A Banda a passar e os corações futuristas
quarta-feira, agosto 16, 2006
A Banda, de Chico Buarque, saída para a rua em 1966, foi provavelmente a primeira canção da Música Popular Brasileira ( MPB) que escutei com alguma atenção.
E daí, talvez não…pois antes disso já cantarolara, a rolar, O Calhambeque, o redundante Quero que vá tudo p´ró inferno e ainda a frustrante Namoradinha de um amigo meu, todas da autoria de um outro cantor da chamada Jovem Guarda surgida em 1965, no Brasil: Roberto Carlos.
Ao longo dessa década e na seguinte, esse cantor da Jovem Guarda reincidiu com êxitos sucessivos: Eu te amo( 1968); Jesus Cristo e Minha Senhora(1970); Detalhes (1971) e a Montanha ( 1972) para ficarmos pelos mais óbvios e com radiofusão maciça.
A musica de Chico Buarque, um dos mais prolíficos e magníficos autores cantores da MPB, voltou a impressionar com Construção e Cotidiano em 1971 e no ano seguinte ouvia-se um Bom Conselho e depois o Fado Tropical.
Em 1972 participou num dos melhores discos ao vivo da MPB: Caetano e Chico juntos e ao vivo, cuja primeira música começa numa prédica: “Ouça um bom conselho; eu lho dou de graça”.
Os discos Chico Canta de 1973 e Sinal Fechado do ano seguinte, são dos seus melhores, tal como é o que gravou em 1975, em parceria com Maria Bethânia, irmã de Caetano Veloso. O disco Chico e Bethânia Juntos e ao vivo, continha a versão original de Tanto Mar, repescada em 1978 com letra diferente e após a (des)aventura do nosso PREC. A versão original dessa canção, desaparecida entretanto, das sucessivas reedições do disco, podia até há algum tempo, ser encontrada por aqui, neste site fantástico e animado por um anónimo português.
Os discos seguintes de Chico Buarque de Hollanda, também contém as suas tulipas como Mulheres de Atenas e Meu caro Amigo ( provavelmente José Nuno Martins), de 1976; Feijoada Completa e a segunda versão de Tanto Mar, já de 1978 e a Ópera do Malandro, de 1979, merecem a referência final a um artista da MPB que em 40 discos compôs mais do que a maioria dos compositores e cantou melhor do que muitos.
Antes de Chico e Roberto cantarem os seus êxitos, porém, a MPB, no final dos anos cinquenta, já tinha dado uma grande volta no violão de outras figuras de relevo.
António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim em parceria com Vinicius de Morais, compuseram Chega de Saudade, num ritmo cuja batida ao violão de João Gilberto, em cordas de nylon, sufocava a tradicional exuberância tropical e numa voz inimitável, rendilhava notas subtis cantadas quase em sussurro. Bim-Bom, era a, Bossa Nova, meu irmão!
Tom Jobim é o grande compositor da MPB e João Gilberto, o seu cantor.
Wave( Vou te contar, a onde que caiu no mar…), Desafinado ( Se você disser que eu desafino amor), Samba de uma nota só e Garota de Ipanema ( Olha que coisa mais linda!), cantados por João Gilberto, nem precisam de apresentação. Águas de Março e Por toda a minha vida, cantadas por Elis Regina, no LP Ellis & Tom, de 1974, também não, mas a verdade é que só me foram apresentadas já muito depois de se tornarem êxitos e em plenos anos setenta.
À Bossa Nova de finais dos cinquenta, surgiu, uma década depois, no restolho da renovação artística generalizada e global, um outro movimento rítmico, compassado com o rock e cantado por mais dois artistas grandes da MPB: Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Em 1967, Caetano compôs Alegria, Alegria que ainda hoje alegra qualquer espírito e Gilberto Gil, Domingo no Parque. Depois de terem sido presos uns meses, pelo regime militar brasileiro, de ditadura, foram para Inglaterra de onde voltaram em 1972, com ideias novas trazidas da pop para a nova corrente musical que alguém cunhou como sendo o Tropicalismo.
A música de Caetano, dos primeiros discos, é simplesmente fresca. Coração Vagabundo, Avarandado, Irene, London, London, Maria Bethânia, etc, foram descobertas já dos anos oitenta, em colectâneas, mas no Verão de 1974, passava na rádio portuguesa, um disco de antologia do Tropicalismo: Temporada de Verão, reunia num concerto ao vivo, na Bahia, em Janeiro e Fevereiro de 1974 ( ao mesmo tempo que o Lp de Bob Dylan ao vivo, Before the Flood), as vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa.
Uma das canções desse disco, Felicidade ( foi embora e a saudade no meu peito inda mora), cantada por Caetano, não sendo da sua autoria, ( é de Lupicínio Rodrigues) é um clássico inultrapassável de interpretações e sem dúvida uma das melhores canções que conheço, todos os géneros confundidos.
O disco contém ainda O sonho acabou de Gilberto Gil e a cantiga do Sapo ( Olhó sapo, está cantando na lagoa. A chuva cai e o sapo fica contente e até alegra a gente com seu desafio. João? Que é? Foste? -Fui. Compraste? -Comprei. Pagaste?- Paguei. Me diz quanto foi! -Foi quinhentos reis).
Durante os anos que se seguiram, Caetano Veloso continuou a compor pequenas obras primas que ombreiam com as de Chico Buarque. Qualquer coisa, em 1975; Um índio, Tigreza, Leãozinho e Alguém Cantando, em 1977, no álbum Bicho e em 1982, no disco Cores Nomes, O Trem das cores, Sete mil vezes, Coqueiro de Itapuã e Sonhos.
Depois, nos anos seguintes, outros êxitos preenchem uma carreira ainda sem fim criativo à vista, acompanhada com magníficos espectáculos ao vivo.
Caetano, aliás, está cá outra vez, para outro espectáculo a não perder e deu entrevista à RTP2 de Ana Sousa Dias em que disse o essencial sobre MPB. Tom Jobim é o maior de todos e há muitos outros que não se conhecem e que fizeram da MPB o que ela é: Pixinguinha, Cartola, Ary Barroso, Luis Gonzaga e muitos outros que a memória guarda em arquivos sonoros e catalogados por aqui.
O disco de 1972 Caetano e Chico juntos e ao vivo, foi um estrondoso sucesso em Portugal. Ouça um bom conselho e Você não entende nada ( quando chego a casa nada me consola…) tornaram-se músicas repetitivas na rádio desse ano.
Tal como o fabuloso Casa no Campo de Elis Regina que em 1974 gravou o simbiótico e já referido Ellis & Tom que começa com Águas de Março ( É pau, é pedra…) e vai por ali fora, até ao romântico Por toda a minha vida ( eu sei que vou te amar).
Ainda em 72 foi dada audição alargada ao Quinteto Violado, cujo primeiro LP, começava com Asa Branca, numa versão da canção de Luís Gonzaga que ultrapassou a versão de Caetano, numa instrumentação notável e memorável.
Em 1973, um cantor desconhecido, vindo das influências do tropicalismo , com forte batida pop e textos em sintonia com o então desconhecido Paulo Coelho, assinava dois temas de audição contínua na rádio: Raul Seixas, que cantava Mosca na Sopa e principalmente Ouro de tolo, um dos melhores singles desse ano, com letras batidas em ritmo acelerado e música corrente mas apelativa.
Nesse mesmo ano, uma surpresa esperava os ouvintes dos cantores do rádio e que “levavam a vida a cantar”: Os Secos e Molhados de Ney Matogrosso e João Ricardo (de ascendência limiana), publicaram com estrondo o primeiro LP que começava com Sangue Latino, com um Vira a seguir e uma canção de antologia depois de O Patrão Nosso de cada dia , Assim Assado e El rey: Rosa de Hiroxima, para acabar com outra pérola: Fala. O disco do ano seguinte ainda se ouvia, mas a seguir só ficou Ney Matogrosso.
A segunda década de 70, permitiu uma grande divulgação, em Portugal, da música do Brasil,particularmente a MPB.
O nome de Milton Nascimento, seguidor do tropicalismo e inovador por direito próprio, apareceu assim, com alguma naturalidade, antes mesmo de José Nuno Martins, o grande divulgador da MPB em Portugal, ter fixado na rádio do Programa 4, um programa intitulado “Os cantores da rádio” , uma retoma de uma música de Chico Buarque, de 1970, intitulada precisamente "os cantores de rádio"...
Em 1974, Milton, o grande cantor da MPB, vindo de Minas Geraes, ( como Egberto Gismonti) e talvez o maior de todos eles, seguramente o que tem a Voz mais impressionante, publicou um disco ao vivo: Milagre dos peixes ao vivo.
Um dos temas, bateu tão forte no ouvido interno que ainda nem de lá saiu: San Vicente, cantado ao vivo, e em conjunto com Cais, é uma elegia sem paralelo. Logo seguir, ouvir Saudade dos Aviões, Ponta de Areia e Cálix Bento, dos LP´s seguintes, Minas e Geraes, é, para mim, a síntese da beleza absoluta da MPB. Aproximada, mesmo assim, no LP de 1980, Sentinela que contém a beleza de Canção da América ( amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração), a firmeza de Sueño com serpientes de Sílvio Rodriguez e Mercedes Sosa e a cançoneta de Peixinhos do Mar com a balada de Itamarandiba. A gravação de qualidade excepcional deste disco, permite testar subwoofer.
Depois desssa experiência, ouvir os dois outros grandes discos da década de setenta e do cantor, intitulados Clube da Esquina e Clube da Esquina nº2, saídos em 1972 e 1978, é uma sublimação da essência da MPB, e de um cantor que se permite cantar Credo e Paixão e Fé, sem qualquer hesitação de entoação.
Milton Nascimento, no início dos anos oitenta, veio a Portugal para alguns concertos, um deles transmitido em directo pela rádio ( Comercial) e patrocinado pelos amadores da MPB que então eram muitos e bons, com o incansável José Nuno Martins que deu mais a conhecer da MPB do que seria necessário, fixando marcadores de uma cultura que tem a nossa língua.
Em 7.9.1983, JNM, publicou no semanário Sete, dedicado aos espectáculos em geral e do grupo de O Jornal ( esquerda moderada bem marcada), um artigo sobre os “quinze indispensáveis da MPB”.
O primeiro dos quinze magníficos da MPB, é Amoroso(1977) de João Gilberto, o intérprete da Bossa Nova por excelência e num disco de referência que contém Wave ( Vou te contar); Tin tin por tin tin, S Wonderful, Triste e outras em sequência notável que a elegância da capa anuncia.
O segundo é “Meus Caros Amigos”( 1976) de Chico Buarque e que JNM considera o melhor de Chico. Talvez seja e o tema final, Meu caro Amigo ( que lhe será dedicado) é uma justa homenagem.
O terceiro disco é…Sentinela( 1980) de Milton Nascimento. Está tudo escrito sobre Milton, acima. Falta dizer, se ainda não disse, que é o meu cantor preferido de toda a MPB, num Olimpo difícil de atingir.
Em quarto, Gal Costa, e Fantasia, talvez o melhor de Gal Costa, uma das vozes femininas, marcantes, da MPB, com Elis Regina, Maria Bethânia, Simone, Rita Lee ( sim, na pop, vale a pena ouvir, Mania de Você e Desculpe o auê, para não falar na Flagra…) e poucas mais. Aliás, porque será que a MPB tem tão poucas vozes femininas de valor real? Mistério. E pena, porque a beleza da voz feminina, é um prazer acrescido. Só de lembrar Françoise Hardy, com a sua vozinha sumida, e Linda Rondstadt ou Maria Muldaur noutras latitudes, um programa musical se anuncia.
O quinto disco de JNM é Luz ( 1982) de Djavan, outro cantor de voz segura.
O sexto, a Ópera do Malandro, de Chico Buarque, de 1979, tem uma entrada operática, sobre o tema da Géni e o Zeppelin, que vale a escuta.
Os restantes discos, incluem, Cores, Nomes de Caetano; Álibi, de Maria Bethânia, Corações Futuristas de Egberto Gismonti ( um artista muito esquecido), Saudade do Brasil de Elis Regina e até Roberto Carlos, com Ele está para chegar, de 1981 e que contém um tema sobre…as baleias.
Nesse compêndio dos melhores de quinze, faltam muitos, como o próprio JNM reconhece. Falta Toquinho. Falta Edu Lobo e Jorge Ben e outros também.
Um dos nomes que faltam, seguramente, é Taiguara (Chalar da Silva).
Em 1977, o artista esquecido, publicou um disco fundamental da MPB. Imyra, tayra, ipy que está completamente esgotado no mercado habitual.
Contudo, em Junho de 1977, o grande divulgador e locutor de rádio, João David Nunes, publicava na revista Música & Som, saída no ano anterio, para colmatar um vazio editorial no género, uma recensão ao disco, com apreciações ditirâmbicas do mesmo e ainda de João de Menezes Ferreira ( antes da política…) e de Manuel Bravo(?).
O disco que conta com a participação de grandes músicos brasileiros – Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Novelli,( músicos de Milton Nascimento) Ubirajara Silva e o próprio Hermeto Paschoal- foi apreciado por um outro grande divulgador da MPB: James Anhanguera que lhe dedica duas colunas para dizer que é disco a ombrear com os melhores Milton Nascimento, Egberto Gismonti e isso depois de dizer que não gostava da voz de Tayguara e de ter duvidado da sua utilidade em promover a sua importação, pela Valentim de Carvalho que na altura o empregava como escolhedor de discos brasileiros para publicação em Portugal. James Anhanguera, publicou em 1978 o livro Corações Futuristas ( mesmo título do magnífico Lp de Egberto Gismonti, de 1976). O livro recolhe em escrita corrida, sem grande pontuação e em caótica organização temática, uma miríada de apontamentos diversos a que falta um fio condutor e uma lógica que disperse a densidade de referências e lhes dê consistência para uma leitura amena.
Os temas do disco de Taiguara, ainda por cima com uma qualidade de gravação excepcional, são todos imprescindíveis e destacam-se Pianice, Delírio Transatlântico ( eles querem lotar o Maracanã e precisam de mim- lá vou eu…) e Terra das Palmeiras, uma sequência musical com instrumentos fundidos na voz, com destaques de flauta de Hermeto e sons da selva amazónica ritmada em contraponto. Fantástico.
É o meu disco de culto da MPB. Esse e um single, de 1978, barato e de efeito fácil, banda sonora de telenovela que passou cá nesse ano, com o título O Casarão. O autor é o esquecível Hermes Aquino e o tema é a inesquecível Nuvem Passageira.
Reconheço que sendo uma xaropada, mesmo pimba, me deixa sempre de sorriso aberto e espírito sonhador desses tempos…inesquecíveis em que formei os meus gostos básicos na MPB. Uma música para ouvir, dançar e curtir intelectualmente e ainda de encanto certo em alguns temas. A MPB será das músicas “do Mundo”, uma das mais ricas em variedade de géneros. Do pagode ao forró; do sertanejo ao samba e da bossa nova ao tropicalismo, há de tudo um pouco para curtir a música com ou sem caipirinha.
Para se gostar da Nuvem Passageira e ao mesmo tempo da Saudade dos Aviões, de Milton, é preciso reconhecer que a música tem destes segredos em que o gosto tem razões que a razão desconhece e nem sequer admite como compreensíveis. É isso que dá razão à MPB e gostos, como todos sabem, não se discutem. Apresentam-se.
Sirvam-se!
Publicado por josé 18:09:00 23 comentários Links para este post
Coração, cabeça e estômago
segunda-feira, agosto 14, 2006
Uma Fernanda Câncio, jornalista segundo se vai lendo, escreveu uma crónica no DN em que se queixa da coscuvilhice ambiental nos media. Que querem saber tudo da vida alheia, dos famosos e semi-famosos e mostrar tudo na tv, numa intrusão cada vez mais invasiva e que pode chegar ao quarto de dormir, para não dizer mesmo ao interior do próprio dossel de repouso. E coloca um acento tónico numa nota incidental, ao referir o aparecimento de uma nova tendência na coscuvilhice mediática: saber quem anda com quem e quem assume as respectivas relações, sendo este o eventual clímax noticioso por excelência.
Sobre Fernanda Câncio, de quem nada sei, o jornal Correio da Manhã, de 1.8.06, fez assim um perfil:
“Ser namorada do primeiro-ministro não é fácil, ainda para mais quando se é jornalista. Quando se soube que Fernanda Câncio era a companheira de José Sócrates, houve quem criticasse se ela teria capacidade de isenção e imparcialidade. Mas, em entrevista ao CM, que data de Novembro de 2005, Fernanda Câncio fez questão de afirmar que nunca abandonaria o jornalismo. Ciosa da sua privacidade, a jornalista não gosta de falar sobre a vida privada. Pouco se sabe sobre ela, apenas que é uma mulher de causas e adepta da internet, participando no blogue Glória Fácil (www.gloriafacil.blogspot.com). No final de 2005, Fernanda Câncio foi distinguida pela associação ILGA Portugal, com o Prémio Arco-Íris pelo seu contributo na luta contra a homofobia.”
Sobre namorados e namoradas, mulheres e homens, casamentos e apartamentos e outras relações humanas, pouco haverá a dizer para acrescentar ao que todos sabem de essencial. Todos percebem que nesse complexo mundo de intimidades e equilíbrios pessoais e afectivos, é muito difícil ensinar seja o que for a alguém, ou recomendar “ regras de sensatez”, porque em assuntos amorosos não consta que haja regras definidas e imutáveis, por muito que os Alberonis escrevam ou os Júlios Machado Vaz expliquem o que muitas vezes não tem qualquer explicação e só um ou outro Morávia lá consegue chegar. Nesse reduto que alimenta telenovelas e grandes romances também, cada um é senhor da sua própria história, embora muitos ( principalmente muitas) se deslumbrem com histórias alheias e será por isso mesmo que as Holas! e quejandas têm tanto sucesso.
Assim, é mais do que natural que as histórias de amores e desamores alheios, alimente a curiosidade de quem anseia por ver esse eterno retorno às essências afectivas. A curiosidade associa-se por vezes, ao voyeurismo, sempre que a tara é propícia ou a perversão inevitável.
É dessas taras e manias que a imprensa rosinha se aproveita e alguns fundem o género numa mistura que em Portugal foi desenvolvida a ritmo diário por um antigo jornalista do Avante: Pedro Tadeu, é o celebrado director do 24 Horas, o expoente diário das historietas que envolvem os “ famosos, o dinheiro e o crime”, tal como o mesmo reivindicou numa célebre entrevista num clube de jornalistas a propósito de assuntos mais sérios e contidos em envelopes que outros creditaram como exemplo máximo da respeitabilidade jornalística.
No Portugal actual, poucos cronistas se atrevem a denunciar esta pimbalhice misturada com jornalismo. Alguns terão simplesmente medo de perder dinheiro e poder de intervenção. Compreende-se. Outros, porque não se incomodam, a não ser quando lhes bate à porta o infortúnio da exposição indesejada .
Como chegamos aqui? Em tempos, o assunto já por aqui foi ventilado. Retome-se, por isso, a meada.
“Portugal apanhava as modas ocidentais, sempre com atraso. Foi assim, no uso das gangas; no corte de cabelo adiado e nos costumes mais estrangeiros, como sejam a arte suprema de comer carne picada, embrulhada em alface e tomate e metida à força em pãezinhos redondos e amaricados ou em beber uma espécie de água suja com receita de Atlanta. Nos anos sessenta, o nosso país feminino chorava ao ritmo lento e valsa atenta, do folhear das páginas de fotonovelas. Corin Tellado era nome de Espanha, mas do Brasil vinha o recheio do Capricho e outros romances em fotos quadriculadas a preto e branco, de princesas escondidas como costureirinhas, à espera dos príncipes de poupa e popó a condizer . Por cá, a Crónica Feminina , publicada em frenético ritmo semanal a partir de 1956, moldava subtilmente a mente feminina, aggiornando-a com sentires estranhos a um povo ainda rural e sem acesso a outros meios de informação mais sofisticados e massificados, apesar da rádio e de um Simplesmente Maria que futuramente se ficou pela simplicidade do nome Maria, numa versão sucedânea da Crónica e que eventualmente a suplantou no coração das leitoras. A sofisticadíssima revista Maria, com apenas 22 anos em 2000, vendia-se a uma multidão de cerca de 300 mil leitor(a)s!! Nenhum outro órgão de comunicação social, com excepção da televisão e mesmo assim, dadas as características do media, com algumas dúvidas o escrevo, se aproximou sequer desse nível de...penetração.
Actualmente as Marias, já são mais que as mães, simplesmente. Mulheres Modernas lêem a Ragazza e outras Cosmopolitan, Máxima, Elle.
Para a coscuvilhice associada à informação sobre cosmética e moda, há também um amplo sector que se estende ao género masculino numa paridade assegurada pelo mercado de hipermercado e bancas de rua.
Actualmente, tal como aquela Fernanda Câncio refere, o interesse das capas das revistas, vai direitinho para o assunto quente de saber quem-anda- com- quem- e –quem- andará- a- seguir.
Foi sempre assim? Nem por isso.
A vulgarização poderá ter começado nos suplementos de jornal. Nas décadas de sessenta e setenta, quase todos os diários dedicavam páginas a secções prosaica e exemplificativamente intituladas “para si, minha senhora” ( Diário Popular) . E algumas revistas como o Século Ilustrado revelaram-se pioneiras na caça ao voyeur.
Uma revista chamada Eva, em tempos dirigida por José Cardoso Pires , acabou em número único, natalício; das Donas de Casa que passou a Clube das donas de casa, na rádio, ficam as recordações e nostalgias de um tempo passado e já perdido. Ao mesmo tempo e do mesmo passo, à Gente do Expresso, supostamente animada no seu início por um certo MRS, apareceu em concorrência, a revista Gente, actualmente a vender dezenas e dezenas de milhares de exemplares.
O semanário Tal & Qual, com uma coluna em “Privado” dava conta de escândalos instantâneos e “Apanhados” prolongados na tv, numa antecipação de emissões de “reality-show”, tipo Big Brother, a suculenta ementa da tv do final do século.
No início dos anos noventa, um suplemento do semanário Semanário, retomava um Olá provavelmente inspirado na espanhola !Hola!
No final dos anos oitenta, ocorreu um dos episódios mais negros desta pequena história nacional da infâmia “cor de rosa” ou como dizem os espanhóis, “del corazón”: Um editor ambicioso, vindo das brumas anónimas, publicou no Outono de 1989, uma revista com o título enganador de Semana Ilustrada. O logotipo remetia imediatamente para uma cópia de revistas alemãs de futilidades tipo Quick ou Praline. O conteúdo, todo ele ilustrado a cores borratadas, berrava a cada página uma simples palavra: sexo! Que como se sabe, vende!
E por isso, no segundo número da revista, anunciado com antecedência estratégica, ( e apreendido logo a seguir, mesmo a tempo de evitar a difusão dos 150 mil exemplares, mas não tanto que evitasse o aparecimento e venda de alguns, em quiosques) apareciam várias fotos explicitamente pornográficas de um conhecido arquitecto que era logo definido no intróito do “último escândalo” como “uma pessoa de baixa moral, de poucos escrúpulos” e para ilustrar, mais de uma dúzia de fotogramas tirados de um filme caseiro, feito pelo próprio, numa ilustração perfeita do célebre filme pioneiro, L´arroseur arrosé.
Um segundo episódio infamante, ocorreu já nos anos noventa e num jornal , não lembro qual: alguém publicou uma notícia sobre a ministra Leonor Beleza, com pormenores de uma consulta ginecológica recente, com base em documentos do processo clínico. Sustentaram que era notícia de interesse público…
Em 1995 aparece a Caras, do mesmo grupo do Expresso que assim sustenta uma Gente de Caras conhecidas.
Actualmente, o primeiro lugar, no hit parade destas publicações empenhadas com “os famosos, o dinheiro e o crime” está solidificado neste grupo editorial: o Impala! Vip, Nova Gente, TV7 Dias, Mulher Moderna, Maria, Ana, Ego!
Depois, aparece um grupo discreto e concreto – a Edimpresa, de Balsemão e do grupo Impresa que edita a Caras, a meias com brasileiros da Abril.
Depois também aparece o grupo Soci, do Independente Pães do Amaral, com esse expoente das publicações que tem nome de Lux!
É nestas revistas que se dá a parada semanal de vaidades do país que somos e dos arredores que frequentamos, com vistas para a Caras; a Lux; a Tv7dias e a TV Guia. A cereja no topo deste bolo, é naturalmente o jornal 24 Horas e Pedro Tadeu, um martirizado da liberdade de imprensa.
Há diferenças nestas publicações empenhadas com o destino dos “famosos”?! Há. Principalmente uma: querem todas vender mais que as outras. Ou seja, a diferenciação faz-se pela concorrência. Assim, um jornal como o 24 Horas, legitima-se a publicar uma notícia sobre a próstata problemática de um político e outros assuntos de teor ainda mais profundo a ritmo diário. E defende-se dizendo que não fazem jornalismo de..."papparazzi"!!!
Por isso, que novidade, interesse ou escândalo pode actualmente haver, na publicação de uma reportagem acerca de um almoço ou jantar de um primeiro ministro acompanhado por uma namorada declarada, mas pouco assumida? Ora, ora! Até parece que chegamos ontem dos anos sessenta…
Porém, como o pretenso escândalo atinge singularmente alguns “famosos” da política que se servem dos jornais, quando lhes convém, e alguns deles até neles se empregam, cronicando e dirigindo, torna-se cinicamente curioso, ler quem se indigna pela publicação destas “notícias”, mas não o faça nas redacções onde elas emergem à solta e aí têm curso livre, entre iniciados que sustentam segredos e podam o respectivo interesse para o público.
Há agora quem queira( JPP) definir esta deriva como tendo começado com a Gente do Expresso, passando pelo Semanário e acabando na Nova Gente, sustentando que esta coscuvilhice pegada começou primeiro na imprensa "séria". Ahahahah!
Talvez uma vista de olhos a certos locais, dê para entender as subtilezas das curvas e contracurvas dos corações a palpitar e o contorno das montanhas russas da coscuvilhice .
Let´s look at a trailer:

Da inocência de finais dos anos sessenta, nas revistas Flama e Século ILustrado; do empenho político dos setenta, aos escândalos dos oitenta, passamos pelos noventa, já um pouco blasés e entramos no novo milénio, ao ritmo pimba europeu.

Acima: A Gente do primeiro número do Expresso e uma "notícia" do Jornal de 18.7.1980, sobre a dívida pessoal de Sá Carneiro à banca...

A Semana Ilustrada de Outubro de 1989 e o Tal e Qual de 15.3.1985
A Olá do Semanário, em 20 de Maio de 1995, por ocasião das bodas reais. Um número que é um must!
E uma primeira página, relativamente recente, do grande diário dos "famosos, do dinheiro e do crime"!
Publicado por josé 23:54:00 21 comentários Links para este post
Desabafos e discursos
Este free-lancer da opinião política, publicou no seu blog, Sobre o tempo que passa, este postal que exemplifica o propósito de dizer, não dizendo o suficiente. Deste modo, é postal inócuo, ficando certificado que a falta de vontade de dizer de modo explícito, esteriliza a eficácia de qualquer discurso. Empata. Adia. Equivoca.
Falta no postal, dizer os nomes. Do programa de rádio animado pelos "três estarolas" e do nome dos "boys" que também náo sei quem são e que serão apenas isso, sem conotação de maior.
Até lá, fica apenas um desabafo. E com desabafos destes temos vivido anos e anos, sem que a voz doa, ajudando a perpetuar o discurso dominante de que José Adelino Maltez e outros se queixam. Queixas inúteis, assim.
"Dos intelectuários que se servem a si mesmos
Acordo pela madrugada e ligo um dos raros programas dos últimos restos de profissionais da literatura e crítica, à João Gaspar Simões, essa subsecção da corporação de editores e livreiros, vértice autoritário daquelas múmias de uma “intelligentzia” que se assume como definidora de quem pode aceder à casta dos escritores e cronistas da nossa estreita e reaccionária praça.
Reparo que são três membros do mesmo restrito clube das citações mútuas, o tal que determina inquisitorialmente o que é a boa esquerda e a boa direita, bem como a boa civilização, a boa Europa, a boa globalização, isto é, aquele campo que decretinamente querem comandar só porque julgam conhecê-lo.
Os ditos, pretensamente omniscientes e omnipotentes, são daqueles nossos habituais bons rapazes, que se pensam os únicos e os bons só porque se encontram na esquina dos mesmos jornais que lhes pagam a mesada. Eles odeiam, fingindo que não odeiam, da mesma forma como fingem que não obedecem àqueles que lhes pagam. Muitos pretensos inteligentes não passam de meros intelectuários…"
Publicado por josé 11:18:00 12 comentários Links para este post
os dentes da reacção
sábado, agosto 12, 2006
"Evocar Marcello Caetano é, antes do mais, recordar o homem e o amigo de minha família, desde o final dos anos 3o do século passado. O homem. Impoluto no carácter, determinado na personalidade, austero, aparentemente distante e frio, inteligência rigorosa e metódica, grande sistematizador e expositor, cultura clássica e moderna sólida, de claro pendor francófono, facilidade e recorte estilístico na escrita. Na intimidade, ainda, afectivo e atencioso, muitas vezes nos mais pequenos pormenores. Sempre de uma persistência (aqui e ali talvez teimosia) de um critério meticuloso no trabalho, de um sentido de responsabilidade pessoal, cristã e cívica marcada por uma educação conscienciosa, uma carreira inicial a pulso, uma militância católica e de serviço comunitário (de que a Conferência de S. Vicente de Paulo foi exemplo), marcada pela doutrina social da Igreja e o neotomismo. O amigo de família desde o final dos anos 30. Mestre de vida e superior do meu pai. Na Mocidade Portuguesa, onde o teve como colaborador e ajudante de campo até 1944. No Ministério das Colónias, onde beneficiou do seu secretariado até 1947. Novamente, conselheiro no Governo, nos anos 6o, Marcelo Caetano como ministro da Presidência, meu pai como subsecretário de Estado da Educação Nacional. Ou, no início dos anos 70, Marcello Caetano presidente do Conselho de Ministros e meu pai ministro de várias pastas. E, antes e para além de tudo isto, com sua mulher, a inexcedível Teresa Barros, filha do escritor e pedagogo liberal João de Barros, padrinhos de casamento de meus pais (em 1947), seus filhos Ana Maria e Miguel padrinhos de meu irmão Pedro, em 1955, e eu próprio devendo-lhe o nome, apesar de Marcello Caetano ter entendido que o padrinho deveria ser da geração do pai e não mais velho do que ele (escolhendo Camilo de Mendonça). Como não lembrar a narrativa que me chegou da lua-de-mel de meus pais em S. Martinho com carro emprestado pelos padrinhos, os sucessivos Natais na velha casa junto ao Camões, os passeios na Quinta do Linhó, as sugestões dadas no liceu, a apreciação de trabalho do 5° ano sobre a Constituição Francesa de 1791, as obras oferecidas estimulando (e pesando decisivamente) na ida para Direito, os sábados à tarde na Choupana (entre 196o e 1966, ouvindo, a sua tertúlia política), o rigor com que impôs o afastamento da Choupana e do convívio pessoal enquanto fui seu aluno (de 1966 a 1968), o modo paternal como me acolheu em jantares semanais entre 1968 e 197o, na ausência moçambicana de meus pais? São centenas de episódios ou histórias familiares, que continuaram no Brasil, onde, no Rio de janeiro, Marcello Caetano conviveu com meus pais e meu irmão Pedro, e de onde respondeu a cartas minhas até à sua morte, em 1979. Mas, para além desta dimensão pessoal - sem dúvida a mais importante para mim e minha família -, como não lembrar a do cientista e professor de Direito, a partir da década de 30? Cientista, que criou uma verdadeira Escola de Direito Público na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, escola essa que teria como seus sucessores André Gonçalves Pereira e, depois, Diogo Freitas do Amaral, e influenciaria, de modo impressivo, o ensino de Direito Administrativo na sua Faculdade, na da Universidade Católica, na da Universidade Nova de Lisboa, na do Minho, na do Porto, assim como a legislação e a jurisprudência mesmo após 1974. Embora tendo cultivado o Direito Constitucional, a Ciência Política, a História do Direito, o Direito Internacional Público, o Direito Colonial e Ultramarino, o Direito Comparado, o Direito Penal e até a Economia Política e a História da Filosofia Política, foi o Direito Administrativo o seu domínio de eleição, cabendo-lhe a fundação da correspondente Ciência, em termos globais, desde o Curso, depois Manual, de 1936. "
Este retrato de Marcello por Marcelo Rebelo de Sousa, ( um com um L a mais e outro a menos...) hoje no Expresso e que se estende nas páginas da Actual num artigo insosso de 4 colunas e várias fotos, assinado por Manuela Goucha Soares, vale o seu significado. É a primeira vez, que me lembre ( e tenho boa memória arquivada) que se pode ler este desvelo quase familiar e intimista por Marcello C., vindo de Marcelo R.S. Em trinta anos( não teve tempo antes, lê muito...), chegou a vez da verdade afectiva se sobrepor a uma verdade funcional? Haja Deus!
Será capaz de dizer isto, neste tom, na tv? Esperemos para ver.
Em 31 de Outubro de 1980, por ocasião da morte de Marcello, o Jornal, pela pena de José Freire Antunes, traçava um obituário menos personalizado, com o título “Marcelo e o fantasma de Salazar”:
Caetano viveu, mal, entre 1968 e a rendição no Carmo, com o fantasma de Salazar às costas, o pai político que três vezes negara para melhor amar. Quis renovar para subsistir. Rebaptizou a PIDE e a União Nacional, jogou os liberais, soltou as rédeas de certa oposição , abrandou a Censura, tomou banhos de multidão e falou em apanhar o comboio da Europa. Antigo ministro das Colónias, teórico ultramarino abalizado, começou por serenar os espíritos, jurando a defesa do património africano. Sabia quão desfasada era já a arenga do velho mestre, os tempos mudavam afinal, por mais penoso que fosse dizê-lo a um velho. Mas acabou por perder a cartada : deixou-se embrulhar pelo ultramontanismo; a sua Primavera política teve um invernoso epílogo e acabou a carreira, pouco gloriosamente, dentro de um Chaimite.”
Ao ler estes textos, carrega-se-me a perplexidade ao lembrar que ainda esta semana passada, o Consultor Vítor Dias, do PCP, escrevia no Público a recalcitrar que este agora retratado continuou a obra de Salazar, dando substãncia política ao regime que não hesita em continuar a reivindicar de “fascista”… Os argumentos de Dias, aliás, podem exemplificar-se com esta pérola da lógica argumentativa: “(…) há centenas e centenas de coisas e pessoas a quem o PCP nunca chamou fascista”! Isso para responder à pergunta retórica sobre se havia alguém ou alguma coisa em Portugal a quem o PCP não tivesse ainda chamado “fascista”…
Assim, continuando a saga da recolha de artigos sobre o nosso “fascismo” e quem o crismou, apresentam-se hoje mais uns episódios da epifania dessa celebração semiótica que nos ensaiou o discurso politicamente correcto.
Em Setembro de 1974, alguns descontentes com essa epifania e alguns apaniguados do antigo regime, apanhados com as calças na mão, na vertigem do 25 de Abril de 1974, decidiram-se pela reposição da sua voz, julgando ainda que sintonizava com a do povo em “maioria silenciosa”. Erro fatal!
Em menos de cinco meses, Portugal, com a ajuda preciosa de todos os media e as manifestações de rua de todos os partidos organizados para a luta popular, vivia a uma só voz: a do antifascismo! Os que ansiavam por outra coisa que não uma república popular democrática, à maneira de uma Cuba bem edulcorada nos media e que desejavam um governo escolhido por um parlamento eleito e um regime de efectiva separação de poderes, com controlo democrático feito de pesos e contra pesos, e a recolha dos militares às casernas, tinham pela frente os pesos pesados do antifascismo militante que os apodavam, sem qualquer rebuço de “fascizantes”, ou mesmo fascistas puros e duros. Ultramontanos, como também se dizia.
Não foi assim? Então ficam as imagens que substituem as palavras. São imagens desses primeiros seis meses após o 25 de Abril. Algumas referem-se aos acontecimentos de 28 de Setembro. Nessa data, a “maioria silenciosa” que não tinha voz nos media e que tinha vindo do 25 de Abril, sem lhe detectar o estigma fascizante, tentaram a sua vez. Fizeram uma tourada no Campo Pequeno, como costumavam fazer antes do 25 de Abril e que passava na tv e convocaram uma manifestação da tal “maioria silenciosa”.
Apareceu-lhes pela frenta a maioria ruidosa do 25 de Abril, capitaneada pela vanguarda revolucionária do poder popular, em diversos cambiantes, mas com predominância comunista já instalada nos media.
O Diário de Lisboa( dirigido por A. Ruella Ramos e José Cardoso Pires) e o Sempre Fixe( dirigido por A. Ruella Ramos e outros anónimos), fizeram-lhes a folha.
O cartaz de convocatória foi completamente aproveitado e redesenhado, passando a designar uma “minoria tenebrosa” , com o apelo expresso “abaixo a reacção”.
A manisfestação, patrocinada pelo “fascizante” Spínola que meses antes tinha sido o herói nacional com a imagem estampada em t-shirts, fracasssou e foram presos, numa leva inédita desde o 25 de Abril, os celerados conspiradores fascistas.
Os jornais moderados ( Expresso, República e outros, poucos) vertiam tinta de crocodilo, ao ecoar o chavão de que a “revolução, implacável, costuma devorar os seus filhos”…
Estas imagens, copiadas da edição do Sempre Fixe, de 30 de Setembro de 1974, revelam as peculiaridades idiossincráticas da linguagem que nem é sequer a "madeireira".
Mas nos dias, semanas e meses que se seguiram, até ao 25 de Novembro, quem se lembra, sabe que houve muito mais e melhor.
Para quem não se lembra nem quer lembrar, aqui ficam mais alguns exemplos:
Conforme se pode ver ( e ler, ampliando a imagem), começava mesmo nessa altura a caça efectiva aos reaccionários e "fascistas" de várias matizes e cores. Alguns deles foram mesmo apanhados e colocados em "boas mãos". Nomes bem conhecidos, podem ler-se nestes recortes amarelecidos pelo tempo. E por aí se pode ver o rosto do verdadeiro "fascismo" português, aquele que Vítor Dias e ainda uma São José de Almeida, porventura querem manter na memória viva de quem perdeu algumas memórias residentes.

Publicado por josé 18:11:00 12 comentários Links para este post
a diferença
sexta-feira, agosto 11, 2006
É nestas coisas que se vê como somos um país de absolutos apacóvios (das esquerdas aos auto-proclamados liberais). Cá, é tudo - GSM/UMTS/TV em sinal aberto - dado, ou quase, com escandalosas renovações administrativas de contratos de licença pelo meio. Lá fora não. Enquanto lá se embolsam um bons biliões de dólares, cá prescinde-se de encaixar umas boas centenas de milhões de €uros - afinal custa menos aumentar os impostos à plebe que comprar uma guerrazita com a PT, o Eng. Belmiro, o Dr. Balsemão ou a rapaziada da Média Capital... Uns podem, outros não - Portugal é assim.
Publicado por Manuel 12:50:00 11 comentários Links para este post
de mal a pior
A propósito da agitação no médio oriente toda, mas toda, a gente tem uma opinião. Acontece porém que desta vez a coisa está a fugir ao maniqueismo habitual e polarizador pró-Israel vs anti-semita. Naquilo que é visto como uma 'derrota' da estratégia israelita não faltam por estes dias vozes, no ocidente, alegadamente sóbrias, a demarcarem-se de Israel, em nome de um alegado sentido de humanidade. Sejamos claros, uma boa parte do arrazoado usado, por estes dias, por esta nova geração de pacifistas (?) de pacotilha é mais perversa e perigosa que todos os discursos anti-semitas juntos, e com consequências infinitamente mais perigosas no futuro imediato.
Em Portugal, como no resto da Europa e nos EUA, cada vez há mais gente que vê o diferendo enntre Israel e os estados vizinhos como uma mera questão local, quanto muito regional, que apenas aos próprios diz respeito, e como tal não querem saber. Acham, em concreto, que se se abstiverem no problema, safam a própria pele. É irónico, e cruel, que esta tese já comece a fazer doutrina, até nos EUA, que depois de resolvido (?) o problemazinho com o sr. Bin Laden no Afeganistão, se estão nas tintas que haja talibans de novo no poder em Cabul , desde que - desta vez - sejam os 'seus' talibans.
É dramático, e dá que pensar, ver por cá as esquerdas bem pensantes e uma boa parte da direita grunge embarcar de barato em teses que nos EUA são por exemplo defendidas explicitamente pelo sr. Pat Buchanan (vá... façam os trabalhos de casa) como se estas fossem a coisa mais simples e óbvia do mundo, e que no passado deram os resultados que deram.
Agitam-se argumentos grotescos e verdadeiramente imbecis como o de querer comparar a ETA com o Hezbollah, e as relacões de Espanha com a França com as de Israel com o Libano, como que alguma vez a ETA tivesse tido assento no Governo Francês ou alguma vez um PM francês tivesse dado (sobre a situação basca) uma entrevista comparável a esta (dada a semana passada ao Der Spiegel) pelo Primeiro-Ministro libanês. É verdade que numa guerra morrem pessoas, muitas delas inocentes, mas se há algo ululantemente óbvio em toda esta situação é que o grande erro de Israel - praticamente o único enclave ocidental na zona - foi ter esperado demasiado tempo para tentar neutralizar o Hezbollah. Quanto aos libaneses, qual avestruzes, ao tolerarem alegremente o fortalecer militar de um movimento (como se fosse a coisa mais natural do mundo um partido ter o seu próprio exército particular) em cujo material genético está como objectivo de topo fazer a vida negra a um estado vizinho, estavam à espera de quê ? De chá e bolinhos ?
O que se está a passar por estes dias é provavelmente a primeira grande vitória, tout-court, dos movimentos
anti-globalização. Por uma razão ou por outra demasiada gente acha que se todos ficarem no seu canto, a assobiar para o lado, os problemas se resolverão, como que por artes de magia. Não resolvem, e só se complicam. O arrazoado e a moralidade desta nova cambada de humanistas de aviário não é diferente, nem mais sofisticado, da realpolitik daqueles que na década de 20/30 assistiram sentados ao metamorfosear de Weimar no nazismo, não diferente do silêncio dos franceses perantee durante Vichy, não é diferente do 'pragmatismo' daqueles que forem insensíveis durante décadas a tudo o que vinha do lado de lá do Muro, é antes uma e a mesma coisa, antecipado-se os mesmíssos resultados do passado. Não é humanismo, nem coisa que se pareça, é tão só egoismo, hipocrisia e cobardia, pensam que se ignorarem o problema este desaparece e deixa de vir ter connosco. Ora, como hoje o Vasco Pulido Valente, a propósito dos atentados abortados de ontem, e a quem só faltou ler isto (Der Spiegel de novo) para perceber que a coisa ainda é mais grave do que ele julga, o problema existe, e vem, qual avalanche, desde há muito a caminho. Assim, ou se está preparado, ou não está, ponto.
P.S. Um destes fim-de-semana, antes de ir uma semanita de férias, tive a oportuniade de, num evento social, ficar na mesma mesa ao lado de um alto dignatário jordano, em trânsito na europa. Absolutamente pedagógico e imperdível. Lúcido, e com espírito afiado como um sabre, o personagem defendeu algumas teses interessantes - por exemplo, é contra o tal estado palestiniano, que diz não ir resolver nada, propondo antes como solução um grande estado na região absolutamente laico e não confessional. Sobre o 'ocidente', e os franceses e americanos em particular, acusa-os de hipocrisia e de não estarem minimamente interessados em resolver os problemas de fundo, apontando como exemplo o caridoso apoio dado à Arábia Saudita (até ao Egipto) que vê como quase tão perturbadores na região como a Siria e o Irão...
Publicado por Manuel 12:38:00 31 comentários Links para este post
Memórias apagadas
quarta-feira, agosto 09, 2006
(revista Flama de 7.6.1974)
( 2ª parte do texto Memórias inventadas)
Em Portugal, nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril, poucos se perguntaram , seriamente, com impacto na opinião geral e nessa altura, qual o significado exacto da expressão “regime democrático”, para o Partido Comunista Português, para o Partido Socialista e, já agora e então, para os restantes partidos. “Regime democrático”, “democracia” e “liberdades democráticas”, são expressões de significado aparentemente inequívoco. Mas pergunte-se ao PCP, ainda hoje, o seu verdadeiro significado e que consta do seu programa e ver-se-á a polissemia em estado latente!
Talvez por causa destas subtilezas semânticas, aligeiradas na consciência do “nosso povo”, não houve problema de maior, em fazer aprovar maioritária e constitucionalmente, o propósito em fazer caminhar Portugal, para uma sociedade sem classes e com o poder a exercer-se democraticamente, pelas classes trabalhadoras. Ninguém logrou opor-se, com êxito, ao preâmbulo da Constituição de 1976 onde se fixa logo no primeiro parágrafo que “A 25 de Abril
de 1974, o MFA, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista”. E a mudança de paradigma, demorou anos, discussões infindas e compromissos vários, para conseguir impor-se como lei geral do país!
Esta linguagem altamente comprometida com o discurso habitual da esquerda comunista e socialista, pré-gaveta e até pós-gaveta, perdura por isso, em Portugal, há mais de trinta anos. É uma linguagem intelectualmente rigorosa? Não faltará quem o diga. É correcta? Politicamente, até parece correctíssima. E será condizente com a explicação da realidade? Os historiadores e sociólogos que o digam.
A verdade, porém, segundo o que me parece, é que nem sempre foi assim e só assim passou a ser, após o sequestro ideológico, pela esquerda militante dos amanhãs a cantar e do socialismo, mesmo democrático, de uma retórica ideológica bem marcada e identificada e que se tornou um monopólio de referências.
Assim, conviria talvez investigar o discurso corrente, de algumas figuras importantes, logo nos tempos imediatos após a eclosão do movimento militar em 25 de Abril de 1974.
Aí, acaboui por dizer que “Tudo quanto eu tenho a dizer ficou dito aqui”. E por isso, podemos ler o seguinte:
“Éramos cantores dos meios proibidos, subterrâneos, não usávamos de qualquer protecção oficial(…)ora no dia 25 de Abril aparecemos à tona, como os ratos que vêm dos buracos(…) aqui para nós eu nunca me insubordinei, nem fiz alusões aos cantores que directa e indirectamente, coagidos ou não, com este ou aquele álibi, eram escolhidos ou tolerados pelo regime nas suas actuações oficiais. Em resumo, nunca ataquei aquilo que se convencionou chamar nacional-cançonetismo. O que sempre me interessou foi que se criasse no público determinado tipo de exigências de ordem cultural que o levassem a preferir determinadas manifestações, em lugar de outras. (…) Eu fui um indivíduo, digamos, superficialmente perseguido.Não tanto como cantor, e a prova é que parte da minha produção circulava
fascismo me votou me foi de certo modo benéfica. (…) Sinto-me perfeitamente solidário com os meus outros amigos e posso nomeá-los: Francisco Fanhais, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília, Sérgio Godinho, Manuel Freire, Laranjeira, José Jorge Letria, A.P. Braga, entre outros.”
Em entrevista a revista da época ( Século Ilustrado de 13.7.1974)), Miller Guerra, médico de profissão e uma das promessas do novo regime, antigo deputado da Ala Liberal, junjuntamente com Sá Carneiro, Magalhães Mota e outros, dizia algo bem mais prosaico e provavelmente bem mais sintonizado com aquele “ sentimento profundo “ do povo português, explicando em poucas palavras o devir do Movimento do 25 de Abril e o estado geral do povo
“Há na realidade um processo em curso muito importante, que é o da libertação do jugo que pesou sobre o país durante várias dezenas de anos. O País estava morto por se ver livre desse jugo e o 25 de Abril significou, em primeiro lugar, uma libertação. Segundo ponto importante: o 25 de Abril permitiu o desenvolvimento de um processo político-democrático que se tem desenrolado com certa dificuldade e isso compreende-se por duas razões: o povo português foi, sem dúvida, surpreendido por esta liberalização e, por outro lado, encontrava-se completamente alheio ao processo político, visto, durante tantos anos, ter sido sistematicamente afastado do Poder, embora houvesse quem dele participasse, mas sob condição.
A adesão que o povo português devia dar a um processo democrático e plural nunca existiu, mas sim a submissão, ou seja aqueles que se submetiam, participavam, e os que não se submetiam eram considerados
heterodoxos, muitos deles perseguidos e outros presos. O regime sob que se viveu e que não foi outro, exerceu, naturalmente, uma espécie de preceptorado político em duas gerações. Não é, portanto, de admirar que no fim desta deseducação ou pseudo-educação política exercida sobre a população durante
tanto tempo, surgido o 25 de Abril, o primeiro movimento, e que ainda continua, seja de surpresa , de inquietação e de dúvida para grande parte dos portugueses. Não para todos, evidentemente. Conservou-se, na realidade, apesar das vicissitudes e dificuldades, um conjunto de pessoas perfeitamente conhecedoras da política e tanto quanto possível actualizadas e que neste momento podem exercer influência relevante na organização, consolidação e desenvolvimento do processo democrático, de modo a podermos dispor dentro de algum tempo de uma perfeita sociedade democrática, igual a qualquer outra do Ocidente.”
Veiga Simão, ministro da Educação de Marcelo Caetano, em entrevista breve ao mesmo Século Ilustrado de 4.5.1974( ilustração do postal anterior sobre as Memórias Inventadas), que apresentava a capa com uma foto de uma avenida de Lisboa, pejada de manifestantes que faziam o “V” de vitória e ainda muito poucos cartazes, sem qualquer referência visível a slogans “de partido”, para além do título “o povo unido jamais será vencido” – vindo directamente de uma canção chilena de 1973, do grupo Quilapayun – dizia, sobre a reforma do ensino que então projectou : “É uma reforma digna que pode ser apresentada em qualquer país”. Durante a breve entrevista, em casa, ( num quarto andar bem perto da Avenida de Roma), sobre “a situação actual do país”, reafirmou a sua fé nos “caminhos da liberdade e de construção de uma sociedade democrática”.
Quem se apoderou da palavra, foi a esquerda que dominava então quase todos os media com influência real. Os artistas, com destaque para os cantores, antes disso baladeiros, seguiram no mesmo rumo, de adesão a um discurso do qual., aliás, tinham sido percursores de mérito.
A esquerda clássica portuguesa, ao apoderar-se da palavra “fascismo” e ao dominar a sua difusão, construiu um discurso à volta da mesma que ainda não se decompôs.
Há algumas expressões, conceitos, ideias feitas e palavras avulsas que podem enfileirar numa lista para uma gramática da ideologia de uma certa esquerda. Essa gramática, aos poucos, tem vindo a ser contestada e denunciada, num fenómeno algo desconstrutivista e interessante e que só pode ganhar com um cada vez maior alargamento, á custa, se necessário for, de polémicas construtivas.
Sendo óbvio que isso implica um afrontamento directo ao discurso comunista, tal impõe cuidados especiais de equilíbrio e de ponderação de modo a não se operar uma substituição de palavras mal ditas por outras ainda menos perfeitas e portanto malditas na mesma.
A acrescer a estas dificuldades, o predomínio da linguagem de esquerda, com o seu léxico e
gramática próprias, entrou na corrente comum da linguagem de muitos dos que escrevem
mesmo os mais subtis, integrou-se numa boa parte da nossa cultura geral e destrinçar diferenças no discurso tornou-se deletério. Para além disso, como a esquerda não detém o monopólio da asneira ou do erro, o discurso que se lhe opõe, hoje em dia, vem de um sector neo liberal de ascendência anglo saxónico e centrado no fenómeno económico, sem alargamento significativo a aspectos culturais ou estéticos. Daí, a supremacia que se evidencia continua a manter-se e quem se opõe à corrente, não tem força para remar contra a maré. Não é na revista Atlântico ou nos blogs simpatizantes de neo conistas e afins que se encontram ideias de contrapeso suficientemente, equilibradas para essa tarefa.
Assim, um dos últimos reflexos do fenómeno deram à luz no jornal Público destes últimos dias. A jornalista São José de Almeida, responsável por algumas notícias numa das secções do jornal, deu em reivindicar publicamente o estudo do “fascismo” de Salazar e Caetano, para que não se apague da memória, nem se branqueie o Estado Novo. Vasco Pulido Valente, no dia seguinte, na crónica de Domingo de 30 de Julho, escreveu que esse “fascismo”, não passava de "uma invenção estalinista” e que misturar Salazar com o consulado de Caetano, releva de uma especial cegueira.
O comunista (?) Vítor Dias, na qualidade de “consultor”, vem defender o uso apropriado da palavra “fascismo”, privatizando a mesma numa espécie de instituto público, com o significado semântico habitual e adequado à realidade portuguesa habituada a entender o fenómeno do Salazarismo/ Caetanismo. E clama em seu favor, a existência de resmas e resmas de ensaios de prestigiados autores que não hesitam em
Nesta polémica, assume carácter muito curioso, uma carta ao Director, publicada no Público de 3 de Agosto. Assinada por um tal António Melo, de Lisboa, em certa passagem diz assim, para criticar o artigo de VPV e defender a noção idiossincrática de fascismo, tal como o PCP o faz:
“O fascismo afirmou-se sempre como anti-parlamentar e anti-democrata, proclamando decadentes os regimes que assentassem no pluripartidarismo e na expressão livre de opiniões. [Será caso para perguntar ao sr. Melo: mas há aqui alguma diferença substancial com o comunismo? Álvraro Cunhal não chegou a afirmar que nunca haveria democracia parlamentar em Portugal?].
Assentou na criação de um partido único, onde se condensavam todos os vultos nacionais, tinha na exltação nacionalista a sua justificação política e no expansionismo territorial o seu objectivo. [Pergunta-se novamente: e haverá, ainda aqui, diferença substancial com o comunismo? O PCP admitiria concorrência pluripartidária em caso de maioria? O Internacionalismo proletário não era uma bandeira? ].
As liberdades cívicas podiam- deviam- submeter-se a estes desígnios.[Alguma diferença com o comunismo? A censura e o controlo de todos os órgão se de informação e propaganda não era uma das exigências do Partido?]
O Estado para exercer a sua autoridade devia deter um poder absoluto, constitucionalmente conferido [Alguma diferença com o comunismo? Não dependia tudo do Partido que se confundia com o Estado?] .
A soberania deixava de residir no povo para passar a ser representada pela nação,invocada como abstracção histórica de feitos heróicos [Aqui há uma diferença aparente: a nação soviética é a pátria dos povos…].
Assim, perante esta muito curiosa definição de “fascismo”, aplicada ao caso português, será altura de perguntar se o MRPP de 1975 não teria alguma razão, ao apodar o PCP de partido… social-fascista! ?
Foi uma das poucas vezes que alguém virou o bico ao prego comunista…e com algum sucesso, diga-se.
Assim, o que resta fazer, para preservar a memória do que é antigo, será começar por não a desvirtuar. E para isso, será preciso analisar o discurso corrente de quem agora anda pressuroso a resgatar memórias...inventadas.
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bump keying
terça-feira, agosto 08, 2006
A propósito da prosa abaixo, acerca da 'bondade' do MP versus as teses cabalísticas do dr. Pacheco uma breve nota - como regra geral, não vale a pena procurar em cabalas, conspirações, até no 'oculto', a explicação para factos que podem ser (muito) mais facilmente explicados de forma infinitamente mais simples. Por muito que custe o MP não é melhor que o País que temos, é também, e tão só, mais um espelho do país que temos, com mais maus que bons, ponto. Como tal não vale a pena esperar milagres, não vale a pena esbracejar com a Lei, com o passado, ou até com a coerência - as coisas são o que são, e estão à vista de todos. Os critérios de seleção do CEJ são aquilo que se sabe (sugiro uma olhada aos testes (e às notas) de cultura geral para se perceber a dimensão do drama) e pese o facto de ainda haver por aí uma série de almas piedosas e competentes, que as vai havendo, formadas noutros tempos, que ainda acreditam no Pai Natal, o facto é que um analfabeto funcional, que nunca foi ensinado a pensar e raciocionar, não passa a ser algo mais, quanto muito, que um básico funcionário/burocrata só pelo facto de doravante ser 'juíz' ou 'procurador'. Foi, e é sempre assim - sem ovos não há omoletes. Salvo honrosas excepções para as magistraturas, como para as polícias, vai o refugo, o que não arranjou nada para fazer noutro lado. É por isso que a investigação nunca leva a lado nenhum, porque o confronto não é leal/equilibrado, porque muito mais do que a falta de meios, são os recursos humanos que falham - ora os novos por manifesta falta de qualidade, ora os velhos porque pura e simplesmente desistiram e não estão para se chatear, porque 'não vale a pena', ora os rambos , porque acham que perdido por cem, perdido por mil, alinhando no valle tudo.
Aquilo que o dr. Pacheco não percebe é que o MP acaba de facto, e demasiadas vezes, a fazer política, não por acção, mas por omissão, o que está longe de ser a mesma coisa. Quanto ao caso do envelope 9 eu até concedo que muito do que se passou era dispensável - é ululantemente óbvio que, afundados em formalismos, muito boa gente do MP não percebeu, e continua sem perceber, não só o que se passou, como, mais importante, o contexto em que as coisas se passaram. São, mais uma vez espelho, do País - afinal, ainda hoje, o dr. Pacheco (que curiosamente não vi indignar-se acerca da 'habilidade' usada para 'apanhar' jornalistas no caso freeport) também não percebeu, nem dá sinais de querer perceber o âmbito da coisa.
Para o MP, como um todo, voltar a ser levado a sério não é preciso um clone do dr. Cunha Rodrigues a PGR - basta que passe a haver, no seu seio, um pouco, um mínimo, de humildade e autocrítica. Auto-crítica essa que mais tarde ou mais cedo vai ter que passar, sem dramas, e falsas demagogias, por uma avaliação dos quadros disponíveis, assim como medidas consequentes desta. Até lá, não passarão de sacos de boxe onde são descarregadas as frustações, alheias e do momento. Nem mais, nem menos.
Termino como um pequeno documentário, dedicado ao Procurador Rosário Teixeira... Bem vistas as coisas, está lá tudo.
Publicado por Manuel 11:55:00 6 comentários Links para este post
os cães ladram e a caravana passa
(El arte del siglo XX en la Colección Berardo)Lugar: Sede, A Coruña
29 junio – 26 noviembre de 2006
Horario de exposiciones:
Martes a sábado, festivos incluidos: 12h - 14h y 18h – 21h Entrada gratuita
La Fundación Pedro Barrié de la Maza presenta a través de esta exposición de producción propia y primera presentación de la Colección Berardo en España, un recorrido asíncrono por la historia del arte contemporáneo. A través de una cuidada selección de 39 obras paradigmáticas pertenecientes a la Colección Berardo, la exposición se ha concebido como un rico hipertexto en movimiento lleno de saltos cronológicos y asociaciones formales y conceptuales que esquivan la habitual lectura lineal de la historia del arte como una sucesión lógica de estilos superpuestos
Artistas que desafiaron a la propia historia del arte (Marcel Duchamp, Andy Warhol, Joseph Beuys, Piero Manzoni, Yves Klein, Bruce Nauman, Jeff Koons o Juan Muñoz); figuras indiscutibles que reflexionaron sobre las condiciones y posibilidades de la pintura (Kasimir Malevich, Piet Mondrian, Ad Reinhardt , Lucio Fontana, Morris Louis, Roy Lichtenstein, Georg Baselitz, Sigmar Polke, Daniel Buren, Julião Sarmento o Chris Ofili) y de la fotografía (Alexander Rodchenko, Cindy Sherman, Nan Goldin o Hiroshi Sugimoto); artistas históricos del arte conceptual (Joseph Kosuth, Art & Language); del minimalismo (Carl Andre, Dan Flavin, Donald Judd), del arte povera (Giovanni Anselmo) o del videoarte (Nam June Paik, Tony Oursler), conforman una amplia visión de la historia del arte representada por algunas de las más destacadas obras del siglo XX.
Publicado por contra-baixo 11:31:00 0 comentários Links para este post
Palavras abruptas
Não leio a revista Sábado. Por causa dos cronistas e por causa da fraquíssima qualidade de escrita e temática habitual. Escusado será dizer que é revista sem futuro à vista.
Leio o Abrupto, quando o tema me interessa. O tema que lá está hoje, transcrito da revista Sábado, e intitulado “Será que o MP não consegue fazer as coisas bem uma única vez?” , é uma perfeita ignomínia. Mais uma.
Analisemos o artigo:
1.” A mediatização da Justiça foi deliberadamente procurada por um dos “agentes da justiça”, o Ministério Público.”
Esta afirmação, de vulto e de tomo, precisa de factos para a sustentar. Mas não há factos nessa sentença aviltante. Opinião pura, seria pura e simplesmente riscada, por um qualquer fact checker que se prezasse. Vale zero como afirmação e sendo, na minha perspectiva, inteiramente falsa, é a primeira ignomínia. Ampliada pelos pretensos factóides relativos à politização do MP, em casos contados e apontados - MP contra PSD; MP contra CDS e MP contra PS- bastaria um exercício mais atento de análise, para perceber que o MP não poderia mudar assim tanto, com o tempo e tendo em conta que tais mudanças ocorriam com o mesmo PGR, Cunha Rodrigues. É uma opinião que nem sequer abona inteligência de quem a produz.
2. “Os políticos do PSD, do PS, do CDS e do PCP deram ao MP quase tudo que ele exigia, em particular um modelo de autonomia quase sem limites, à italiana, com medo de parecerem pouco zelosos na luta contra a corrupção.”
Esta afirmação, vinda de quem vem, tem o seu interesse. Pacheco Pereira, era um dos deputados na AR,( um político do PSD, portanto) em 27 de Fevereiro de 1992, altura em que se discutiu na mesma AR a autonomia do MP que alguns ( Proença de Carvalho à cabeça) queriam cortar cerce, escolhendo outro modelo que não o actual e que tinha sido consagrado em 1978 no Estatuto do MP e depois na Constituição, na revisão de 1989, ficando expresso legalmente em 1992.
Não me lembro de ver Pacheco Pereira falar ou escrever nesse dia ou noutros, na AR, acerca do assunto da autonomia do MP. Lembro-me bem de o ver, numa das primeiras bancadas, a questionar o presidente do hemiciclo ( Barbosa de Melo, do seu partido) para saber quem tinha deixado entrar nos corredores da Assembleia umas centenas de manifestantes ordeiros que se sentaram nas galerias e a mencionar a desigualdade dessa extravagante concessão de direito de entrada, antes da abertura da sala nobre do Parlamento e da entrada dos deputados no hemiciclo! Citou os operários da Lisnave a quem provavelmente não seria concedido tal direito...
E contudo, apesar de ficar publicamente mudo e quieto sobre o assunto, sendo deputado e político, muito teria então a dizer sobre a autonomia e o modelo italiano que na altura fazia furor. Mas então não o fez- que se saiba. Fá-lo agora, sem fundamento teórico de espécie alguma e só para dizer de substancial que essa autonomia quase não tem limites!
Será preciso dizer-lhe frontalmente, desmentindo-o, que tem limites. E muito importantes. “A autonomia do Ministério Público caracteriza-se pela existência de mecanismos de governo próprio, pela vinculação dos magistrados a critérios de legalidade e objectividade e pela sua exclusiva sujeição às directivas, ordens e instruções previstas no Estatuto do Ministério Público.” São esses os limites e discutir o assunto, deste modo, atirando a afirmação gratuita , não passa da demagogia e da mais rasteira, parece-me.
3. . “A instituição( o MP) estava solidamente ancorada no justicialismo”, diz Pacheco Pereira. Justicialismo?!! Mas que é isso de justicialismo? Onde foi ler tal enormidade para escrever aqui? Será o justicialismo peronista?! Alguma nova doutrina inventada a preceito para o artigo da Sábado?! E se a explicação for a que adiantou a seguir com a singular frase definidora de “atitude justicialista, ou seja, de uma política que nada tem a ver com a democracia”, confesso, com pesar, a minha profunda ignorância deste nova corrente filosófico-sociológico-normativa, a comprometer axiologiamente o MP com uma esquerda ou uma direita canhota que não se enxerga.
4. “Com a mudança do Procurador, este encontrou um MP fortalecido com poderes até ao limite da afronta às liberdades pessoais e direitos de defesa, com utilização quase indiscriminada e incontrolada das escutas telefónicas (responsável: António Costa) e da prisão preventiva como instrumento de coação”.
Vejamos: o código de Processo Penal, vindo de 1987, aprovado pelo governo do PSD,( em que Pacheco Pereira foi deputado pelo PSD) viu a sua última revisão de fundo, em 1998, pela mão do professor da UC, Germano Marques da Silva e do PS.
A lei de processo penal é o instrumento chave dos poderes de intervenção do MP. E porquê do MP? Porque a filosofia desse código, genericamente apoiada pelo professor de Direito, Figueiredo Dias ( do PSD) na qualidade de presidente da Comissão Revisora, atribui ao MP o monopólio da acção penal e da direcção do Inquérito, onde se investigam todos os crimes. Pacheco Pereira tem de saber isto, para poder escrever o que escreveu sobre estes assuntos.
E só lhe seria útil saber também que relativamente a todos os casos polémicos, Cunha Rodrigues, em entrevista ao Independente de 5.12.1998, disse que “O Ministério Público foi pressionado” e sobre os tais poderes fortalecidos do MP, o mesmo Cunha Rodrigues se queixava, como ainda hoje se queixam alguns magistrados do DCIAP e de outros lados, de que “ o MP tem a tutela funcional dos processos, mas não tem os meios. Que interessa ter a tutela funcional do processo se não são adjundicados meios ao processo ou são adjudicados segundo decisões que não são as do MP?"
Pacheco Pereira sabe o que isto significa? Precisamente o contrário do que escreveu.
Pacheco Pereira sabe como funcionava e funciona a PJ? De quem depende efectivamente e qual o sentido da noção de dependência funcional?
Saberá qual a diferença essencial que existe entre o modelo português e o italiano que tanto cita no artigo? Desconfio que não sabe, pois se soubesse não escreveria o que escreveu.
Mais ainda e bem pior: ao dizer que o MP fez uma utilização “quase indiscriminada e incontrolada das escutas telefónicas”, supõe-se que Pacheco Pereira saiba quem autoriza as escutas telefónicas num processo concreto. E saberá igualmente tal coisa, no que se refere às prisões preventivas.
E assim, como sabe que é sempre um juiz de instrução, independente do MP, sabendo ainda qual a distinção entre os poderes de um JIC e os do MP, o que resta perguntar, é: que sentido faz o que escreveu? Para quem escreve, afinal? Para bacocos ou para um público por quem é preciso ter algum respeito intelectual?
De resto, Pacheco Pereira acaba no ponto que começou: com uma acusação concreta ao MP de estar a fazer política. Por causa do "envelope nove". E mostrando ainda que não percebeu, depois deste tempo todo, qual o motivo do Inquérito.
A acusação é grave, a precisar urgentemente de provas. Que se sabe muito bem que não virão. Pacheco Pereira vive de frases soltas, como essa, em que processa intencionalmente toda uma instituição, sem qualquer fundamento credível a não ser a do palpite opinativo.
E terminando também no seu registo, “quando uma instituição central do nosso sistema de justiça é acusada sem fundamento sério, de entrar na política e essa acusação ficar impune, está posto em causa o funcionamento normal da democracia.”
Isto assim, de facto, não pode continuar e impõe-se uma intervenção de quem de direito.
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Memórias inventadas
segunda-feira, agosto 07, 2006

Antes de 25 de Abril de 1974, não havia “fascismo”, em Portugal. Ou, se havia, seria tão notório como o “comunismo”.
Aliás, nem sequer no estrangeiro ocidental, liberal ou mesmo social democrata, se via “fascismo” em Portugal. A revista Time ( com a senhora Martha De la Cal que ainda anda por cá), de 6 de Maio de 1974, ao fazer o obituário do regime que até então vigorou em Portugal, colocou na capa um Spínola estilizado num traço de Zagorski, com uma tarjeta a chamar a atenção para o “coup em Portugal”. No interior, nas cinco páginas que dedicou ao tema, referiu “um Livro, uma canção e então uma revolução”, como mote e a designação do regime como “archi-conservative”. E a palavra mal dita, só surge para descrever um país que simpatizava com o “fascismo”…mas em 1941.
Contudo, se não se vislumbrava o fascismo ou o comunismo, havia, já há muito tempo, em suplementos de jornais da Capital, do Diário de Lisboa, do Diário Popular e nas revistas de especialidades artísticas e musicais, o “reaccionarismo” e o “progressismo” e ainda o “obscurantismo”, parentes dilectos da mesma linguagem com gramática própria.
Havia também ainda uma diferenciação entre “esquerda” e “direita”, bem demarcada para alguns e que subsistiu bem durante os anos sessenta e setenta, no Portugal de Salazar e Marcelo Caetano.
A prova? O falecido Mário Castrim, crítico de jornais e insuspeito comunista, numa entrevista à revista Cinéfilo de 27 Dezembro de 1973, falava numas certas realidades que parecem bem esquecidas, nos tempos que correm:
Numa entrevista que passou na Comissão de Exame Prévio –Censura- do regime de Caetano, dizia:
"Condeno os intelectuais que deixam a televisão servir-se deles. Que foram fazer á televisão, por exemplo, mais do que a sua promoçãozinha pessoal, o António Gedeão, o João Gaspar Simões, a Agustina Bessa Luís, o Mário Cesariny, o Palma Ferreira, o António Ramos Rosa, a Natália Correia? “Que foram lá fazer, senão enredarem-se em minhoquices e darem-nos uma tristíssima figura deles próprios? Onde provaram serem homens das esquerdas, se a sua presença foi tão inócua como a presença dos homens das direitas?"
E adiantava ainda:
“Continuamos na mesma técnica confusionista do “isto é tudo a mesma coisa”. É mentira. Há gradações. O dinheiro não é todo o mesmo. Não é a mesma coisa, por exemplo, colaborar no Diário de Lisboa ou na Época; na Voz Portucalense ou na Ordem; na Opinião ou na Política. Como não é a mesma coisa colaborar na Crónica Feminina ou no Actualidades. Como ainda, até mesmo dentro da televisão, não é a mesma coisa colaborar dentro do Ensaio ou dentro do TV7 ou do Telejornal.”
Castrim, conseguia fugir um pouco do sectarismo agregador e capador, mesmo em tempos de “obscurantismo”: “ Em política, o meu partido é um ( o comunista, entenda-se); na crítica, o meu partido é o da qualidade, do profissionalismo, da tarefa cumprida com amor, com alegria e com verdade. Nunca procurei saber qual é a filiação política do António VIctorino d´Almeida, do Hélder Mendes, do Nemésio, do Artur Agostinho, do João Martins , do Sousa Veloso, etc. E neste etc. cabe por exemplo, o caso limite de José Hermano Saraiva: de poucos teria eu tantos motivos ideológicos para dizer mal; de tão poucos tive a satisfação de dizer tanto bem…já podem ver.”
Logo a seguir ao movimento militar de 25 de Abril, a linguagem mudou e quem introduziu a nova língua, apresentando-se em público pela primeira vez, foi inequívoca e compreensivelmente, o Partido Comunista Português. E também o Partido Socialista, ainda em maré de marxismo militante e defensor da sociedade sem classes, muito antes de colocar o socialismo na gaveta e assumir abertamente a cartilha social democrata, facção Olof Palme.
O primeiro comunicado do PCP, após a eclosão do movimento, saudava calorosamente o Movimento das Forças Armadas que abria perspectivas para a curto prazo ser “liquidada a ditadura fascista, seja posto fim à guerra colonial e seja instaurado em Portugal um regime democrático.”
O primeiro comunicado do PS, também não mascara a palavra fascista e usa-a largamente, acolitando-a da “ditadura” para descrever o regime deposto, prometendo esforços para a instauração no país de uma “democracia socialista”, “sob o impulso da luta das classes trabalhadoras”.
As primeiras palavras de Mário Soares, com o pleno assentimento presente de Manuel Serra, Ramos da Costa, Magalhães Godinho e Tito de Morais, ainda na estação de Santa Apolónia, vindo de Paris ( tempos difíceis), contemplavam a homenagem a “todos os que, ao longo desta noite de 48 anos, nunca se renderam ao fascismo”.
As primeiras palavras de Álvaro Cunhal, no aeroporto da Portela, em 29 de Abril de 1974, vindo da clandestinidade mais profunda, e na presença entre outros, de Mário Soares, Tito de Morais, Octávio Pato, Carlos Brito, Dias Lourenço e …Vítor Dias, foram estimulantes para os presentes: “Neste momento, o futuro do nosso país está nas mãos de todos os democratas que desejem libertar-se do fascismo”.
Há uma diferença fundamental no modo como a palavra era dita por Álvaro Cunhal e Mário Soares. Para aquele, sempre foi um “fascismo” de boa dicção; para este, já era um adulterado “faxismo”, com o “a” fechado. Depois, dali a tempos, a multidão passou a entoar a vulgata do “fássismo”, como se compreende numa população esclarecida em comícios e folhetos panfletários. A palavra “fássista” passou a ser o insulto preferido na rua popular, temido principalmente pelos que nunca o foram. E, simetricamente, o qualificativo “anti-fascista” , uma das melhores recomendações para qualquer cargo de relevo político.
A publicitação larga que na altura é feita àqueles comunicados e proclamações políticas seminais, através dos media, todos eles, sem excepção de relevo, sintonizados com o “25 de Abril” e dirigidos por muitos daquele que Mário Castrim definia como diferenciadores, para a “esquerda”, contribuiu para uma completa viragem no tipo de discurso político “ de rua”. O Século Ilustrado era dirigido por Redondo Júnior, Duarte Figueiredo e Rogério Petinga, com a colaboração, entre outros, de Afonso Cautela, José Manuel da Fonseca, Maria Antónia Palla.
A Flama, outra das revistas de grande circulação era dirigida por António dos Reis e Edite Soeiro e a Vida Mundial, por Augusto Abelaira.
Em poucos meses, ninguém de bom senso contestava publicamente a adequação da palavra mal dita ao regime deposto de Salazar/Caetano. Fascismo, faxismo, fachismo ou fássismo, são a expressão da equivalência de uma mesma noção: o repúdio generalizado do regime deposto de Salazar/ Caetano. Singularizado nessa única palavra, ficou assim definido, assente, fixado, para a historiografia comunista e socialista e sem contestação visível ou audível, o regime de Salazar e Marcelo Caetano.
A defesa das eventuais virtualidades positivas do regime deposto, ficou a cargo de anónimos irrelevantes, em artigos dispersos, livros mal escritos, e conversadores de café. Em 1975, em Portugal, já não havia jornais de “direita” a defender o regime de Salazar/Caetano e as tentativas que se seguiram, ecoaram todas num mar de indiferença, amplificado pela mediocridade intelectual dos que ousaram virar-se contra a maré. Jornais como a Rua, o Diabo, ou o Dia, acolhiam saudosos e nostálgicos do tempo da outra senhora, pois os senhoritos tinham-se bem adaptado ao Expresso, depois ao Tempo, e mais tarde ao Semanário. Os livros de alguns próceres notáveis do antigo regime, maçudos de irrelevâncias várias, foram pouco lidos, esquecidos e passaram rapidamente ao sector das curiosidades nas feiras de livros. Os media em geral e a inteligentsia de “direita” em Portugal, incluindo neste leque alargado, o centro direita da social democracia liberal, não impôs qualquer linguagem diferenciadora e esclarecedora que a apartasse da nova língua da esquerda. O “fascismo”, por isso, assumiu o significado que a esquerda lhe emprestou e carimbou. Um significado alargado, englobante e funcional. Em vez de uma noção restrita do fascismo italiano e alemão, passamos a ter uma noção ampla do fascismo histórico, onde se incluíram não só todos os regimes ditatoriais que se opunham ao comunismo, como também todos os partidos e correntes que se opunham em termos ideológicos. Nessa noção cabe, por isso, “um certo núcleo de características ideológicas e/ou de critérios de critérios organizativos e/ou de finalidade política”
A indeterminação desta noção é tal que o insuspeito Norberto Bobbio publicou, com outros, em Itália e em 1976, um Dicionário de Política( de onde se extraiu a citação) , onde define “fascismo” de modo a não deixar dúvidas sobre o cuidado a ter com o termo e a recomendar o seu uso restritivo, por causa da dificuldade em delimitar o conceito de “fascismo histórico”. O livro, sendo 1976, por cá não pegou, à semelhança do compromisso histórico.
O que pegou, e de estaca, foi um uso e abuso de certos termos e palavras, generalizando-se até aos nosso dias, a linguagem cunhada pela esquerda clássica, sem contraponto crítico.
(continua)
Publicado por josé 14:05:00 9 comentários Links para este post
Antes
sábado, agosto 05, 2006
Publicado por contra-baixo 18:57:00 4 comentários Links para este post
Rachid Kaci
Culto, elegante e licenciado em matemática, Rachid Kaci é um político francês de origem argelina fundador de La Droite Libre, um movimento assumidamente liberal e defensor de valores recalcados no sub-consciente ocidental como a liberdade de consciência, o esforço e a responsabilidade individuais, a igualdade entre homens e mulheres e a laicidade, não dando tréguas ao islamismo que assaltou as democracias ocidentais com o beneplácito de uma esquerda contaminada por um discurso vitimizador do imigrante e de uma direita envergonhada politicamente correcta.
Leitura recomendada: Face aux obscurantismes (l'islamiste et les autres) : le Devoir de Liberté.
Publicado por Nino 08:51:00 21 comentários Links para este post
Socorro
Estou preocupado. A crer no Correio da Manhã, os bombeiros voluntários portugueses perdem 21 cêntimos por cada quilómetro de ambulância percorrido. Numa época de crise de valores humanos, sobretudo o do petróleo, um grupo de probos cidadãos abnega-se, endivida-se diariamente no asfalto em prol do bem-estar dos demais. Como? Vendendo terras na aldeia, organizando quermesses na paróquia, vendendo o “borda de água” nos semáforos, apagando mais fogos, abanando o capacete e despindo a farda em pistas de discotecas. Até quando suportarão? Eu não consinto compactuar na desgraça e humilhação de um grupo profissional a quem devo a vida: foi sobre a maca de uma ambulância, em revisão na garagem do meu tio mecânico, que os meus pais se conheceram e me conceberam.
De futuro, sempre que pretender deslocar-me a um hospital por qualquer motivo válido – uma picada de melga, um teste de gravidez à minha companheira, uma refeição grátis ou uma escapadela de alguns dias do frenesim do trânsito - prometo contactar antes a mais credível central rádio táxis do país (já colei o seu telefone na porta do frigorífico). O Instituto Natural de Encenação Móvel, esse sim, está especialmente vocacionado e certificado pelo Estado para o transporte seguro de bens – nomeadamente adereços de espectáculo de rua como desfibrilhadores e ambus - e de figurinos trajados a rigor de coletes reflectores e tetoscópios, que me descarregarão, pelo menos seco e enxuto, à porta de um qualquer serviço de urgência, geralmente sob as palmas de uma entusiasta plateia.
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"O excesso de velocidade é um factor subjectivo", Miguel Sousa Tavares
Publicado por Nino 01:55:00 4 comentários Links para este post
