de uma mão invisível, lá estará sempre, até se chegar à meta, o Estado protector geral.
Esta utopia fantástica, animou a alma de milhares, mas o seu evangelho foi apenas proclamado por uns poucos, entre os quais, JCV e EPC.
Portanto, a crítica, o ensaio, o estudo universitário e as crónicas simples de jornal, circularam pela escrita de EPC como um contributo para essa esquerda militante da utopia e que nunca desapareceu do imaginário dos seus cultores. Mesmo depois do colapso de sociedades inspiradas no modelo avançado e proclamado por essa esquerda, as mudanças de velocidade engrenadas pelos seus pilotos, nunca os levaram a estações de serviço para mudar conceitos ou afinar ideias feitas. A maior parte deles mudou apenas de veículo e nunca de direcção ou sentido.
O marxismo-leninismo enquanto ideologia básica e definidora de princípios, mantém integralmente o prazo de validade para os seus antigos cultores mais notáveis, entre os quais se contam EPC e JCV. A moderação dos sentidos e a normalização da democracia portuguesa, manteve sempre e constitucionalmente, a ideia básica de que Portugal continuaria a seguir o caminho rumo ao socialismo, agora eufemisticamente modificado para um empenho na construção de uma sociedade livre, justa e solidária. A semântica constitucional, contudo, não alterou o conceito básico, essencial que preside desde há décadas à orientação ideológica da esquerda: o caminho é e será sempre para o socialismo, nesse entendimento canhoto. Um socialismo democrático, no entender evoluído e aggiornato, da intelectualidade espelhada nos escritos de EPC e JCV, mas ainda assim, um socialismo, mesmo travestido de uma inefável social-democracia que conserva as ideias básicas da utopia igualitarista. A matriz original, nunca se substituiu, porque alimenta ainda todas as esperanças da utopia e portanto, as variações de conceitos são apenas tácticas, porque imprescindíveis ao seu funcionamento imaginário.
Não existe, no Portugal actual, discurso político que a esquerda possa sustentar e que não percorra esses conceitos originários. A esquerda portuguesa não se actualizou ou evoluiu como as restantes esquerda por essa Europa fora. Não abandonou as referências de 1975, nem suplantou as esperanças ocultas num destino incerto e inconfessável, em nome do bem geral.
Tudo o que ultrapasse, pela direita, esse perfume invisível da ideia peregrina de finais do séc.XIX, que percorreu o leste da Europa e implantou a democracia social, com a sinalização mesmo equívoca, do caminho para o socialismo, é intelectualmente proscrito na afectividade desses amadores de utopias.
Um dos teste mais eficazes para se situar um esquerdista, na sociedade portuguesa, é muito simples de realizar: perguntar-se-lhe o que pensa do jornal O Diabo. Era o diabo, em figura de jornal, afiançam e continuam a colar-lhe o rótulo de jornal de extrema-direita. Outro teste infalível, é perguntar pela natureza do regime salazarista. Fascista, pois claro e nada menos do que isso.
O regime de Salazar e Caetano, foi, aliás, onde cresceram e aprenderam o que sabem. Foi nesse tempo que se formaram e em que se formaram os seus professores e nem a censura os impediu de aprender o que era então perseguido, numa lógica de regime autoritário que no entanto, não os impediu de lerem o que quiseram e seguirem quem entenderam.
Entre os filósofos, escolhem sempre Sartre, em contraponto a Raymond Aron. Não é que o não possam ou devam fazer. É apenas porque não dão espaço a outros para o fazerem. Ocupam todo o tempo e espaço mediáticos e nem se dão conta disso. São geralmente ateus militantes ou apaziguados, mas separam a esquerda e a direita num campo improvável: o da irracionalidade. Perguntados pelas razões da preferência em seguir sempre pela esquerda, mesmo numa altura em que já viram, desse lado, a destruição, a morte, a opressão e a involução, tudo aquilo que consensualmente é a maldade humana, não desarmam e apresentam o argumento de sempre: erros passados que não se devem repetir; mas a substância, essa continua válida e operante. É só esperar por melhores dias.
Em função desse idealismo com bases ideológicas falidas ou demonstradamente erradas, apostaram numa linguagem que moldou a sociedade portuguesa das últimas décadas e condicionou as políticas de governos sucessivos. A Educação em Portugal tudo lhes deve ideologicamente, claro, com os resultados que vemos.
Os mais idealistas de entre eles, incluindo naturalmente EPC e JCV, juraram sempre pelos mais próximos do poder perfeito para essa esquerda temperada. Após uma experiência PRD, surgiu Pintassilgo como candidata. Depois, foi a travessia do deserto, sempre contra a direita fantasmática e por fim, a promessa fugaz de Manuel Alegre continua a alimentar a ilusão de destino ideal, enquanto votam sempre naqueles que prometem a ideia de esquerda.
Os livros que se escrevem e que não lemos, o cinema que se vai filmando e ninguém vê; a linguagem escrita que se utiliza em jornais e revistas, tudo ou quase tudo lhe devem.
Na base destas asserções, reside a verificação empírica derivada da leitura da nossa imprensa e dos jornalistas que se formaram ao longo dos anos e aprenderam com os mestres da esquerda ideologicamente demarcada.
Os diários de época, como A Capital, o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, mesmo o Diário Popular e semanários como O Jornal e depois a Visão e ainda o Expresso, em menor grau, mas com parentelas similares, moldaram o modo de escrever notícias e relatar acontecimentos em Portugal.
As gerações que se seguiram não fizeram qualquer corte ideológico com essa mentalidade específica, porque lhes herdaram os lugares de redacção, onde vicejava a cultura já sedimentada.
A melhor síntese do fenómeno, é apresentada por Nuno Júdice, um dos sobreviventes dessas máquinas voadores sobre a realidade, e que escreve no seu obituário na última edição do Jornal de Letras, o seguinte:
“ Talvez por isso a tua arte preferida, para lá da literatura, fosse o cinema ou o bailado- onde os corpos se movem e impõem a sua dimensão física, dando essa possibilidade de contacto que pode começar pelo olhar, e acabar no gesto físico de uma ilusão fusional de que o intocado “joelho de Claire” é uma metáfora. O corpo- eis a suprema utopia; e a linguagem tenta envolvê-lo e vesti-lo, ou despi-lo, com a espessura significante que nos ensinou a linguística que aprendemos nos lisboetas anos de 1960 dessa faculdade de Letras que te inspirou um poema, a “Descida ao inferno” do bar de Letras onde se sonhava resolver todos os problemas do mundo.”
Nesta simples frase, se pode revolver e explicar todo o fenómeno Zita Seabra, por mais improvável que pareça. Continuando…
“Raciocinavas com o sentimento; e sentias com a razão: o que explicava que só tivesses falado dos autores e dos livros de que gostavas, sem de modo nenhum teres recuado ao impressionismo que, nesses anos 60 era a “bête-noire” da época ( e João Gaspar Simões sentiu-o na pele).
Logo em 1972, dois livros indicam essa dupla tensão entre o “logos” e a “anima”; A palavra sobre as palavras e o Reino Flutuante. Compreendeste, Eduardo, que a palavra sobre a palavra seria o reino da redundância; e passaste a esse reino flutuante onde intervém, de modo surpreendente, uma “liquefacção” do signo, permitindo essa flutuação do discurso que segue a direcção das correntes do poema, mas em que o crítico pode também orientar a navegação segundo princípios que vão desde uma “letra litoral” de 1979 ( no qual publicaste a entrevista que te fiz, numa varanda do Restelo onde o António Sena nos fotografou para uma Vida Mundial de 1972)., em que a “letra” é essa margem verbal onde se começa já a avistar o litoral que irá desembocar no “fio do horizonte” das tuas crónicas até à Mecânica dos fluidos ( 1984) descobrindo que o imaterial obedece a uma máquina construída para que ela se mova, e fazendo do movimento o motor mesmo da vida do poema. Era por isso que o formalismo, o experimentalismo, que fixava artificialmente a dinâmica do texto nunca te atraiu.”
Este naco de prosa judiciosamente articulada a propósito de EPC, é o exemplo do solipsismo deste mundo intelectualmente fechado sobre si mesmo. Um outro, nas mesmas páginas e assinado por Mário de Carvalho dá o retrato perfeito de época, em que nem falta sequer o historial caucionador e antifascista de quem teve o pai preso e sofreu as consequências horrendas do fascismo luso, numa repetição de enredo que constitui todo o universo do imaginário do PCP.
A esta racionalidade cercada pelos preconceitos esquerdistas, no final de contas extremamente conservadora dos parâmetros estreitos dos afectos, prefiro a loucura dos sentimentos anarquistas, sem dono ideológico e que admite ao seu redor quem lhe aparece, sem situar o outro em campos de luta.
Todas estas considerações, no entanto, apartam-se da idiossincrasia das personagens e personalidades que evoluem neste meio. A de EPC, portanto, merecia melhor atenção. Filho de professor catedrático notável, logrou atenção especial da inteligentsia das épocas. Antes de 25 de Abril, o conhecimento pessoal e familiar dos protagonistas políticos acabou por influenciar a vida particular de alguns deles, como EPC. Foi para o estrangeiro de França, porque alguém se interessou por isso. Esteve no PCP, onde defendeu o extremismo possivelmente revolucionário e mudou-se logo para paisagens mais serenas, após o comício da Fonte Luminosa. Foi o governo de Cavaco, com Santana Lopes como secretário de Estado da Cultura quem o pôs em Paris, em actividades culturais.
Não admira por isso que um esquerdista do mesmo género, tenha dito em modo de epitáfio que “tinha mundo”. Pois tinha, mas um mundo pequeno e que não abrangia tout le monde, mas apenas o monde des siens. E foi esse que foi explicando, crónica atrás de crónica, livro após livro.
Uma boa metáfora, para este mundo particular, reside na circunstância de EPC, à semelhança de muitos outros, olhar para Françoise Hardy, com admiração, conforme escreve Rita Garcia na Sábado que designa aquela como “actriz”.
De onde viria a admiração de EPC por Françoise Hardy? Dos anos sessenta, seguramente, mas muito mais do que isso. Perceber o resto, é entender uma boa parte do esquerdismo: a irracionalidade e a impossibilidade em esclarecer positivamente as opções pessoais.
Tudo isso seria interessante, na sociedade portuguesa, conformando-se ainda como irrelevante, não se dera o caso de ser essa a mentalidade que prevaleceu nestes decénios.
Conhecer o percurso de EPC, como o de JCV ou de outros, como o já falecido e saudoso Fernando Assis Pacheco ou ainda de certos amigos ( que tenho como tal e que são de boa cepa) que aparecem por vezes em tertúlias no Incursões, ou na Margem Esquerda ( et pour cause) é perceber as razões do nosso estado presente , perante o passado recente.
Foram eles, enquanto dominadores da cena político-mediática que determinaram as políticas fundamentais para o nosso modo de viver actual.
Provavelmente, nem se dão conta disso mesmo, mas se Portugal fosse mais plural e não confinado nesse gueto de esquerda ideológico-afectiva em que permanece, o nosso modo de viver seria talvez melhor e mais democrático, no fim de contas.
Imagem: O Jornal de 12.5.1978
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Não sei em que medida
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Observatório 2008 - Hillary firme, Romney aproxima-se da frente
quinta-feira, agosto 30, 2007
Mitt Romney: a aposta forte do ex-governador do Massachussets nos estados de arranque deverá dar-lhe a vitória nas primárias do Iowa. E se essa tendência se confirmar, atenção a este milionário bem parecido, mórmon e bem-falante, pois as suas hipóteses de retirar a liderança a Giuliani e Fred Thomspon serão reais...
-- Hillary Clinton mantém-se firme numa clara liderança da campanha democrata, com uma vantagem sobre Obama que oscila entre os 12 e os 20 pontos; Edwards teve um bom mês de Agosto e está a aproximar-se do segundo lugar, de tal forma que, nesta altura, nem se poderá falar tanto (como aconteceu nos últimos meses) de um duelo Hillary/Obama, mas de uma disputa entre o senador do Illinois e John Edwards pelo segundo lugar;
-- Edwards continua a disputar o Iowa e o New Hampshire e, no plano nacional, está a reduzir a desvantagem para Obama para 2 a 7 pontos;
-- Obama não consegue reaproximar-se de Hillary e estará a pagar a factura de algumas gaffes nas questões de política internacional. Continua bem colocado para disputar os primeiros estados, sobretudo a Carolina do Sul, onde lidera alguns estudos. Neste momento, será mesma a sua alternativa: apostar forte em bons resultados nos primeiros cinco estados, de modo a diminuir o impacto de estar tão longe de Hillary, nas contas nacionais. Terá ainda uma boa margem de crescimento no eleitorado negro e no Sul e continua a ser o campeão dos endorsments e da arrecadação de fundos. Continua, por isso, a ser o principal opositor a Hillary, mas não deve descurar Edwards, que lhe poderá retirar muito votos à esquerda, sobretudo nos sindicatos e nos jovens;
-- Al Gore adia a questão da candidatura e começa a vencer o cenário de que não vai mesmo avançar: a apenas quatro meses das primárias no Iowa, New Hamphire e Carolina do Sul, das duas uma -- ou surpreende tudo e todos e lança a candidatura em Setembro, ou já começa a ser tarde demais;
-- no campo republicano, reforça-se a ideia de que a vitória de Giuliani está longe de ser garantida. Fred Thompson ainda não declarou oficialmente a candidatura, mas, na prática, já está na luta e mantém o segundo lugar, a uma distância recuperável de Rudy (entre 4 a 9 pontos);
-- mas a grande sensação do Verão, no GOP, é mesmo Mitt Romney. Nos estudos nacionais, descolou de McCain e está destacado no terceiro lugar, com números muito, muito próximos dos de Thompson e não excessivamente longe de Giuliani (a cerca de 10 pontos). No Iowa, o antigo governador do Massachussets vence todas as sondagens e com um avanço considerável. Se mantiver o primeiro lugar no Iowa, pode ganhar um balanço importante, talvez mesmo suficiente para disputar a investidura;
-- John McCain recuperou ligeiramente, mas não dá mostras de poder sonhar com a nomeação. No Iowa, o estado de arranque (apesar da antecipação de calendário da Carolina do Sul, é de lei que o caucus naquele pequeno estado industrial terá que ser o primeiro), McCain reúne apenas 5 por cento das intenções de voto. Preocupante, no mínimo
ÚLTIMAS SONDAGENS:
Democratas
-- Hillary 36
-- Obama 21
-- Edwards 16
-- Richardson 7
-- Biden 4
-- Outros 4
-- Indecisos 12
(Fonte: American Research Group)
Republicanos
-- Giuliani 26
-- Thompson 18
-- Romney 16
-- McCain 10
-- Huckabee 6
-- Outros 6
-- Indecisos 18
(Fonte: Rasmussen Reports)
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Estou apaixonado
Via o senhor do Arrastão, que eu não conheço
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Segurança, precisa-se
quarta-feira, agosto 29, 2007
Em 1984, o escritor publicou O Siciliano, sobre a vida breve de Salvatore Giuliano, um herói e bandido romântico que nos anos quarenta combateu diversas forças, incluindo o comunismo local e pretendia fazer da Sicília mais uma província dos EUA, no rescaldo da guerra. Depois de matar e mandar matar, morreu, por sua vez, ainda com menos de trinta anos, em 1950, atraiçoado pelos seus próximos.
No início dos anos oitenta, o clã de Corleone, cidade siciliana com o mesmo nome e com Totó Riina e Bernardo Provenzano à cabeça, começou uma guerra sangrenta de conquista de poder e influência, matando dezenas, centenas de rivais. O método Riina, para com as autoridades que o perseguiam por esses crimes, foi o puro terror. Homicídios escolhidos para infundir um medo extremo e de uma arrogância inaudita até então, conduziram ao assassinato, a tiro de metralhadora, do general Della Chiesa, tido como impoluto e que se destacara no combate ao terrorismo italiano dos anos de chumbo dos setenta.
O clã de Corleone foi apontado como o responsável e Totó Riina o seu mandante directo. Seguiu-se mais uma onde de violência extrema que desgostou um antigo mafioso, agora fugitivo: Tomasso Buscetta (falecido de morte natural em 2000). Este, decidiu colaborar com as autoridades, tornando-se pentito, arrependido, depois de uma tentativa de suicídio, na prisão. Conversou então, em 1988 e 89, longamente, com o juiz Giovanni Falcone, já encarregado de certos processos relacionados com a Máfia siciliana, em que lhe contou os segredos da Mafia da altura.
Numa entrevista de meados de 1992, já depois do homicídio de Falcone, ocorrido em 23 de Maio de 1992, numa explosão gigantesca que abriu uma cratera de vários metros, na autoestrada para Palermo, e que destruiu cinco carros e matou cinco pessoas, incluindo a mulher de Falcone e três guarda costas, Buscetta comentou [ entrevista publicada na revista brasileira IstoÉ, de 12.8.1992]:
“ Hoje [um jovem que entra na Máfia] pode ser atraído por ganhos fáceis, mas nos meus tempos era atraído pelo respeito que podia receber das outras pessoas porque se tornava o rei do lugar. Era considerado um homem de honra.”
“ A Cosa nostra é única, não tem imitações porque ninguém consegue imitá-la. A máfia espera, a máfia não tem pressa. A máfia condenou certa vez à morte, uma pessoa que saía sempre á rua com um menino, seu filho. Eu devia atirar. Ele estava sempre acompanhado do filho e eu não podia assustar a criança. Se o fizesse, os meus colegas poderiam dizer: “Você fez mal, assustou o menino!” E então esperamos doze anos. Depois de 12 anos…não fui eu…mas esperamos que o menino crescesse.
-O sr. atirou?
- Sim.
- Naquele momento o sr. se considerava um justiceiro ou um assassino?
- Eu me considerava alguém que devia cumprir o seu dever. Estava fazendo o que era justo e o que devia ser feito. Não era o juiz, claro. Estava fazendo o que tinham ordenado que eu fizesse. “
Nada disso impediu a Mafia italiana de prosperar, nem evitou a recente onda de assassínios que ocorreram na região calabresa. A Mafia mudou apenas de poiso.
Segundo os jornais italianos, a mafia calabresa, a NDrangheta, uma designação derivada da noção de homem de valor e coragem, tomou conta dos negócios da droga e de armas, anteriormente e até aos anos oitenta, nas mãos dos sicilianos da Cosa Nostra.
A Ndrangheta, com poucas excepções ( o juiz Scopelliti e um deputado democrata cristão, António Ligato) nunca cometeu o erro de começar a matar personalidades públicas, como o fez a Cosa Nostra, aparecendo assim como a “irmã menor” da família criminosa mafiosa. Hoje, o polvo calabrês, é o que estende mais os tentáculos, por ser o maior.
O que mudou a essência e a estrutura criminosa da Mafia, foi a droga e os seus lucros elevados.
Aqui, em Portugal, as drogas, incluindo as sintéticas, são um negócio que dá lucros, também elevados. As apreensões de mercadoria, pelas polícias, ocorrem na maior parte das vezes, em situação de trânsito, para outros países. Não tem havido incursões nos circuitos internos mais escondidos.
Na chamada noite, em todas as cidades de Portugal, proliferam os lugares de diverso tipo e modo de estar, junto a um balcão de bebidas. São os bares, de alterne ou de convívio; de prostituição ou de mero engate e ainda de acesso reservado ou franqueado a quem o deseja.
A gravitar, neste mundo da noite, apareceram há alguns anos atrás, uns maduros de recorte e sem profissão definida que se foram agregando em empresas de segurança, algumas delas profissionalizadas, outras nem tanto.
A primeira vez que esta fauna da noite, mostrou o seu lado obscuro, de modo literalmente explosivo, foi em Amarante, numa discoteca de Mea Culpa. O balanço trágico, levou directamente à regulamentação legal dos grupos.
Mesmo assim, algum tempo depois, outro acontecimento trágico, levou a morte à própria polícia de investigação, na mesma zona deste norte de Portugal, com uma violência inusitada.
Depois disso, falou-se em mafias de leste e em banditagem de alto coturno que anda por aí à solta, a praticar realisticamente, car jacking, o que apenas se via, até então, em jogos virtuais para a play station.
Em tempos mais recentes, alguma da fauna da noite que se ocupa da segurança, foi inequivocamente associada, no Porto, pelo menos, a um clube de futebol e à sua claque que se borrifa para os apitos dourados. Os seus elementos de segurança privada, fizeram gala de aparecer publica e impudicamente a afrontar os seguranças do Estado que lograram deter e ouvir um dos seus mais dilectos heróis. Este aceitou e não se demarcou da segurança oficiosa, aparecendo bem na sua pele.
Agora, com estes “quatro assassínios na noite do Porto”, como titula hoje o Público, já não parece haver qualquer dúvida: a noite do Porto, está entregue aos seguranças. Um deles, segurança na discoteca River Caffé, foi assassinado e o River Caffé há anos que deveria estar encerrado. O motivo para a demora administrativa, tem a ver com uma circunstância prosaica: o desconhecimento do paradeiro dos proprietários.
Protejam-se.
Publicado por josé 21:56:00 7 comentários Links para este post
Humor
O Laboraório Inglês que está a analisar o sangue do caso Madeleine Mccann detectou uma célula da ETA.
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As elites fidalgas
Rei morto, rei posto. Vasco Graça Moura, sucede a EPC, como rémora do politicamente correcto, na perspectiva situacionista de quem pretende conservar o que tem de seu. Compreende-se e… quem pode levar a mal?
Só mesmo aqueles que têm o mesmo direito de beneficiar das prebendas e privilégios de um Estado que é mesmo de todos.
É por isso que tem lógica completa, este motete sem música, pilhado aqui.
Pois se é
A mama que faz o fidalgo
acima dos outros fulanos,
democratize-se a chupeta
deixem-nos chupar na têta
que logo fidalgos ficamos
Se forem essas, as elites que agora se reclamam, será caso para repensar o conceito de elite. Vasco Graça Moura, até cita dois dicionários para lhe captar o sentido exacto. “ Os melhores e mais notáveis”. Ora bem. Quem são eles, afinal?
Quem definiu as bases para a educação nacional que temos? As elites do PSD. Quem definiu as prioridades de investimento público, nos anos a seguir ao maná da CEE? As elites do PSD. Quem privatizou empresas, entregando o que o Estado socialista pilhara, aos mesmos de sempre e que estavam já velhos de saber olhar apenas para si mesmos?
Foram as elites do PSD.
Quem moldou o Estado a que chegamos, nestes últimos vinte e cinco anos? As elites do PSD.
Claro que nestas elites, se encontram em amálgama natural, as elites do PS. Tão poucas eram que foram cooptadas de modo consensual.
Destas elites, dispensamos todos as respectivas benemerências. Todos, não. Vasco Graça Moura e uns tantos, precisam delas como de pão para a boca. Literalmente.
Publicado por josé 13:11:00 3 comentários Links para este post
Setembro antecipado
terça-feira, agosto 28, 2007
aragem fresca
construindo sonhos,
teias de gotas
enfeitando os matos,
perfume verde
a seguir meus passos,
lírios roxos
ponteando as margens
do fio de água
que escorre manso.
E tu E eu!
E a erva tombada
pelos corpos,
os lírios violados
na paixão.
E o céu!
Esse céu azul
sem limite.
O nosso limite.
A nossa eternidade»
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Não há mais eduardinos
sábado, agosto 25, 2007
Morreu Eduardo Prado Coelho. Estranha notícia esta, depois de ter lido há minutos a crónica que ontem publicou no Público. Como habitualmente, lia-o de modo enviesado, porque sabia já o que dali viria: uma visão do mundo que não partilhava e uma pertinácia na defesa da ortodoxia correctamente política. Primeiro na esquerda comunista, nos anos setenta e depois, gradualmente, na esquerda afectivamente identitária, Eduardo chegou a ser Eduardo P.C. Actualmente, afinava mais pela opinião PS.
Prado Coelho, filho de professor com mesmo apelido, mereceu a atenção, desde muito novo, da inteligentsia pátria, ao ponto de lhe profetizarem um grande futuro entre a intelectualidade lusa. Afinal, a profecia, quedou-se na vertente intelectual de leitor e cronista menor, por vezes polémico, quase sempre alinhado por um poder situado à esquerda, jacobino, moderado na intervenção social e avesso ao liberalismo económico. Nunca foi Sollers nem sequer Paolo Flores D´Arcais. Derreou-se em Derrida e divulgou filósofos franceses com a linguística à ilharga.
Prado Coelho, suscitava em muitos escritos, uma repontice a puxar polémica e isso aconteceu por vezes, com virulência escrita nas respostas.
Com a morte, acabam as crónicas e já tenho saudades de lhes põr os olhos em cima, mesmo enviesados e que me sabiam a piratas eduardinos, engolidos de um trago.
Paz à sua alma e que encontre o Criador em Quem aparentemente, não acreditava.
Publicado por josé 13:31:00 11 comentários Links para este post
Minas e armadilhas e mais eufemismos
sexta-feira, agosto 24, 2007
JPP, no blog Abrupto, escreveu isto, sobre o caso Somague/PSD:
Numa primeira fase pareceu-me que no PSD se estava a responder bem ao "caso Somague", mas agora já não estou certo disso, em particular no que diz respeito aos responsáveis pelo partido na altura. Pode-se perceber a tentativa indirecta de atirar as culpas a José Luís Vieira de Castro, tanto mais sabendo que ele não se pode defender. Mas José Luís Vieira de Castro tem amigos que o conhecem bem, que o acompanharam no exercício de funções no PSD e no Governo, e esses amigos, entre os quais me conto, podem falar por ele. E aqui fica a minha fala para dizer que ele como governante nunca, repito nunca, faria um favor em troca de um financiamento partidário. E digo isto, entre outras coisas, porque ele muitas vezes discutiu comigo esses problemas enquanto era Secretário de Estado e muitas vezes me disse como tudo estava "armadilhado", (não só estava, como tinha recebido tudo "armadilhado" do governo anterior do PS) e como o único processo que encontrava para não se deixar envolver era enviar os processos de que desconfiava à Procuradoria e nunca decidir de forma diferente do que resultasse do seu parecer . Foi o que fez no processo da Somague, como em muitos outros. Uma análise à sua acção como Secretário de Estado revelará com clareza esse modus operandi, e não se lhe conhece decisão contrária aos pareceres que recebeu. Não é por aí que chegam lá. 09:23 (JPP)
O que este tipo de escritos revela, para além do mais, é uma inefável hipocrisia reinante na classe política de que JPP faz parte, embora queira aparentar que não. O conceito curioso de "estar tudo armadilhado", na altura em que JPP privava com o então Secretário de Estado, tem de ser explicado às pessoas, para que se entenda que tipo de armadilhas nos preparam os partidos de maiorias.
Segundo JPP, o Secretário de Estado, Vieira de Castro, com quem privou, sabia do que falava e das duas uma: ou JPP também sabia e nunca ninguém deu por nada nos diversos comentários que vai esportulando, por aí ; ou continuou na santa ignorância que só agora desvaneceu.
Afinal, em concreto, porque é disso que se trata, o que são essas armadilhas deixadas pelo PS e outros? Cheiram a matéria criminal? São do domínio ético? O que são afinal?
Vamos lá, porque depois de se lançar uma coisa destas para o ar virtual da blogosfera, todos estamos curiosos em saber.
Com eufemismos, não vamos lá e a evidência do não dito, neste caso é tal que a continuação do silêncio cheira a cumplicidade, grave, no caso.
JPP sabia o que estava armadilhado e calou? Porquê?!
E vem agora, escrever sobre financiamentos partidários e etc e tal...
Publicado por josé 17:18:00 5 comentários Links para este post
Barbas de molho
Tendo em consideração o actual standard de investigação criminal atingido pelo DCIAP e cujo melhor exemplo recente é o caso estranho da falsificação de um diploma universitário, será caso para se ponderar e profetizar desde já, mais um falhanço rotundo, perante os métodos conhecidos de pedir documentos, em vez de os procurar; de ouvir pela rama quem sabe pouco e nem sequer esgravatar um pouco mais para confirmar ou infirmar suspeitas legítimas e generalizadas.
O anúncio grandiloquente de instauração de inquéritos, um dia destes, ainda dará vontade de rir, se é que não é esse, já, o sentimento generalizado de quem está já habituado a ver resultados nulos, perante expectativas tão anunciadamente prometedoras.
Mais a mais, a percepção geral da comunidade é que este tipo de comportamentos dos partidos políticos, é tão vulgar como a aceitação de ofertas sem contrapartidas. Como é que alguns políticos que sempre viveram do que o Orçamento lhes pagava legalmente, conseguiram casas, mais casas secundáras, carros, quadros, fundações, viagens para todo o lado e ainda assim, andam por aí como autênticos beneméritos da Nação?
A hipocrisia do PS ( vidè Vital Moreira) e dos outros partidos, neste caso singular, tem uma vantagem: no futuro, serão lembrados destas atitudes moralistas, que só se aguentam por um período de tempo limitado e enquanto as barbas nem estão de molho.
Ponham-nas!
Publicado por josé 13:48:00 0 comentários Links para este post
Não é assim tão complicado
Publicado por Carlos 01:29:00 1 comentários Links para este post
Por uma vez...
Olha! Estou de acordo com Vital Moreira.
Publicado por josé 00:09:00 3 comentários Links para este post
E o Óscar de Melhor Notícia do Verão Vai Para....
quarta-feira, agosto 22, 2007
Blogue "pessoal" de Menezes é feito por assessor
O blogue de Luís Filipe Menezes é feito por um dos seus assessores, afirmou ontem ao PÚBLICO António da Cunha Vaz — da agência de comunicação que foi contratada para fazer a campanha do autarca de Gaia para a liderança do PSD —, a propósito da notícia do PÚBLICO que revela que o presidente da Câmara copiou, sem referir a fonte, artigos nomeadamente da Wikipédia sobre Michelangelo Antonioni, Bergman, sobre Hiroshima e sobre Miguel Torga. Continua
Publicado por Carlos 19:00:00 7 comentários Links para este post
Mais eufemismos
Em 1975, durante o nosso PREC, a luta era mais avançada e de punho erguido, contra a burguesia e a exploração capitalista.
Em Março desse ano, a revista Flama, dirigida por António dos Reis e Edite Soeiro e redigida por Carlos Cascais, António Amorim, Regina Louro e outros, dedicava uma boa parte dos seus números a lidar com os fenómenos do PREC que apoiava sem reservas editoriais. Um desses fenómenos, era o do activismo político de partidos e movimentos da extrema-esquerda revolucionária que nos anos oitenta, viria a desembocar directamente nas FP25, com o historial trágico que se conhece.
Em 7 Março de 1975, ainda antes das nacionalizações, a Flama dava conta do congresso da LUAR, ( Liga de União e Acção Revolucionária) um desses partidos que se propunham criar o poder popular, contra os partidos porque era "no seio dos trabalhadores que terá de forjar-se a unidade capaz de levar á revolução socialista".
Por isso mesmo, no congresso de Março de 1975, os dois únicos partidos que então enviaram mensagens aos congressistas da LUAR e que eram o PCP(m.l.) e a AOC, foram...vaiados. "O telegrama do primeiro foi pateado e assobiado; a leitura do segundo foi simplesmente recusada pela plateia", escreve a repórter da Flama, Regina Louro.
A LUAR era de tal modo uma força política implantada no seio do povo que nessa mesma semana, na Cova da Piedade, assaltou ( a Flama coloca aspas no verbo), um palacete privado, com dono conhecido, e transformou o imóvel de um momento para o outro, num Hospital do Povo. "É a isto que nós chamamos Revolução", disse então Palma Inácio, um dos mentores do assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, alguns anos antes, durante o salazarismo...para recolha de fundos para os revolucionários.
A violência da escrita contra a actuação dos eufémicos, pela actuação política, com recurso a delitos comuns ( ainda) sem grande gravidade objectiva, concentra-se em duas personagens políticas que viveram o PREC de modo distinto: o primeiro, José Pacheco Pereira, consta que terá sido no seio do povo e de um partido revolucionário.
Outro, Vasco Graça Moura, fez parte do IV Governo de Vasco Gonçalves ( embora sendo do PPD), como secretário de Estado da Segurança Social e que tomou posse no fim do mês de Março desse ano de 1975 durando até ao mês de Agosto desse Verão Quente.
É possível que estes acontecimentos, por motivos diferentes, despoletem memórias e acicatem a reacção destemperada desses cronistas e que provoca perplexidade a quem os lê.
Assim, para refresco da memória, aqui ficam imagens da época, dos percursores dos eufémicos, os antigos revolucionários e que queriam mesmo um poder popular, contra a burguesia e o capitalismo e que nessa altura enchiam completamente um Coliseu dos Recreios, de punho no ar e palavras de ordem revolucionárias. O revolucionário Camilo Mortágua, afirmava na altura que "se as condições o exigirem, se o contexto actual se modificar, estamos dispostos a repetir de novo a recuperação de fundos, para que sejam os capitalistas a financiar o esforço da revolução operária neste País.". Como é sabido, as condições mudaram e houve efectivamente o exercício dessa actividade de "recuperação de fundos". Os assaltos a bancos, efectuados pelas FP´s 25, anos depois, são a prova disso mesmo.
Resta saber, quem, hoje em dia, subscreve estas palavras. Porque há quem nada tenha esquecido e pouco tenha aprendido. Estão calados, mas não convencidos.




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Eufemismos
terça-feira, agosto 21, 2007
Vasco Graça Moura, eurodeputado por obra e graça do PSD, de há muitos anos a esta parte, o que lhe permite o magnífico tempo ( e réditos) disponível para traduzir obras de autores clássicos, escreve hoje no Público, denunciando uma ocorrência gravíssima que coloca em crise as instituições democráticas e exige a intervenção imediata do PR e a queda do Governo, já a seguir.
A questão dramática para tanta catástrofe, é a “destruição deliberada, organizada e selvática de um campo de milho transgénico por umas dezenas de malfeitores, à luz do dia e nas barbas de uma GNR vergonhosamente inoperante”. Tal malfeitoria, para VGM, assume foros de ser um dos “maiores escândalos criminais e políticos dos últimos tempos”.
A TSF de hoje, noticia o seguinte:
“O PSD violou a Lei do Financiamento dos Partidos, incorrendo em ilegalidades objectivas. O Tribunal Constitucional deu como provado o financiamento ilegal do Partido Social-Democrata em 2002.
Em causa está uma prestação de serviços da empresa Novodesign ao PSD que foi facturada em nome da Somague SA. Os inspectores encontraram uma factura emitida à construtora Somague SA, com data de 15 de Março de 2002, com o valor de 233415 euros.
Entre a ilegalidade que Moura reclama como sendo das mais graves a que assistimos nos tempos recentes, reclamando por isso a demissão do governo e a que agora se noticia, há uma diferença de grau: a malfeitoria dos eufémicos provocou um prejuízo a um particular, na ordem dos 4000 euros, já estimados pelo ministro da Agricultura
Em termos estritamente formais, nem sequer a actuação da GNR pode ser posta em causa: limitaram-se a identificar participantes na acção testemunhada para eventual prova. Se o ofendido não apresentar queixa ou dela desistir, nem há processo.Houve alteração da ordem pública? Onde? No campo de milho?!
A crítica de Moura( e outros), estende-se depois à apreciação da actuação da GNR. Sobre isso, dispensam-se comentários, tendo em conta o desconhecimento de Moura ( e outros) sobre a legitimidade de intervenção da GNR. A única justificação que Moura ( e outros) apresenta é a de que a GNR deve proteger a propriedade (privada). Deve? Sempre? E se o ofendido ( privado) não quiser, deve presumi-lo?
A questão que Moura ( e outros) apresenta, coloca-se assim com outros contornos que não os aparentes: os malfeitores, canalha para outros, são a encarnação do mal dissolvente da esquerda remanescente dos tempos do PREC. O ministro da Agricultura já nomeou o Bloco como a esquerda responsável pela malfeitoria. O responsável pelo Bloco, já respondeu a exigir responsabilidade pela malfeitoria da mentira que tal representa. A trica segue dentro de dias e portanto, o crime passou a ser de natureza política e capaz de abalar os fundamentos do Estado de Direito.
Quanto ao financiamento do PSD pela Somague, denunciado como ilegal pelo tribunal constitucional, não valerá mais do que umas linhas dispersas pelos órgãos de informação. Afinal, trata-se de uma infracção que nem sequer merece o tratamento como crime e de político pouco terá, porque a empresa Somague nada tem a ver com a política e o PSD nem está no governo e na AR não se nota.
Aliás, como todos sabem, o financiamento ilegal dos partidos, do PSD ao BE, é assunto que tem merecido atenção apenas dos maledicentes habituais, os quais, teimam em insistir que uma boa parte da corrupção existente no país, começa logo aí, nessa promiscuidade entre interesses privados e decisões públicas dos partidos de poder, para além da troca de favores que justificam obras a mais e a engorda de contas de uns tantos desconhecidos.
Que é isso, comparado com os 4000 euros de prejuízo, causado por uns vândalos agremiados em associações verdejantes de indignação contra a globalização?
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A superiodidade moral dos comunistas
segunda-feira, agosto 20, 2007
“(…)a esmagadora maioria dos jornalistas, comentadores e analistas que se pronunciam sobre as posições dos comunistas portugueses(…)falam de Marx e Lenine, mas aparentemente nunca os leram. Quanto mais estudarem-nos.”
(…) Não aderi à “revolução semântica dos conservadores e neoconservadores. Nos anos oitenta do séc. XX, revolucionaram, com sucesso, a terminologia política e económica. O capitalismo passou a ser designado como “economia de mercado”. Mais recentemente, trocaram o imperialismo por “globalização”. Só que um homem é um homem e um bicho é um bicho.”
Tal e qual, estas citações do último artigo de António Vilarigues, “Especialista em sistemas de Comunicação e informação” ( mais um eufemismo para a conhecida palavra propaganda?) no Público de hoje, são um tratado em si mesmas. Um tratado condensado e explicativo da enorme contradição que o comunismo encerra em si mesmo, hoje em dia.
Vilarigues, coloca-se sempre no plano superior das ideias progressistas, herdadas dos velhos mestres que cita com a propriedade intelectual que denega aos ignorantes atrevidos que os citam sem os ler.
A contradição de Vilarigues e dos comunistas em geral, é simples de entender:
As ideias veiculadas por Marx e Lenine, foram efectivamente aplicadas em países concretos e reais. Durante mais de 70 anos, milhões de pessoas, foram sujeitas às receitas políticas e seguiram a nova ideologia libertadora dos povos que fatalmente os conduziria à felicidade da igualdade, com a subjugação da burguesia à giena destinada aos opressores. Durante bem mais do que meio século, milhões e milhões, em terras férteis e de recursos naturais suficientes,com recursos humanos nada despiciendos, tiveram condições de aplicação dos princípios de organização económica e social, delineados pelos teórico-práticos do marxismo-leninismo.
No fim de contas, nesses países, como é que esses milhões de pessoas, reagiram quando tiveram oportunidade de reagir e o tempo amadureceu para possibilitar as escolhas livres? Escolheram precisamente o oposto daquilo que lhes diziam ser a receita para a felicidade neste mundo. Livremente o fizeram e em condições que nunca tinham usufruido em mais de meio século de opressão comunista ( a palavra é adequada e nem sequer tem comparação com a opressão "fascista" nos países ibéricos, porque foi mais intensa, sistemática e eficiente nos objectivos imediatos, conduzindo à morte de milhões e milhões de pessoas e não, como por cá aconteceu, relativamente a meia dúzia de opositores recalcitrantes).
Vilarigues que responda e que aprenda, sem os laivos de alguma arrogância que perpassam nos seus escritos sectários. Desconfio que nada aprenderá porque nada esqueceu. As antigas bandeiras contra a burguesia, continuam desfraldadas, bem visíveis em lugares selectos como os lugares de reunião dos partidários do comunismo.
Em revistas como O Militante, insigne órgão de propaganda da ideologia comunista, em pleno séc. XXI, o Partido comunista português continua a defender as ideias do anos quarenta, aggiornatas com a análise crítica à semântica revolucionária dos conservadores. Durante mais de trinta anos, testemunhados pelo arquivo da revista, o comunismo português não evoluiu um centímetro ideológico para a modernidade de aceitação de outra ideia que não a antiga e inabalável crença da luta contra a burguesia e do capitalismo imperialista, agora travestido
No entanto, o problema essencial, central, fulcral, para a sociedade actual, de todas as latitudes, e incontornável até para os comunistas, é simples de entender e qualquer comunista que viva numa sociedade actual e ocidental o percebe muito bem, embora se recuse a admiti-lo em nome de um idealismo utópico que perdura no tempo: como produzir bens e serviços, para todos ou para a maioria, a um preço acessível a todos ou à maioria, com qualidade desejada por todos e em condições de equilíbrio para o nosso eco-sistema planetário?
Qual o sistema de produção, actual, que garante a melhor qualidade, com o melhor custo e com a maior satisfação pessoal e colectiva? Entre dois sistemas existentes – o capitalismo e o socialismo- há nuances significativas que matizam os sistemas práticos que existem nos países, incluindo o nosso.
O capitalismo e a ideologia liberal, como matriz ideológica da democracia de tipo ocidental, ao fim de decénios impôs-se mundialmente como o sistema dominante, ao ponto de o teórico Fukuyama ter alvitrado o fim da História. Todos os países europeus, afinam actualmente pelo mesmo diapasão desses princípios. A social democracia e o socialismo democrático incorporaram nos seus programas, regras típicas do modo de produção capitalista e que as orientam para a essência desse modelo, embora com laivos de protecção social mais aproximada aos sistemas colectivistas. Mas não foram esses sistemas quem ensinou o capitalismo a sua moderação, mas o próprio evoluir no tempo que obrigou a concessões de justiça socia, para o chamado Estado de bem estar social.
Mas o capitalismo praticado na China de hoje e o praticado nos USA ou o praticado em Portugal, difere em questões de pormenor significativo. A essência, contudo, mantém-se: a reserva da propriedade privada dos meios de produção e a existência de acumulação de capital que conduz a uma monopolização crescente, perigo que o próprio sistema prevê, como susceptível de o paralisar e por isso monitoriza de modo incomprrensível para um comunista.
Vilarigues reclama que os críticos do comunismo, nunca leram bem Marx ou Lenine, mas fica a dúvida se ele mesmo leu alguma vez Von Mises, por exemplo. Ou outros defensores do liberalismo que se opõe ao comunismo e colectivismo.
O socialismo, com o seu sistema colectivista, alguma vez permitiu esses desideratos que o sistema concorrente propõe e garante de modo mais ou menos aceitável na maior parte dos países do mundo? Onde, como e quando?
É a estas perguntas que Vilarigues deveria dar respostas concretas, em vez de tergiversar sobre os “atrevimentos da ignorância” daqueles que desvalorizam a ideologia comunista, como um falhanço rotundo, completo e definitivo.
Quando Vilarigues quiser falar de ignorância e atrevimento, lembre-se de Cuba e do regime cubano e da Coreia do Norte e do seu regime particular, dois case study interessantes para debater todas estas questões. É claro que este repto, não tem qualquer eco relevante na mente de Vilarigues, porque Cuba e a Coreia do Norte, serão sempre exemplos de regimes onde a diginidade de todo o Homem se afirma e pratica. Torna-se por isso inútil esta discussão.
Nem mesmo valerá a pena a discussão subsequente sobre os futuro de amanhãs a cantar que vigoraram durante décadas nos países do leste europeu. Quanto a estes, de nada adiantará chamar a atenção de Vilarigues e Bernardinos para procurarem saber que grau de aceitação ainda terão, por lá, entre o povo em geral que agora vota livre e universalmente, as ideologias e receitas que por cá continuam a defender como certas e infalíveis para um mundo melhor…
A verdadeira diferença que os mesmos nunca reconhecerão, entre os sistemas, reside também num facto prosaico: nesses regimes que ainda defendem depois de term caído fragorosa e irremediavelmente nos anos oitenta, estas discussões não eram possíveis, porque o grau de censura imposta pelo comité central em nome de todo o povo, eximia os curiosos de mencionarem publicamente as suas divergências.
Por cá, ainda pode ser feita. Isso, os Vilarigues, Bernardinos e Jerónimos, nunca reconhecerão. Preferem apodar de arrogantes quem deles discorda.
Publicado por josé 15:46:00 5 comentários Links para este post

