O "novo" jornalismo

Café da esquina. 8 e meia da manhã. Há várias pessoas na sala, sentadas em algumas mesas. A bebericar da chávena; a ler o jornal ou a conversar. São clientes habituais do café, que dali a pouco vão sair para o trabalho, regressando no dia seguinte, à mesma hora, para a bica da manhã.
Do mesmo modo, poderíamos descrever o ambiente numa repartição de Finanças, Câmara, bancos ou até mesmo na redacção do jornal Público. Que é que ficaríamos a saber sobre esse ambiente ou sobre o que provoca esse ambiente, com descrições destas?
Pouco. Quase nada.
E contudo, é assim que podemos ler, neste tipo de escrita, a jornalista do Público, Paula Torres de Carvalho, a mostrar “Retratos da Justiça em Portugal”. É esse estilo que podemos ler nos dois artigos, de duas páginas cada e que começou a publicar esta semana sob esse título impressivo e que promete continuar por mais dois ou três dias.
O artigo de ontem, titula “ O relógio da Boa-Hora”. O de hoje, “Os magistrados, jura por sua honra dizer a verdade?
Ambos se dedicam a descrever ambientes e personagens, narrando ao mesmo tempo pequenas histórias dos julgamentos que decorrem no tribunal da Boa-Hora.
Quem os ler, que retrato observará da “Justiça em Portugal”? Aquele tipo de relato, a aremedar o novo jornalismo, o que é que pretende mostrar ao leitor?
A presença de guardas prisionais em julgamentos de arguidos presos? Qual a novidade?
A atitude dos funcionários, na sala de audiências? Que acrescenta de especial?
O papel dos magistrados? O que pretende informar?
Tome-se nota desta passagem do artigo de hoje:
(…) o procurador da República, representante do Ministério Público, a quem compete sustentar a acusação mas não julgar, uma tarefa exclusiva dos magistrados judiciais. Muitos destes, aliás, consideram a magistratura do MP como uma magistratura menor, o que tem levado a vários conflitos ao longo do tempo.”
Para a “nova” jornalista, ainda vamos aqui, nos primórdios da compreensão e entendimento das funções judiciais.
Depois, a seguir,mesmo correndo o risco da descontextualização, peguem-se em instantâneos, ao acaso no texto e em escolha diagonal
No texto de Segunda Feira, começa por descrever uma audiência em que “(…) a juíza lê acusação apressadamente, quase sem respeitar a pontuação . (…)Levanta a cabeça do papel, olha para os réus ( sic). ´Não há factos não provados, toda a matéria se provou`, afirma, (…) antes de começar a ditar a medida das penas a aplicar a cada um deles:
Dez meses de prisão suspensa por 18 meses(…)”
Quem lê este texto, sem saber o que é uma acusação ou uma sentença ou até uma audiência, que fica a perceber?!
Que em processo penal, continua a haver “réus”. Que numa decisão em que se “ditam” medidas de penas, lê-se também a acusação “apressadamente” e que …provavelmente nem a “nova” jornalistas percebeu muito bem aquilo a que assistiu. Teria sido uma sentença? Então porque não dizê-lo e explicar como é que se chega aí?
Segundo a jornalista “ Dezenas de casos como estes são julgados, todos os dias , nas nove varas criminais da Boa-Hora”. E então, não dá para perceber melhor?! O artigo de Segunda Feira, continua com a narrativa de outra audiência. No mesmo estilo e com mais esta novidade penal: “(…) A poucos metros estão estacionadas duas carrinhas de transporte de presos, alguns dos quais respondem por ofensas corporais” (!)
No artigo de Terça.-Feira, dá-se a palavra aos magistrados e tecem-se considerações pessoais, no estilo novo-jornalístico, sobre a personalidade dos mesmos:
O juiz Renato Barros revela-se um exemplo da serenidade e da correcção que devia nortear a actuação de todos os juízes”.
Sobre a “coordenadora dos serviços da Procuradoria”, “A doutora Brites”, escreve, ao saber que esta não queria falar com a nova jornalista:
Um magistrado devia pensar de outra forma, devia defender a transparência das instituições públicas, facilitar o direito a informar e a ser informado”. Para quê esta agressividade para alguém que entendeu não atender a "nova" jornalista?
Assim?! No artigo, uma caixa, a desancar em letra de forma a atitude da magistrada, á laia de vingançazinha? Ainda se fosse num blog...
Embora não defendendo a atitude da “doutora Brites” , na medida em que já defendi que a comunicação à comunicação social é essencial para informar o Público do que se passa, acabo por a entender, depois de ler estes dois artigos.
E pergunto:
A culpa disto, deste tipo de artigos, será das leis que temos? Dos tribunais que as aplicam? Da falta de comunicação e informação dos “operadores judiciários”?
Esperemos os restantes…

Aditamento de 14.6.2006:

...e já temos as restantes, de hoje. Escrevendo sobre os funcionários, “É sempre o funcionário a levar pancada”.
O funcionário tem um papel na mão e lê alto o número do processo, o nome dos arguidos e dos advogados. Depois anuncia que o julgamento foi adiado para o mês seguinte. Ouvem-se exclamações de desagrado, um coro de protestos. Há pessoas que vieram do Porto e de Bragança e ficaram com o ´dia estragado`. Reclamam directmente com o funcionário, elevando a voz. ´Isto é uma vergonha! Parece impossível, é a justiça que temos`.
É sempre o funcionário que leva pancada. Muito raramente os juízes dão a cara por esta situação.”

A grande maioria [dos funcionários] esquivou-se a qualquer contacto com a jornalista e os que acederam a falar fizeram-no sempre soba a condição do off.”
“O cenário em que os funcionários judiciais trabalham é muito semelhante nas nove varas criminais do tribunal da Boa-Hora.” (…) Compete-lhes a notificação das pessoas para comparecer em tribunal e a requisição de expedientes e de despachos até à fase dos julgamentos. Desempenham, além disso, um papel essencial na sala de audiências. São os responsáveis pelo registo de toda a produção de prova feita em julgamento: as declarações de arguidos, testemunhas, advogados, de todos os intervenientes no processo. Compete-lhes ainda fazer a chamada das pessoas que estarão na sala e esclarecê-las sobre as regras de conduta que têm de seguir durante as audiências
.”
os equipamentos obsoletos são outro problema com que os funcionários se debatem todos os dias. Dificultam a gravação de prova e as reproduções.”

É esta a essência do escrito de hoje, retratando os funcionários. “Amanhã: os advogados”.


Ainda a tempo, junta-se aqui o comentário do colaborador esporádico desta Loja, Gomez:
Gomez said...
É a fruta da época...A reportagem ligeirinha e gasosa, estilo "silly season", parece ter ido à Boa Hora porque o tempo não está para praias e os tribunais têm agora lugar cativo na agenda mediática. Croniquetas do quotidiano judiciário não deviam ter lugar, com foros de reportagem, naquela secção do jornal. Ainda por cima sabem a pouco, quando comparadas com a maestria dos textos do Rui Cardoso Martins (aos domingos na "Pública"). O "Público" e a jornalista em causa são capazes de muito melhor e devem muito melhor aos seus leitores. O atarantado Director parece ainda não ter percebido que não ganha nada em afinar pela mediocridade que vai reinando, a menos que esteja disposto a bater-se, taco a taco, com o "24 Horas".Quanto à "doutora Brites", se o relato é fidedigno, a crítica é mais do que justa!!Em todo o caso, na pele da Senhora Jornalista, teria tido algum pudor em fazê-la tão cruamente. No fim de contas, uma classe que tem rejeitado mecanismos de sancionamento disciplinar das infracções deontológicas e que goza do privilégio da última palavra, não está particularmente bem posicionada para clamar pela "accountability" de quem quer que seja.

Publicado por josé 01:06:00 10 comentários Links para este post  



Monopólio do Estado

Metade dos assinantes da TV Cabo apresentam queixas.

A outra metade não pede factura detalhada.

Publicado por Nino 20:42:00 4 comentários Links para este post  



Da documentação que faz parte do espólio do Museu da Presidência da República em exposição na Câmara Municipal do Porto está uma carta que Álvaro Cunhal, em 14 de Julho de 1976, dirigiu ao eleito Presidente da República, Ramalho Eanes. Trata-se de uma carta dactilografada em papel timbrado do PCP e com a assinatura do próprio.

Eis o seu teor:

Ex.mo Senhor
Presidente da República
General Ramalho Eanes


Para além dos cumprimentos protocolares, desejo-lhe sinceramente felicidades e bom êxito no cumprimento do seu difícil mandato.


Álvaro Cunhal

O que aqui não consigo reproduzir, mas que me chamou a atenção na exposição, é um sublinhado com marcador vermelho que alguém colocou sob o nome “Álvaro Cunhal” batido à máquina. Não faço a menor ideia o porquê do destaque ao remetente da carta, em todas as outras da mesma altura que também são exibidas este não consta, pelo que não deveria ser este um hábito de secretária.

Do que eu não tenho grandes dúvidas é que, naquele dia, esta foi a carta mais lida, relida e interpretada no Palácio de Belém.

Publicado por contra-baixo 15:59:00 7 comentários Links para este post  

Experiência piloto em escola do Lumiar
Pais dão nota negativa a professora

A Escola Básica do 1º ciclo de São Gonçalo, no Lumiar, vai estar encerrada amanhã, por decisão dos professores, depois de uma docente ter sido agredida anteontem por familiares de um aluno do estabelecimento.

O incidente ocorreu pela hora de almoço, quando a professora em causa, que é coordenadora da escola e membro do conselho do SDPGL, se encontrava dentro do estabelecimento de ensino. A docente, que está na escola há quase duas décadas, terá chamado a atenção a um aluno, com cerca de 13 anos, que estava a atirar cascas para o chão. Este terá ignorado o aviso da professora, que fez menção de lhe segurar a mão para que o jovem apanhasse as cascas, mas este recusou-se a fazê-lo.

Segundo o relato da dirigente sindical, "pouco tempo depois" terá entrado na sala onde estava a docente um casal, aparentemente familiar do aluno, que a insultou, tentou arremessar-lhe à cabeça um balde de lixo de alumínio e lhe bateu na cara e na cabeça repetidas vezes até que os restantes professores e auxiliares conseguiram por cobro ao ataque.

A professora, de 50 anos, foi assistida pelo Instituto Nacional de Emergência Médica na escola e vai ficar de baixa, adiantou Maria Conceição Pinto.

Público

Publicado por Nino 08:22:00 118 comentários Links para este post  



Mahmoud Ahmadinejad escreve carta ao presidente Fox

Jogos
Nossa Senhora de Guadalupe, 3 - Ayatola Khomeini, 1
Candomblé, 0 - Nossa Senhora de Caravaggio, 1

Classificação das equipas
Nossa Senhora de Guadalupe: 3 pontos
Nossa Senhora de Caravaggio: 3 pontos
Candomblé: 0 pontos
Ayatola Khomeini: 0 pontos

Publicado por Nino 08:19:00 0 comentários Links para este post  



Passarolas voadoras.



Em Junho de 1976 foi publicado o LP Greatest Hits, dos Eagles e que ao longo de trinta anos veio a tornar-se, provavelmente, o disco mais vendido de sempre da história da música popular, todas as expressões incluídas. Cerca de 30 milhões de exemplares, em 30 anos!
O que leva os Eagles a voarem tão alto, na passarola voadora da indústria musical mundial?

Sem dúvida, a sonoridade impecável de meia dúzia de êxitos, decalcada e sintetizada a partir de músicas já ouvidas e estilos já experimentados, por outros músicos, no decurso da década antecedente.
Os Eagles começaram em 1972 com um LP homónimo e um single de abertura a toda a prova: Take it easy, incluído também no Greatest Hits. A música nem é um original do grupo, mas obra de Jackson Browne, companheiro de andanças e que na mesma altura lançava um disco de autor, com um alinhamento de canções de uma sublime melancolia que ainda hoje se ouvem com o proveito da beleza de uma música intimista e aperfeiçoada. Aliás, Jackson Browne repetiria nos anos a seguir, precisamente até 1976, com The Pretender, as canções de mérito, para ouvir sempre, reincidindo finalmente em 1980 no LP Hold Out, com a colaboração imprescindível e única, do multi-instrumentista David Lindley.
Embora 1972 seja o ano dos Carpenters de A Song for you e o hit Top of the World; dos Bread de Guitar Man e de Don Mclean e a sua pequena história condensada da música popular, na canção American Pie, foi também o ano de Harvest de Neil Young e Manassas de Stephen Stills; A Horse with no name, dos America e principalmente Exile on Main Street dos Rolling Stones e o primeiro álbum a solo de Paul Simon, um portento de finesse e subtileza musical, suplantado apenas pelo disco do ano seguinte,There Goes Rhymin´Simon, um dos mais perfeitos de toda a música popular.
Isto para nos circunscrevermos à música de expressão anglo-americana, em franca explosão e mundialização avant la lettre e sem citar sequer o Lp Holland dos Beach Boys cuja estrutura musical no tema The beaks of eagles, encadeado no seguinte, California Saga, é de antologia no género que aqui se trata e serve de exemplo máximo do estilo musical: melodias suaves e simples, harmonizadas em vocais entretecidos e intrumentalizadas em tom acústico, com a sonorização marcada a pedal steel guitar. Tão interessante no estilo e nesse ano, só mesmo Leo Kottke, no Lp Greenhouse.
Em Portugal, em 1972, embora se ouvisse esse Lp dos Beach Boys, não se ouviu o primeiro LP dos Eagles, como já se ouvia em 1976, o Greatest Hits, em plena rádio.
Em 1972, a influência musical, em Portugal, provinha da Inglaterra de modo predominante, onde se importavam mais facilmente os discos e por isso, a publicação Mundo da Canção, no final desse ano, fazia uma lista dos melhores discos do ano. Não espanta muito que em primeiro lugar apareça o disco dos Van Der Graaf Generator, Pawn Hearts, logo seguido de Foxtrot dos Genesis e Thick as a Brick dos Jethro Tull. Em dez discos escolhidos, nenhum americano de renome que se pudesse ouvir e muito menos os Eagles ou até mesmo Neil Young ou Stephen Stills, sendo certo que estes dois últimos se ouviam por cá com muita assiduidade em programas de rádio, como o Página 1, apresentado nessa época por um Adelino Gomes, salvo erro.
A sonoridade de Manassas, no duplo LP de Stephen Stills, é um condensado de tudo aquilo que os Eagles começavam então a tocar: o country-rock, uma mistura de algo que parecia imiscível.
Numa década, entre 1966 e 1976, a Califórnia do sul, à roda de Los Angeles, foi a pátria desta música nova, criada a partir do country tocado por brancos, com a mistura de rock n´roll, saído dos blues e soul, animados pelos negros, nas igrejas e no delta e repescados pelos primeiros rockers, como fundação rítmica das novas sonoridades que se exprimiam em hipérboles tipo wopbabalumablambambum e às quais Bob Dylan deu sentido diverso.
Em Setembro de 1968, apareceu o primeiro LP , por muitos considerado um dos máximos expoentes deste género musical e que o inaugurou: Sweetheart of the rodeo, dos Byrds, onde tocam Chris Hillman, Roger McGuinn e Gram Parsons. Este, no ano seguinte, sai dos Byrds, vai juntar-se a Chris Hillman que também saiu e com Sneaky Pete Kleinow e ainda Chris Ethridge, forma os Flying Burrito Brothers que publicam talvez o disco mais significativo do género, a par com o dos Byrds: The Gilded Palace of Sin, em Abril de 1969.
O som deste novo tipo de música, mistura a guitarra acústica seca e dedilhada em seis ou doze cordas, com contrapontos a solo de guitarra eléctrica, misturando as rítmicas numa sonoridade híbrida e estugada em tons suaves, de onde evola quase sempre a sonoridade etérea de um tipo de guitarra tocada em slide e em assento deslizante: a pedal steel guitar, de som inconfundível e que constitui, para mim, talvez a marca mais indelével deste tipo de música arrebatadora nos seus melhores momentos.
A sonoridade Country Rock não era inteiramente desconhecida, antes destes grupos a experimentarem. Em 1967, um grupo recém formado que incluía John McEuen, Jiimi Fadden e Jeff Hanna, tocavam já Buy for me the rain, em tom rock tingido de country. Esse grupo da California do sul, os Nitty Gritty Dirt Band, publicaram em 1972 , Will the Circle be Unbroken, um compêndio da música country tradicional, com os músicos tradicionais do género e algumas actualizações de repertório e durante a década de setenta, publicaram uma mão cheia de discos magníficos bem representativos do género, sendo a meu ver, os melhores cultores do género, ou pelo menos os que mais aprecio.
No final dos anos sessenta, um outro grupo americano que publicou outra mão cheia de êxitos inconfundíveis na voz de John Fogerty, tinha marcado os palcos e gira-discos desse tempo. Os Creedence Clearwater Revival, tinham misturado o rock n´roll com o country e o soul, numa amálgama fantástica de som acústico e eléctrico e que durou até ao início dos setenta. Por isso, os ouvidos gerais estavam preparados para a novidade.
Apesar disso, em Portugal, não há notícias dessa moda, embora os Creedence fossem muito credenciados nas vendas de Proud Mary ou Have you Haver seen the rain. Durante a primeira metade da década de setenta, sucederam-se discos impressionantes de qualidade neste género musical, todos provindos do sul da Califórnia e à roda de Los Angeles.
Em seguida ao álbum de Bob Dylan( então com 27 anos), Nashville Skyline, de 1969, e tal como o anterior, gravado em Nashville , terra por excelência do Country( Johnny Cash aparece a cantar logo na primeira canção, em dueto com Dylan), Surgiram ainda os Crosby, Stills & Nash, que acrescentaram depois o Young , de Neil, para publicarem uma outra obra prima aparentada ao género: Déja Vu, em 1970, em que se notavam as harmonias vocais e as composições dos quatro músicos, com o destaque impressionante para uma das melhores composições do género: Teach your Children.
Em 1967, David Crosby, fizera, aliás parte dos Byrds.
Porém, em 1969, quase na mesma altura de Nashville Skyline de Dylan, saiu o Lp dos Flying Burrito Brothers, The Gilded Palace of Sin. Quem não escutou tal disco que começa com Christine Tune em acordes acústicos e se estende no rendilhado líquido da pedal steel de Sneeky Pete Kleinow, num ritmo que os Eagles mais tarde vieram a retomar e explorar, não conhece bem toda a beleza etérea do Country Rock.
O disco não dispensa uma única canção para o olvido fácil e a voz de Gram Parsons é a marca de água que também tinha acompanhado as canções do LP dos Byrds, Sweetheart of the rodeo.
Este LP, originalmente gravado em Nashville, tinha como voz principal a de Gram Parsons no seu estilo inconfundível. Perante a saída deste, logo após a gravação, Roger McGuinn, regravou as vozes, apagando a de Gram Parsons que voltou a ouvir-se apenas em 1990, com a publicação da caixa de 4 cd´s The Byrds e a apresentação dessas versões originais, o que se repetiu já em 2003, com a apresentação luxuosa do disco Sweetheart of the rodeo, em edição duplamente cuidada, da Sony/Columbia/Legacy, onde se podem ouvir versões das canções originais em fase de trabalho e com vocais e instrumentais variados.
Roger McGuinn continuou os Byrds, após a saída de Gram Parsons, deixando entrar um dos maiores guitarristas da música popular: Clarence White, cujo trabalho artístico se pode ouvir nos discos que se seguiram, particularmente Dr. Byrds & Mr. Hide( particularmente o instrumental Nashville West que serviu por uns tempos, de indicativo ao programa Música da América, animado por Jaime Fernandes, na antiga Rádio Comercial de finais dos setenta), onde também colabora outro músico entrado logo a seguir e que ajudará a marcar a sonoridade personalizada dos Byrds de então: Gene Parsons. Este, tinha colaborado antes com Doug Dillard, noutro disco fundamental do género: The fantastic expedition of Dillard & Clark, de finais de 1968.Uma das canções celebradas nesse disco é Train Leaves here this morning, escrito por Gene Clark em parceria com Bernie Leadon que viria a integrar os Eagles, logo no começo, sendo esta música uma das que compõem o ramalhete do primeiro disco do grupo.
E é precisamente através desta canção que se pode descobrir a particularidade da música dos Eagles. A instrumentalização usada na versão original do grupo de Dillard & Clark e na adoptada pelos Eagles, difere pouco. Em ambas a sonoridade é predominantemente acústica, embora a a voz e a guitarra de Gene Clark seja acompanhada por outra em contraponto e por um som afastado de bandolim. Na versão dos Eagles, podem ouvir-se as guitarras acústicas em duplicado ou mesmo a triplicar, numa sonoridade atapetada e ritmo ligeiramente mais suave que preparam o ouvinte para a diferença: a vocalização harmónica e perfeita dos quatro músicos. A produção musical em estúdio, de Glyn Johns faz a diferença entre as versões e basta comparar as duas para perceber uma das razões do sucesso dos Eagles, em detrimento do eventual sucesso de grupos que os precederam, com as mesmas raízes musicais, a mesma verve na escrita e até o mesmo talento. A música dos Eagles, como escreveu o crítico Robert Christgau, é “suave e sintética” e escreveu ainda que era “brilhante mas falsa e nem sempre brilhante”. Experimente-se ouvir Lyin´eyes ou Peaceful Easy Feeling, ou mesmo Tequila Sunrise, todas incluídas no Greatest Hits. Música suave, brilhante, se o adjectivo pode significar alguma coisa nestes domínios do som e…porventura falsa, porque apresenta esse hibridismo musical com uma imagem ( no lp Desperado, de 1973) de rebeldia oca e de cartaz. É um conjunto de sonoridades cativantes, pelas harmonias vocais e as melodias fáceis e inesquecíveis pelo brilhantismo. Foi assim que me ficaram sempre no ouvido, aliás.
Os Byrds, a seguir à cisão de 1968, apesar da altíssima qualidade dos músicos que continuaram o grupo, em termos musicais, pouco mais fizeram de relevante, com excepção do Lp Dr.Byrds& Mr. Hide de 1969.
Contudo, por outro lado, a carreira musical de Gram Parsons, só então expandiu em qualidade artística, culminando com a publicação de dois LP´s fundamentais para a compreensão do Country Rock: GP e Grievous Angel, de 1972 e 1973; este último publicado em Janeiro de 1974, já depois da trágica morte do músico, tornado em cowboy cósmico.
Bernie Leadon, até integrar os Eagles em 1972, tocou ainda com outros músicos da localidade sul californiana, nomeadamente Linda Rondstadt, cujos primeiros LP´s datam de finais dos sessenta, com músicas magníficas como é o caso de Different Drum, de 1968.
Bernie Leadon , o músico mais country dos Eagles, saiu em finais de 1975, insatisfeito com o rumo do grupo e em ruptura pessoal com alguns membros, particularmente um dos líderes, Glenn Frey.
Para o lugar do coutry-rocker entrou Joe Walsh, outro rocker-country, de guitarra e pedal wha-wha à cintura, para além de a invenção particupar da talking box, um device que sincronizava a voz com o som da guitarra, numa sonoridade bizarra, explorada mais tarde por Peter Frampton, no seu disco, também de 1976, Frampton Comes Alive. Joe Walsh chegou ainda a tempo de colaborar no álbum mais célebre do grupo e o que exemplifica de modo sintético e estado da música rock, em meados dos setenta: Hotel California é um magnífico disco, cujas músicas, porém, não chegaram a tempo de integrarem o Greatest Hits.
Quando este disco saiu, em Junho de 1976, os Eagles, com quatro álbuns publicados, eram já um dos maiores grupos da música rock, com concertos em estádios e um estilo de vida em fastlane e o disco apenas veio confirmar a brilhante carreira anterior. .

Ao longo destes trinta anos, o grupo manteve-se em actividade, cantando as músicas de sempre, do mesmo modo de sempre por todos os cantos do mundo.
Em 2004, em Melbourne, na Austrália, gravaram um desses concertos em dvd, onde se pode ver um Joe Walsh imparável nas facécias e na habilidade impressionante no modo como encavalita acordes nas guitarras. Pode ainda ver-se e ouvir aquilo que torna única a sonoridade dos Eagles. Tal como os Crosby Stills Nash & Young, o fizeram durante os anos dourados do início da década de setenta, o modo de cantar dos membros do grupo é escalonado em harmonias aperfeiçoadas, singelas ou em cascata suave, com as vozes dos quatro músicos que se completam de molde a que a singularidade da vocalização de Don Henley ou Glenn Frey, os mestres da banda, venha acompanhada pelas guitarras acústicas, sem notas dissonantes e em simbiose, apenas entrecortada pelos contrapontos dos solos eléctricos num ritmo relaxado de quem saboreia uma bebida fresca ao pôr do sol, observando o voo de uma gaivota.
Roger MacGuinn, o grande génio da passarola dos Byrds, tem hoje um blog ( ou dois, contando com outro sobre novidades tecnológicas…), o que revela que não se afastou do comum dos mortais, gozando os rendimentos eight miles high.
Os Eagles têm um site oficial e vários de aficionados.
Os Byrds têm um site que é um catálogo deste tipo de música e merece a visita só por si.
Os Flying Burrito Brothers avançaram pelos setenta e oitenta, sem brilho especial, mas com a saudade de Gram Parsons, o grande inovador destes sons voadores.

Publicado por josé 22:26:00 41 comentários Links para este post  



A lição de Cavaco


A expectativa legitimamente criada no 25 de Abril foi defraudada por uma classe política medíocre que desbaratou a oportunidade ímpar de desenvolvimento. Até o menino do emblemático cartaz que colocava um cravo no cano da espingarda de um militar de Abril foi forçado a emigrar. Aos 35 anos, Diogo Freire é hoje director financeiro de uma empresa de distribuição em Londres. E não parece interessado em regressar.

Publicado por Nino 11:08:00 5 comentários Links para este post  



Sinais positivos

ONU estima que haja pelo menos 150 mil portugueses seropositivos para o vírus da hepatite C e 32 mil para o HIV.

Publicado por Nino 11:07:00 1 comentários Links para este post  



A selecção de todos noz

O autocarro que transportava ontem a equipa portuguesa até Colónia, onde esta tarde se estreará no Mundial de futebol da Alemanha, ficou retido num engarrafamento provocado por um acidente de viação. Gilberto Madaíl, presidente da federação, manifestou a sua indignação criticando a organização do Mundial por tão insigne comitiva não ter prosseguido a viagem escoltada pela polícia, consabidamente apanágio de Portugal, nos termos da concordata celebrada entre o Estado e o Futebol.

Publicado por Nino 10:49:00 6 comentários Links para este post  



A Grande Loja na Sábado

A revista Sábado desta semana, num artigo assinado por António José Vilela e segundo tudo indica, à revelia do visado, biografa Alberto Pinto Nogueira, magistrado do MP que assumiu o cargo de procurador-geral distrital do Porto, para o qual foi eleito no CSMP.
O texto, com alguma graça, diga-se, vai um pouco além do jornalisticamente correcto e assimila o novel PGD do Porto a esta Grande Loja, a que chama um “blogue de justiça”. Ora bolas!
Este blog é tanto “de justiça”, como o são alguns outros que têm merecido o desvelo e atenção de certas críticas que por aqui vão passando….com uma diferença que me parece de vulto: enquanto nos blogs, abruptamente em causa deles, se escrevem postais breves e sucintos a zurzir sem grandes fundamentos os “do costume”, por cá tenta-se sempre dizer porque é que se escreve o que se pode ler.
Quanto ao visado, os seus textos ainda estão por cá, e podem ser lidos. O que o mesmo disse de substancial, no discurso de posse como PGD, julgo que já o tinha escrito, por aqui, incidentalmente.
Aqui fica o artigo, porque hoje é Sábado:

"Já conheço esse paleio"; "Sim, sim, vá despache-se"; "Não digo a minha idade"; "Como é que caí nesta?!" Assim dito, parece alguém a despachar um incómodo vendedor de enciclopédias, mas é apenas a boa disposição, talvez disfarçada de enfado, ouvida pela SÁBADO quando falou ao telefone com o novo procurador distrital do Porto. Alberto Pinto Nogueira, 6o anos completados emAbril, tem fama- ele próprio a reivindica - de não ser um magistrado convencional. "Corro por fora", gosta frequentemente de dizer, antes de completar que o faz há 3o anos.
Avesso a entrevistas, parece um miúdo irrequieto numa consulta de dentista. "Só se devia falar quando se tem algo de substancial para dizer, senão mais vale estar calado", sentencia, manifestando-se cansado pelo "paleio" de quem o aborda e quer saber coisas da vida do miúdo de Canidelo, Vila Nova de Gaia, que nasceu numa família onde o pai (falecido há cerca de dois anos) trabalhava numa estamparia à beira Douro. "Sim, fui um bom aluno, mas não tenho vaidade nisso", afirma.

Enquanto a mãe, Elvira, preenchia latas de conserva numa fábrica de peixe e os dois irmãos, Belmira e Vítor, iam fugindo do caminho da escola, Alberto abreviava anos lectivos ancorado em bolsas de estudo. "Gostava tanto dos livros que ainda hoje os lê meio fechados para não os estragar", recorda um membro da família. 0 menino "caladinho", o oposto do irmão Vítor, dois anos mais novo e hoje dono de um armazém de tecidos, veio para Lisboa, estudar na Faculdade de Direito, com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.
"Fui depois para o Ministério Público, porque era o curso mais barato", diz. Pinto Nogueira está também pouco interessado em falar dos casos judiciais que o marcaram, processos desafiadores, aquilo que fez e o que não o deixaram acabar quando integrou, nos anos 8o, a efémera Alta Autoridade Contra a Corrupção. Ou de uma vida de 2o anos na Procuradoria Geral Distrital do Porto, onde chegou a contrariar (antes de decidir afastar-se)decisões de colegas no processo Apito Dourado. Na sua tomada de posse, que ocorreu na sexta-feira passada no Tribunal da Relação do Porto, voltou a falar de corrupção e de que o "vale de lágrimas da falta de meios" não serve para a combater. Perante Souto Moura, que não o queria no lugar, assumiu o estatuto de dissidente e disse alto e bom som que o Ministério Público não é coutada de ninguém , nem dos que lá lá estão.
Pai de dois filhos, Joana e Rui, casado com uma professora de História, o magistrado assume que gosta de estar em casa a ler ou de passear no Parque da Cidade. Tristes são estes tempos que não lhe permitem dizer por quem torce no futebol ("Não sou bairrista"). Dizem dele que cultiva o humor, "às vezes de uma forma desastrada e com algumas consequências". Será por isso que agora a sua escrita deixou o blogue de justiça Grande Loja do Queijo Limiano?

Publicado por josé 13:06:00 22 comentários Links para este post  



Já chegamos à Madeira!

A propósito da divisão de poderes do Estado e da importância do poder judicial, conta-se que em 1745, o rei da Prússia, Frederico II, instalado num dos seus palácios de Verão, em Potdsdam, a poucos quilómetros de Berlim, ao olhar pelas janelas , reparou num obstáculo que o impedia de contemplar inteiramente a paisagem que se lhe oferecia.
Numa propriedade vizinha, um moinho velho, não o deixava ver, em toda a extensão do seu desejo, o que pretendia. Por isso, consultou conselheiros e ministros que o levaram a intentar uma ordem de destruição do moinho nefasto, após sucessivas recusas do dono em aceder a uma cessão, mesmo com contrapartidas. E perante a menção do soberano em fazer cumprir pela força o que não obteve com jeito, o modesto moleiro de Potsdam, ripostou-lhe que não havia problema de maior- porque ainda havia juízes em Berlim.
A historieta, embora real e contada assim ou assado, ilustra muito bem o essencial da função judicial: decidir pleitos com independência de todos os poderes, em obediência à lei, ao direito e à justiça.
Por estes dias, num simulacro de desejo frustrado de um regime prussiano, na nossa pérola do Atlântico, o presidente eleito do governo regional, desferiu um ataque desmedido contra esse mesmo poder judicial, no caso, o Tribunal Administrativo e Fiscal do Funchal.
Segundo se lê, no blog Verbo Jurídico, “o Presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim, afirmou ontem que o Tribunal Administrativo do Funchal devia ser extinto e que vai propor isso mesmo ao Governo de Lisboa.
O TAF do Funchal tem proferido algumas decisões em favor dos cidadãos e empresas que ao mesmo recorrem e em que são visados entes públicos do executivo madeirense.

Será caso para dizer que o presidente do governo regional da Madeira, tem mais barriga que olhos o rei da Prússia.

Nota: O título original(Ainda há juízes na Madeira?) foi ligeiramente alterado...

Publicado por josé 23:42:00 3 comentários  



Enfoques em simplex.

Um conhecido síndico oficioso das medidas tomadas em gabinetes governamentais, insurge-se em postal, no seu habitual think tank, contra o uso de certos termos linguísticos em comunicações oficiais de determinados organismos de Estado.
No caso, parece-lhe algo aberrante que surja em papel timbrado ou em comunicado debruado dos serviços de alguma Excelência, a expressão “foi recepcionado”.
Acha o síndico oficioso que é dislate substituir o simples verbo “receber” por esse composto declinado em particípio passado. E achará bem, também acho.
Porém, a curiosidade em saber de onde provém tanta tralha assim recepcionada, levou-me a suspeitar da origem perversa do termo.
Nas dúvidas cibernéticas fica esclarecido que o verbo recepcionar foi também elencado por José Pedro Machado, mas rareia nos nossos dicionários, ao contrário dos brasileiros que usam o termo como quem bebe caipirinhas, que aliás, também não é palavra de uso corrente nos dicionários lusos.
Acicatado pela curiosidade em descobrir razões para o caiporismo do síndico, acostumado a ver argueiros pesados em prosas oficiais, fui levado( estes malditos particípios…) a consultar documentos valiosos e recentes, para ver se estariam, também eles, expurgados desses incómodos argueiros que justificam a profundidade dos think tanks.
Por exemplo, no celebrado documento...Simplex, título de desarmante e aterradora originalidade, modelo único saído das profundidades de think tanks desconhecidos, com paredes firmes, e que ancorou na Unidade de Coordenação da Modernização Administrativa, organismo oficialíssimo, dependente da Presidência do Conselho de Ministros do nosso país.
O documento, redigido numa linguagem que se esperaria simples e rigorosa, contém também as suas pérolas linguísticas, para além de um curioso uso dos tempos verbais e de uma sintaxe sinuosa e de efeito certo para perplexos.
Contudo, nada disso se aparenta àqueles horrores denunciados. Por exemplo, na página 69, a palavra “enfoque” é mais do que uma pérola, é um foco de luz nas trevas dos dicionários portugueses que a não conhecem.
Porém, se alguém quiser saber qual a palavra chave para entender a essência da densidade das suas 89 páginas, basta digitar a palavra “compreensibilidade” que aparece, profusa e militante, em cinco orações fervorosas( a págs. 12, 27, e em dose dupla na 69), em prol da modernização de métodos e apresentação de medidas para a simplificação de tudo o que se complicou ao longo de décadas de obscurantismo.
A palavra “compreensibilidade” é da família das palavras raras, na linguagem comum, portuguesa, castiça, prosaica ou mesmo erudita. É daquelas palavras que aparecem num texto e soam logo como pouco propínquas.
Contudo, experimente-se digitar o termo num google qualquer e a catadupa de citações remetem-nos logo para os nossos parentes brasileiros que esticam os confins da linguagem, em tratos de polé inimagináveis.
Parentes próximas da “compreensibilidade” poderiam muito bem ser a “significabilidade” e a “manejabilidade”, tal como o verbo intervencionar, o será em relação ao execrado recepcionar.
E no entanto, “compreensibilidade” não afectou a sensibilidade do síndico que certamente leu e releu o… Simplex e terá aprovado intelectualmente e sem pestanejar, a sugestão da designação quiçá genial de…Simplex!
Como também não afectou essa mesma sensibilidade, outra particularidade linguística que se detecta a fls. 69, página manhosa onde, aliás, se aninharam, caprichosas, algumas singularidades.
Aí se escreveu que “confrontamo-nos hoje com um sistema de leis ( ?) :
-de difícil inteligibilidade e compreensibilidade.
-incapaz de identificar as leis vigentes. (…)”,

Daí se parte logo para o alinhamento das simplificações desejáveis.
Algumas delas expõem-se como obrigando a “fazer a análise de alternativas de regulação e a eliminar toda a legislação manifestamente e obsoleta”(sic).
Outra obrigação premente e que se propõe é a de “alcançar um corpo legislativo fiável, actualizado e convivial”!
Nesta altura, já todos perceberam a distinção subtil entre os termos “inteligibilidade” e “compreensibilidade” e a sua redundância oficiosa será certamente fruto da determinação do Simplex. Um sinal, portanto, da sua autoridade argumentativa e orientadora.
O que já não se compreende lá muito bem, no entanto, é a necessidade de um corpo legislativo…convivial! O termo, mesmo na sua natural evolução semântica, remete para conotações algo festivas. Será isso que se pretende com o futuro corpo legislativo? Festas, para além do mais?! Infelizmente, parece que sim. Mas não para todos, claro, que o anfitrião tem poucos lugares nas mesas e parece que já estão tomados.

Será por isso que já se detectam alguns sinais visíveis de festa rija, nos lados de quem legisla no novo modo Simplex?
Segundo o que se pode ler no blog, Dizpositivo, pode escrever-se que houve um autêntico happening ( no melhor pano cai a nódoa do estrangeirismo), lá para as bandas de quem, na Presidência do Conselho de Ministros, rectifica diplomas rectificadores que por sua vez rectificaram rectificações. Exagero, dirão! E com razão…as rectificações foram três- e não quatro, como acabei de escrever.
Logo, este texto, como será fácil de reconhecer, não merece credibilidade por aí além. Aponta argueiros e não vê as traves que se lhe colocam na frente…e depois, no fundo de cada olho que vê, o que é que se escreveu por aqui?
Nada de relevante, para além da sindicância ao escrito do nosso síndico preferido.

Publicado por josé 16:59:00 23 comentários Links para este post  



Separar as águas

Segundo o jornal Correio da Manhã, em 23 de Abril de 2003, na Assembleia da República, o Secretário da Mesa da Assembleia da República, um deputado eleito pelo PS, terá enviado uma mensagem a um outro colega deputado e amigo, do mesmo partido, perguntando-lhe:
"Queres que assine por ti a folha de presenças?
Não está ainda inteiramente esclarecido se o deputado, no momento faltoso e que justificou a pressurosa mensagem escrita do seu colega de partido, simultaneamente Secretário da Mesa da AR, se encontrava antes ou depois dessa mensagem, na AR, nesse dia.
Não obstante, o ex Secretário da Mesa da Assembleia da República, hoje, Secretário de Estado da Administração Interna no actual governo PS, esclareceu assim o assunto, ao mesmo jornal:
No exercício da função [de secretário da Mesa da Assembleia da República] verificaram-se algumas situações em que senhoras e senhores deputados, tendo estado ou estando presentes na sessão plenária, não haviam assinado o livro de presenças. Nessas circunstâncias era assinalada a presença do deputado com um ‘P’. Não se tratava de qualquer assinatura. Também em situações em que uma senhora ou um senhor deputados que entrassem durante a sessão, como aconteceu algumas vezes com os senhores deputados que integravam as direcções de grupos parlamentares, era assinalada a presença na folha ‘rosa’.”

Será este procedimento, vituperado também por deputados ouvidos a propósito, vergonhoso e digno da mais alta censura, como escreve o António no blog Do Portugal Profundo, ou o mal, neste caso singular, reside nas malditas escutas telefónicas que não páram de nos surpreender?

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"Professores, avaliações, aflições"

Com o objectivo de diminuir a despesa pública e, vá lá, "melhorar a qualidade do ensino", têm vindo a ser anunciadas medidas necessárias para a avaliação de professores e filtragem do acesso aos níveis elevados da carreira. Estando de acordo com o princípio da necessidade de avaliação (assim como o do condicionamento de acesso à carreira em exame nacional), entrevejo uma mão cheia de possibilidades de enviesamento do processo. Ou me engano muito, ou uma parte substancial da concretização das avaliações pode ficar nas mãos do lobby das "ciências" da educação, dado que há uma elevada possibilidade de os coordenadores de departamento curricular (a quem vai incumbir atribuir classificações) serem recrutados entre os inúmeros mestres e doutores, especializados em estudos de acaso, que durante anos interiorizaram a ideologia pedagógica em vigor. Podemos estar a assistir à criação de um corpo de guardiões da execução das orientações metodológicas rígidas e irrealistas que recheiam os programas oficiais. Ironicamente, muitos deles terão sido doutrinados sobre a inadequação dos exames como método de avaliação...

Lendo o anteprojecto de estatuto da carreira docente, disponível no site do ministério da educação, não fico muito descansado quando reconheço, aqui e além, os traços distintivos da escrita em eduquês. Por exemplo, no artigo 36-2º diz-se que são competências dos professores

gerir os conteúdos programáticos, criando situações de aprendizagem que favoreçam a apropriação activa, criativa e autónoma dos saberes da disciplina ou da área disciplinar, de forma integrada com o desenvolvimento de competências transversais.

Isto já foi escrito muitas vezes e não deixou boas recordações.

A avaliação pelos pais, no contexto de facilitismo com que o ensino foi contaminado nos últimos tempos, corre o risco de reflectir, em grande medida, os simulacros de avaliação feitas pelos próprios alunos em 1974 e 1975.

A ministra afirma ainda (PÚBLICO de hoje) que a escola já dispõe de meios de exercer autoridade. Do alto do "observatório da violência" a escola deve ser um pontinho longínquo e perdido no espaço: talvez o envio de uma sonda permita conclusões mais fiáveis. E, quando se humilha publicamente, em bloco, a classe dos professores, a questão deixa de ser a de saber se eles merecem ou não as frases reprovadoras, passando a ser a de avaliar se o efeito não será o mesmo que dizer: batam-lhes mais, que eles merecem.

Falta de Tempo

Publicado por Nino 22:23:00 4 comentários Links para este post  



A sublimação da Fé


Durante a semana que passou,vários cronistas mencionaram a viagem do Papa à Polónia e ao antigo campo de concentração em Auschwitz.
Como tónica dominante, passou uma frase de Bento XVI, dita in loco e que se tornou em paradoxo, glosado logo a seguir: “Onde estava Deus, nesses dias? Porque ficou silencioso?”
Como nota dissonante, surgiram respostas perplexas e as glosa dos ateus militantes. Para estes, Deus estava onde sempre esteve: entre os crédulos e em mais lado nenhum!
E o mote, passou para outro lado, para o da responsabilidade pelos campos e pelo holocausto. Tema milhares de vezes debatido, ainda provoca frisson, se a fricção passa ao lado de todo um povo, para se centralizar num partido, numa política ou numa ideologia. Ouvindo Bento XVI dizer que o povo alemão, de que aliás faz parte, foi então utilizado como instrumento de um bando de criminosos, instituído no Estado e que dele se acapararam, para melhor lograrem a eliminação física e completa de toda uma raça, em nome dos princípios da superioridade de outra, a declaração soou blasfematória dos cânones gerais do politicamente correcto. Revisionismo, escreveram alguns. A Igreja sabia e calou, escreveram outros ( VPV, no Público de hoje).
Há dias, foi mencionada por alto, a efeméride do XX Congresso do PCUS, na antiga União Soviética. Escreveu-se ( no mesmo Público) que a par do Congresso, foi publicado então um relatório – o Relatório Krutschov- no qual se acusava Estaline de “inúmeras malfeitorias ( sic), incluindo crimes e perversões da “legalidade socialista” ( sic).
O Relatório Krutschov era para ser “secreto”. Não foi. Sabe-se hoje um pouco mais acerca das “inúmeras malfeitorias” atribuidas a…Estaline. Sim…a Estaline! O povo russo, em nome do qual havia um partido que não admitia outros partidos e em nome do qual se cometeram as tais “inúmeras malfeitorias”, não é aqui visto nem achado.
Não é por acaso que Estaline foi apelidado de “pai dos povos”, “O maior filósofo de todos os tempos”, o “gigante do pensamento” e outros ditirambos denunciados no Relatório. Os povos estão num lado e Estaline é o seu pai, dito com toda a solenidade de mentes brilhantes.Logo, não faz sentido culpar o povo russo das “inúmeras malfeitorias” e ninguém, jamais, se atreveu a fazê-lo.
Porém, idêntico critério não se segue para analisar o que se passou na Alemanha dos nazis do partido nacional-socialista. Aí, é todo o povo que tem de comer por junto e não há História por menos que isto. E quem disser o contrário, faz revisão histórica, blasfema e nunca entrará no gotha dos bem pensantes.
Mesmo a “pergunta certa” de Vasco Pulido Valente, hoje no Público, suscita perplexidades. “ Onde estava a Igreja e por que ficou silenciosa?” , é a tal pergunta.
Há um filme de Ingmar Bergman, da década de setenta que parece responder de alguma forma à pergunta. Chama-se O Ovo da Serpente. Relata os alvores do nazismo e as razões pelas quais o povo alemão elegeu a ditadura nacional socialista como modelo de organização do Estado. Onde estava a Igreja, nesta altura? Com o povo, certamente. O povo que elegeu democraticamente os fautores de uma catástrofe mundial. Mas, ao contrário do povo que escolhe o reino, a Igreja tem um reino que não é deste mundo visível: o espiritual.
A melhor forma de o descrever e compreender o que se terá passado na Alemanha nazi, no que à Igreja diz respeito, foi escrito mesmo hoje, no mesmo Público, por João Bénard da Costa, num artigo sublime de Fé inabalável e que reverencio, porque ao melhor nível de um…Ratzinger. Aqui fica um excerto do admirável texto:

Que o Vigário de Cristo na Terra - ou aquele que crê e que muitos crêem ser o Vigário de Cristo na Terra- se dirija a esse mesmo Cristo, Deus Nosso Senhor, para Lhe perguntar por que ficou silencioso, onde estava, como tolerou aquilo, é talvez o que de mais ousado e abissalmente radical me lembro de ter ouvido da boca de um Papa.
Todos conhecemos os paradoxos so- bre Deus, que se é Todo Poderoso não é Todo Bondoso ou se é Todo Bondoso não é Todo Poderoso. Uma célebre passagem dos Irmãos Karamazoff foi citada nos últimos séculos vezes sem conta e vezes sem conta nos atiçaram com a história do Grande Inquisidor ou com a morte de Ivan Illich. Mas essas dúvidas, essas interrogações abissais, vinham de fora para dentro ou das margens para o centro. Em Maio de 2006, em Auschwitz, a questão veio do próprio Centro e a terrível pergunta sobre o silêncio de Deus foi a terrível palavra de um Papa.
Mas não podemos dizer que foi Bento XVI o mais terrível interrogador. Dois mil antes dele, na Cruz, Aquele que ele representa interpelou Deus - que Ele também era - da mesma maneira: "Eli, Eli, lamma sabachtani?" ("Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?"). E nunca ninguém encontrou resposta para essa pergunta impossível, em que o próprio Deus se sentiu abandonado pelo próprio Deus. A quem, ou com quem, falava Jesus Cristo na Cruz? Quem O ouvia ou quem O não ouvia? Quem não O podia ouvir ou quem não O queria ouvir? E a nossa única fuga perante estas terríveis questões é a que consiste em responder que todas elas são vazias de sentido, pois que nada que se diga sobre Deus pode ter sentido. Como escreveu Simone Weil: "Caso de contraditórios verdadeiros. Deus existe, Deus não existe. Qual o problema? Tenho a absoluta certeza que Deus existe, no sentido em que te¬nho a absoluta certeza que o meu amor não é uma ilusão. Mas tenho a absoluta certeza que Deus não existe, no sentido em que tenho a absoluta certeza que nada de real se assemelha ao que posso conceber quando pronuncio esse nome. Só que o que não posso conceber não é uma ilusão."
E foi ainda Simone Weil quem sobre o mal ("o triunfo do demónio" como lhe chamou o Papa) escreveu o que ainda mais me faz deter: "Quando se ama Deus através do mal enquanto tal, ama-se verdadeiramente a Deus." Ou: "Amar Deus através do mal como tal. Amar Deus através do mal que se execra, execrando esse mal. Amar Deus como autor do mal que estamos a execrar."
Mas voltemos ao mistério de Deus com Deus. Não é dele ainda que nos fala S. Paulo (II, Cor, 12, 7-10) quando disse aos Coríntios que por três vezes pediu a Deus que dele se afastasse? Mas Deus lhe respondeu: "A minha Graça te basta. Porque o meu poder se manifesta na fraqueza" ("virtus in infirmitate perfícitur", como diz a Vulgata).
"Se Deus existe, odeio-O", diz uma personagem de Bergman quando a querem fazer aceitar, na morte do amado, a vontade de Deus. Será blasfémia? Quantos não terão dito, ou sentido o mesmo, no horror de Auschwítz? Mas foi nesse horror -aprendi-o há bem pouco tempo -que uma rapariga de vinte e sete anos, que mais procurou Auschwítz do que lhe fugiu, escreveu esta coisa enorme, tão enorme como as palavras do Papa: "Se Deus deixar de me ajudar, eu estarei aqui para ajudar Deus."

Publicado por josé 19:31:00 26 comentários Links para este post  



O Código Dos Vencidos

Embora seja uma obra de ficção, a expectativa é grande em redor do filme "Não pensei que estivesse a ser filmado, senão teria apertado a mão ao meu adversário", uma absorvente história auto-biográfica baseada no livro homónimo do mesmo autor do galardoado "A minha casa-de-banho foi mais cara que a tua e só tem inscrições de Kant nas paredes, assinadas por Jean Paul Gaultier".

Tó Manco encarna o professor Manuel Maria, um conceituado especialista de astrologia, que uma noite é chamado pelo ministério da informação para ir ao noticiário da RTP1 denunciar o poder opaco da comunicação social privada.

Enquanto o governo socrático investe as últimas toneladas de ouro na construção de um aeroporto na região oeste (onde se prevê construir a nova capital, cuja região metropolitana abarcará a ultra-periférica Lisboa), em nomeações de gestores públicos formados na Moderna e reformas milionárias a funcionários zelosos da república, o marido da famosa apresentadora de boletins meteorológicos consagra a sua vida a decifrar as pistas da Blue, sob o signo da verdade: gémeos.

Ainda abalado com a derrota do seu pai nas presidenciais, João enterra zangas antigas e acaba por associar-se a Manuel Maria. Juntos revelam um série de segredos escondidos que apontam para uma sociedade secreta de jornalistas débeis mentais, que romperam o contrato de vassalagem à linhagem aristocrática rosa, em vigor desde a revolução dos cravos.

Na caça ao polvo, entra também a Maçonaria, representada na obra como "a boa da fita". Muitas aventuras e reviravoltas esperam Manuel e João que, entre Lisboa, Carnaxide e Barcarena, vão descobrir muito mais do que poderiam esperar. E carpir.

O código é decifrado, mas será alguma vez a mentira inscrita na sociedade?

Publicado por Nino 12:15:00 1 comentários Links para este post  



José Saramago enjeita modelo educacional de esquerda

O escritor afirmou que actualmente se vive "uma situação confusa", em que se confunde a "instrução", ligada ao conhecimento, com a "educação", ligada aos valores. "Onde está a educação na escola em que os professores são agredidos, humilhados, desprezados", questionou, argumentando que os docentes "são os heróis do nosso tempo".

Público

Publicado por Nino 15:29:00 12 comentários Links para este post  



José Saramago adere ao liberalismo

O prémio Nobel da Literatura José Saramago questionou ontem a utilidade de o Estado dar "estímulos" à leitura (...) "O estímulo à leitura é uma coisa estranha, não deveria ter que haver outro estímulo além da necessidade de um instrumento que permita conhecer".

"Mal vão as coisas quando é preciso estimular", defendeu, contrapondo que "ninguém precisa de estímulos para se entusiasmar com o futebol".

Público

Publicado por Nino 15:27:00 1 comentários Links para este post  



Congressional Sale-A-Bration!


Cartoon by Mark Fiore

Publicado por contra-baixo 10:16:00 0 comentários Links para este post  



Era uma vez uma praga

O Bloco de Esquerda criticou hoje a "manipulação, inexactidão no tratamento" noticioso da "praga" de insectos originários do norte de África que invadiu anteontem a praia da Costa da Caparica.

Baseando-se no relatório da Direcção Geral de Saúde, a deputada Ana Drago afirmou que "não houve "praga", houve talvez picadas, mas o que aconteceu foi uma fuga de insectos de uma carga policial indiscriminada".

"De um grande grupo de 400 ou 500 mosquitos só 30 ou 40 praticaram ilícitos. Muitos deles que apareceram nas imagens televisivas e fotográficas a voar na praia naquele dia não eram perigosos, mas tão-só algumas fêmeas que atravessavam o areal em busca de uma refeição quente de sangue na cozinha de um restaurante à beira-mar, onde jaziam as carcaças de dois cães esfolados especialmente para o almoço”.

Os ataques não se limitaram à cobertura noticiosa do acontecimento. Ana Drago apontou ainda o dedo à "solução CDS", que propôs a pulverização com insecticida da região costeira, acusando aquele partido de ter relacionado doenças cutâneo-alérgicas e infestação de mosquitos. "Correr os insectos das praias à bastonada para que fiquem quietos nos lodaçais e pântanos dos seus locais de origem e não subam à Europa não resulta", sustentou.

A alternativa são "políticas de integração de todas as espécies de insectos”, e revalorização do seu papel na complexa sociedade portuguesa, onde uma minoria daqueles suga a segurança social, mas em compensação um número superior serve de alimento a construtores e empresários famintos e ajuda a controlar, casualmente mediante o confronto entre gangues, a proliferação de outros insectos mais devastadores”, rematou a deputada bloquista, enquanto distribuía panfletos aos passantes a favor da legalização extraordinária, e do reagrupamento familiar, das cigarras e do aumento da carga fiscal sobre as formigas, os insectos burgueses detentores do grande capital.

Publicado por Nino 14:24:00 11 comentários Links para este post  



Uma das passagens rituais por que passa o processo político de privatização de um serviço público é primeiro cuidar pelo decréscimo da qualidade do próprio serviço. Tal parece ser o que já está a acontecer com a empresa Metro do Porto. Começa a ser hábito ter de esperar cerca 10 minutos para fazer um percurso comum a três itinerários distintos, para além do triste espectáculo da imundice, como, por exemplo, serem já proeminentes as manchas no granito das paredes, como se por acaso uma multidão tivesse estado a mijar contra estas (quem não acredita dê um salto à estação da Trindade e observe o estado da plataforma que é utilizada por quem vai em sentido contrário ao do “Estádio do Dragão”) a seguir virá a insegurança nas estações e apeadeiros. Percebe-se que zelar apenas pelo que já está feito não seja tão apelativo como gerir empreitadas de milhões – o último troço será inaugurado este fim-de-semana e é pouco provável que o Sócrates venha anunciar a construção de novas linhas. Como para os gestores que administram a empresa só a envergadura de uma privatização poderá estar à altura da sua motivação e que fazer com que os horários se cumpram e que haja o mínimo de asseio do espaço público e de segurança é uma tarefa de mera manutenção e nada estimulante do ponto de vista intelectual, para quem estava habituado a lidar com dossiers que envolviam grandes quantias, façam-nos um favor! - Privatizem já a empresa. Desse modo poupam os utilizadores ao triste circo de ver a qualidade do serviço a degradar-se , apenas com o quase certo propósito de se arranjar um motivo para mais tarde, e sem grandes ondas, se justificar a sua privatização.

Publicado por contra-baixo 16:16:00 12 comentários Links para este post  



Afinal, havia outros

O que é um Historiador? Por mim, remeto a noção para quem saberá mais. Mas adianto pelo menos, um aspecto que me parece relevante: será alguém que conhece do passado, o mais possível. Se esse conhecimento não se revela suficiente e apenas sofrível ou menos que isso, historiador será- mas bem menor e sem importância, porque falece aí, logo, a credibilidade.
No Público, há um cronista que de vez em quando assume o papel de Historiador. Ontem, assinou uma crónica sobre “O que estava na gaveta”, que republicou e em que afirma singela e afoitamente que antes de 25.4.1974, nada havia nas gavetas que fosse recuperado depois, para além de “meia dúzia de poesias, só os textos clandestinos de autores comunistas, os contos "vermelhos" de Soeiro Pereira Gomes e a obra ficcional de Cunhal escrita na cadeia, o Até Amanhã Camaradas e o Cinco Dias, Cinco Noites
Hoje, no Aspirina B, com rara elegância, ( que não consigo imitar, confesso), mas não menos contundência objectiva, o crítico Fernando Venâncio vem lembrar ao historiador que o fim da história é outro. Havia também, O Milagre Segundo Salomé, de José Rodrigues Miguéis, pronto para publicação desde 1970, mas arrastando-se na editora por alguma (de resto justificadíssima) inoportunidade política. Apareceu no Verão de 1975, no auge da confusão, passando quase despercebido. Um segundo foi Directa, de Nuno Bragança, romance que chegou a adiantados planos de impressão em Paris, para ser depois contrabandeado para Portugal, por mala diplomática. A revolução veio para esse livro cedo de mais. Quando finalmente surgiu, em 1977, poucos já conseguiam interessar-se por mais uma história da clandestinidade, e menos eram ainda a dar-se conta de que esta era a melhor de todas. O terceiro livro saído da gaveta foi Espingardas e Música Clássica, de Alexandre Pinheiro Torres, esplêndido romance, só aparecido em 1987 mas escrito em 1962, quase contemporâneo dos factos a que se reporta. Seria vítima, ele também, da saturação que atingiu as histórias da resistência. Só o romance póstumo Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, de 1980, mas redigido nos anos 60, persistiu na memória dos leitores, possivelmente sensíveis aos excessos sexuais aí descritos, que sempre ajudam a salvar uma obra-prima exigente.

O caso é irrelevante? É. Se, de facto, o historiador tiver o pudor de nunca mais assinar um artigo como Historiador.
Como os assuntos historiados muitas vezes são historietas, como é o caso evidente sempre que a história recai em questões judiciárias, sugiro que assine, antes, como... Diletante.

Outro sítio, onde normalmente se reescrevem histórias, cascando nos representantes máximos e em instituições de certa religião de culto , é este think tank (MMLM dixit).
Tanto que o seu animador principal, prefere seguir os legionários do que a religião...afrontando a língua portuguesa com o neologismo "correlegionários" e dando uma roda geral de "ignorantes" a incertos! Notável.

Publicado por josé 14:05:00 12 comentários Links para este post  



Lá dentro

O preso Zé "Prisas" Amaral, conseguiu fazer um blog, aparentemente na prisão.
E com interesse. O título já é um programa: Memórias do Cárcere.
Em epígrafe escreve: "ninguém nasce com cadastro". Também acho. O caminho faz-se caminhando, Zé "prisas" Amaral!

Publicado por josé 23:31:00 22 comentários Links para este post  



on hold

Serve o presente para sossegar uma série de almas - volto a dedicar-me à literatura assim que tiver um novo computador portátil. O anterior foi roubado (do local onde se encontrava, o meu carro - que de permeio também foi violentado) na passada segunda-feira, à hora de almoço, no centro do Porto.

Publicado por Manuel 16:04:00 Links para este post  



Becados

Segundo o DN, para o novel presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, o juiz António Martins, o juiz [na sala de audiências] "deve estar sentado num plano destacado e isolado em relação aos outros intervenientes". Ou seja, com o representante do MP bem longe dele, "a um nível de igualdade" com os advogados. Mais. O presidente da ASJP defende também que o MP não deve entrar na sala de audiências pela porta usada pelo juiz. Aqui, mais uma vez, o MP deve estar em pé de igualdade com os advogados."

Ora bem…o presidente do sindicato dos Juízes, representando neste caso uma classe profissional, torna público o seu entendimento sobre o papel e função dos magistrados portugueses que pode de algum modo contender com o modelo constitucional que nos foi servido durante dezenas e dezenas de anos, incluindo os passados na noite “fassista”. Não explica qual a razão para o “apartheid” agora reivindicado, mas deve existir razão ponderosa e útil. Só que não se sabe e parece inconfessável.

De facto, nem há memória viva de a separação entre as magistraturas ter alguma vez atingido de modo tão fulminante a mente de alguém.

Se o problema é de índole material, partindo de uma noção radical acerca da função das duas magistraturas, o melhor é esclarecer desde já, para que se coloque em causa a natureza de magistratura do MP e se discuta abertamente a noção de paralelismo que foi consagrada no Estatuto do MP – artº 75º- que diz expressamente “ A magistratura do MP é paralela à magistratura judicial e dela independente”.

Partindo desse putativo fundamentalismo, poderá depois passar a discussão a ter como tópicos interessantes, o estatuto, assim reservado, dos juízes em Portugal. E a discussão, então, será deveras interessante, no que se refere às particularidades daí decorrentes e à coerência fundamentalista.

Seria então ocasião de se discutir o modelo constitucional e inquirir finalmente os constitucionalistas a propósito da noção exacta da composição do Tribunal e do estatuto dos seus intervenientes e respectivas funções, mormente de advogados, juízes, procuradores e funcionários. A discussão alargar-se-ia fatalmente à arquitectura dos tribunais; à divisão das salas; ao local reservado ao ministério Público nos Tribunais; ao espaço reservado aos advogados e finalmente, à própria natureza das funções. Fatalmente também, chegar-se-ia à conclusão de que a função judicial provém e é imanente a algo que comunga do divino. Logo, sagrado e indiscutível, o que tornaria despicienda qualquer discussão. O dogma não se discute, sob pena de heresia.

Se a discussão, como parece, se situa apenas ao nível folclórico e meramente ritualístico, não se compreende um esquecimento de vulto: as becas! É que são iguais! E colocar em planos de paralelas assimétricas, magistrados com becas iguais, é demais, como toda a gente compreende! E nunca se entenderia que alguém menos entendido pudesse confundir um becado qualquer que entra pela porta dos fundos, com um ungido que deveria entrar pelo portal da Justiça.

Estamos nisto…

Nota à margem: A imagem colocada, tirada do filme de Chaplin, o Grande Ditador, tem apenas a ver com a metáfora do penacho...e nada mais. Portanto, honni soit qui mal y pense. A ideia veio de um comentário avulso colocado algures, anonimamente, por alguém.


Aditamento ( 25.5.2006):

Em relação a esta matéria importantíssima que é o facto de saber por qual porta entra o juiz e o magistrado do MP e onde os mesmos tomam assento, para participar um audiências públicas, tomo a liberdade de chamar a atenção para um comentário assisado e de bom senso a toda a prova, transcrito no blog verbo jurídico, e escrito por Francisco Bruto da Costa.

Aliás, do blog Verbo Jurídico, retirei uma imagem que já de si própria, representa a ideia inovadora, posta em prática evidente.


Publicado por josé 15:22:00 11 comentários Links para este post  



coisa pouca

MADRID.- El Gobierno y los sindicatos CCOO, UGT y CSI-CSIF han alcanzado un preacuerdo global sobre el Estatuto del Empleado Público que contempla ligar la retribución al desempeño y acabar con la temporalidad de los empleados públicos.

Publicado por contra-baixo 17:45:00 13 comentários Links para este post  



All Clear!

O escândalo Clearstream, em França, continua a mostrar algumas lições que podem servir de reflexão para os nossos problemas de processo penal, particularmente quanto ao segredo de justiça e ao modo como os media lidam com o fenómeno.

Em 28 de Abril, o jornal Le Monde, publicava informação classificada em processo de Instrução e por isso mesmo, em "segredo de instrução".
Quem está abrangido por este segredo, em França?
Os intervenientes processuais directos, ou seja, os magistrados, os funcionários e os investigadores. Et ça suffit! os jornalistas não estão abrangidos, nem outras pessoas, mesmo que saibam o que se passou no processo, nomeadamente os queixosos.
Há em França, uma figura processual que por cá também existe, embora com recorte processual diverso: as partes civis. Estas, por lá, têm direito de acesso ao dossier de instrução e não estão abrangidas pela obrigação de segredo de justiça. Logo podem consultar os documentos , o que pode acontecer até por sugestão do próprio juiz de instrução que decida pô-las a par das suas investigações.
No caso Clearstream, há já várias partes civis constituídas como tal, por exemplo, Dominque Strauss Khan e Nicolas Sarkozy.
O jornal Le Monde, ao publicar integralmente as notas pessoais de um dos pivots da história , o antigo elemento dos serviços secretos, general Rondot, violou o segredo de instrução.
O que aconteceu a seguir?
O Ministério Público francês ( o Parquet de Paris ) abriu um Inquérito, contra incertos ( contra X), mas incriminando 18 publicações periódicas, para descobrir quem violou o segredo...
O que irá acontecer? Nada, presumivelmente.
Ao mesmo tempo que as partes civis podem aceder ao processo e consultar documentos e depoimentos, também o juiz de instrução, se o entender, pode ouvir as partes civis e dar-lhes a conhecer esses elementos. E as partes civis são livres de contar aos jornais o que se passa no processo...
É por isso que em França, a informação circula livremente, para contento de todos e ao mesmo tempo, o Ministério Público anda à caça de gambosinos...
A hipocrisia, por lá, é um pouco mais subtil do que por cá.

Publicado por josé 14:36:00 4 comentários Links para este post  



...te salutant!

O programa prometia: as presenças de Ricardo Costa e Pacheco Pereira de um lado e a de Carrilho e Rangel do outro, deixavam entrever grandes esperanças em que os gladiadores se defrontassem numa arena que conhecem para debater magnas questões: "Quem manda no jornalismo?", por exemplo. A apresentadora até disse que este tema "é vital para a democracia portuguesa" . Como é que correu?

Logo a começar, a troca de galhardetes entre Rangel e Ricardo Costa, com estocadas directas a este, passou pela referência concreta a “tu telefonaste; eu telefonei e mostro os registos de telemóvel se for preciso”; “tu até foste ao casamento de…”; até chegar ao ataque directo de Carrilho a Costa –“V. falou com o Marques Mendes…” e à defesa de Ricardo Costa: “falo, mas nessa noite não falei e até disponibilizo os registos de telemóvel”!
Foi assim, até à intervenção do Abrupto feito comentador de tv. A intervenção deste partiu o debate, ao partir para o tema do livro e a discussão sobre o livro e os seus aspectos teoricamente livrescos e livremente intelectualizados. Citou Santana Lopes para lhe relatar as queixas que serão idênticas às de Carrilho, afirmando a evidência que falta demonstrar e interpelado no concreto por Carrilho, com casos concretos, nem chega a entrar no tema.
Todos concordam num óbvio ululante: há mau jornalismo em Portugal! Mas quanto a individualizar, moita, carrasco. Carrilho gritou na cara de Costa que fez mau jornalismo. Alguém acha que este enfiou o barrete? Nã…

Carrilho cita então em directo, António Cunha Vaz. Para reafirmar a manipulação da imprensa pelas agências de comunicação.
O representante de A. Cunha Vaz, defendeu o responsável pela agência e citou uma frase de Salazar, para logo a seguir dizer que a empresa se apresentou ao serviço de Carrilho e logo a seguir, perante a recusa deste, foi oferecer o mesmo tipo de serviço a Carmona. Acha que é igual a uma agência de publicidade, na banca ou noutros serviços. Carrilho e Rangel acham que é mercenarismo…e Ricardo Costa lembra que a seguir a mesma empresa foi fazer a campanha de Mário Soares.
Carrilho volta a chamar mentiroso a Costa, dizendo-lhe que acaba de dizer mais uma mentira e este fica na mesma. E logo a seguir volta a chimpar-lhe mostrando-lhe que acaba de proferir declarações absurdas e Costa continua a ficar na mesma.
Foi assim a primeira parte do Prós & Prós, um dos únicos programas de debate público, na tv portuguesa de 2006!
O tema de hoje, era como se disse, “Quem manda no jornalismo? As agências de comunicação ou os jornalistas? E quem decide as eleições?”
Como se vê, publicidade completamente enganosa.
Já nem comento a segunda parte.

Publicado por josé 23:59:00 55 comentários Links para este post  



Ave Cesar! Morituri...



JPP, preparando eventual desaire logo à noite, nos Prós & Prós contra alguma coisa, na RTP, tenta caucionar-se com opiniões mais avalizadas e fala na selva onde se prepara para entrar…

Como exemplo paradigmático, pode sempre falar, mais uma vez, no caso do envelope 9.
E explicar como uma pergunta com resposta já conhecida há meses, foi por ele mesmo transformada numa arma de arremesso político, com efeito de borboleta, onde se anuncia já uma segunda vaga de perguntas: saber como é que o PGR “forneceu informações substantivas sobre o inquérito antes da sua conclusão”.

É de mestre. Melhor do que Marcelo nos bons velhos tempos em que os animais ainda falavam ...na arena mediática.

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Leituras elementares

Quem abre hoje o Google, depara com uma efígie estilizada, simbolizando personagem de romance policial: Sherlock Holmes, cujos métodos investigativos encontram quase uma metáfora no próprio Google: a procura de pistas conduz quase sempre a algo interessante e muitas vezes à verdade esclarecida.
O criador da personagem, o escritor Sir Arthur Conan Doyle, nasceu em 22.5.1859 e é para o sítio da sua biografia, que remete o Google de hoje.
De acordo com o próprio autor, uma das suas melhores aventuras, é a que em português do Brasil se intitulou Os Fidalgos de Reigate.
O texto da historieta é do domínio público e começa assim:

The Reigate Puzzle
It was some time before the health of my friend Mr. SherlockHolmes recovered from the strain caused by his immense exer-tions in the spring of '87. The whole question of the Netherland-Sumatra Company and of the colossal schemes of BaronMaupertuis are too recent in the minds of the public, and are toointimately concerned with politics and finance to be fitting sub-jects for this series of sketches. They led, however, in an indirectfashion to a singular and complex problem which gave my friendan opportunity of demonstrating the value of a fresh weaponamong the many with which he waged his lifelong battle againstcrime. On referring to my notes I see that it was upon the fourteenthof April that l received a telegram from Lyons which informedme that Holmes was lying ill in the Hotel Dulong. Withintwenty-four hours I was in his sick-room and was relieved to findthat there was nothing formidable in his symptoms. Even his ironconstitution, however, had broken down under the strain of aninvestigation which had extended over two months, during whichperiod he had never worked less than fifteen hours a day and hadmore than once, as he assured me ( continua).
Boa leitura

Publicado por josé 12:03:00 0 comentários Links para este post